domingo, 12 de fevereiro de 2017

ESTRADA, POEIRA E ALGUMAS OUTRAS COISAS


imagem do Google

O tempo e as coisas empoeiradas têm uma estreita simbiose. Talvez seja uma relação de cumplicidade entre aquilo que prezamos e, claro, o que nos pesa.

Algumas pessoas, no entanto, são enfadonhas. Leem algo e, por mera preguiça, sequer se dão ao trabalho de interpretar. O que me pesa não é aquilo que carrego por obrigação, e nem tanto é um peso morto e que me estressa ou castiga. Essas coisas já aprendi a largar pelo caminho. O que me pesa são, justamente, as coisas que eu prezo e que gosto de carregar comigo, porque são partes do meu quebra-cabeça e, invariavelmente, indispensáveis ao meu jeito de ser. Se esqueço de uma pecinha pelo caminho, fico incompleto.

Não sou “amarrado” no passado. Longe disso. Mas sou um alguém que quando gosta de algo, realmente gosta. A nostalgia, no entanto, não move meus dias. Ela é perene pelo fato de me fazer recordar momentos bons nas horas em que me sinto descompensado, e isso é algo que aprendemos e apreendemos como um jeito de blindar uma esperança já massacrada diante de todas as coisas ruins que tentam empurrar pela nossa garganta abaixo.

Gosto de um jeans rasgado. Mas, veja só. Eu já usava isso lá na década de 1980, quando a moda ainda nem existia. Minha jaqueta de couro tem, pelo menos, 20 anos de existência (sobrevivente), e muitas músicas que eu canto pelos cantos têm, pelo menos, 30 anos de gravação.

Mustangs anos 70, caminhonetes fabricadas nos idos de 1960 e motocicletas antigas. Sou fascinado por modelos clássicos quando o assunto é motor. E nada melhor do que pilotar um veículo assim nas ruelas de uma cidade antiga.

Gosto do silêncio vertiginoso das ruínas de cidades abandonadas. Para muitos, pode ser uma cidade-fantasma, mas para mim, é uma chance ímpar de pensar na vida e refletir nos erros que levaram a tal situação. Por que a cidade foi abandonada? Por que alguns vieram e muitos se foram? Um erro é algo passível de conserto, mas o abandono total...? Talvez seja até perversidade. E quantas vezes abandonamos algo ou alguém, não é? Só que sempre damos aquela famigerada desculpa de que todos devem aprender a voar pelas próprias asas. As vezes é até verdade, mas em alguns momentos, é por egoísmo mesmo.

A durabilidade dos móveis velhos e a beleza que eles carregam. A batalha contra os cupins e a resistência contra a futilidade dos mais novos. Madeira. E como ela parece atrair a poeira, não é? A compensação para ela, no entanto, vem da paixão verdadeira daqueles que deixam espelhar o brilho do olhar no lustro da madeira envernizada e tratada para durar, pelo menos, mais algumas décadas. Queria eu ter essa resistência e essa gana de me manter intacto diante do tempo. Difícil é vencer os malditos cupins da vida.

As pedras. Essas mereceriam um capítulo especial. Citei, certa vez, que a diferença entre um ser humano e uma pedra está, unicamente, na densidade. Poderíamos ser pedra se não fossemos tão densos. Imponência, beleza e rusticidade fazem das pedras um cilo de ensinamentos para qualquer um. E o que mais me encanta... elas sabem guardar o silêncio. Diamantes? Que nada. Pedra bonita é pedra que se tropeça nela.

Até agora, falei de objetos. Mas tem muito mais coisa que o pó guarda e faz se esconder de olhares desatentos. Quer coisa mais bela do que um amor "empoeirado"? E se você leu e não tentou interpretar o que eu disse, lá vai uma explicação.

Alguns amores permanecem lá no peito, guardados e esperando para extravasar no momento certo. Sabe o vinho? Ele fica lá na garrafa, ganhando consistência, cor e sabor. Muitos namoram a garrafa, tocam nela, mas não sabem beber, ou sequer tentam tirar a rolha. Até que chega alguém e, com paciência e sabedoria, abre a garrafa e saboreia como se deve, com paixão. Muitos amores são assim. Morrem com o corpo sem nunca terem sentido a verdadeira reciprocidade. O resultado disso é que eles se vão sem ter tido a chance de explodir verdadeiramente.

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Um amor desses, quando achado e despertado (e correspondido, claro) é como um desses vinhos raros. Você só provará uma vez, mas viverá dele até o fim, sem jamais esquecê-lo. Ele te aquece, te enternece, te torna eterno e, sempre, te atiça. Você se sente envolvido e plantado na densidade de seu sabor único. Mas, diferente do vinho, depois de aberto, ele não acaba, a não ser que você, num acidente ou numa besteira qualquer, derrame fora. Daí, meu amigo, não tem vinho nem amor que dure para sempre, não é?

Já me disseram que muitas coisas belas só são descobertas por olhos apaixonados. Depois disso, muitos olhares são atraídos, mas o brilho verdadeiro é dado pelo toque paciente e dedicado de quem sabe apreciar as nuances da natureza daquilo que se gosta e se quer para a jornada. Paciência é virtude nessa hora.

Por isso, lá no começo, eu falei que aquilo que me pesa não tem relação nenhuma com aquilo que me faz mal. Carrego porque quero e porque gosto. E gosto, sim, de coisas antigas e empoeiradas, e que muita gente sequer deu atenção antes de mim.

Não tem nada melhor do que juntar as tralhas que gostamos de carregar e pegar a estrada, ainda mais quando tem um amor e um bom vinho para acompanhar. Pó, esse a gente sopra pra longe.




Marcio Rutes



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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A LIBERTAÇÃO E O PREÇO DA MAÇÃ

 da série Empírica Mente


crédito e links no final do post
Faz mais de um ano que não apareço por aqui e, veja só! Quando bate novamente aquela vontade de escrever, a inspiração que me vem é recorrente. Pensei duas vezes antes de sentar e escrever, pois falar de maçã e de paraíso (e seus personagens principais, claro, Adão, Eva e a Serpente) seria, basicamente, retornar ao ponto onde parei e com a chance clara de andar em círculos.

Nesse período sabático pelo qual passei, entrei e saí de algumas “vibes” tão rápido quanto a efemeridade do propósito ou do assunto exigia. Questões consideradas tabus ou com alguma complexidade, e que até certo ponto me causavam algum constrangimento em escrever, viraram pó, pura besteira. Dormiram problemáticos e acordaram numa roupagem de banalidade pura.

Mas, como nesse mundo a dicotomia come solta e precisa viver azeitada para que tudo funcione sem que a balança penda desproporcionalmente, outros assuntos que pareciam caminhar tranquilos e na sombra, acabaram ganhando viés de preocupação crescente.

Vi, nesse ano e pouco em que estive afastado, o quanto valorizamos erroneamente algumas coisas desnecessárias enquanto as prioridades são deixadas de lado, seja por desleixo de alguns, irresponsabilidade de outros ou egoísmo de muitos. Pior ainda. Percebi a grande perda de tempo que vem atrelada nos recalques da sociedade, e isso em temáticas que sequer deveriam despertar discussões. O fato é que sempre onde existe a dita "moral e ética" na baila de prosa, dificilmente é encontrado um consenso.

São assuntos que pretendo abordar por aqui, nessa minha volta, mas cada coisa no seu devido tempo. No MEU tempo. Para hoje, quero me ater nessa imagem que deixei ilustrando a crônica, e também na temática "sexo". Não que este último esteja necessariamente relacionado à ilustração, mas fico assustado cada vez mais com a capacidade que as pessoas têm em condenar outras pessoas meramente por pensarem, e agirem, de forma diferente. É como se cada vertente de pensamento tentasse ser única, menosprezando a capacidade alheia de ter sua própria linha de pensamentos. A intolerância na questão "sexo e suas variantes" aumenta dia-a-dia, indo na contra-mão da contemporaneidade. E, não raro, crimes ou abusos são cometidos em nome dessa intolerância.

Espaço retomado, cumprimentos feitos, então, vamos ao que interessa.

Sexo é uma coisa que deixa as pessoas de cabelo em pé. Ficam horrorizadas quando alguém admite que gosta de algo fora dos padrões. E ao citar sexo, estou falando em fazer amor, transar, trepar, foder. Repare que sequer entrei no assunto de gênero e preferências, pois isso é algo que ainda está em processo de fermentação e, dependendo das pessoas, de apodrecimento mesmo, pois o que alguns têm na cabeça não passa de massa putrefata. Não me aprofundarei e, em outra oportunidade, retorno a esse assunto.

A hipocrisia toma conta quando o assunto faz referência a sexo. Muitos homens e mulheres posam de puritanos, pregando a integridade do grupo, o respeito, a presença de uma crença salutar e espiritualista no recinto familiar mas, quando vão para as redes sociais ou para algum lugar que não podem ser reconhecidos, se transformam. Verdadeiros “Jekyll and Hide” numa sociedade cada vez mais pendente para o monstro. Tem gente que ainda prega o sexo como um meio de reprodução, o famoso “crescei-vos e multiplicai-vos”, e com um detalhe, abominando os preservativos. Mas esquecem que não cabe mais ninguém na nossa nave-planeta. Ou seja, tá cheio de gente morrendo de fome, se empilhando pelos cantos, e ainda continuam nessa epifania bordada nos meandros de uma parábola bíblica? E as doenças? Sim, pois o sexo sem precauções pode provocar algumas delas.

Ah! Tá! Esqueci que só pode existir relações sexuais entre casais casados dentro da religião. E pessoas não casadas, assim como os jovens cheios de hormônios (já aptos para a vida sexual, segundo as leis), ou os viúvos e viúvas que não casaram de novo, ou aqueles que optaram em se manter solteiros, esses não podem sequer cogitar uma trepadinha casual, isso ainda segundo a religião! Mas, qual religião? A sua? É só ela que conta? E minha crença, onde fica? A sua crença dita regras e a minha sequer pode opinar?

Nisso, me vem uma dúvida. Paro aqui e fico pensando... e a questão hormonal? Como é que as pessoas que pregam o puritanismo fazem quando, do nada, o danado do... é... como vou dizer isso?... o trem do caralho resolve bater continência no meio da rua, por ter se excitado unicamente por um pensamento ou uma imagem, e que não envolva a pessoa amada? Essa é uma questão masculina. E as mulheres? Quando elas ficam molhadinhas por uma cena, um cheiro ou um pensamento que esteja bem distante de ser algo relacionado com o marido? É pecado? É? Ou essas pessoas têm um nível de auto-controle tão grande, que conseguem controlar os hormônios?

Quando até o fato de olhar e apreciar aquilo que se considera belo, e isso independe se seja um objeto ou uma pessoa, passa a ser considerado como uma anomalia, é hora de parar e repensar os conceitos e padrões que a sociedade vem ditando como critérios para estabelecer o que é ético (e moral) ou não.

Hora de parar e respirar!

Por que as pessoas ainda ficam horrorizadas com casais gays, ou com casais que vão para clubes de swing, e com aqueles que gostam de sexo grupal, que optam por ter um vibrador no lugar de um parceiro, ou ainda com aqueles que preferem levar uma vida sem sexo? Aliás, isso é estranho. Se alguém sai dos padrões, é depravado, mas se opta por não fazer sexo com ninguém durante a vida, ou é padre (ou então um monge, ou qualquer outra pessoa que, segundo suas afirmações religiosas, opta pela castidade), ou doente! Ou seja, se sai dos padrões e faz sexo diferente daquilo considerado sadio, é depravado, mas se opta por não fazer sexo (sem ser por motivos proibitivos ou religiosos), também é um desvairado.

Beijo gay, na tv e na hora da novela das 8 (9? 10?), nem pensar. Difícil explicar para as crianças como e por quê pessoas do mesmo sexo se beijam. Mais fácil inventar histórias como "as meninas nascem nas cabeças de alface e os meninos proliferam nos repolhos". E assim, entre mentiras e insanas afirmações, uma parte do mundo vai ensinando os adultos de amanhã.

Se você acredita em céu e inferno, então deixe que essas pessoas continuem cometendo esses “pecados”. Porra, são eles, e não você. Eles irão para o inferno, e não você. Sobrará mais espaço naquele marasmo gelado e com flocos de nuvens branquinhas para você aproveitar, enquanto os degenerados e depravados que saem dos padrões sexuais que você acredita serem ditados divinamente, não vão te incomodar, pois estarão queimando em algum outro lugar.

Então, preocupe-se com o teu céu. Ocupe-se em salvar primeiramente a você, e, claro, se puder, salve mais alguém. Mas, antes de qualquer coisa, verifique se a pessoa que você irá tentar “salvar”, quer realmente ser salvo. Vai que a visão de céu dessa pessoa é completamente oposta a sua e, na ótica dele, quem precisa ser salvo é, justamente, você?

E tem mais. Para encerrar essa questão de sexo, tem muito puritano e puritana por aí que, em seus momentos reservados, vive sonhando (ou olhando e mexendo) com a bunda da vizinha ou do vizinho. Se masturba, imaginando as cenas mais picantes e depravadas. Alguns, e não são poucos, se imaginam nas situações mais inusitadas e que, a priori, tanto condenam. Não é raro um machão se masturbar e, ao mesmo tempo em que está quase gozando, se imaginar de quatro na frente de outro cara com uma rola grossa e grande. Ou uma mulher, na mesma situação de masturbação, ficar desejando outras mulheres. Porém, quando estão em grupo, vivem condenando a homossexualidade, dizendo que pessoas assim são doentes e vão para o inferno.

Ainda bem que aquela velha história de que cresce pelos nas mãos de quem bate uma punhetinha ou uma siriríca já não existe mais. Imagina o quanto o tal Veet Creme Depilatório iria vender!

No fim das contas, o que é tudo isso? Hipocrisia já foi faz tempo. Recalque? Só pode ser. Intolerância? Tá misturado. Idiotice? Na maioria das vezes.

Iria falar sobre estupro e os conceitos machistas (tanto de homens quanto de mulheres, pois tem muitas delas por aí, machistas do primeiro fio de cabelo até o último de pentelho), mas esse assunto fica para outro momento, pois só essa questão de sexo e religião já está quase virando um livro.

Repare que os tabus sexuais, quando discutidos, se misturam imediatamente com religião. Então, quero me voltar um pouco para a ilustração que está lá no topo.

Se precisasse dar um nome para essa ilustração acima, este seria LIBERTAÇÃO. Sei que, com isso, posso despertar a ira de muitos que ainda levam em consideração o mito de Adão e Eva, mas vem cá... tá na hora de vocês, que creem nisso, darem espaço e respeitar a opinião contrária também.

A própria igreja católica, em algumas de suas vertentes, já aceita discutir essa parábola mitológica, revendo esse conceito que já foi pregado como uma das grandes cicatrizes da perdição humana. Na contrapartida disso, outras igrejas de ramificação cristã ainda são intolerantes, e não aceitam que se cogite modificar uma vírgula sequer, e afirmam o Éden como uma verdade absoluta. Eu, que sou um mero observador sem religião, gosto de utilizar esse mito para extrair algumas lições, e observando a ilustração, fiquei bastante empolgado.

No meu texto anterior, MACIEIRA ANCIÃ, citei que “...Eva não comeu a maçã, e o coitado do Adão é meramente a ilustração machista das mãos daqueles que mal e porcamente sabiam o que era o mundo, mas que conheciam muito bem o poder escravizador que a palavra possui. Não foi um deus quem criou paraísos perdidos para bajular o ser humano. Pelo contrário. Foi um deus quem deu a chave para que essa clausura fosse aberta.”. 

Aqui, cabe uma defesa a esse deus que criou o Éden. Tenho escutado constantemente que ele foi e é machista, e blá, blá, blá. Mas, cabe a pergunta: com o passar do tempo, e com a descoberta do poder da palavra, esse deus era realmente machista, ou foram os homens que distorceram a história original, se é que ela existe, para oprimir as mulheres?

A palavra, seja ela falada ou escrita, tem um poder fantástico, e quando vem de cima para baixo, ou seja, de quem já detém certo poder para quem já está em vias de opressão, ela vira uma arma de difícil escapatória. Bóra prestar mais atenção nas coisas e desenvolver um espírito crítico, principalmente antes de disseminar esse amontoado de coisas escritas e editadas há centenas de anos e que, mesmo sem comprovação, continuam sendo usadas para oprimir aqueles que tentam pensar fora da caixinha.

Pensar diferente daquilo que tentam impor, ter uma religião diferente daquela padronizada e adotada pela maioria local, ser sexualmente ativo e com preferências que não são habituais (desde que não prejudique outras pessoas, ou venha a ferir os códigos de leis locais), não é crime. Já a intolerância e o preconceito...

Voltando a ilustração, no texto anterior, eu falei que um deus não criou paraísos, mas sim foi quem deu a chave para a libertação. Então, vendo a ilustração, você pode dizer que sou satanista, pois nela, quem aparece com a “chave”, é o próprio Lúcifer.

Vamos com calma! Não é bem assim! Mesmo não tendo religião, não quer dizer que eu não acredite numa força superior, um deus ou um avatar diferente daquele seu. Ou seja, não sou ateu. Prefiro pensar num deus voltado para a natureza, apenas isso. E, sendo assim, eu enxergo diferença entre o bem e o mal, creditando, mesmo que inconscientemente, a maldade ao demônio. Posso até estar errado nisso, mas preciso de uma figura antagônica ao deus que aceito, e para tanto, atribuí a perversidade a algo que optei por continuar chamando de demônio. Frente a isso, jamais destinaria essa abertura do paraíso a um deus que fosse, justamente, o contraponto daquilo que penso ser um deus. Entendeu? Ficou meio confuso, mas vamos em frente.

Leve em conta, também, que o rei do inferno (Lúcifer), e isso dentro da mitologia cristã, é um anjo caído.

Vamos entrar, depois dessa chateação dos parágrafos acima, dentro da minha visão dos fatos. O paraíso era um saco (juro que não vou falar da Lilith, pelo menos por agora). Sem nada para fazer, e com todas aquelas regras para seguir. Machistas, claro, pois era Eva quem precisava baixar a cabeça. Até que, num dado momento, alguém chega e oferece uma alternativa àquilo tudo, que era, justamente, o poder da escolha de o que fazer com sua vida.

Estudiosos falam que deus deixou o livre-arbítrio, mas, ao mesmo tempo, também dizem que “somos todos instrumentos da vontade do senhor”. Essa discussão vai longe, sem um fim aparente.

Mas, tento em mente que, sendo instrumento ou portadores do livre-arbítrio, não aconteceu nada de errado na história de Adão e Eva.

Se existia realmente o livre-arbítrio, Eva tinha poder de escolha. Deixou-se influenciar, pois estava sacuda com aquela vidinha, e apostou suas fichas que fora dali ela poderia ser mais... ela poderia ser ela própria, dona de si, de seu corpo, de seus atos e suas vontades. Obviamente, e segundo minha visão, ela brigou por seus direitos. Claro que pagou um preço por isso, e até hoje as mulheres ainda lutam a mesma briga que ela comprou, mas ninguém que acredite no tal livre-arbítrio pode condená-la.

Já no caso do “somos todos instrumentos divinos”, a coisa é mais simples ainda. Nesta situação, se eles eram instrumentos, então só fizeram o que estava no scritp, e ponto final.

Mas, a ilustração traz uma nuance que chama a atenção. O preço, pela visão dos ilustradores, não foi o do quilo da maçã, mas sim o do metro do tecido... ops... da folha. Se você ainda não se atentou a isso, volta lá no começo e olha o desenho. Mas, quanto a esta questão, prefiro não opinar. É uma visão deles, ilustradores, e eu respeito.


 Marcio Rutes



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Autoria da ilustração no início do post de Petry and Crisan


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

MACIEIRA ANCIÃ

 da série Empírica Mente


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Há um caos no tempo, como se fosse um rasgo no futuro, ou o passatempo amalucado de um deus brincalhão e tão ou mais demente do que crente em suas criaturas. Mal sabe ele que suas brincadeiras, que a ele parecem tão inocentes, são meramente incipientes. Não. Talvez incipiente não seja a palavra adequada para esse ato vil de largar a esmo uma criatura tão frágil quanto o tal humano por aí, nesse inferno pré-lúdico que estampa cada face que brota da escuridão. Esse deus apenas pensa que brinca, mas ele próprio já é fruto da anarquia bizarra de outro deus maior. Penso que nisso tudo, um deus faça parte apenas da constelação de vários céus, divididos uns dos outros por meros véus alaranjados e transparentes.

Tem um deus para cada gosto, ou até mesmo um para mero tira-gosto. Crenças absurdas nascem do nada e morrem assim, a desdém daqueles que saem por aí, reconfigurando a crendice com palavras puramente espúrias, pífias e rangidas em dentes que mal servem para mastigar algo putrefato. Existem deuses belos, que regam seus séquitos com chuva de água de flores, enquanto exigem sacrifícios de virgens para que a beleza vingue em determinado lugar. Que chuva é essa? Flores que vertem seiva sanguinea? Enquanto isso, numa outra esquina celestial qualquer, outro deus apela pela dissociação da ignorância, distribuindo sabedoria embarcada em sub-deuses em forma de vento. O problema é que o vento nem sempre é manso, e ao invés de construir, torna tudo pura ruína. E a sabedoria se perde pela mão pesada daquele que impera tal qual um rinoceronte ignorante num trono de folhas secas.

Tem deus da colheita, da floresta, da chuva, do manifesto inconformista, da marmita azeda, das virgens orelhudas, e o que eu mais gosto, do cogumelo da esquina. Ah! Esses últimos não existem? Por que não? Se existem tantos deuses por aí, alguns inventados enquanto se apruma o cotovelo no balcão de um bordel qualquer, por que não posso inventar os meus?

E no fim das contas, é bem assim. Vai se moldando um deus a seu bel prazer, que atenda suas reverências enquanto mal se consegue fazer uma única referência verdadeira à existência de um céu que não seja esse infinito escuro que temos diante da crista do olhar humano.

E assim, caro companheiro, fomos criados e largados a mercê de um cosmos devorador de consciências. Dizem que tem um deus por aí, que cria, que conspira entre estrelas e planetas, mas que depois larga seus bibelôs a própria sorte. Esse é o deus do momento, poderoso o suficiente para ser um ente gigantesco mas, em sua infinita magnitude, se esconder dentro do olhar de um ser minúsculo e sem cílios. Então, repito aqui uma frase que me deixou muito animado, extraída de uma série de tv um tanto antiga, do fim do século passado: “A verdade está lá fora, juntamente com um punhado de mentiras.”¹.

A verdade é essa (ao menos assim eu penso): existe um deus, e ele é gigantesco. A mentira, no entanto, vem ancorada, dizendo que ele se esconde. Não, ele não se esconde. Ele está aí, e é realmente gigantesco. Não podemos vê-lo porque, pasme, estamos dentro dele. Nosso mundo, nosso universo sem fim, é puramente a consciência desse deus, e não se iluda, achando que não existem outros deuses. Existem sim. Uma constelação deles. Todos morando lá fora, numa coletividade divina inexplicável e insuportavelmente inimaginável. E cada um desses seres fantásticos tem seus “mundos” internos, seus universos imaginativos, suas consciências vivas ou, ao menos, em formação.

Não diria que fazemos parte de “matrix”. Vou além, e afirmo que nós somos matrix, pois penso que podemos ser o fruto da imaginação de um ser apaixonado pelo ato da criação. Ele não nos abandonou a esmo. Jamais faria isso com algo que ele idealiza faz tanto tempo. Ele apenas está em seu sono reparador, mas logo acordará.

Enquanto isso, alguém escreveu que “...homens e suas sombras me contam que lágrimas são migalhas de pão de quem não voltou pra casa, e qualquer asa é uma afronta aos que se mantém presos nesse concreto em ebulição. Não são mendigos de sonhos, mas de realidade.”².

Saiba, meu amigo, que a maior carência humana é justamente essa, a da realidade. É muito triste querer ter crença e não poder tocar naquilo que seria o combustível de sua fé. Palavras não passam de um amontoado de letras, e tanto escrevem verdades quanto mentiras, podem fantasiar, maquiar aquilo que é real, esconder o que é gigantesco ou tornar soturno o raiar de um dia ensolarado. Palavras cortam mais do que chicote. Talvez, justamente por tudo isso, é que esse deus que me move não fale. Ele prefere imaginar, racionalizando suas ações diretamente para o fruto bendito de suas querências. Não há livre arbítrio. O que existe é a liberdade de sonhar. Mas ninguém consegue controlar o que se sonha, não é?

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A realidade mais palpável vem daí, de um sonhador alucinado que adormeceu sob uma macieira anciã, aquela mesma que não frutificava mais. Eva não comeu a maçã, e o coitado do Adão é meramente a ilustração machista das mãos daqueles que mal e porcamente sabiam o que era o mundo, mas que conheciam muito bem o poder escravizador que a palavra possui. Não foi um deus quem criou paraísos perdidos para bajular o ser humano. Pelo contrário. Foi um deus quem deu a chave para que essa clausura fosse aberta. E quando as portas desse paraíso foram derrubadas, a magia se fez clara e definitiva. Ele, esse deus, tentou dar ao ser humano um pouco de, veja só, REALIDADE. E o que nós fizemos?

Eu digo o que fizemos. Pegamos essa realidade e a transformamos em algo mentiroso, pois não sabemos viver de nada concreto. Inventamos, pois, o sofisma.

Séculos se passaram, e o que mais fazemos é justamente isso. Inventamos verdades para esconder as mentiras. E tudo está lá fora, nesse grande omelete sem ovos que é o universo dos pensamentos de um deus que jamais abandonou seus sonhos.


Marcio Rutes



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referências:

¹ - da série Arquivo X

² - da crônica DE AZUL ENTARDECIDO, de Samara Bassi