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domingo, 23 de abril de 2023

O BUTIÁ DE ALELUIA

 

Butiá - palmeira e fruto - by Google
Aquela caminhonete era enorme. Grande mesmo, totalmente fora dos padrões daquela cidadezinha de porte médio lá pelos lados do interior de São Paulo. Parada no estacionamento do banco, ocupava o espaço de dois carros muito grandes.

Seu Oscar, o morador mais ilustre de uma cidade próxima, desceu fazendo pose. As botas, de couro de crocodilo, brilhavam em parceria com a grande fivela do cinto que segurava sua lustrosa calça jeans, e que diga-se, era mantida sempre muito bem passada a ferro e, claro, com um aparente vinco nas pernas. A camisa era quem sofria. Branca e em estilo social, quase se arrebentava na altura da saliente barriga. Na cabeça, um chapéu de boiadeiro, daqueles de rodeio, e decorado com alguns butiás secos, fruto de uma palmeira típica da região. Seu Oscar ostentava sempre aqueles frutinhos, e dizia a quem quisesse ouvir que sua fortuna era devida a eles.

Logo depois de Seu Oscar, apareceu dona Aleluia, sua esposa. Ela fazia o estilo esguio, alta, e com os cabelos desgrenhados. O vestido longo, florido de lilás e azul, marcava bem as ancas largas, deixando para as mãos um par de luvas importadas, e que ela gostava sempre de gabar a procedência: Paraguai. No rosto, a maquiagem não era pouca, e em momento algum pretendeu a discrição.

E para completar a família, os 3 filhos: Cajuino, Equinócio e Perestróica.

Já diante do gerente especial que cuidava de suas contas, seu Oscar ordenou:

―Fio, invista naquilo que melhor me render. To quereno fazer uma viagem pra Poconé, no Mato Grosso, e adespois esticar pra minha fazenda. Não quero percupação com meu dinhero.

―Poconé? ―perguntou o gerente, tentando ser simpático ao extremo com aquele que era um cliente tão rico.

―Oxe! Tá achano poco? Intão jogue mais uns 10 mião junto. Si o sinhor acha poco, é purque sabe do que tá falano. O sinhor é a otoridade aqui.

O gerente sorriu, e meio sem jeito, explicou que fazia referência a cidade para onde seu Oscar viajaria. Mas, obviamente, aproveitou e jogou mais aquela soma para o investimento. E como queria agradar ainda mais ao cliente, resolveu servir um café e esticar a conversa.

―Mas, me conte, seu Oscar! Como o senhor fez para amealhar toda essa fortuna? Existe alguma fórmula que o senhor possa ensinar?

―Seu moço, num amiaiei nada não! Não pranto mio (milho), nem do branco, nem do amarelo! Eu trabaiei é muito. Eu e Aleluia!

―Aleluia, seu Oscar! Aleluia!

―Que Aleluia? Purquê falou ansim?

―Ué? Eu falei aleluia no sentido de “graças a Deus”!

―É! Foi cum fé e trabaio! Eu e minha Aleluia!

―Aleluia!

―Di novo? Purquê o sinhor só repete o nome da minha mulher? Pur acaso acha que ela trabaiô mais du que eu? Aliás, Cajuino só largava o enxadão quando chegava Equinócio! Era duro!

―O que? Não entendi nada! O senhor plantava caju nos equinócios de outono e primavera? Mas caju nem dá por essas bandas!?!

―Tá dando uma de abestado cum eu, é? Que caju? Cajuino é fio meu, o mais véio. Adespois veio Equinócio, junto com a Perestróica.

―Ah! Tá! Entendi! Me desculpe! Mas então, o senhor já estava casado quando veio a abertura soviética?

―Quem é essa muié que o sinhor falou? Essa tar Soviética? E purque ela veio aberta? Tinha ispinhéla caída?

―Hã? Como assim? Não, não! É que foi na abertura soviética que veio a perestróika!

―Vo ti dá um amansa corno nos beiço, já já, si o sinhor não parar de ofender minha famia! Perestróica é minha fia, e veio de Aleluia. A partera num era essa tar de Soviética, e nem muito menos tinha ispinhéla caída. Me arrespeite, tarzinho!

Eles se olharam fixamente por alguns instantes, e seu Oscar reparou uma gota de suor escorrendo pela face do gerente. O rapaz parecia perdido, e quem sabe sequer tivesse sido a intenção dele ofender assim. Então, seu Oscar continuou no relato.

―Bão! O começo foi dificir! Eu era bóia fria, e conheci a muié da minha vida. Aleluia!

―Aleluia! ... ops... perdão, seu Oscar. É a força do hábito.

­―...tá. ...sei. Mas como eu arrelatava, conheci Aleluia! Ela morava numa área de terra muito ruim, coberta com esse tar de butiá, uma parmera que eu nunca tinha visto lá donde eu vim. No começo, quando casamo, eu cuidava da terra e era servente de pedrero, enquanto Aleluia colhia e vendia butiá. Logo adepois, veio uma estia grande, cum tudo seco pur tudo canto, e pur um acaso de Deus, nossa porpiedade foi a única que manteve um poco de água, mas como nóis num prantava muita coisa além daquelas parmera, e nem criava gado, passemo a usar a água pra moiar só as parmera. Ficou uma belezura, e a gente viu que só nóis fiquemo com essas parmera na região. Aleluia! Aleluia!

Seu Oscar calou, e como percebeu que o gerente não iria falar nada, retomou a palavra com certa irritação.

―Tá mangando di eu, é? Falei aleluia, em gardecimento, i o sinhor num vai arresponder não, seu abestado?

―Aleluia, aleluia! ―o gerente respondeu rapidamente, sem entender nada.

―Mior ansim! Mas, enfim, o tempo passou, e nossos butiá começaro a fazer o maior sucesso. Era os butiá de Aleluia, como o pessoar falava. Inventemo suco, doce, artezanato cas foia, pinga e inté licor. Era o Licor do Butiá da Aleluia.

―Mas que maravilha! Parece muito bom, seu Oscar!

―É muito mior du que o sinhor pode pensar! Num tem ser vivente lá no vale das Parmera, donde moramos, que já num tenha dado umas beiçada no butiá da minha mulher. Só o padre é que é um chato! Nunca bebeu o licor que sai do butiá dela.

―Como assim? Não entendi!

by Google
―É que o padre é meio chato. Ele acha o licor do butiá da minha mulher um poco grosso. Diz ele que tem chero forte. Mas o padre é danado. Não posso virar as costas que lá tá o padre cá vara na mão, esfregando no butiá da Aleluia, e pronto pra comer o butiá da minha mulher. É eu sair de perto e ele soca a vara no butiá dela, sem dó!

―Como é? Não to entendendo!

―Ele mete a vara no cacho. Pior é que ele judia do butiá dela cum isso. Mas o fato é que si temos o que temos hoje, devemos ao butiá da Aleluia. E que butiá gostoso. Butiá grandão! O senhor quer provar?

―Provar o que? Como assim?

Seu Oscar, repentinamente, levantou-se e procurou por sua esposa. Quando a enxergou, soltou um assobio, o que chamou a atenção de todos, e começou a falar alto, bradando pela esposa.

―Aleluia! Aleluia!

Sem entender nada, os outros clientes, em coro, responderam:

―Aleluia! Aleluia!

Seu Oscar olhou todo sorridente para o gerente do banco, e falou baixinho:

―Mas, óie, seu tarzinho. Viu como todos bradaram o nome de minha mulher? Todos eles já devem ter comido o butiá dela! Que orguio qui eu tenho!

Ainda sorridente, virou novamente para onde estava a esposa, e continuou falando alto.

―Aleluia, mande Cajuino ir até Equinócio, e traga a cesta. Hoje, todos os que estão aqui vão comer teu butiá, mulher. E o melhor, de graça. Eu to feliz, e todo aquele que quiser comer o butiá de Aleluia, pode fazer fila aqui. E guarde um butiá bem graúdo, que é pro seu tarzinho aqui poder se lambuzar no teu butiá, mulher.

―Seu Oscar, por favor! O senhor está passando dos limites!

―Ara, tarzinho! Se o sinhor num é chegado num butiá, minha fia tem umas vaquinha de leite. Já provou o leite da Perestróica?

―Mas isso já é o cúmulo! Que pouca vergonha! ―o gerente gritou, indignado. ―Eu não quero comer o butiá da sua mulher. Não quero comer o butiá de ninguém aqui, nem o butiá dos seus filhos e nem o seu! Se eu quiser comer butiá, como o meu, mesmo sendo difícil, mas mantenho o respeito! E também não quero saber do leite da perestróica da sua filha! Que pouca vergonha!

O gerente gritava e se agitava, até que percebeu que todos olhavam para ele de uma forma esquisita. Foi quando o filho de seu Oscar apareceu diante dele com uma enorme cesta, cheia dos frutos de que seu Oscar tanto falava.

―Ah! Então são esses os butiás de sua mulher? ―o gerente aquietou-se, completamente corado e percebendo que seu julgamento estava totalmente equivocado com relação àquela discussão.

―Mas é craro, soh! De quar butiá intão o sinhor acho qui eu tava me arreferindo?

―Nenhum, seu Oscar! Nenhum! E ainda bem que o senhor não planta caju, pois eu até imagino como seria complicado comer a castanha do Cajuino. Que confusão. Acho que me perdi nessa bagunça toda de nomes! Devo confessar que eu cheguei até a sentir que algo meu ficou apontando para um equinócio de primavera, mas foi por pouco tempo!

―O qui o sinhor tá arresmungando aí, seu tarzinho? Num to intendendo nadica!

Alho - by Google
―Bom, por sorte o seu nome não segue o padrão de complicação do restante de sua família.

O gerente, completamente corado, sentou-se. Mais calmo depois de alguns minutos, retirou alguns papéis da gaveta e começou a analisar, até que viu algo estranho.

―Seu Oscar! Me parece que houve um erro de digitação aqui nos documentos. Seu nome está incompleto. Está apenas como “Oscar A.”. Qual é seu nome completo, afinal, seu Oscar?

­―Ah, seu moço. Meu nome é uma belezura em homenagem ao melhor fruto da terra. É Oscar Alho. E falando nisso, dizem na minha terra que adespois de dar umas lambidas no butiá da minha mulher, a melhor coisa que tem é sapecar e comer um alho bem suculento. Dizem que o cheiro é uma dilícia!

―Eu mereço! Eu mereço! ­―o gerente suplicou, desanimado.



Marcio Rutes


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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

CÃO PANTANEIRO


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A tarde acabava de forma preguiçosa, com o sol se pondo lento a oeste. Adiante, uma imensidão de água, onde os raios solares refletiam naquele espelho fantástico e faziam com que tudo se tornasse mágico. Era um presente de Deus para aqueles que se arriscavam a desbravar aqueles confins do Pantanal Matogrossense.

Na casa, tudo estava quieto, mas eles, os seres humanos, logo chegariam para descansar. No local, somente a patroa corria de um lado para outro, afoita pela lida diária e o preparo do jantar. Mas era silenciosa e não incomodava. O cão ficava ali, apenas observando. Quando era mais novo, ia para o alagado e ajudava no manuseio da boiada, mas agora estava velho, e aproveitava as regalias que esta condição lhe dava. Assim ficava, deitado à porta e observando as águas mansas daquele imenso rio em que tanto nadou e brincou.

Alguns latidos se fizeram ouvir, e o cão sabia que a matilha estava se aproximando, trazendo com eles o patrão e os empregados. Entre eles, vinham os filhos do patrão, hoje peões trabalhadores e de muita estima, mas que ele viu crescer e cuidou com uma fidelidade que apenas os cachorros têm em relação ao ser humano. Mesmo de longe, ele já escutava, também, o trotar dos cavalos e a algazarra da “peonada”. Vinham felizes e bradando, quase cantando. Era como se mais um dia fosse vencido naquela dureza que se vivia naqueles confins.

Logo, chegavam e se dispersavam. Quem era da casa, ia se ajeitar para o jantar, e os demais, que eram empregados, partiam para os alojamentos. Lá, tinham o necessário para viver, e assim como o cão, aguardavam a vez para se alimentar. A demora era pouca, e alimento não faltava. Nesse meio tempo, o cão se afastava da casa e ia até as cocheiras. Por mais de uma década fez isso. Ia até lá e cuidava para que nenhum cavalo ou mula se afastasse, principalmente as bardosas, que insistiam em não aceitar muito bem o trato dos peões. Depois, lentamente, voltava para a porta da cozinha e esperava seu trato. Mancava um pouco de uma das patas traseiras, e isso irritava o patrão, que o achava inútil. Por vezes, o patrão pensou em sacrificá-lo, mas era contido por um sentimento de dívida. Aquele cão salvara seu filho mais velho quando um touro brabo disparou e tentou chifrá-lo. O cão, em sua fidelidade, atacou ferozmente e conteve o touro, mas sofreu as consequências e por muito pouco não perdeu a pata traseira ou até mesmo a vida. Nunca mais foi o mesmo.

Depois do jantar, a família da casa grande se reunia na sala e ligava o velho rádio. Era um rádio antigo, em forma de capela, onde o patrão buscava notícias sobre o que acontecia em regiões mais distantes. Mas havia algo que encantava o cão. Era uma coisa que chamavam de música, e tocava vez ou outra. O cão, quando escutava aquilo, colava o focinho ao chão e fechava os olhos, deixando-se hipnotizar. Sem saber, ele sentia saudades. Saudades de tempos passados, onde ele era forte, lépido e tinha serventia. Desde muito novo acostumou-se a ficar ali, ouvindo aquele rádio depois do jantar. Adorava aquilo e quase dormia quando isso acontecia.

Algum tempo depois, uma ferida grande apareceu na coxa esquerda do cão, exatamente onde o touro o acertara. Por mais que os filhos do patrão tentassem tratar, não tinha jeito. A ferida apurava e tomava o corpo do cachorro. Veterinário não existia por perto, e os remédios caseiros já não serviam mais. Então, o patrão decretou. Seria sacrificado.

A patroa chorou, e os peões, que testemunharam a bravura do animal contra o touro, se recusaram a fazer o determinado. Respeitavam o cão como se fosse um deles, e jamais matariam aquele animal. Os filhos do patrão imploraram ao pai que deixasse o animal tentar se curar sozinho, ou que o tempo se encarregasse daquele fatídico ato, mas ele estava irresoluto. Não arredava pé da decisão que tomara.

Frente a isso, como ninguém se propunha a sacrificar o animal, o patrão mesmo encarregou-se de tal coisa. Colocou o cachorro no carroção e foi para a mata, afastando-se de todos, pois ninguém queria presenciar a cena. Seria mais fácil dessa maneira.

Repousou o animal sob a sombra de uma árvore e engatilhou a espingarda, mirando o meio da cabeça, mas seus dedos tremeram na hora de puxar o gatilho. O cão olhava diretamente para seus olhos, e aquilo o fez parar. Não conseguiria fazer aquilo, e sentia culpa por não ter tratado dignamente daquele que colocou a própria vida em risco para salvar alguém, ou no caso, o próprio filho do patrão.

Porém, era preciso. O animal estava sofrendo, ele sabia disso. A dor da ferida devia ser insuportável, e não havia meio de fazê-la regredir. Apontou novamente a espingarda para a cabeça do cachorro e preparou-se para atirar. O cão, calmamente, levantou-se  de onde estava e veio se deitar mais próximo. Olhou para o patrão com serenidade e colou o focinho ao chão, como se o velho rádio estivesse ali, tocando aquelas músicas que tanto lhe traziam saudades. Fechou os olhos e, estranhamente, soltou um grunhido. Parecia aceitar o que aquele homem estava por fazer. Era como se soubesse que seu caminho acabava ali e que a morte era sua única opção. Naquele instante, o patrão pensou ter perdido a sanidade, pois jurou que uma lágrima escorrera dos olhos do animal. E o patrão chorou também.

Na fazenda, todos pararam o que faziam e esperaram. Pouco tempo depois, um tiro de espingarda ecoou pela mata, e foi acompanhado de um uivo esganiçado do cão. A passarada saiu em revoada, e aquele instante colocou lágrimas nos olhos de homens que jamais imaginaram que pudessem chorar. Estava feito.

Uma hora depois, o carroção apontou na porteira. Era o patrão voltando. Ele acenava para a patroa e para os filhos, e ao chegar mais próximo da casa, ordenou que trouxessem cobertores e água quente. Na carroça, no meio de um volume de capim verde, o cão estava estirado. Não estava morto, pelo contrário, estava bem vivo, mas com a pata traseira e a coxa completamente queimadas.

O patrão, sem conseguir sacrificar o animal, tentou um último recurso. Jogou pólvora sobre a ferida e, como não tinha como acender, atirou em uma pedra para provocar faísca. Pensava, dessa maneira, esterilizar ou limpar de vez a ferida, porém acabou deixando tudo em carne viva. O cão uivava de dor, mas não estava indócil. Os peões pegaram o cão e carregaram-no para o estábulo, fazendo o que estava ao alcance deles. Afrente, o filho mais velho do patrão comandava tudo, e mais atrás, vinha o patrão, deixando a mostra a camisa encoberta pelo sangue do cachorro.

rádio capela - by Google
Hoje, quem chega na fazenda é recebido pelos cães em uma algazarra tremenda. O velho cão não está mais lá, deitado na porta da cozinha, mas ainda está presente na memória de todos e em um retrato num canto da sala. Nesse retrato, ele aparece deitado aos pés do patrão, que depois de tudo, tratou dele por mais cinco anos. O cão perdeu a pata traseira e parte da coxa, mas valente como era, resistiu e ganhou ainda mais o respeito daquele homem rústico e que não gostava de demonstrar sentimentos.

Perto da porteira, uma árvore enorme faz sombra para um cercado pequeno de madeira. Lá, descansa o cão em seu último refúgio. Ao lado, um presente do patrão. O velho rádio capela, que tocava as músicas que o cão tanto gostava.



Marcio Rutes


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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

SERENATA PARA SASSÁ

 

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Enfim, tudo pronto. O violão estava afinado e a noite, por sorte, seria limpa e estrelada, com a mais bela lua seresteira. Bom, assim pensavam aqueles dois, pois diante dos problemas de visão que portavam, era difícil tanto afinar um instrumento musical quanto enxergar estrelas. Não eram portadores de cegueira total, mas as dificuldades para diferenciar cores e formas, em uma distância relativamente curta, eram enormes. Os amigos ajudaram muito, e eles, sempre confiantes, partiram para a primeira serenata de suas vidas.

Armandinho, o irmão mais velho, estava apaixonado. Conhecera Silvana, a Sassá, na fundação de assistência que frequentavam, e ela, moça espevitada e também portadora de problemas de visão, logo se enveredou pelo moço romântico e batalhador. A cidade pequena era cheia de armadilhas em suas calçadas. Buracos e obstáculos atrapalhavam muito, o que obrigava os dois a apoiarem-se um no outro em quase metade do caminho para suas casas. Conversas bobas e sensações de bem-estar apareciam por quase todo o percurso, fazendo com que a fundação de assistência se tornasse uma mera desculpa para que eles pudessem se encontrar todos os dias. Enamoraram-se.

Hugo, o irmão de Armandinho, era moço estudado. Mais novo, ele nunca se conformou com as restrições que a vida impunha. Certa feita, aos 15 anos de idade, armou sua trouxa de roupas e partiu para a cidade grande, para morar com os tios e estudar. Voltou formado em Letras, coisa que poucos naquela pequena cidade sabiam para que servia, e também ostentando um visual estranho, de cabelo colorido e roupa extravagante. No entanto, o que ninguém compreendia era aquele aro metálico que ele usava no nariz, parecendo uma argola que se coloca em focinhos de bois para amansá-los.

Os amigos e familiares, ao descobrir a paixão de Armandinho por Sassá, fizeram festa. Ele, muito querido por todos, estava em êxtase, e queria porque queria dar um presente para sua amada, mas precisava ser algo diferente, original, que impactasse o vilarejo inteiro. Hugo contou que na cidade grande existia uma tal “tele-mensagem”, que nada mais era do que um automóvel equipado com potentes caixas de som e luzes. O veículo parava diante da casa de alguém e um locutor recitava poesias ou, meramente, fazia alguma homenagem previamente escrita para a pessoa residente na casa.

Armandinho gostou da ideia, mas desiludiu, pois ali não existia tal coisa. Foi onde sua capacidade de improvisação entrou em ação. Juntou todos os amigos e, para cada um, deu uma tarefa. Alguns correram até a chácara de seu Ambrósio e pediram emprestado um Tobata, espécie de pequeno trator para espaços reduzidos ou manuseio de plantações de menor escala, enquanto outros deram jeito de arranjar uma carroça que se adaptasse ao mini-trator. Para Heitor, pai de Armandinho, ficou o encargo de procurar a estação da rádio local e conseguir algum tipo de equipamento de som para instalar na carroça. Por sorte, além do equipamento de som, ele conseguiu um eletricista, que montou o equipamento e o colocou para funcionar. A mãe, dona Jesuína, arranjou as roupas e fez o marketing e divulgação do evento, não deixando nenhuma amiga sem saber do ocorrido. Ela, em sua simplicidade, não reparou que a sagacidade de mãe zelosa tomava conta, e até para o padre Eustáquio ela acabou dando incumbência. Ele, na surdina, aproveitava os momentos em que estava com os fiéis no confessionário e espalhava a novidade.

O que ninguém notou é que aquilo que era para ser uma simples serenata, acabou tomando ares de evento intermunicipal, pois até seu Leocádio, prefeito da cidade vizinha e irmão de padre Eustáquio, entrou na dança e resolveu ajudar, patrocinando o evento que, para ele, poderia render alguns votos em sua pretensão a atingir cargos maiores na política estadual. Então, preparou alguns cartazes, juntou seus correligionários e confirmou presença.

Tudo caminhava as mil maravilhas. Padre Eustáquio se ofereceu para ficar por perto na hora da cantoria. Era o único que conhecia alguma coisa de música, e por certo poderia ajudar, caso algo precisasse ser improvisado. E lá foram todos, com os dois irmãos vestidos a caráter. Terno branco e chapéu Panamá, também branco, e tudo patrocinado por seu Leocádio.

Na rua, a satisfação de dona Jesuína era imensa. Olhando ao redor, ela jurou ver mais gente do que nas festas da quermesse da Igreja. Se soubesse contar, poderia dizer que o grupo passava, tranquilamente, dos 100 integrantes. E lá foram todos eles, em passeata, até a casa de Silvana, a amada Sassá de Armandinho.

Padre Eustáquio também estava orgulhoso. Conseguia, não se sabe como, impor ordem a toda aquela gente. Até haviam pensado em um grande alarde após a cantoria, com passos ensaiados de dança e tudo. Mas, existia um problema. Sassá era moradora nova, e não frequentava a igreja. Sequer seus pais ou familiares eram conhecidos. Onde era a casa dela?

―Olha, padre Eustáquio. Eu inté sei, mais num vô consigui guiá tudo esse povo inté lá! ―Armandinho comentou, se aprumando dentro da apertada e incômoda gravata. ―É du lado da casa nova que o prefeito construiu e que se mudou inda ontem. O sinhô sabe dadonde é?

―Aquelas duas casas iguais, lá na praça? Sei sim.

O padre confirmou e subiu na carroça. Com alguns berros, ordenou todos em marcha e, ao chegar bem próximo ao local, colocou sua estratégia em prática. Pediu a algumas beatas da igreja para ajudá-lo na organização do povo. Elas estavam incumbidas de observar os movimentos do padre e, na hora certa, aparecer de supetão e propiciar a maior algazarra. E até nisso seu Leocádio ajudou, dando a elas alguns uniformes que, obviamente, carregavam seu slogan político e seu nome.

Com tudo pronto e silencioso, Armandinho deu a deixa para Hugo começar a tocar o violão.

―Como assim? Eu não sei tocar esse negócio. Ninguém me falou que eu deveria tocar violão.

Padre Eustáquio pressentiu que tudo poderia desmoronar, e correu em socorro. Em menos de 5 minutos, ele já tinha encontrado um violeiro e o colocado junto aos irmãos. Ninguém menos do que seu Leocádio.

E também não demorou para passarem a seu Leocádio a programação da serenata. Iriam começar com a música que Sassá mais gostava, e que era um clássico da música sertaneja: ABRA A PORTA, MARIQUINHA. Armandinho, diante de seu pouco talento, faria a voz masculina, deixando para Hugo a voz feminina. E começaram.

Armandinho - Abre a porta Mariquinha
Hugo - Eu não abro não
Hugo - Você vem da pagodeira
Hugo - Vai curar sua canseira
Hugo - Bem longe do meu colchão
Armandinho - Abre a porta Mariquinha
Hugo - Eu não abro não
Hugo - Você vem da pagodeira
Hugo - Vai curar sua canseira
Hugo - Bem longe do meu colchão

Nada. Um silêncio aterrador. Sequer um pio de coruja ou latido de cachorro se escutava. Armandinho, que mal enxergava, perguntou para seu Leocádio o que estava acontecendo, e ele apenas deu de ombros, mostrando que também não estava entendendo patavina de nada. Partiram, então, para a segunda parte da música, toda cantada por Armandinho.

Armandinho
Oh! Mariquinha abre a porta e não reclama
Mostra que você me ama que eu não quero discussão
Você queria que seu bem fosse bocó
Pra te levar no forró
E depois ficar na mão

Assim que o último verso foi cantado, uma das janelas do segundo andar se abriu lentamente. Alguém, todo de branco, caminhou até a sacada e, segurando uma espingarda de dois canos, disparou para cima.

―O qui é qui ocêis quérem aqui, seus bosta? I qui negócio é esse di chamá minha muié Mariquinha pra módi abri a porta?

Ninguém entendeu nada. Até que o padre se deu conta do que estava acontecendo. E teve certeza quando, ao olhar para a outra casa, viu uma moça na sacada.

―Minha Nossa Senhora da Viola Quebrada! Essas duas casas são iguais, e esse tanço do Armandinho se enganou de casa! Essa aqui é a casa do prefeito! Meu Jesus me acode!

Lá em cima, o homem bufava e recarregava a espingarda. Até que parou e olhou bem para os três homens que estavam lá embaixo.

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―Mais eu num querdito! Intão é ocê, Leocádio? Seu bosta. Pensa qui num alembro qui ocê foi apaxonado pela minha Mariquinha antes di eu casá cum ela? I qui história é essa di vim aqui, cantá dizêno pra ela abrí a porta i ti levá pro colchão dela? Ah! Eu mato ocê, peste! I adispois, mato di novo, só pra ter certeza de que tá bem morrido, traste!

Seu Leocádio se desesperou e levantou. Nisso, padre Eustáquio também saiu de onde estava e ergueu os braços, querendo parar aquele homem tomado pela raiva e que estava na sacada, terminando de recarregar a espingarda. As beatas, mais distantes, acharam que era o sinal para começar a algazarra e, rapidamente, atiçaram o povo, que saiu da surdina e foi todo para frente da casa onde os outros estavam. Nas mãos, todos carregavam cartazes e faixas com o nome de seu Leocádio, e para piorar, ainda entoavam versos da música que Armandinho havia escolhido para a homenagem.

O furdunço foi geral. Não demorou e os dois prefeitos estavam frente a frente, se acusando. Ao ver todo aquele povo usando camisetas e portando faixas e cartazes com o nome de seu Leocádio, o outro prefeito considerou uma afronta tanto pessoal quanto política, e chamou seus correligionários. Seu Leocádio, vendo que iria apanhar e não tinha para onde correr, telefonou para sua cidade e chamou seus seguranças. A guerra estava formada.

Armandinho, perdido naquele tumulto, se amparou em alguém, e para não cair, segurou firmemente na pessoa. Não esperava, no entanto, que fosse justamente dona Mariquinha. Bem perto deles, Sassá e seus pais assistiam a tudo, e mais atrás, o marido de dona Mariquinha e seu Leocádio também pararam para admirar o que estava acontecendo perto deles. O que todos viam, condenou Armandinho a pagar por algo que ele sequer sabia que estava acontecendo. No desespero de segurar em algo para não cair, ele se apoiou justamente no peito de dona Mariquinha, mais precisamente no seio esquerdo.

―Abestado! Mato ocê, seu peste! ―o marido de dona Mariquinha berrou, empunhando a espingarda.

O tumulto generalizou, e só não piorou porque o padre, armado com a espingarda de alguém, deu dois tiros para cima e fez todos sossegarem. Foi o tempo suficiente para tirarem dali o pobre do Armandinho. Porém, Hugo havia desaparecido, e por mais que procurassem, não conseguiam encontrar. Só foram ter notícias dele alguns meses depois.

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Passados alguns anos, a animosidade que se instalou entre as duas cidades, isso por conta do pé-de-guerra que os dois prefeitos declararam na época, parecia acalmar. Seu Leocádio é, agora, aliado político de seu antigo rival, ou seja, justamente do marido de dona Mariquinha. Ambos estão na capital e tramam lançar como candidato para deputado federal o pobre do Armandinho, que depois de tudo, ganhou espaço na rádio local e nos jornais da região. Ficou famoso.

O irmão de Armandinho, que sumira, foi descoberto tempos depois, em uma cidade do litoral. Virara poeta hippie e ganhava a vida cantando versos para os turistas e vendendo artesanato que sua esposa confeccionava. Quem é a esposa? Sassá.

Padre Eustáquio foi quem mais penou com o ocorrido. Largou a batina e ficou pelas ruas, mas não demorou para se reerguer. Hoje, além de ser um dos banqueiros do jogo de bicho da cidade, ainda mantém uma linha de importação de bebidas. Ou melhor, compra bebida falsificada no Paraguai e distribuiu para toda a região. Com os lucros, sustenta a campanha política de Armandinho. Além disso, acabou casando e tendo filhos, e justamente com dona Mariquinha, que largou o prefeito e abriu, na época ainda, um sex shop na cidade.

E como dizem, entre mortos e feridos, todos se salvaram e vivem em paz.


Marcio Rutes


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sábado, 21 de janeiro de 2023

...MORREU LÁ, SENTADO E CHORANDO!


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Era sempre uma cena triste, passar naquela ladeira e olhar a velha oficina de marcenaria e carpintaria. Na janela pequena, aquela que dava para a rua, aparecia seu Almar, carpinteiro, marceneiro, artesão e pescador dos bons. Ele ficava por lá, sentado na velha cadeira de palha, que o amparou por anos a fio. Essa cadeira fez parte de sua vida. Ela viu nascerem gamelas, cuias, pilões, violas de cocho, rabecas, violões... pois é, hoje chamaríamos o seu Almar de luthier, mas ele, mesmo um mestre sem entender as letras, se considerava apenas um marceneiro, nada mais do que isso. E como ele era bom. Tratava a madeira com uma paixão ardente. Falava com ela. Entendia cada nota que ela emitia mesmo antes de virar um instrumento. 

Seu Almar nasceu pobre, filho de agricultores, lá no começo do século passado. Família grande, muitos irmãos e um pai que amava música. Cresceu e, onde era a propriedade do pai, um vilarejo grande se formou, tirando um pouco a magia do lugar. Desde cedo se enveredou pela carpintaria, mas a marcenaria era algo natural dentro dele. Ainda criança, aos doze anos de idade, fabricou as ferramentas que lhe faltavam para fazer pequenos artefatos de madeira. Eram utensílios domésticos para a mãe e objetos para auxiliar ao pai na lida da roça. Não viveu disso, não ganhou dinheiro, pois era da carpintaria que se sustentava, mas levou a marcenaria até o fim da vida como um linimento para a alma. 

Cada ferramenta que ele fabricava era uma extensão de seus dedos e mãos. Tratava melhor delas do que um pai trata a um filho. Era delas que ele tirava alegria, e ele retribuía a elas com imenso respeito e amor. As ferramentas, fosse da carpintaria ou da marcenaria, eram responsáveis por algo que muito orgulhava àquele homem: jamais deixara de cumprir algo que tratara, fosse um serviço ou qualquer outra coisa. Jurava sempre que levaria isso até o fim da vida. 

Das terras do pai, restou um pedaço de chão dobrado para ele, que logo foi tomado pelo vilarejo. Nunca teve posses, mas nem precisava de muito. Tinha sua carpintaria e, também, Mariquinha. 

Ah! Mariquinha. A Maria dos cachos negros, como era chamada quando ainda menina. Longos cabelos cacheados e um sorriso sempre tímido nos lábios. A lavoura judiou dela desde criança, e aos quinze anos, se viu sozinha no mundo. Os pais, lavradores, morreram de uma peste, sabe-se lá qual, pois sequer ela lembrava. Seu Alberto, pai de Almar e homem de alma boa, recolheu a moça. "Onde come um, comem dez, e ela não vai ficar no relento", disse ele, com um vozeirão de espantar até cavalo no pasto. Mas era esperto, e logo viu que não teria somente mais uma filha, mas, sim, uma nora. 

No entanto, seu Alberto sempre cuidou. A moça casou pura, sem que Almar sequer tivesse beijado a moça antes do casamento. Ao menos assim se crê até hoje. E dona Mariquinha, prendada, fez de seu Almar o homem mais feliz daquele mundo. Tiveram filhos, oito no total, todos muito bem criados e educados. Nunca faltou nada. Nenhum deles há de dizer que o suor de seu Almar deixou algo faltar, seja na mesa das refeições, seja no companheirismo de pai, seja na educação que tiveram. 

Mas o tempo não perdoa, voa. Cada um dos filhos, no seu devido momento, casou e foi para a cidade grande. Seu Almar sempre falava que enquanto tivesse dona Mariquinha e a carpintaria, viveria feliz, pois os filhos, mesmo com uma saudade danada de doída, esses ele criou para o mundo. Assim, envelheceu, e também Mariquinha, que mesmo com a pele amarrotada, era vista por seu Almar como “a seda que recobria um coração”. Não importava, para ele, a seda da pele, pois para essa, ele nunca ligou. Mas a seda dos sentimentos de um coração puro, que ele sempre enxergou na companheira, seria eterna. 

Então, após os filhos partirem para a vida própria, dona Mariquinha passou a acompanhar seu Almar até a oficina todos os dias. Ele sentava naquela cadeira, a que dava para a janela, e ela ficava diante dele, em outra cadeira. Lá, ela cantarolava e asseava as ferramentas, enquanto ele trabalhava lentamente, conforme as mãos comandavam. Foi assim por vinte anos. 

Os filhos vinham vez ou outra, e traziam os netos, mas nenhum se interessou em seguir os passos do avô. Até que um dia, em uma manhã ensolarada, dona Mariquinha não acordou. E seu Almar chorou pela primeira vez na vida. 

Os anos seguiram, poucos, até a morte de seu Almar. E dia após dia, ele foi para a carpintaria. Sentava na cadeira e trabalhava. Cantarolava as mesmas canções que dona Mariquinha cantava. E quer saber? Seu Almar conversava. Conversava muito. Conversava com dona Mariquinha. Loucura? Talvez. Para ele, no entanto, era a seda de um coração puro que vinha para descansar os olhos avermelhados pela saudade. 

Quem olhava de fora, se entristecia. Via seu Almar lá, sentado e naquela agonia. Na hora de ir para casa, ele terminava o asseio das ferramentas. Não descuidou delas. Arrumava cada uma no lugar e fechava tudo. Ao sair, esperava um pouco e dizia, em pensamento: “Logo estaremos juntos. Assim que Deus quiser, eu irei”. 

Em uma tarde de setembro, um cliente muito antigo passou pela oficina de seu Almar. Ele encomendara uma viola de cocho há mais de um ano, mas não tinha pressa. Era uma forma de manter aquele pobre homem ocupado, tendo o que fazer do tempo. E naquele dia, o instrumento estava pronto. 

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Ao entrar na oficina, o homem cumprimentou seu Almar, mas não obteve resposta. Ele estava ali, sentado naquele mesmo lugar e sorrindo, olhando para a cadeira em que dona Mariquinha sempre sentava. Ao lado, a viola prontinha. O homem ainda chamou novamente, mas logo viu que seu Almar não responderia. Havia uma paz imensa naquele lugar, e seu Almar, como dizem por aí, só esperou terminar seu compromisso, honesto que era, para depois ir encontrar a mulher amada. 

Seu Almar morreu lá, sentado e chorando! Chorando o amor à vida, aos filhos. Chorou e cantou seu amor pelo trabalho, pela profissão, pelas tão estimadas ferramentas. Mas morreu sorrindo, sabendo que dona Mariquinha só esperava ele terminar aquele serviço contratado para vir buscá-lo. Ela sabia, como todos, do orgulho que ele possuía em jamais ter enganado ninguém. E não seria ali, nem diante de tanta saudade, que ele deixaria de cumprir um trato. 

O marceneiro, o carpinteiro, o homem da alma musical não está mais lá, naquela janela. No entanto, muitos que passam por lá juram que escutam, ainda, a velha lixadeira fazendo barulho, uma mulher cantando e um homem amando intensamente a vida e a esposa.


Marcio Rutes




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terça-feira, 17 de janeiro de 2023

COM QUE ROUPA EU VOU?

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―Sua bênça, padim. 

O coro feminino soou ensaiado e automático. No arco da grande porta de madeira maciça e entalhada, três moças, de vestido branco e rodado, sorriam e esticavam as mãos, em sinal de respeito. 

O quarto era muito grande, perfeito para compôr um daqueles cenários retratados por Graciliano Ramos, ou algum outro autor, quando escreviam sobre a “casa grande” das fazendas do nosso agreste. Os móveis, proporcionais ao quarto e de madeira grossa e antiga, eram caros e dignos de um antiquário, e a situação tranquila em que aquele casal vivia não se refletia naquele momento, um tanto inusitado para àquela hora da manhã. O casal, dono do lugar, iria a um compromisso, e o atraso já era grande. 

―Deus qui abençôe ocêis, mininas. Agora, chispa daqui, qui eu i a madinha tamo si compondo. 

­―Arre, Natalino! —uma voz feminina ressoou, vinda do interior do cômodo. —Num seja ansim, um véio ranheta! As minina só qué pidí abênça, hómi! 

―Antuérpia, minha fia! —Natalino respondeu, demonstrando calma. —Sí tudo os nossos afiado vinhé pidí abênça, nóis só vai pru compromisso quando ele tivé acabado. I vê sí arruma logo arguma coisa pra vistí, qui já tá tarde. Afinar, cadê Cajuíno, esse fio da muléstia, qui mandei ele perpará a caminhonete, e inté agora ele não retornô? 

―Larga mão de tanta casmurrice cum nosso bisneto. O minino logo vórta! Agora, mi ajuda a iscoiê logo arguma coisa pra eu me arrumá! Num quero ir disarrumada. As minina do clube vão arrepará! 

―Mininas? —Natalino soltou uma sonora gargalhada. —Aquelas lá amassaram o pão prá Santa Ceia, muié! I adispois, vinheram pra cá co tar do Cabrar! I si apressa, sinão te largo aqui. 

―Pra ocêis, hómi, é fácir! Só trocá as peça di baxo, que as di cima é tudo iguar! 

―As peça di baxo? Percisava trocá? Bão... acho que o compromisso num é ansim, tão importante! Mas, Antuépia, num inrola! Faiz qui nem as muié da cidade grande, i vai cum pretim básico. Aquele ali tá bão!

A mulher olhou para o enorme guarda-roupa e, depois, novamente para o marido, fazendo cara de desentendimento. O marido, impaciente, foi até o móvel e pegou por conta a peça de vestuário, jogando-a nas mãos da esposa. 

―Mas, Natalino! Num posso ir cum esse! 

―Arre, muié? Amódiquê num pode? Tão fresquinho e charmoso! 

―Pruquê essa é minha mortalha! É especiar pru dia que eu se for! Num vai ficá de bom tom si eu aparecê lá no compromisso cum ela, seu abestado! Pódi inté ser pecado!

­―Num querdito! Intão, vai cum aquela carça branca, qui tá mais pra isquerda! 

­―A quar? Essa? 

―Não, muié...! Na otra isquerda. Eita, sua lésa! 

―Eu? Lésa? Ocê é que é um tanço! Isso num é carça, é a tua cirola (ceroula)! 

―Ah! Sei lá, muié! Ocê cumprica dimais! I otra coisa! Que qui é essas coisa isquisita aí nessa gaveta? 

―Seu lerdo das ideia! São minhas carcinha! 

Natalino pegou uma das peças e levantou, virou, olhou, e arrematou. 

­―Carcinha? Dá pra vistí a vaca mimosa e sobra espaço ainda. Isso é carçola, muié! Lona di circo! 

―Dá isso aqui! ―ela arrancou a peça de vestuário da mão do marido e jogou na gaveta, irritada e bufando. ―Num recramo das tua cuéca, pra saco rendido e estendido, que ocê usa, ou recramo? I ocê? Vai di terno i sandáia? Num vai por as butina? 

­―Qui nada! O zóio de pexe tá mi incomodando. Vô cás sandáia sim. I si arguém arrepará, eu... 

―Ocê num vai fazê é nada! I trata di carçá as butina, qui to ficando arretada! 

­―Eita, muié braba! Mais é mió num atentá! Da úrtima veiz, ela quase me corta no facão as minha parte baxa! Num sei pru quê num mi casei cá fia do Zé das Cabra! Era mais mansa! 

―Pruquê eu tinha dente i ela não! Foi pur isso, seu abestado! 

Repentinamente, a porta abriu e chamou a atenção de Natalino. 

―Abênça, padim. 

―Mais num querdito! —Natalino se assustou e se virou, armando uma expressão nada agradável. —Que ocê qué, seu peste? E chispe daqui, que a madinha tá desprivinida! Ninguém dá inducação presses muleque? 

―Dexa o Ariovardo, Natalino! É bão minino! 

―Dexo nada! Esse, cada veiz qui mi vê, se ispicha todo, mais é só pra tentá ganhá arguma coisa! Conheço bem quem me cerca! E si ele num tem o qui fazê, qui vá percura Cajuíno, aquele fio da muléstia! 

A mulher fingiu que não escutou o que o marido falara, e continuou revirando o guarda-roupa. Ela, nitidamente, perdia a paciência, até que notou um vestido lustroso e todo cheio de decorações brilhantes. Pegou-o e mostrou ao marido, que entre um deboche e outro, alfinetou a esposa. 

―Antuérpia, nem as quenga da Maria Gorda usa um despudoramento desses. Daonde ocê arranjô isso, muié? 

―Foi a Matirda, tua irmã, qui mi vendeu. Era o vistido dela í na domingueira do Padre Bastião. Num tá alembrado? 

Natalino mordeu os lábios e calou. Remoeu, remoeu, e até abriu a boca para retrucar, mas preferiu não provocar mais. E assim ficou, vendo a esposa derrubar para a cama todos os intermináveis cabides que estavam dentro daquele guarda-roupa. Uma hora depois, a mulher estava pronta. Ou quase. 

­―Muié de Deus! Que qui é isso? —Natalino comentou, assustado e arregalando os olhos. 

―Arre! Num tenho quase ropa ninhuma! Intão, improvisei! 

­―Vistido vremeio, cum chapéu redondo e essa raposa no pescoço? Ocê endoidô? 

―Raposa? Raposa nada... isso é chique. E chama istóla (estóla). 

―Tá um calor de dar invéja nu capeta, muié! Pra quê isso? 

―Pare de me avechá, Natalino! Ocê num intende o qui vai ni nóis, muié! Num tem um pingo di querência! 

Ela baixou a cabeça e, propositalmente, soltou alguns soluços. Natalino deu de ombros, como se soubesse que havia sido vencido, e concordou. Por mais que tentasse argumentar, de pouco adiantaria. Além disso, o atraso fazia com que ele, um homem orgulhoso de ser cumpridor de seus compromissos, ardesse em pressa. 

―Tá, tá! —Natalino concordou, baixando a cabeça e mordendo, novamente, os lábios. — Intão, vamo imbora, qui devem di tá só isperando nossa chegada pra dar início nas festividade do compromisso. 

―Nem pensar! Farta a borsa, os sapato e, craro, o principar! A maquilage! 

Natalino desceu para a sala principal e soltou o corpo para sentar em algum lugar. Por muito pouco, não erra a poltrona. Antuérpia, que o seguira até o andar de baixo, reclamando e maldizendo o marido, se voltou para as escadas e subiu, sem pressa nenhuma, como se fizesse mais birra a cada contestação que escutava. Nesse instante, o bisneto entrou pela porta principal e olhou para Natalino, esperando uma bronca pela demora, mas não escutou um pio que fosse. 

Ao olhar para a bisavó subindo as escadas, o rapaz entendeu o motivo de Natalino estar ali, largado naquela poltrona. Era sempre a mesma coisa. A cada vez que iam para um encontro social, era assim. Então, sentou-se ao lado do bisavô e, sem ter o que fazer, calou e esperou. 

Uma hora depois, Antuérpia apontava novamente pelas escadas, e ao chegar ao andar de baixo, deixou tanto Natalino quanto o bisneto de queixos caídos. O rapaz foi o primeiro a ter alguma reação. 

―Vó du céu! A sinhora tá mais parecida cum pinherinho di natar! 

―Cala a boca, Cajuíno! —Natalino retrucou, rispidamente. —Sinão, essa peste vai querê acrescê mais arguma coisa, i o compromisso num vai isperá nóis! Vamo logo! 

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Antuérpia deu dois passos e, do nada, o salto do sapato estalou e quebrou. Foi o suficiente para os outros dois se olharem desesperados. Sem que a mulher esperasse, os dois agarraram seus braços e a levantaram, carregando-a a contragosto para a caminhonete. No meio do caminho, a única coisa que ela fazia era reclamar. 

―Oceis são dois animar! I ainda mi fizeram borrar a maquilage qui tanto mi deu trabaio! 

―Ara, vó! Isso é maquilage? Pensei qui era minhas tinta da iscóla. I do jeito qui tá, inté parece aquelas muié lá do carnavar carióca qui passa na tv. A módiquê isso, vó? 

―As minina vão tudo num chiquê só! Só eu qui vô ansim, tudo disarrumada e distroçada no compromisso! 

Natalino, que dirigia apressado, rangia os dentes e reclamava acintosamente. 

―Nunca mais, Antuérpia! Nunca mais te aviso quando convidarem nóis prum velório!

 

 

Marcio Rutes




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