sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

RECONSTRUIR

Re-edição


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Segundo o dicionário,reconstruir indica ação, ato ou efeito de refazer.

Reconstruir, em sua acepção, pode demonstrar algo belo. A vontade e a força que vem do ser humano em montar algo novamente, a resiliência tão peculiar em alguns, a determinação para seguir adiante apesar dos percalços. Tantos são os fatores que podem influenciar no modo de agir das pessoas e fazê-las retomar algo, que muitas vezes mudamos nossos destinos até mesmo sem sentir. Em certos momentos, evoluímos, crescemos material e espiritualmente, mesmo apesar das intempéries. Já em outros, não encontramos força suficiente para tal, e permanecemos numa pasmaceira constante, ou pior, afundamos num estado de letargia crescente.

Reconstruir, no entanto, pode ascender de alguma ação desfavorável. Para reconstruir, é necessário que algo tenha ruído, sido desmontado ou destruído. Algo existia e, de repente, acabou. Em algumas situações, isso é feito de maneira planejada ou pensada, e resultará em algo melhor. Mas, e quando tudo acontece repentinamente? Catástrofes, de maior ou menor escala, acontecem todos os dias mundo afora. Furacões, terremotos e tantas outras ações da natureza interferem profundamente no mecanismo que move a existência do homem, mas não são as únicas causas que promovem “reconstruções”. A ganância, o egoísmo, a inveja, a violência, o desrespeito pelo próximo e tantas outras características negativas inerentes do caráter humano, também se delineiam nessa cadeia de ação que leva à prática de se precisar devolver a forma a algo que esfacelou.

Pessoas saem de suas casas e não voltam. São vítimas mortais de uma sociedade que se fecha em seu egoísmo. A violência corre solta, e quase nada se faz para contê-la. A palavra, arma maior da eloquência humana, virou apenas um artifício da retórica na boca daqueles que banalizam os poderes legais. E são tantas as violências!

Como se não bastasse a ânsia latente de muitos, que não se contém em seu ímpeto e saem disseminando a desordem e o escárnio, as mídias se aproveitam e pioram tudo, implantando ainda mais o conceito de anarquia na alma humana. E o que era um crime a ser julgado, condenado e castigado naturalmente pela justiça, vira um instrumento de lucro na horda comunicativa. Resumindo, para se ganhar mais, oprime-se mais. Como explicação barata, dizem que é "o povo assumindo seu direito à informação”. Pura balela. Quando a audiência cai, esse direito popular à informação é deixado de lado, quer seja pela mídia, quer seja pelo povo, que corre para saciar-se em outro entrevero, e melhor ainda se for de alguém famoso, ou de algum escândalo de grandes proporções, ou ainda de algo que se possa sair falando aos quatro ventos, onde são acrescidas palavras à esmo e sem nenhuma verdade. Tudo, então, cresce novamente, tomando dimensões gigantescas, até cair a audiência e tudo voltar lá do começo, em um “looping” eterno. Teoria do infinito, ou uma ânsia inescrupulosa de se falar e difamar o alheio?

Existe a violência do lar, silenciosa por vezes, mas nem por isso de menor impacto. Os vícios, a ira, o ciúme infundado, o descaso conjugal, a luxúria, enfim, vários são os motivos que podem destruir uma família, e que encheriam várias linhas. Não raro, fatalidades acontecem, como pais espancando ou matando filhos, ou filhos matando os pais. Mulheres ou homens que traem não apenas sexualmente, mas também àquela jura de confiança mútua que se estabeleceu naturalmente no início da união. Espancamento físico. Espancamento moral. Subserviência obrigatória ou, puramente, opressão física e moral. Escravidão. São muitas palavras duras, que chocam, mas que estão entrando na banalidade. E quer saber por que isso me assusta? Justamente por não nos “assustarmos” mais com tudo isso. Tudo já é tão “normal”, que dentro em breve sequer olharemos isso como uma situação de afronta, afinal, “é tão normal”...

Enfim, quando nos damos conta, precisamos RECONSTRUIR.

Quantas pessoas passam décadas ao lado de alguém, sendo oprimidas, massacradas em seu íntimo, e sequer se dão conta disso? São lesadas diretamente em seu caráter, ficam enfraquecidas, abstraídas da servidão mental pela qual estão passando, que qualquer reação parece incapaz de ser enxergada. Estão mergulhadas na situação, beirando o afogamento, mas não visualizam isso. Até que em algum momento, acabam por despertar para a realidade, e com isso dois problemas surgem de pronto. Enfrentar a situação (sair dela) e, consequentemente num problema atrelado ao primeiro, reconstruir a vida.

Fênix de Gelo - by Google
Dei voltas para chegar até aqui. Talvez eu próprio tenha caído na tal “retórica”, mas tentei traçar paralelos para mostrar que a violência doméstica não está assim, tão diferente de qualquer catástrofe natural que se vê no nosso dia-a-dia.

Esta crônica não termina aqui, ela está apenas começando. Novo capítulo virá, e o que terei a dizer pela frente, muitas pessoas já estão vivendo em suas próprias carnes de um jeito muito amargo. Alguns sequer conseguem se reerguer, pois não suportam enxergar a luz depois de sair da escuridão da caverna e retornam para dentro. Tal fato não é bom. Outros, em contrapartida, se refazem. Enfrentam as batalhas de peito aberto, mas as cicatrizes ficam. As cicatrizes doem e não são algo bom de se mostrar, porém, são formadas justamente para cauterizar e lembrar de algo que precisou ser refeito. Aprende-se, então, com o erro.

Fica a lição: até mesmo algo não belo como uma cicatriz é uma reconstrução.


Marcio JR


domingo, 25 de novembro de 2012

ANGÉLICA E ANGELINA - QUANDO OS ANJOS DIZEM AMÉM (fábula)


Angélica - image by Google
Angélica teve uma infância pobre e restrita. Poucos brinquedos, roupas rasgadas, trabalho árduo e pesado para seus braços frágeis, mas com muito amor dado por seus pais. E assim ela cresceu, sempre esperançosa. Transformou-se em moça formosa, e mesmo com aquela infância sofrida, o mais belo sorriso sempre transbordou em seus lábios.

Nos cabelos de Angélica, uma flor fazia constante presença, branca e perfumada, e o amor não demorou para desabrochar em seu coração. Um jovem, também muito humilde, desposou-a, e juntos, construíram um lar e uma família.

O marido, rapaz honesto e muito trabalhador, preparou um roçado enorme na propriedade em que residiam, enquanto Angélica se ocupou da casa e do jardim, que de tão bem cuidado, era admirado por todos os moradores da pequena cidade.  O sonho do jovem rapaz era ver a esposa grávida, mas Angélica, por uma fatalidade do destino, não poderia gerar o filho tão desejado pelo marido.

Angélica entristeceu, e mesmo com todo o amor que ela tinha no coração, o jardim sentiu sua agonia. As plantas começaram a secar, uma a uma, e as poucas flores que ainda despontavam no alvorecer já não lhe davam mais alegria. Até que numa manhã cinzenta, recoberta de garoa, ela foi até o meio do jardim e sentou entre algumas flores brancas e de perfume marcante. Seu coração estava apertado, e ali ela jurou que teria aquele filho que o marido tanto queria, nem que tal ato fosse a última coisa que ela fizesse. Neste momento, uma dor muito forte tomou sua cabeça, fazendo-a desmaiar instantaneamente. Quando acordou, já estava em sua cama, com o marido ao lado, olhando-a.

Os dias passaram e ela logo reparou algo estranho em seu corpo. Enjôos e uma vontade absurda de correr pelos campos a tomava a todo instante. Inexplicavelmente, ela estava feliz novamente, e não demorou para saber o motivo: estava esperando um filho, mais exatamente uma menina. Assim, Angélica retomou seu sorriso e a lida no jardim, e quando a filha nasceu, deram a ela o nome de Angelina.

No entanto, a felicidade do marido se transformou em tristeza rapidamente. Angélica, pouco tempo depois de trazer ao mundo a filha, adoeceu e morreu, deixando uma nuvem negra naquela casa. Angelina cresceu vendo o pai amargurado e piorando a cada dia. No jardim, nada mais se via além de ervas daninhas, e o roçado, provento da família, secou em pouco tempo.

Angelina, mesmo tendo todos os motivos para se amargurar, mostrava felicidade, e em todos os fins de tarde, corria para o antigo jardim que a mãe mantivera com tanto carinho. De lá, ela sempre voltava com um sorriso no rosto, e quando o pai perguntava a razão daquilo, ela dizia que estivera com a mãe. Ela era, ainda, muito criança, e o pai tentava se convencer de que aquilo era unicamente uma forma dela se defender da tristeza que a rodeava.

Numa tarde ensolarada, o pai viu a filha correr para o antigo jardim, e não demorou muito para ouvir a risada da menina, como se brincasse e se divertisse com alguém. Ele, curioso, foi até o jardim para observar a filha, e quando chegou perto de onde ela estava, viu-a sentada no chão, ao lado de um pequeno pé de flor branca e perfumada. Era o único arbusto florido que ainda restava naquilo que fora um jardim cheio de vida. O pai assustou-se ao ver que a menina parecia conversar com alguém, pois não havia mais ninguém além deles naquele lugar.

Preocupado com a filha, o pai foi até ela e sentou-se a seu lado, chamando-a e perguntando com quem ela falava. A menina, calmamente, apontou a flor e disse que a mãe estava ali, rindo para ela.

―Minha filha, aqui não há ninguém além de nós dois. É apenas a sua vontade de ter sua mãe. Eu também morro de saudades dela.

―Papai. A mamãe pediu para você fechar os olhos.

―Filhinha. Ela não está aqui. Tente entender...

A menina olhou ternamente para o pai, deixando-o comovido. Ele, sem ter muito a fazer, fechou os olhos e sentiu uma sensação estranha. Um leve perfume invadiu seu corpo, e a imagem da esposa logo se fez diante dele. Ao abrir os olhos, ele se viu num campo completamente florido e perfumado. Ao lado dele, a filha estava em pé, sorrindo, e atrás dela, também em pé, Angélica a amparava pelos ombros e esboçava o mais belo sorriso, exatamente como ela fazia em seus tempos de juventude. Junto a eles, vários insetos esquisitos, parecendo duendes com asas, se espalhavam por todos os lugares e cuidavam do jardim.

Tulipa - image by Google
O pai ficou sem entender e se pôs em pé, chegando bem próximo daquela que parecia ser Angélica. Quando estava para beijá-la, tudo sumiu repentinamente e somente a filha permaneceu diante dele. Ele balançou a cabeça e pensou ser tudo um sonho, mas assustou-se novamente ao ver que várias flores brancas apareciam junto aos seus pés. Em poucos instantes, todo aquele antigo jardim se transformou no mais belo e branco campo de flores. Um sorriso estalou em seus lábios, e por mais que chorasse, sabia agora que Angélica sempre esteve ali, e que jamais abandou a ele ou à filha.

Alguns meses depois, naquela propriedade que secara com a partida de Angélica, foi construído um grande campo de plantação de flores. Com o tempo, Angelina e o pai passaram a retirar seu sustento da colheita e venda das mais variadas espécies que brotam pela grande e fértil propriedade em que residem. No entanto,  é no pequeno jardim onde Angélica cultivava suas tão adoradas flores brancas que os dois passam a maior parte do tempo. Lá uma flor branca e extremamente perfumada domina o ambiente. O nome desta flor? ANGÉLICA.


MarcioJR


sábado, 17 de novembro de 2012

O PERFUME QUE FICOU EM MIM

filme PERFUME DE MULHER - by YouTube

O ar da manhã, sempre perfumado daquele cheiro de flor acordando, me encanta os sentidos. Durante muito tempo, foi este o perfume que carreguei comigo. Até acredito que era o único perfume de que precisava em mim.

O tempo, com seu perfume amadeirado, caminhou comigo e contagiou minha pele. A impetuosidade da juventude, que acomete nos verdes anos com seu odor mais ácido, porém um tanto volúvel, ficou para trás. E o que era pressa se transformou na mais pura vontade de aproveitar o odor de cada dia, de cada instante.

Aprendi que cada coisa, cada acontecimento, cada momento (seja ele feliz ou não) tem uma identidade bem marcada. É como se uma memória olfativa me dominasse e me impusesse fragmentos perfumados daquilo que vivi e absorvi por essa já longa estrada. Seletivo que sou, o que me fica são os bons momentos, pois, e por sorte, os cheiros desagradáveis dos momentos ruins, esses se confundem e amenizam com o tempo. Não serão esquecidos, por certo, mas serão sobrepostos por odores que possuem elementos capazes de eternizar sentimentos bons na alma.

Estranhamente, e como a memória não é capaz de sintetizar odores, associo aromas e cheiros a imagens. Dia desses embarquei numa nostalgia tremenda, relembrando instantes de pura magia. Um filme brotou em meus pensamentos, e nele, um casal dançava tango. Al Pacino e Gabrielle Anwar protagonizaram uma das mais belas cenas a que pude assistir, e foi então que me dei conta de que não existia, ainda, um perfume a que eu pudesse associar tal momento.

Celêdian Assis
Revirei toda minha bagagem de memória, andei pelo jardim de casa, busquei no mais remoto daquilo que conheço, e somente um perfume me ocorreu para ancorar nesta tão bela recordação: o perfume do carinho, do afeto, da simplicidade, e da magia que vem de ti, Celêdian Assis.

Hoje é teu aniversário, minha querida amiga. É pena que a única coisa que posso te dar é o meu abraço imaginário e todo o carinho que consigo te enviar daqui, em palavras. Mas, saiba que você é uma das pessoas que mais admiro e respeito. O fato de poder tê-la como amiga já é, por si só, um dos maiores presentes que a vida me deu.

O perfume que ficou em mim? É o mais puro aroma de nossa bela amizade, Celêdian.

Feliz aniversário, minha preciosa e estimada amiga.


Marcio JR

sábado, 3 de novembro de 2012

MATILDE

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Ana caminhava lentamente pelo estreito corredor e, ao passar ao lado da sala, ouviu vozes masculinas. Como ela jamais conseguira conter seu ímpeto alcoviteiro (se é que alguma vez tentou!), colou a pequena e sagaz orelha à porta, e aproveitou. Do cômodo, reparou as vozes de Edú, seu irmão mais velho, e Nilo, o marido de sua melhor amiga.

—Ela é um espetáculo, meu amigo. —Nilo comentava, empolgado.

—E como ela é? —o outro questionava, mostrando interesse.

—Quando ela anda, não tem quem não repare. Quadris largos, com um rebolado bem marcado. A traseira é empinada. Puro mignon. Ela é minha e ninguém tira. Fiquei babando pela Matilde

Ana estarreceu. Sua melhor amiga estava sendo traída? Um turbilhão de pensamentos passou por sua cabeça, mas a vontade de colocar aquela bomba no Facebook e levar a fofoca adiante foi maior do que tudo. No entanto, era sua melhor amiga, e por certo deveria ser ela a primeira a saber. Depois, é claro, repartiria a informação com algumas poucas pessoas nas redes sociais. Então, em menos de cinco minutos, Ana estava em sua caminhonete e rumando apressadamente para a fazenda onde a amiga residia.

—Dedéia, minha amiga. É isso mesmo. Eu “vi” tudo, com essas orelhas que terra nenhuma há de comer. Afinal, não paguei uma fortuna em cirurgia plástica pra terra estragar tudo depois.

—Ana, que inferno! Eu não posso acreditar nisso! —Dedéia bufava, atônita. —O que mais ele falou, amiga? Diz, sem dó nem dor no “célebro”.

—Ah! Sei lá! Disse que ela é loira, alta e rica. Que conheceu ela numa boate, e que ela é praticante de dança do ventre. Disse que tá apaixonado. E também que a bunda dela é grande.

—O que? —um berro esganiçado e carregado de raiva brotou da boca de Dedéia. Ela rodou nos calcanhares e começou a jogar tudo o que alcançava ao chão. —Loira? Rica? Faz aqueles “trem” esquisitos com a barriga? E ainda de bunda grande? Ah! Ele me paga. Me paga bem caro. O que eu faço, amiga? Me diz logo! O que eu faço com esse canalha?

—Se eu fosse você, destruía o que ele mais gosta. —Ana comentou em tom sarcástico, e, logo em seguida, sorriu como se estivesse plenamente satisfeita por incitar a amiga a fazer alguma maldade.

Dedéia ouviu aquilo e desapareceu pelas escadas que levavam ao segundo andar da casa. Ana, sem entender, foi atrás. Em instantes, localizou a amiga num dos quartos, mas estaqueou, ficando boquiaberta com o que viu. Dedéia, armada com um taco de golfe, espancava violentamente um pato de borracha.

—Mas, o que você está fazendo?

—Ué! Fazendo o que você mandou. Estou destruindo o que ele mais gosta! Ele adora esse patinho de borracha. Quando vai pra banheira, só toma banho com esse patinho dentro da água.

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—Pelos deuses do “Olímpo Egípcio”! Sua tonta! E desde quando espancar um pato de borracha vai atingir o safado do teu marido? Tem que fazer algo mais impactante. Se bem que esse patinho é bonitinho! —Ana pegou o pato de borracha e perdeu alguns segundos, admirando-o e virando-o, até que reparou algo na parte de baixo do brinquedo. —E por que tem esse buraco desse tamanho na parte de trás do pato? Cabem meus dois polegares juntos aqui nesse buraco!

—Não seja indiscreta, amiga! Mas, você tá certa! Vou dar cabo disso agora mesmo. Ele brincou com fogo, então, vou contra-atacar com fogo também.

Dedéia agarrou o pato de borracha e desapareceu novamente. Ana, desanimada, sentou e esperou, pois sabia que a amiga pouco faria. Então, sem pressa, abriu o guarda-roupas e passou a admirar os vestidos de festa de Dedéia. E assim, o tempo passou. Meia hora depois, Ana sentiu um cheiro forte de fumaça, e correu até a janela. De lá, pode observar uma nuvem preta subindo aos céus. Aos tropeços, correu pelas escadas, e só parou quando chegou ao lado da amiga, que mantinha um olhar extremamente sórdido.

—Sua louca! —Ana gritou, pasmada. —O que você fez?

—Ué! Dei cabo das duas coisas que o pilantra mais gosta. O pato de borracha e a caminhonete dele.

—Essa é a minha caminhonete, sua estúpida!

—É? Vocês têm caminhonetes iguais? Nem me dei conta disso!

Sem que elas percebessem, as labaredas atingiram a casa, e em pouco tempo, tudo veio ao chão. Algumas horas depois, já com os bombeiros controlando tudo, Nilo chegou ao local, completamente desesperado.

—Homem é tudo igual. Vocês insistem na mentira até quando as provas são incontestáveis! Eu escutei você falar até o nome dela, seu safado! —Ana esbravejava, ainda querendo incitar a amiga a ficar com raiva do marido. —E você falou em alto e bom tom! Matilde!

—Espera! Espera um pouco! —Dedéia parou o que fazia e sentou a um canto, nitidamente desconcertada. —Matilde era minha vaquinha que morreu, e você tinha prometido comprar outra. Você não estava falando da... minha vaquinha, estava?

Nilo apenas balançou positivamente a cabeça, o que foi suficiente para que Dedéia quase entrasse em um colapso nervoso. Ana tentou acolhe-lha, mas acabou enxotada pela amiga. Um pouco mais distante, Nilo olhava para os restos de sua casa, e levou um susto enorme ao ouvir seu próprio telefone celular tocando. Saiu para o lado e atendeu, mostrando nervosismo.

—A situação tá feia. Tudo queimado. Minhas duas caminhonetes, caminhão, trator, minha casa, meus pertences. Meu patinho amado. Tudo. E o pior é que ainda vou ter que comprar uma droga de uma vaca pra sustentar a história que, por pura sorte, me livrou de um divórcio. Ainda bem que a porcaria da vaca tinha o mesmo nome que você. E por favor, Matilde. Não me liga mais no meu celular, meu amor. Senão, ainda arranjo encrenca por tua causa.



MarcioJR

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

NASCE DORINHA, A MENINA QUE ADORA SONHAR

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O velho Juba estava ansioso. Andava de lá para cá, deitava, levantava, arranhava a porta, mas nada acontecia. Ele sabia que algo estava acontecendo naquele quarto, mas estava demorando demais para que aquela porta se abrisse. Seus instintos caninos não costumavam errar e, repentinamente, alguns gritos quebraram o silêncio que imperava na casa grande.

A porta do quarto foi aberta e algumas mulheres passaram por ela, desesperadas e correndo. Uma delas, uma senhora de idade já avançada, mostrava o rosto todo molhado por lágrimas e foi para o corredor, enquanto outras duas ganharam a direção da porta de saída da casa e desapareceram sabe-se lá para onde. O velho Juba assustou-se, e por muito pouco não foi pisado por aquelas pessoas apressadas. No entanto, seus instintos fizeram com que ele voltasse a atenção para o interior do quarto. Lá, prostrada na cama, estava outra mulher, completamente encharcada de suor e pranto. Nos braços dela, uma criança recém-nascida.

O cachorro colocou o focinho quarto adentro e caminhou lentamente. Parou somente perto do leito e, sem saber o que acontecia, deitou-se ali, como se iniciasse a guarda daquela mulher que ficara sozinha. Mas não demorou muito e várias pessoas entraram novamente naquele recinto, deixando tudo ainda mais tumultuado.

Ninguém se entendia, e a desordem crescia cada vez mais. Todos olhavam para a criança e balançavam a cabeça negativamente, até que outro homem, um tanto mal educado e que o cachorro não conhecia, entrou no quarto. Ele olhou, olhou, olhou e sentenciou: “nasceu morta”. Nesse instante, o que já era desespero acabou se tornando martírio e agonia para todos.

O velho Juba latiu, como se pressentisse o ocorrido e lamentasse em conjunto com os demais, mas foi contido a chutes por aquele último homem que entrara no quarto. Segundo ele, “ali não era lugar para um pulguento dormir”. O cão baixou a cabeça e saiu, entristecido, mas ficou por perto, vendo cada uma das pessoas deixar aquele ambiente também. Pouco tempo foi necessário para que ficassem apenas a mãe e a criança naquele quarto, o que fez com que o animal se aventurasse novamente e retornasse até ao lado da cama. E lá ele ficou, num misto de tristeza e desesperança, olhando para a mulher.

A mãe mal tinha forças para chorar, e o que fazia agora era apenas gemer. Porém, ela silenciou repentinamente, assim como todo e qualquer outro barulho que se fazia ouvir na casa. Tudo ficou estranhamente silencioso. O cachorro apontou as orelhas e, rapidamente, pulou e se colocou em estado de alerta. Farejou e olhou de soslaio para os cantos, mas não viu nada. Seus dentes apareceram e foram acompanhados de um rosnado, assim como seus pelos se ouriçaram tal qual um porco espinho. Tinha mais alguém ali, e alguém desconhecido.

Um latido miúdo, de cachorro novo, veio da sala, e logo em seguida o filhote do velho Juba entrou no quarto. No entanto, não era ele o motivo dos temores do velho cão, que continuava em estado de alerta. O cachorrinho, que parecia não ligar muito para as preocupações do pai, passou por ele como se nada estivesse acontecendo. Parou apenas ao lado da cama e iniciou uma série de latidos agudos, que mais pareciam uivos. O cachorro mais velho olhou para a cama e se ouriçou ainda mais, sentindo uma presença forte naquele lugar. Mas não enxergava nada. Apenas sentia algo.

O cachorrinho começou a rodar em seu próprio eixo, como se corresse atrás do próprio rabo. Brincava e pulava, latindo descabidamente. Ao contrário do velho cão, o filhote estava feliz. Parecia ver algo que o outro não enxergava. Até que, sem mais nem menos, o filhote parou o que fazia e arregalou os olhos, mirando diretamente a cama onde a mãe recolhia seu bebê nos braços. E os olhos do cachorro espelharam algo surpreendente. Uma luz intensa apareceu e cobriu tudo, sumindo rapidamente para dentro daquela criança e, também, para dentro do próprio filhote. Nesse momento, tudo pareceu congelar, e somente o  velho cão conseguia se mover ou sentir algo, mesmo sem ver o que acontecia. Ele uivou ferozmente e, em seguida, correu até a cama, mas ao chegar ao lado dela, parou o que fazia e olhou ternamente para a criança. Ela estava sorrindo docemente, como se acordasse naquele mesmo instante de um sono profundo e de um sonho bom.

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Ali, naquele instante, nascia Dora, a Dorinha, a menina que mesmo antes de nascer, já passeava pelo mundo dos sonhos. E foi justamente por adorar esse mundo mágico, que ela se atrasou até para nascer. Foi necessário que um anjo a buscasse e a trouxesse para a terra da realidade, ou então, ela já teria ficado por lá mesmo. Como se não bastasse o atraso da menina, o anjo se descuidou e deixou seu pó de estrelas derramar sobre a menina e, também, sobre o cãozinho, mas isto é outra história.

O velho Juba não demorou muito para partir, e seu filhote, que ganhou o nome de Jujuba, cresceu junto com Dorinha. A menina, que nasceu sorrindo, aprontou e brincou muito, e junto com ela, vários outros personagens apareceram, seja neste mundo ou no mundo mágico. Somente ela e seu pequeno companheiro sabem como chegar até este mundo, mas com certeza, histórias sobre ele não irão faltar.




Marcio JR

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

PÓ DE ESTRELAS (Fábula)


Mundo mágico - by Google
Poucos entendiam, ou quem sabe ninguém compreendesse direito, as lágrimas daquela moça. Por vezes ela chorava sem motivos, assim do nada. Em alguns momentos, os mais alegres, os olhos dela simplesmente vertiam pequenas gotas, mas não eram lágrimas normais, e sim brilhantes, como se partículas de ouro fizessem parte da composição daquele asseio dos olhos. Sequer ela, que passou a ser conhecida como “menina dos olhos dourados”, tinha ideia de como aquilo acontecia.

Tudo começou em uma noite de inverno, muito fria e chuvosa. Ela ainda era uma menina de seus 15 anos de idade, muito bonita e traquina, mas que passava por alguns tempos de tristeza. Mesmo rodeada de pessoas, sentia-se estranhamente sozinha, e era no recolhimento da noite que ela se entregava aos seus reais sentimentos. Deixava a cortina da janela aberta e assim adormecia, olhando a madrugada e as estrelas, sonhando um dia poder navegar pelo infinito daquele céu majestoso.

Durante o sono, certa vez, ela libertou todos os seus desejos e, sem querer, conseguiu a chave para penetrar um mundo mágico, muito além daquele que está na compreensão humana. Sua pureza de espírito a levou até lá. Neste mundo, tudo era como se imaginava ou se queria. As flores eram mais coloridas e as frutas se misturavam em árvores totalmente distintas. Limoeiro dava pitanga e a jabuticabeira era carregada de amoras do tamanho de laranjas. Tomates apinhavam em cachos nos coqueiros, enquanto a jabuticaba nascia nos pés de ervilha. Como se não bastasse tudo isso, o perfume desse mundo faria qualquer um viajar. O cheiro desse mundo? Lavanda.

Nesse mundo, os animais conviviam em paz, e fazia-se escorregador no pescoço da girafa. A gangorra era nas asas dos passarinhos, e existia um tobogã que vinha lá das nuvens, molhado com chuva de groselha para escorregar melhor. A casa, única que existia por lá, não tinha portas ou janelas, e na varanda, imperava soberana uma rede enorme e confortável, que balançava sozinha. Era lá, nessa rede, que a menina aparecia quando adormecia, e também era na rede a saída para o mundo fora dos sonhos. Quando o sono, dentro do sonho, apertava, era para a rede que ela se entregava, e assim acordava, até meio triste, no seu mundo de solidão. A cada dia ela queria sonhar mais, e sequer imaginava o que a esperava lá pelas bandas de seu refúgio encantado.

Em certa ocasião, lá no mundo mágico, ela brincava de pega-pega com os girassóis e, cansada, foi para a rede, e por lá adormeceu. Estranhamente, ela não foi transportada para seu mundo verdadeiro, e por lá ficou. A lua, com a proximidade do amanhecer, foi dando lugar ao sol, e este, guardião das chaves desse mundo, quase morreu de susto ao ver a menina ainda ali, dormindo na rede. Algo estava errado. E foi quando o sol, ao olhar para trás, reparou um risco dourado cortando o céu. O que seria aquilo? Seria uma estrela cadente?

Pouco depois, uma estrela descia no mundo mágico, parando bem perto da menina. A estrela, antes gigantesca, estava quase anã, pois o deslocamento que a trazia do outro lado do universo a fez se desgastar de tal forma, que reduziu seu tamanho. E o que ficou pelos céus foi o mais belo rastro de pó de estrelas.

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O sol aproximou-se lentamente da estrela, e reparou que ela chorava copiosamente. Mas, por que ela chorava assim? O que ela estava fazendo ali? E a menina? Não iria embora? Foi então que o sol, em sua sensibilidade, entendeu. A estrela estava apaixonada pela menina.

A estrelinha soluçava e estufava o peito, e o sol, soberano naquele lugar, resolveu conceder-lhe um desejo. A estrela, aquietando-se, olhou para os olhos do sol e brilhou intensamente, desaparecendo no mesmo instante. Em seguida, foi a vez da menina se transportar aos poucos, ficando transparente e reaparecendo em sua cama, lá no mundo real.

Daquele dia em diante, a menina não sentiu mais aquela solidão que tanto a amargurava. Sentia agora que algo, ou alguém, protegia-a constantemente, deixando-a aquecida e cheia de energia. Seus olhos adquiriram um brilho mais intenso, e suas mãos, sempre que tocavam alguém, passavam a sensação de que eram mágicas.

A menina não retornou mais ao mundo mágico. Não precisou mais ir até lá. Ela, agora, tinha uma estrela dentro dela. Uma estrela que, apaixonada, fez um pedido ao sol: morar dentro dos olhos da menina.

As lágrimas? Elas nascem da estrela que, traquina e brincalhona, não se cansa de correr e brincar pelos olhos da menina, largando pelo universo daquele olhar o seu rastro de pó dourado.



Música: O AMOR VEM PRA CADA UM - Zizi Possi (by: YouTube)


Marcio JR

terça-feira, 31 de julho de 2012

FORA DE COMBATE

COMUNICADO:

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Aos amigos, aos visitantes de meu blog e a todos aqueles que se aventurarem por aqui nos próximos dias.

Infelizmente, e totalmente contra minha vontade, estou e continuarei afastado dos blogs e de qualquer atividade virtual que mantinha. Fui acometido por uma crise totalmente inóspita e que me deixou fora de combate.

Mas não se preocupe. Não se trata de problema de saúde, pelo contrário. Estou muito bem nessa parte. E também não é crise sentimental, pois nessa parte, penso ter equilibrado um tanto as coisas. Tempo? É! Até poderia culpá-lo, mas para ler e escrever, sempre dei jeito nisso. A situação é pior. É tecnológica.

O fato é que depois de "torrar" 4 (quatro) computadores, reduzindo-os a míseras sucatas, notei que fiquei sem equipamento. Isso mesmo. Os quatro computadores a que tenho acesso em minha propriedade resolveram dar pane, e todos eles justamente comigo no comando.

Tentei de tudo. Chamei técnico, liguei para a revenda, dei banho de sal grosso, acendi vela de 7 dias, encomendei umas macumbinhas com a Sam Bassi (não pense besteira... macumbinha é como chamamos o velho e bom incenso), ameacei jogá-los do alto do Everest, fui na placa mãe de santo... enfim, nada.

Então, como a fase anda complicada, resolvi tirar umas férias forçadas. Passarei ainda um certo período ausente, dando cabo (ou tentando) de alguns trabalhos e preparando algumas novidades.

Deixo aqui meu pedido de desculpas a todos. Assim que eu consiga sanar esse toque de Midas ao inverso, eu volto.

Abraços.


Marcio JR

quinta-feira, 26 de julho de 2012

ALGODÃO DOCE



algodão doce - by Google
re-edição

Corria ligeirinho, apressado, e parecia que aquela rua não tinha fim. Ah! Mas lá estava ele, o vendedor daquele pedaço de nuvem rosada, deliciosa e que colava nos lábios. Algodão doce.

A fila estava grande, será que iria sobrar algum? Um só que fosse? Ele, pequenino, saltitava tal qual cabritinho. Os meninos maiores empurravam, pisavam. Mas ele era persistente, iria ficar ali o tempo que fosse, e até sentou para esperar a fila diminuir de tamanho. Aquilo era bom demais. Algodão doce.

Até que ouviu algo que não gostou muito:

--Tá faltando dinheiro, garoto! --o vendedor falava para algum menino. –- Volta prá casa e pede mais prá mãe. Fala prá ela que custam cinqüenta centavos.

Ali sentado, o menininho abriu as mãos e só viu vinte e cinco centavos. A mãe, tadinha, não tinha mais dinheiro. E o pai, se por sorte achasse um emprego, daria, mas também não tinha. Ficou ali, macambúzio, por um bom tempo. Olhava para os demais e notava que se deliciavam, mastigando, chupando aquele pedaço sublime do céu. Levantou e sentiu a barriguinha murcha mexendo e roncando, chamando por aquele doce. Mas ninguém olhava para ele, e nem dariam um teco que fosse. Quando havia somente mais um doce no tabuleiro, meio quebrado, meio amassado e pela metade, foi até o vendedor e fez uma proposta. Seus vinte e cinco centavos por aquele meio algodão.

--Tá sonhando? Vai trabalhar. Ainda ganho uns quarenta centavos neste aqui.
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O menininho baixou o rosto, já cheio de lágrimas, e sumiu estrada afora.

Vinte anos depois, aquele mesmo menininho, já homem feito, caminhava com sua enxada apoiada no ombro, a caminho do roçado. Ao passar por uma árvore, notou um amontoado de terra com uma cruz de madeira plantada ao centro, e uma placa fixada na árvore, que dizia o seguinte:

“Aqui jaz o doceiro. Mais um esganiçado e egoísta que a fome matou”.

Pense nos seus atos agora. O que você negar hoje para alguém, amanhã pode faltar para você mesmo. Sempre tem Alguém olhando seus atos. Alguém que tudo vê e tudo anota.


Marcio JR

domingo, 22 de julho de 2012

FARDO

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Sentou-se lá, distante. Da rodovia chegavam alardes do movimento da tarde, que entre veículos e pessoas, o que restava era o barulho do caos. Sem pressa, apoiou as mãos naquele chão árido e levantou, deixando que a visão se perdesse naquele tumulto. E caminhou.

Entrou pela cidade já na entrada da noite, sempre andando sem pressa. Os altos edifícios assustavam um pouco, e o turbilhão de pessoas que despencavam por suas bocas era alucinante. Uns corriam para seus veículos e se trancavam. Pareciam mal humorados. Outros se atropelavam pelas calçadas, correndo e se desviando até de suas próprias sombras, que eram estampadas ao chão pelas luzes artificiais. Pressa e desconfiança, era o que se via nesses.

A noite já caminhava alta e fria, e ele se encolhia entre os trapos que vestia. Nas portas fechadas do comércio, reparou algumas pessoas espalhando papelões pelas soleiras. Nos becos, as prostitutas se mostravam quase nuas para arrebatar clientes.

Num desses becos pelos quais ele atravessou, viu certo homem trajando um macacão branco e imundo despejando na lixeira uma quantidade grande de restos de comida. Um pouco adiante, várias crianças esperavam, perdidas e encobertas pelas sombras. A fome as levava até ali. E na rua principal, decorada por luzes de todos os tipos e intensidades, vários bares eram disputados por pessoas empoladas e mostrando descontração.

O frio aumentava, mas ele não parava. Caminhou como se procurasse algo, até que avistou, ao longe, uma cruz enorme e iluminada. Foi até lá e subiu as grandes escadarias, parando somente diante da suntuosa porta. Era uma igreja, mas estava fechada. Ao olhar para o chão, notou marcas estranhas, como se algo tivesse sido incinerado naquele lugar, deixando, assim, o granito manchado. E não estava errado. Um mendigo fora vítima de desordeiros, e terminou ali, queimado.

Baixou a cabeça e prosseguiu em sua jornada. Da rua, olhava para alguns televisores ligados pelos bares. Na programação, políticos espalhavam efusivamente que "muito se fazia pelo bem do povo". Um pouco mais adiante, a polícia enfrentava, entre tapas e tiros, alguns traficantes de drogas. No meio do tumulto, uma bala perdida acabara de acertar uma jovem estudante que retornava para seu lar.

Em seu trajeto, passou por um parque da cidade, e parou para olhar o lago. Na outra margem, uma jovem atirava algo, embrulhado em jornal, diretamente na água. Ela correu e, pouco tempo depois, alguns indigentes recolhiam aquele embrulho. Era uma criança recém nascida e que, por pura sorte, ainda estava viva.

De seus olhos brotava tristeza. Não queria mais ver aquilo, e rumou para fora da cidade. Caminhou muito e depressa. O céu, mesmo frio, mostrava um brilho fantástico, mas parecia parado, estacionado e apenas acompanhando os passos daquele homem. E assim foi, até as luzes da cidade ficarem para trás e se apagarem. A rodovia, antes larga, virara agora uma via estreita, e pouco depois, perdeu o asfalto. As luzes que guiavam seu caminho brotavam das estrelas e da lua, e como companhia, só escutava o pio das corujas.

Subiu montanhas e atravessou vales, até que, pela manhã, chegava num povoado pobre, na beira de um rio. Havia muito lixo por todos os lugares, mas não existia sinal maior de destruição. Tudo estava quieto, sem alardes e gritos, e a única igreja, uma pequena sala bem ao centro da comunidade, não tinha porta. Pelas frestas nas paredes das choças, o que se via eram pessoas dormindo amontoadas, mas ninguém estava ao relento ou passando frio. Quem não tinha casa, era recolhido pelos demais e se alimentava com o pouco que nutria a todos. Tudo era dividido.

Seu caminho terminara. Estava dentro de uma das choças, mais precisamente no quarto de uma mulher grávida. Maria era a mais humilde daquele vilarejo, e em poucos dias seu filho nasceria. Era uma gravidez de risco, mas ela, em momento algum, tentou cometer aborto. Ele ajoelhou diante dela e estendeu a mão, tocando aquela enorme barriga. Lágrimas correram de seus olhos, vermelhas e incandescentes, e em instantes, seu corpo virou fumaça, desaparecendo por completo.

Ao despertar, como fazia diariamente, Maria ajoelhou-se e apanhou um pequeno e envelhecido crucifixo. Ao olha-lo, antes de iniciar sua oração, notou algo estranho. Dos olhos do Cristo, vertiam pequenos cristais vermelhos, que pareciam escorrer num suplicio nítido. E sem se dar conta, ela amparava nas mãos toda a tristeza que um homem carregava a mais de dois milênios. A tristeza de ver que muito pouco fora compreendido pelo ser humano.

Marcio JR

sábado, 21 de julho de 2012

BLOGS INFECTADOS COM MALWARE - cuidado, o seu blog pode ser um deles.

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De tempos em tempos, algumas pragas aparecem pelos cantos da web para destemperar o humor daqueles que fazem uso correto do mundo virtual.

Faz algum tempo, vários blogs foram listados pelo Google como prováveis “portadores” de “malwares”, ou seja, eram suspeitos de disseminarem softwares maliciosos aos computadores que por ali se aventurassem.

Malwares” são programas e comandos feitos para diferentes propósitos: apenas infiltrar um computador ou sistema, causar danos e apagar dados, roubar informações, divulgar serviços, etc.

No entanto, a grande maioria dos proprietários de blogs que estavam na “lista negra” do Google, sequer sabia disso, pois nem sempre o “malware” estava em seu blog, e sim em algum outro blog ou site. Estes sites (os verdadeiros vilões) utilizam programas distribuídos de forma gratuita, como gadgets e widgets, e por meio deles, disseminam seus “malwares” de forma mais rápida e quase invisível. O blogueiro instala esses programinhas legais e aparentemente inofensivos em seus blogs e, sem se dar conta, faz o serviço sujo para o real pilantra.

Nem todos os navegadores avisavam da possibilidade de perigo. Mas quem utilizava o Google Chrome, na época, tropeçou em dezenas de blogs por aí com o aviso.

Ontem, 20 JUL 2012, ao tentar acessar alguns blogs amigos, reencontrei a mensagem de perigo, a qual reproduzo abaixo (ocultei o nome do blog porque a pessoa em questão não tem culpa, e também é vítima):

para melhor visualização, clique na imagem


O que fazer se você é proprietário de um desses blogs listados como possível disseminador de pragas?

  • Antes de qualquer coisa, pare de baixar para seu blog ou computador tudo o que você encontra pela frente na web. ISSO É MEDIDA BÁSICA DE SEGURANÇA. Só porque tal gadget ou widget é bonitinho, faz borboletas voarem e peixinhos nadarem pelo seu blog, não quer dizer que ele é inofensivo. Não digo, com isso, para você não utilizar tais elementos em seu blog, mas sim para TER CUIDADO COM A PROCEDÊNCIA DE TAL COISA. Gadgets e widgets de previsão do tempo, players de música ou vídeo, contadores on-line, link para isso ou aquilo, tem aos montes, então, procure um lugar seguro para baixar. Onde? Essa é uma boa pergunta. 
  • Faça uma verificação de vírus no seu próprio computador. Sim, exatamente, pois se seu blog está com problemas de disseminação de "malware", é sinal de que seu computador já foi infectado. A grande maioria das pessoas só se preocupa em atualizar o anti-vírus APÓS PERDEREM TODOS OS SEUS ARQUIVOS. Um pouco de responsabilidade, nesta parte, também faz muito bem. 
  • Elimine as últimas coisas que você instalou no seu blog (gadgets e widgets), e torça para que surta resultado.


O que fazer se você está navegando e se depara com um aviso igual à imagem mostrada acima?

  • A decisão de acessar ou não o blog em questão é sua. Você estará ciente do risco. 
  • Como sinal de companheirismo, faça o que eu fiz e avise o proprietário do blog. Ele pode desconhecer tal fato. 

Não sou especialista da área de segurança para a web. Portanto, se alguém discorda do que escrevi neste artigo, ou quer acrescentar algo (informações úteis, evidentemente), basta escrever no próprio comentário, e terei imenso prazer em acrescentar na postagem.

Repito: visualizei a mensagem de perigo utilizando o navegador Google CHROME. Se você está com seu blog mais pesado (lento para abrir), ou ficou com receio de ter sido vítima de algum programa que instalou recentemente em seu blog e que contenha “malware”, e você não tem o Chrome instalado, solicite a alguém que possua tal navegador para acessar seu blog ou, então, faça o download do mesmo. Não estou fazendo propaganda do navegador. Apenas indicando um meio de prevenção.

Importante: Se seu blog está aparecendo nos navegadores com a mensagem mostrada na imagem mais acima, o prejuízo vai além da disseminação de um programa malicioso. Algumas pessoas que visitam seu blog  não voltarão, independente se você é ou não responsável por tal fato. Então, previna-se.

Para saber mais:

MALWARE

GADGETS E WIDGETS

GOOGLE (PÁGINA OFICIAL COM EXPLICAÇÕES E AJUDA)

Marcio JR

sexta-feira, 20 de julho de 2012

ASSIM


image Baixaki

Nada teria sido fácil de escalar,
se não fosse dada a arte à vida.
Nada teria sido tão gratificante,
se não fosse concebido o sol ao peito.

A flor, aquela que usa o inseto,
assim sobrevive, assim procria,
artista que é.
Assim ela gera encarnações “empetaladas”,
exumadas sempre em seu perfume.
Culpa da flor em precisar de outras asas?
Amaldiçoarias a natureza,
unicamente pela gana de sobreviver
que ela concede a seus protegidos?

O pássaro, aquele belo e imponente,
dono dos céus
 e responsável por parte da inveja humana,
também se alimenta de carne putrefata.
Que sabe ele, além do instinto que o carrega?
A beleza da ave torna-se feia
por sua alimentação?


E assim, vem o ser humano,
envolto em seus dramas e tristezas.
E assim, vem o ser humano,
perdido em seus medos e solidões.
E o ser humano precisa,  também,
de artifícios para sobreviver.
Culpá-lo por necessitar de outros
para levantar e caminhar novamente?
Ou culpá-lo por não mais olhar para trás?
Ou por ser egoísta e achar que somente ele sofre?

Que o ser humano saiba,
que seus instintos o carregam e protegem,
muito mais do que sua precária inteligência.
Ele sobreviverá, de uma maneira ou de outra.
Entristecerá, usará de ombros,
e planará novamente, sem olhar para tras.

Mas que o ser humano também saiba,
que ele não está sozinho neste mundo.
Se ele, algum dia precisou de um ombro,
outro alguém também pode precisar.
Voar, é claro. Voar sempre.
Mas no chão, na terra,
é aqui que o ser humano foi concebido.
É aqui que estão os problemas.
E é aqui onde mais se precisa dos amigos.

E assim, os dias passam, a humanidade caminha,
e o sol cede lugar à lua.

Assim, sempre assim.


Marcio JR

terça-feira, 17 de julho de 2012

VER E VIVER

re-edição

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Da flor
O frescor,
Do amor
O calor,
Do beija-flor
O zumbido,
Do cupido
Seu lampejo caído.

Do frio
O orvalho,
Da noite
O bocejo,
Do mar
A onda a versejar,
Da chuva
A semente a brotar.

Da criança
O sorriso,
Da balança
O friozinho na barriga,
Do beijo
O gemido,
Do olhar
O riso contido.

E em cada manhã,
Uma palavra
Sempre em agradecimento.


MARCIO JR


segunda-feira, 16 de julho de 2012

…de prosa pro vento.


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Sempre nasce um novo dia para quem quer viver uma nova era. O vento, aquele mesmo que destrói e assusta, também refresca e carrega palavras, e foi justamente nele que busquei inspiração para este recomeço.

Quando algo não vai bem e tudo fica confuso, é sinal de que se faz necessário parar e pensar, repensar tudo aquilo que incomoda, retroceder se assim for preciso, e recomeçar.

O vento veio do sopro de duas bocas incansáveis na arte de me fazer respirar e animar. Desse vento, retirei a energia para descarregar tudo o que era ruim e, o que é melhor, reconstruir o que me faz bem. Dessas bocas, além do sopro, veio o afeto ancorado num sorriso, e a gentileza numa sutileza que somente a alma e a mente possuem.

As bocas? Sim, elas têm nome. Samara Bassi e Celêdian Assis. E são muito mais do que bocas. São bocas, corações, ações e reações... são mulheres fantásticas.

Nasce aqui ...DE PROSA PRO VENTO. Tem algo melhor do que uma boa prosa, numa varanda frondosa, e com uma aragem morninha batendo no rosto? É claro que tem. Mas sempre que quiser jogar uma conversa fora, puxe uma cadeira e vem prá cá, e a gente pode dar um pouco DE PROSA PRO VENTO.


MarcioJR

sábado, 14 de julho de 2012

UMA PORTA SELADA

série "crônicas de uma música"
tema: Just When I Needed You Must
intérprete: Randy Vanwarmer


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O sorriso de cada manhã me veio à boca, e te procurou na cama, mas não encontrou nada além do travesseiro num lugar vazio. Guardei palavras para este momento, e ensaiei forças que deveriam me tomar, mas tudo em vão. Vi que diante da realidade, a dor é sempre maior do que aquela imaginada.

A chuva, antes tão companheira, ardia pela janela, e foi justamente por ela que você caminhou. Se correu, já não faz mais diferença, pois não serei eu a te recolher e acolher com toalha e sentimento. Não mais.

Do dia em que se foi, sobraram cinzas de uma lua diurna. Sim, ela veio após a chuva, como uma mandrágora amarga e amaldiçoadora. Mas ela estava lá, a lua, fazendo questão de me lembrar de cada instante em que estivemos sob ela, jurando eternidade para um sentimento que, hoje, sei que é mentiroso.

Você se foi, e levou com você a minha maior vontade. Carregou meu gosto pela vida. E você se foi num momento em que tanto te necessitava. Eu vivia em você, e você me negou uma simples palavra. Você me negou até um Adeus. Saiu ainda noite, e fez madrugada em meus dias.

Das palavras que guardei para aquele momento, fiz germinar poemas e cartas. E foram tantas. Tantas também foram as noites em que esperei resposta a cada anseio que te enviei, mas somente a mandrágora me ouvia. Ela voltava a cada noite, aterradora e gigantesca, habitando meus sonhos. Somente ela estava lá, e respondia a cada carta, a cada verso. Talvez tenha sido nela, nessa lua medonha, que busquei forças para te sobrepujar em meu peito.

E como o destino é imprevisível, não é? A mesma chuva que te carregou, hoje encharca um jardim seco. No oco dos olhos onde a mandrágora habita, já se enxergam luzes que, apesar de destoantes, refletem um mar sereno diante da tempestade.

Aquela lua fez mágica. Mesmo mandrágora, ela se apiedou e se atirou para fora de meus pesadelos. E na madrugada, enquanto eu olhava pela janela o caminho que te levou embora, a chuva voltou. Era fina, e em conluio com a lua, fez um arco-íris em plena noite.

Você foi embora, e aquela porta pela qual saiu nunca mais abrirá. Arranquei-a e nela fiz parede. Nenhuma porta a mais se abrirá, e no milagre da lua, já encontrei nova Cinderela, que mesmo na virada da madrugada para o dia, não vira gata borralheira. E se virar, pois que assim seja, pois é para ela que o sorriso de cada manhã esta guardado doravante.

Por onde ela entrou, se não existem mais portas em minha alma? Ora, Ora. Pela janela.


música JUST WHEN I NEEDED YOU MOST (Randy Vanwarmer) - by YouTube


Marcio JR

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A série CRÔNICAS DE UMA MÚSICA não reflete, necessariamente, momentos verídicos ou sentimentos em mim contidos. Muito menos o texto das crônicas espelha a tradução da música inspiradora. O texto é livre e independe do contexto pensado pelo autor da canção.

Nesta série, busco músicas que fizeram parte de minha vida em algum momento, e extraio delas uma imagem que se forme em minha mente ao ser tocado, seja pela letra, seja pela música.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

CURRICULUM, ATITUDE E UMA DICA DE LEITURA


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Da Folha OnLine, em 13 JUL 2012:

“Um levantamento da consultoria Americana Career Builder indicou ‘pérolas’ presentes em currículos enviados pelos candidatos a vagas. A empresa ouviu 2.298 recrutadores e pediu que eles listassem erros ou informações pouco usuais presentes nos currículos.

Veja alguns exemplos:

  • um candidato disse que era um gênio e convidou a recrutadora para entrevistá-lo no apartamento dele;
  • na carta de apresentação, um candidato dizia que sua família pertencia a uma gangue;
  • um candidato listou ‘caçar crocodilos’ como uma de suas habilidades;
  • um candidato incluiu a atividade de phishing (furto de dados pessoais pela internet) na lista de hobbies;
  • uma pessoa destacou que seu currículo deveria ser lido como ‘uma certa canção’;
  • um candidato destacou que ele foi o príncipe do baile de formatura em 1984;
  • um candidato disse que sabia falar ‘antártico’ ao se candidatar para trabalhar na Antártida;
  • a foto do currículo mostrava um candidato em uma rede;
  • um dos currículos recebido por um gestor de RH era decorado com coelhos cor-de-rosa;
  • um candidato interessado em uma vaga no departamento de contabilidade disse que era detalhista e escreveu o nome da empresa errado.”

Veja a matéria aqui: Folha OnLine 



livro A ESTRATÉGIA DO OLHO DE TIGRE
Ainda na Folha Online, encontrei uma pequena resenha do livro A ESTRATÉGIA DO OLHO DE TIGRE, de Renato Grinberg. Segundo a Folha, no livro o autor “...busca ensinar e incentivar o jovem empresário a apostar nos seus pontos fortes para se destacar na carreira”, e mostra a importância de se ter atitudes diante de um mercado extremamente competitivo nos dias atuais.

A princípio, o livro de Grinberg pode parecer algo voltado para o mercado corporativo, com executivos nascendo todos os dias e se engalfinhando na busca de ascensão em suas carreiras. Sim, ele trata disso. No entanto, e numa analogia a vida cotidiana de cada um, vivemos num mundo onde cada vez mais o famigerado “networking” se faz presente. A rede de contatos que alguém gera durante sua existência pode ser útil em algum momento da vida, e saber gerenciá-la, amplia-la e torná-la operante pode fazer toda a diferença.

Além da resenha, a Folha ainda traz uma pequena entrevista com Grinberg. A matéria é de 25 OUT 2011, mas vale a pena conferir.

Para encerrar, deixo uma frase do próprio Grinberg, que ilustra bem a diferença entre aquele que tem chances de crescer e aquele que ainda não se deu conta de que o mundo está mudando rapidamente e, com isso, exigindo cada vez mais atitude das pessoas.

Querer é poder quando você tem um propósito claro do que você quer atingir. Sem um propósito claro, querer é apenas querer...”.
Renato Grinberg


Veja a matéria completa aqui: Livraria da Folha

Livro A Estratégia do Olho de Tigre

Marcio JR

terça-feira, 10 de julho de 2012

CHICO CONTENTE – PESCARIA MATUTA

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Piracicaba, início da primavera de 1931.

A pescaria de beira de rio era uma das distrações prediletas dos habitantes de Piracicaba lá do início do século passado. Alguns chegavam a viajar dias e noites no lombo de uma mula com o único intuito de chegar a algum ponto ainda inexplorado por outros pescadores ou, então, por acharem que tal lugar era “milagroso” e a pescaria seria mais farta.

Como é sabido, as pescarias sempre foram cercadas de histórias sem pé nem cabeça e, também, de alguma mística. Não existe pescador que não invente alguma “engenharia” para atrair o peixe, como novas iscas ou equipamentos que sequer ele próprio sabe manejar direito, ou ainda o aprimoramento de técnicas antigas e que, se melhoradas, podem surtir bom efeito. Existem também aqueles que são supersticiosos e levam ao extremo algumas manias. Se alguma artimanha surtiu resultado em algum momento, repetem aquilo em todas as pescarias futuras, mesmo que nunca mais consigam bons resultados. Rezas, mandingas, crença na sorte ou azar, fazes da lua, cuspir no rio, pescar com um pé calçado e outro descalço, jogar cachaça no rio, enfim, tudo faz parte da crendice popular e pode enfeitar uma pescaria.

E foi justamente a cachaça, ou o consumo excessivo dela, a preocupação daquela primeira pescaria de primavera.

Padre Mirto reparara que o abuso no consumo de pinga era sempre um problema com as pescarias que Chico Contente, Zé das Porca, Anésio, cabo Bento e, claro, ele próprio realizavam. Pensando nisso, passou o inverno inteiro tentando convencer àqueles pescadores a não beber ou, sequer, levar a dita bebida para a beira do pesqueiro. No entanto, sempre que ele vinha com um bom argumento para frear aos amigos, eles retornavam com uma dezena de outros para convencer ao padre do contrário. Ele, esperto que era, usou da melhor arma que dispunha. Jurou excomungar ao dono do armazém caso ele vendesse ou fornecesse a bebida para aquela pescaria.

—Arre, padre Mirto. Pescaria sem pinga? —Anésio, o dono do armazém, suplicava. —Inté u sinhô vai lumbrigá tudinho. Tem piedade!

—Anésio, meu filho. Já morreu gente por bebedeira nas barrancas do rio. E vocês bebem demais. Alguém tem que por um fim nesses abusos. E eu to apelando pra todos os santos, já que apelar pra consciência de vocês não tem jeito!

—Mais sem pinga anem u São Sardinha vai mi acumpanhá. U disgramado só mi atendi si eu infiá ele di cabeça na pinga cum gaviróva. —o dono do armazém insistia, choramingando.

—Ah! mas que inferno! Isso é coisa que se faça com o Santo? Vocês são uns inconsequentes. Vão arder no inferno se continuarem com essas maluquices. E que santo é esse, afinal? Não conheço nenhum São Sardinha.

—É u Santo Antonho. Mais nu meio dus pescadô, nóis chama ele pelo apilido qui u Chico Contente deu quano pegô aquela carpa di dois rabo. Diz ele qui u póprio santo soprô nas oreia dele esse apilido i dissi pra invocá quano quisesse pescá pexe grande. I tem mais, padre. Num vem di lorota, qui já vi u sinhô fazê das sua tumém. Si num tem vivente oiando, u sinhô, antis di ponhá a minhoca nu anzor, isfrega ela no...

—Ahhhhhhhhhh! Calado. Infâmia. Te excomungo agora mesmo. E essa história do Chico é lorota. Onde já se viu o Santo Antonio vir conversar justo com ele na pescaria? E peixe de dois rabos? Só podia ser coisa do Chico. Pior é que vocês acreditam nesse traste.

Enquanto o padre e o dono do armazém conversavam, os outros integrantes do grupo chegaram, faltando apenas o Chico Contente. Quinze minutos depois, algumas mulas levantaram poeira numa estradinha, e se aproximaram rapidamente. Todos olharam e notaram que era o Chico, que prometera tanto o transporte quanto os equipamentos para a pescaria.

—Árre! Já num era sem tempo! —Zé das Porca olhava e tentava contar o número de mulas que o amigo conduzia. —Mais, padre Mirto! A módiquê u Chico tá vino cum tanta mula? Pelas minha conta, tem duas a mais. Será qui u peste acunvidô mais gente?

Chico parou diante do armazém e, antes mesmo dele pisar o chão, o padre já indagava sobre as mulas a mais.

—Oh! Chico! Dá pra explicar essas mulas a mais? E por que tanto embornal nelas, vivente de Deus?

—Bãos dia pru sinhô tumém, seu padre! U sinhô passa bão?

—Não me enrola, que vindo de você, só pode estar aprontando! —o padre coçou o queixo, antevendo algo que não gostou.

—Puis óie, seu padre. Nessas di cá, as mula maior di grande, vai nóis amuntado. Nessa di cá, nus imborná, tem uns garrafão di pinga, e...

—Epa! Pode parar! —o padre cortou bruscamente o que o Chico falava, nitidamente repreendendo o matuto. —Não falei que nessa pescaria não teria pinga? Tá querendo ser excomungado?

—Óie, padre! Matute cumigo. —Chico olhou mansamente para o padre, mas daquele jeito malandro que todos conheciam bem. —Nóis vai nas barranca du Biguá, i tudo nóis sabemo qui lá tem cascaver, urutú-cruzero, corar i surucucú. Vai qui nóis dá di frente cum bicho armado?

Cobra Coral - image by Google
—Você tá de truta comigo. Que lá tem cobra, eu sei. Mas o que isso tem com relação a toda essa pinga que você tá carregando na mula?

—Mais qui tonto é um sinhô? Cum tudo u respeito, padre Mirto. Si a cobra pica, daonde qui tá um remédio pra isfregação? Nem implastro de foia gorda tem naquele rio! I adimais, si a danada pica um di nóis, tem qui cortá u efeito du veneno, i um gole di pinga pódi ajudá. I a dor da murdida? A pinga pódi amainá as dor si for tomado uns gole. I si dé febre no vivente? A pinga vai ajudá nus efeito di quentura. E além disso...

—Tá! Tá bom! Você me convenceu. —padre Mirto entregou os pontos, se dando por vencido. —Mas e a outra mula? Por que todos esses embornais pendurados nela? Não vai me dizer que é mais pinga?

—Nada, padre. —Chico olhou para os outros pescadores e cuspiu do lado, quase acertando o pé de seu Anésio, que estava próximo. —Nessis imborná tá as cobra. Vai que nóis num acha ninhuma pra módi mordê nóis.


Marcio JR