sábado, 31 de dezembro de 2011

FELICIDADE

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Sorrir apenas pela vontade que se tem
Ser amado por alguém
Amar sem limites pra sonhar
Rodar o mundo sem hora pra chegar...
Pisar o chão descalço
Molhar o rosto pela manhã
Deitar na rede à noitinha
Curtir o sol a tarde todinha...
Beijar na boca
Ser beijado até não aguentar mais
Ganhar cafuné a qualquer hora
Sentir saudades e matar logo essa 
danada (saudade) que tanto castiga...
Tomar banho de chuva
Ganhar bronca por essa mesma chuva
E depois da bronca, um chá bem quentinho
Com um cobertor e beijos, lá no cantinho...

Tem tantos meios de sentir felicidade, que fico imaginando onde os carrancudos de plantão vão buscar motivos para estragar tanto a felicidade deles quanto a dos outros.



Comercial Lojas Colombo - A FELICIDADE ESTÁ EM VOCÊ - by YouTube

O ano acabou, e procurando uma música que ilustrasse esta pequena postagem de fim de ano, lembrei-me de um comercial de tv que, possivelmente, não foi veiculado em todo o Brasil. A música (que vai além de um simples jingle) é linda, e para aqueles que não a conhecem, rogo que viajem pela letra e melodia, e se permitam sorrir um pouco. O vídeo não está lá essas coisas, e nem eu pretendo fazer propaganda das LOJAS COLOMBO, mas sou um apaixonado por essa canção, e o que é bom é para ser mostrado. Portanto, parabéns aos publicitários que idealizaram esta belíssima peça e, também, às Lojas Colombo, por veicular algo de qualidade num meio cheio de marasmo e apelos descabidos.



FELIZ ANO NOVO A TODOS
e meus votos de muitos, mas muitos sorrisos em 2012.


MARCIO JR

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CHICO CONTENTE – O CRIME NÃO COMPENSA

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A movimentação intensa de pessoas não era muito comum na Piracicaba da década de 30. Todos estavam apressados, caminhando desconfiados e cochichando pelos cantos. Algo incomum estava acontecendo na cidade. E como numa cidade pequena, qualquer coisa é motivo para boataria, todos ouriçavam cada vez mais as orelhas.

--Mais i num é, seu Anésio? Intonce, é vredade qui tinha essa dinherama toda im óbra di oro lá na ingreja do Padre Mirto? --um dos clientes da mercearia de seu Anésio especulava, sabendo que o proprietário daquele comércio conhecia mais detalhes daquilo que estava acontecendo.

--Oceis páre di ispiculá. --sem ter muito o que fazer, seu Anésio tentava se desviar da conversa, mas não tinha meios para isso. --I ocê, Zé das Pórca, sabi bem qui o Padre num qué qui ispáie pur aí essas nuticia.

Musica: Mula Preta (Tonico e Tinoco) - by YouTube

--Oxe! Inté tão dizeno qui é o Chico Contente qui foi incumbido di arrastá os dinhero di lá. --outro cliente também cutucava.

--Tá bão, tá bão! Inquanto ieu num contá, ocêis num sussega o faxo. Padre Mirto mandô adirrubá uma parede, i parece qui incontrô umas image di Santo Antonho, tudu di prata i oro. Levô pra delegacia, i di lá vão transportá tudo pra Itú, qui tem mais cumo guardá a furtuna toda. Mais essa tramóia du delegado cu Chico tá istranha. U Chico passô hoji cedo prá módi leva umas lona grossa i quatro barrica. Pelo qui sei, o delegado só incomendô o carroção dele, mais parece qui tem mais coisa nesse tro-lo-ló todo.

Enquanto os três conversavam, seu Anésio reparou a presença de algumas pessoas estranhas, do outro lado da rua. Estavam parados próximos ao carroção que Chico Contente iria ceder para o delegado, e não pareciam muito amistosos.

Seu Anésio chamou seus cliente até a porta, e apontou para os forasteiros, mas logo viu o Chico e mais alguns policiais saindo da delegacia, carregados com dois grandes fardos enlonados, que mais pareciam ser aquelas mesmas barricas que o matuto havia pegado antes na mercearia. Carregaram tudo no carroção e voltaram para o prédio, enquanto o Chico, que apenas “coordenava” a operação, foi até onde estavam seu Anésio e os outros dois.

--Tarde! --Chico cumprimentou de forma seca, acompanhando com um aceno de cabeça. --Perciso di arguma coisa prá módi moia a guela, seu Anésio.

Chico entrou e os demais foram atrás, ávidos para saber algo a mais sobre tudo o que se passava na cidade. E o matuto parecia ser a pessoa ideal para colocá-los a par de tudo. Seu Anésio foi para trás do balcão e pegou logo o garrafão de cachaça, empurrando-o para o Chico, que não se fez de rogado.

--Chico! --seu Anésio interpelou bruscamente. --Aquelas barrica qui ocê levô notra hora daqui, são as qui tão no carroção?

--Duas delas. --Chico respondeu, sem alterar o semblante.

--I essas barrica é prá módi leva os santo do Padre Mirto? --continuou o dono da mercearia, ainda mais curioso.

--Duas delas.

Chico se encostou no balcão, quando um dos clientes de seu Anésio foi até a porta e voltou correndo, assustado e gritando.

--Chico, Chico. Aqueles forastero tão robano teu carroção, hómi.

Chico, calmamente, colocou o copo sobre o balcão e se serviu de mais uma dose de cachaça. Tomou num único gole e, quando todos acharam que ele sairia correndo atrás dos forasteiros, ele tirou palha e fumo de seu embornal e começou a preparar um cigarro.

--Chico, seu molenga? Vai ficar aí feito quatí cum priguiça? --seu Anésio se irritou, tentando motivar o amigo. --Vai lá, hómi!

--Dexa eles, seu Anésio. --Chico deu uma grande lambida na palha do cigarro e o acendeu, soltando a fumaça para cima. --Adespois, o degolado mi paga os prejuízo.

--I os santo? Quem qui é qui vai pagá pra ingreja?

--Qui santo, seu Anésio? --Chico retrucou, apoiando o cotovelo no balcão.

--Ára? Como qui santo? Vosmicê num tá puxano os santo qui o Padre Mirto achô na ingreja? Num vai levá eles lá prá Itú?

Chico soltou outra baforada de seu cigarro e deu uma cuspidela para o lado, acertando em cheio o pé de um dos homens que estava ao seu lado. Olhou para ele, e como viu que ele não se afastou, fez menção de cuspir novamente, até que conseguiu o que queria.

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--Puis óie, seu Anésio! Aqueles santo já dévi di tá lá em Itú. Falei pro degolado disviá a atenção dú povo, contano um monti di loróta, puis nóis tava divinhano qui vinha gente mar intencionada prá módi tentá robá eles. I ordenei prú Bastião qui pegasse a jardinera i levassi cum ela, pelo otro lado.

Todos ficaram apalermados com aquilo tudo. E quando seu Anésio correu até a porta, ainda teve tempo de ver a poeira que a carroça levantava no horizonte. Na delegacia, alguns policiais riam descabidamente. Então, sem entender, seu Anésio voltou para o balcão e ficou bem de frente para o Chico.

--Qui tramóia foi essa, intão? U qui é qui tinha nas barrica?

--Na semana trêstrazada, deu uns intempério na degolacia, i o seu degolado mi chamo prá arresorvê. Intupiu as saída das privada dus preso, i u qui aqueles ladrãozinho di araque carregaro cum eles, é só duas barrica di pura bosta dos preso.

Marcio JR
ILY

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

RECONSTRUIR



Tempestade - by Google
“Reconstruir”. Indica ação, ato ou efeito de refazer. 

Reconstruir, em sua acepção, pode demonstrar algo belo. A vontade e a força que vem do ser humano em montar algo novamente, a resiliência tão peculiar em alguns, a determinação para seguir adiante apesar dos percalços. Tantos são os fatores que podem influenciar no modo de agir das pessoas e fazê-las retomar algo, que muitas vezes mudamos nossos destinos até mesmo sem sentir. Em certos momentos, evoluímos, crescemos material e espiritualmente, mesmo apesar das intempéries. Já em outros, não encontramos força suficiente para tal, e permanecemos numa pasmaceira constante, ou pior, afundamos num estado de letargia crescente.

Música: Sândalo de Dandi (Metrô) - by YouTube

Reconstruir, no entanto, pode ascender de alguma ação desfavorável. Para reconstruir, é necessário que algo tenha ruído, sido desmontado ou destruído. Algo existia e, de repente, acabou. Em algumas situações, isso é feito de maneira planejada ou pensada, e resultará em algo melhor. Mas, e quando tudo acontece repentinamente? Catástrofes, de maior ou menor escala, acontecem todos os dias mundo afora. Furacões, terremotos e tantas outras ações da natureza interferem profundamente no mecanismo que move a existência do homem, mas não são as únicas causas que promovem “reconstruções”. A ganância, o egoísmo, a inveja, a violência, o desrespeito pelo próximo e tantas outras características negativas inerentes do caráter humano, também se delineiam nessa cadeia de ação que leva à prática de se precisar devolver a forma a algo que esfacelou.

Pessoas saem de suas casas e não voltam. São vítimas mortais de uma sociedade que se fecha em seu egoísmo. A violência corre solta, e quase nada se faz para contê-la. A palavra, arma maior da eloquência humana, virou apenas um artifício da retórica na boca daqueles que banalizam os poderes legais. E são tantas as violências.

Como se não bastasse a ânsia latente de muitos, que não se contém em seu ímpeto e saem disseminando a desordem e o escárnio, as mídias se aproveitam e pioram tudo, implantando ainda mais o conceito de anarquia na alma humana. E o que era um crime a ser julgado, condenado e castigado naturalmente pela justiça, vira um instrumento de lucro na horda comunicativa. Resumindo, para se ganhar mais, oprime-se mais. Como explicação barata, dizem que é o “povo assumindo seu direito à informação”. Pura balela. Quando a audiência cai, esse direito popular à informação é deixado de lado, quer seja pela mídia, quer seja pelo povo, que corre para se saciar em outro entrevero, e melhor ainda se for de alguém famoso, ou de algum escândalo de grandes proporções, ou ainda de algo que se possa sair falando aos quatro ventos, onde se acrescentam palavras à esmo e sem nenhuma verdade. Tudo, então, cresce novamente, tomando dimensões gigantescas, até cair a audiência e tudo voltar lá do começo, em um “looping” eterno. Teoria do infinito, ou uma ânsia inescrupulosa de se falar e difamar o alheio?

Existe a violência do lar, silenciosa por vezes, mas nem por isso de menor impacto. Os vícios, a ira, o ciúme infundado, o descaso conjugal, a luxúria, enfim, vários são os motivos que podem destruir uma família, e que encheriam várias linhas. Não raro, fatalidades acontecem, como pais espancando ou matando filhos, ou filhos matando os pais. Mulheres ou homens que traem sexualmente. Espancamento físico. Espancamento moral. Subserviência obrigatória ou, puramente, opressão física e moral. Escravidão. São muitas palavras duras, que chocam, mas que estão entrando na banalidade. E quer saber por que isso me assusta? Justamente por não nos “assustarmos” mais com tudo isso. Tudo já é tão “normal”, que dentro em breve sequer olharemos isso como uma situação de afronta, afinal, “é tão normal”...

Enfim, quando nos damos conta, precisamos RECONSTRUIR.

Quantas pessoas passam décadas ao lado de alguém, sendo oprimidas, massacradas em seu íntimo, e sequer se dão conta disso? São lesadas diretamente em seu caráter, ficam enfraquecidas, abstraídas da servidão mental pela qual estão passando, que qualquer reação parece incapaz de ser enxergada. Estão mergulhadas na situação, beirando o afogamento, mas não visualizam isso. Até que um dia, despertam para a realidade, e com isso, dois problemas surgem de pronto. Enfrentar a situação (sair dela) e, consequentemente, reconstruir a vida.

Dei voltas para chegar até aqui. Talvez eu próprio tenha caído na tal “retórica”, mas tentei traçar paralelos para mostrar que a violência doméstica não está assim, tão diferente de qualquer catástrofe natural que se vê no nosso dia-a-dia.


Fênix - by Google
Esta crônica não termina aqui, ela está apenas começando. Novo capítulo virá, e se me permitem antecipar, o que terei a dizer pela frente, muitas pessoas já estão vivendo em suas próprias carnes, e de um jeito muito amargo. Alguns nem conseguem se reerguer, não suportam enxergar a luz depois de sair da escuridão da caverna e retornam para dentro. Isso não é bom. Outros, em contrapartida, se refazem. Enfrentam as batalhas de peito aberto, mas as cicatrizes ficam. Conheço alguém assim, e me surpreendo a cada dia com essa pessoa. Mas isso é outra história, é outra crônica.


Marcio JR


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

MANHÃ DE PRIMAVERA







Marota aquela mão,
Procurando loucuras logo cedo,
Atiçando a libido.
Insensatos lábios rosados,
Que me engolem de todas as formas,
Possíveis ou insanas,
Enquanto minha boca procura a tua.
Pele macia, na quentura da coberta,
Agora suada,
No calor, depois da madrugada,
Espalhando o cheiro da tez molhada.
O rumor do amor,
Burburinho inebriante,
Que ora vem da tua voz, em gemidos,
Ora cutuca o corpo, vindo de teus dedos,
Que deslizam suaves,
Riscando minhas costas,
Num perfeito mapa do paraíso.
A lareira, ainda acesa,
Ilumina o vinho, em taças viradas,
Deixando derramado ao lado,
O precioso líquido de nossas viagens,
Traçadas em palavras e atos de paixão,
Escritas pelo paladar do tesão.
Assim amanhecemos,
Brindando a manhã de primavera,
Com o rebento do ato belo,
Fazendo e refazendo amor,
Enciumando o sol,
E roubando-lhe o calor.






MARCIO JR

quarta-feira, 20 de julho de 2011

NOVOS AMORES

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Adolescência, fase adulta ou idosa. Não importa muito a idade quando o assunto é amor. Ele chega de vários jeitos, seja de mansinho, sem que o procuremos, ou num rompante estrondoso, tomando-nos totalmente despreparados. E nessa hora, o que menos importa é a idade.

Cada pessoa tem um jeito próprio de lidar com a paixão e o amor. Alguns fingem que nada está acontecendo, e resistem o máximo possível, mas pouco adianta. E quando se dão conta, já estão tomados por completo. Outros, no entanto, se entregam logo, ávidos por vivenciar as benesses que isso pode trazer. E assim a vida segue, com amores surgindo todos os dias. No entanto, os amores também acabam, cessando muitas vezes da mesma forma como começaram: de mansinho ou abruptamente.

Alguns defendem que “se o amor acabou, é porque nunca existiu”. Não pretendo entrar nesse mérito, mas sim no que diz respeito a amar novamente. Raramente, as relações amorosas terminam de forma tranquila, e num grande número de vezes, alguém absorve traumas profundos, e se sente receoso ou incapacitado para amar novamente. A amargura aparece e essas pessoas entristecem, fechando completamente as portas do coração para qualquer sentimento mais profundo que possam vir a sentir por alguém. E por quê? Pelo medo que sentem em se “ferir” de alguma forma num novo relacionamento.

No entanto, o amor não liga muito para isso, e do nada, ele brota novamente, seja nos corações mais abertos para ele, ou naqueles trancados e fechados para balanço. A diferença é que todo aquele que aceita um novo amor em sua vida, o aproveitará em sua plenitude, e saberá absorver cada momento de felicidade que se apresentar com a nova relação. Já aqueles que se sentem receosos, irão sofrer. Tentarão repudiar cada assédio de outras pessoas no sentido de uma nova paixão, e se por acaso se sentirem presos por esse sentimento (que não pede licença), lutarão de todas as formas para se livrar dele, tentando se manter na solidão. E isso, unicamente na intenção de se eximir de possíveis sofrimentos, que podem sequer vir a existir. No fim das contas, sofrem da mesma maneira ou até mais, pois passarão a enfrentar duas novas brigas, a paixão por alguém, e o medo de amar novamente.

Nunca vi o divórcio como um pecado, e nem entendo aqueles que consideram seu par como uma propriedade ou uma posse. Ninguém é dono de ninguém, e todo aquele que tenta obrigar o parceiro ou parceira a ficar ao seu lado, mesmo quando infeliz, é a pessoa mais egoísta do mundo. Vejo isso como um desvio profundo de caráter e uma atitude doentia. Casamento indissolúvel? Somente enquanto o amor estiver presente. Se ele deixar de existir, somente duas pessoas muito educadas (em todos os sentidos) é que conseguirão manter a relação. E caso o amor e o respeito mútuo deixem de existir, o melhor a fazer é separar ou optar pelo divórcio, para evitar confrontos mais árduos e até a insensatez.

Todo aquele que teme um novo relacionamento, pelo motivo que for, deveria rever seus conceitos. Sei das dificuldades de superar um medo, ainda mais quando a ferida provocada por relacionamentos antigos ainda está aberta, mas também sei o quanto um novo amor ajuda a cauterizar essas feridas. Cicatrizes sempre existirão, claro, mas é mais fácil lidar com elas do que com as feridas latentes. Então, procure orientação psicológica, ou tente se abrir para a vida e para novos relacionamentos. Não é vergonha alguma admitir que precisa de ajuda, ainda mais quando o assunto é amor. E saiba que ninguém, ninguém mesmo, tem o direito de cercear a felicidade de outras pessoas, ainda mais por motivos toscos, doentios e mesquinhos, como o ciúme e a possessão.

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E amar novamente, além de trazer felicidade, é rejuvenescedor. É muito comum as pessoas dizerem que seus hormônios “enlouqueceram”, que seus corpos começam a reagir mais rapidamente a impulsos que antes sequer eram percebidos, que os dias ficaram mais claros e quentes, mesmo no inverno. Enfim, as pessoas se percebem mais ativas, como se estivessem vivenciando bons tempos passados.

Tão comum ver adultos agindo como adolescentes. Chegam a ser criticados por isso, mas, quer saber? Às favas com o quê as pessoas pensam ou deixam de pensar. Se você está amando, e se sente um adolescente, aja assim mesmo, saia, brinque, passeie, ande de mãos dadas, dê aquele beijo cinematográfico na pessoa amada, em público mesmo. Tem algo de errado nisso? Pense bem antes de responder. Você pode ser tachado de recalcado, e não será culpa minha.

Amar não é pecado, e muito menos é restrito a alguma faixa etária. Amor não vem em dose única, e nem deixa de existir dentro das pessoas. Ele só fica esquecido, ou muitas vezes preso, por medo de se amar novamente.

Ame sim, ardentemente, e jamais tenha medo de demonstrar esse amor, de corresponder o sentimento de quem lhe dá amor. O amor é um sentimento abstrato, mas é físico também, e que me perdoem aqueles que carregam mais pudor do que eu, mas não existe nada melhor do que “fazer amor” com a pessoa amada. O corpo fica leve e o cérebro mais ativo. Lamento por aqueles que se prendem em sentimentos de culpa, medo, ou argumentos religiosos, na intenção de bloquear novos amores. Estes tenderão a se tornarem solitários e mais amargos. Eu quero mais é amar novamente, e amar sempre.

Marcio JR
ILY 

sábado, 11 de junho de 2011

ENAMORADOS

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Eu estava ali, naquele corredor. Engraçado que ainda sentia o perfume dela, que há tanto tempo ela usa, mas que eu nunca quis que fosse outro. O toque de suas mãos ainda se fazia presente em minha pele quando, em minhas lembranças, ela passou por mim e me pediu, com aquele sorriso lindo, que a ajudasse com alguma coisa. Só não pergunte o que ela pediu, pois aquela voz me inebriou e hipnotizou. Eu sorri e disse que sim, ou nem sei, mas respondi e me perdi, pois o que eu mais queria naquele instante, era só um beijo.

Musica: Do That To Me One More Time - Captain & Tenille  //  by YouTube

Andei um pouco mais e olhei as paredes. Cada pedacinho daquela casa tinha algo dela, uma arrumação, um detalhe que foi trocado, modificado, que foi construído pela genialidade sempre guardiã que ela carrega. Na mesa, alguns restos da decoração do Natal, que possivelmente iria para alguma caixa no guarda-roupa, mas que ficou ali, talvez para me lembrar daquela comemoração que até pouco tempo, eu não soubera dar valor. As cadeiras, o tapete, os copos todos alinhados na bandeja, tudo ali era ela. Deus, como viver sem ela?

A escada que levava para o segundo andar estava diante de meus olhos. Tantas vezes ela pulou do segundo degrau diretamente para os meus braços, e isso em tão pouco tempo que convivemos. Sentia aquele cabelo negro e macio passar pelo meu rosto, enquanto ela encostava o peito dela ao meu, e esfregava em mim o pequeno nariz, como quem pedia carinho, mas não um carinho qualquer. Ela queria estripulias, e eu adorava. Saíamos girando, rodando, e se quebrássemos copos ou cristais, não havia nada demais. O que importava, era estarmos ali, naquela cumplicidade maravilhosa, naquele encontro promovido pelo destino e abençoado pelos anjos que passaram por nós no momento de nossa junção astral.

Olhei para trás e apaguei a luz. Viver do passado era bom, pois nele eu tive momentos únicos. Subi cada degrau acarpetado, procurando pisar exatamente onde ela pisava. Sim, eu sei até onde aqueles pequenos pés pisavam a escada. Ela deixava um pedaço do calcanhar para fora, e tantas vezes eu a corrigi, temendo por uma queda. E hoje, eu faço a mesma coisa. No andar de cima, mais lembranças, e em cada cômodo, uma peça de roupa dela para me lembrar da magia dos detalhes. O roupão de banho, o pijama, o gorro para o frio, as pantufas do Frajola. Olhei um por um, e senti o perfume deixado por ela naquelas roupas.

Enfim, o caminho do quarto. Abri lentamente a porta e sentei na cama. Durante anos, muitos, procurei por alguém como ela, que me completou em minha própria essência. E ela estava ali, dormindo serenamente em minha cama, minha esposa, alguém que sofreu muito durante vários anos, mas que estava ali, coberta pelos mesmos cobertores que eu. Sua face mostrava um leve sorriso, e de seu semblante, brotava uma paz profunda. Num leve suspiro, ela se virou para mim e resmungou algo, talvez motivada por algum sonho.

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Passei a mão em seu rosto e senti seu calor. Tão pura, e quem sabe fosse agora que eu devesse dizer “tão minha”, mas não direi isso, pois o que mais tentei ensinar para ela, é que ela pertence a ela própria, somente a ela e a mais ninguém. Ela anda ao meu lado. Nem atrás e nem adiante, sempre ao meu lado. Deitei ali e puxei o cobertor até nos cobrir quase por inteiro, pois sabia que outra manhã logo nasceria, e começaríamos mais um dia de felicidades. Ela logo se aninhou em meus braços, e meu corpo a acolheu exatamente como meu coração faz a cada momento, ela estando perto ou não.

Adormeci certo de que sonharia com ela, mas seria difícil ter um sonho mais belo do que essa realidade em que estou vivendo. A felicidade pode, claro, ser feita de momentos, mas nada melhor do que viver cada um deles de uma forma intensa e única, fazendo com que cada dia seja um eterno “dia dos namorados”.

Marcio JR

segunda-feira, 30 de maio de 2011

NEM SÓ DE WEB VIVE O HOMEM

Chocolate Laka / image by Google
Realmente, não vivemos só de internet, mas é nela que temos a chance de buscar muita coisa que ficou para trás, e que em décadas passadas, jamais teríamos acesso.

Meus dias têm sido muito atribulados, sem tempo sequer para respirar por vezes. Mas, como ninguém é de ferro, em alguns momentos tiro umas “horinhas” para repousar a cabeça. Num desses momentos, e fazendo uma seção nostalgia, garimpei duas preciosidades do meu passado.

Abaixo estão dois vídeos que mostram como as coisas boas passam e, se não cuidarmos, esquecemos rapidinho.

Martin Lawrence e Tim Robbins
image by ADORO CINEMA
Este primeiro vídeo mostra uma cena do filme NADA A PERDER (Nothing to Lose) lançado originalmente em 1997. Nele aparecem os atores Martim Lawrence e Tim Robbins numa das cenas que mais me fizeram rir. Desde que reencontrei este vídeo, assisto-o no mínimo 10 vezes por dia. A cena, além de hilária, mostra como os atores realmente incorporaram o papel, e se divertiram com ele. Sem contar a música, que casou perfeitamente com a cena.

Filme NOTHING TO LOSE / video by YouTube

Mais informações sobre o filme: ADORO CINEMA.

O segundo vídeo é um dos clássicos da publicidade brasileira, o comercial LAKA – ME DÁ UM BEIJO, de 1987. O interessante aqui, além do trabalho muito bem elaborado pela equipe publicitária, é o resgate de uma das pérolas (opinião minha) da música romântica internacional. Muitos pensam que a balada “Crying in the Rain” é do grupo A-HA, mas eles apenas re-gravaram a música (1991). Ela foi lançada originalmente pela dupla THE EVERLY BROTHERS, no ano de 1961.

Propaganda do chocolate LAKA / video by YouTube

Nos players abaixo, a versão completa das duas músicas apresentadas nos vídeos.



Scatman John - Scatman / by YouTube



The Everly Brothers - Crying in the Rain / by YouTube
(especialmente para ILY, com todo meu amor)



Para os curiosos ou saudosistas, uma foto da dupla The Everly Brothers:

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Marcio JR

segunda-feira, 23 de maio de 2011

AMOR ETERNO

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A manhã da sol se mostrava linda naquele jardim. Pássaros e abelhas voavam e mostravam a alegria de estarem ali, numa comunhão entre amor e natureza. Eu caminhava lento, ladeando aquelas flores tão bem cuidadas, e levava pelas mãos a minha amada companheira. Estávamos velhos, sem aquele vigor da juventude, mas andávamos ali, lado a lado naquele jardim. Construímos toda uma vida ali, e aprendemos que aquele jardim não teria sentido se não pudéssemos andar assim, um ao lado do outro.

image by Google
Eu olhava minha amada, seus doces olhos, seu sorriso. Nunca deixamos, em todos os nossos momentos, de nos beijarmos pela manhã e de refazer nossos votos de amor eterno. E o resultado de nosso amor estava ali, do outro lado daquelas flores: nossos filhos, nossos lindos filhos, cada um deles com seus filhos também. Nossa filha, tão bela quanto a mãe, e tão sapeca também, e nosso filho, homem forte, vigoroso, mas bondoso e sensível, chorão igual ao pai, eram nossas razões de viver. E os dois, iguais a nós, sempre apaixonados pela vida.

Minha amada caminhou para o outro lado, e ficou me esperando, tão serena, tão linda. Seu coração pulsava forte, me chamando, e eu, sempre apaixonado, fui até ela e a abracei, como fiz por anos sempre que algo me entristecia ou me alegrava, ou então quando estávamos próximos, só pelo gosto de estarmos juntos. E nunca, em dia algum, deixei de agradecer por tê-la encontrado, tê-la conhecido e por ela ter-me aceitado como sou. Tanto aprendemos juntos, choramos juntos, amamos juntos. E ensinamos tudo isso para nossos filhos, que ensinarão aos seus também.

Paraíso / image by Google
A perfeição nunca foi nosso objetivo, e nossos defeitos nos ajudaram a conhecer melhor um ao outro. Caminhamos, eu e ela, para o portão e paramos, num último olhar para nossos filhos. Choramos então, os dois, e os abençoamos. Eles sorriram, talvez pela pirraça que os pássaros faziam, mas sabíamos que aqueles sorrisos eram para nós. Não haveria adeus, apenas um “até breve”. E sorrimos também, seguindo nosso caminho para a vida eterna. Deus nos deu algo muito maior do que qualquer sentimento, e mesmo depois que deixamos esse mundo, que fizemos essa travessia que alguns temem, continuamos nos amando por toda a eternidade.

Marcio JR

sábado, 14 de maio de 2011

CHICO CONTENTE – MATUTO SIM, BURRO JAMAIS.

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Aquele final de manhã de sábado teria tudo para ser normal. Pleno outono, de um mês de abril lá na década de 30. O lugar? Piracicaba.

Algumas pessoas caminhavam tranquilas pela rua, e se cumprimentavam naquela prática muito mais gentil do que obrigatória, originária de uma educação que já não existe mais. Os homens tiravam seus chapéus em reverência, e as mulheres curvavam a cabeça, em agradecimento. Mais adiante, no armazém de seu Anésio, alguns fregueses faziam suas compras e aproveitavam para por as conversas em dia, mas não desgrudavam a atenção da estrada.

--Ixe! Lá vem o Chico Contente di novo, cum mais uma carroçada di galinha. Oh! Anésio, qui é qui esse porquêra tá puxano esses frangote a manhã toda, sô?

--Puis óie! Tumem tô c’os bicho carpintero atentado, homi! Vô dá um brado pr’ele vir ter uns dedo di prosa aqui.

E lá foi seu Anésio, cercar o Chico. O matuto, assim que viu o dono do armazém chamando-o, ordenou ao rapaz que o acompanhava a seguir na jornada, e desceu da carroça, ganhando o rumo do armazém. Ao entrar, foi para o balcão e cumprimentou a todos apenas com um gesto de cabeça.

--Chico, tudas as pessoa tão matutano aqui. --comentou o dono do armazém, enquanto servia uma dose de cachaça ao recém chegado. --U qui é tuda essa galinhada qui ocê tá puxano a manhã interinha, hómi?

O Chico virou o rosto de lado e deu uma cuspidela no chão, quase acertando o pé de outra pessoa que estava ao seu lado. A pessoa, por sua vez, deu um pequeno salto, chegando mais para o lado. E o Chico, ao se voltar para o outro lado, apenas mirou o chão e fez menção de repetir o gesto, mas não foi necessário terminá-lo, pois aquele que estava ali tratou de se afastar imediatamente.

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--Puis, óie. Pareceu lá nu sítio, um ingomadinho lá das banda de Itú, cuma proposta vantajosa pur dí mais. Metade da minha tropa di mula por uma baita popriedade di terra, coisa di virá a cabeça di quarqué um.

--Eita! --seu Anésio se interessou no assunto, mas se mostrou preocupado. --Conta miór isso daí, qui to achano qui tem arapuca nissu tudo. Ondi qui é essa tar popriedade, sô? É nos arredor nosso daqui di Piracicaba?

--Mais, seu Anésio, num é qui num é? É um lote prás banda do céu! --Chico arrematou de forma tranquila. --Um baita terrenão, cum iscritura i tudo. I o abestado do moço inda levô minhas pior mula.

Todos os que estavam no armazém ficaram estarrecidos. Mas, foi seu Anésio quem ficou mais irritado com o que ouviu.

--Chico, seu burro! Cumé qui vóis micê mi entra numa lorota dessas, hómi? Num tá vêno qui isso é tramóia? Esses larápio vêm aqui i passa a perna ni nóis, i adespois sai pur aí ispaiano qui nóis é tapado i burro, i tudo acurpado são ocêis, qui si apinxam no conto do vigário. Será qui só eu qui tenho miolo nesses arredor? Pur pura sorte, meu pai mi insino a se isperto i eu passo isso pru meu fio, que virô sitiante dos bão.

--Carma, seu Anésio. --um dos clientes falou ao comerciante, como se desconfiasse que ainda havia mais coisa a ser contada. --Dexa o Chico caba a história, ara!

--Dexo, nada! --seu Anésio continuou em sua irritação. --Esse daí é pur dimais gaiato, mais é burro inguar as mula dele. Mais vá, trimina logo essa história, qui adespois, vô lá contá pru meu pai a ingomada qui ti déro. I tem mais. Quí é qui essas galinha tem cum tudo isso?

--Bão. --Chico coçou o queixo e tomou um gole de sua cachaça, estendendo o copo como se pedisse mais uma dose. --Matutei qui matutei, i achei qui aquilo tudo era muita terra pra ieu suzinho, i vindi a metade. Cumo pagamento, aceitei essas quinhentas galinha, qui vale muito mais du qui aquelas déiz mula véia que gastei no negócio.

mula / image by Google
--Mais ieu to falano! --seu Anésio bufava, ainda mais irritado. --Ocêis num vale o ar qui arrespira. Seus asno. Será qui só vai restá ieu i minha famía cum miolo pur aqui? Quem foi o miolo móle qui vóis micê inrolo nessa presepada?

--Óia. --completamente calmo, Chico se despediu de todos com um aceno de cabeça e foi na direção da porta. De lá, olhou para trás e encarou seu Anésio diretamente nos olhos. --A metadi ieu vendi pro Quinzinho, vosso fio, na troca das galinha. Mais dona Matirde, vossa mãe, já mando mi avisá qui o cumpadi Heitor, vosso pai, tá mi percurano prá módi nóis negociá o restante. Mi parece qui ele qué investi num miarar celeste, i já qué mi incomenda inté as semente. Quem sabi, nóis num negoceia as mula qui mi restô prá puxá a safra celeste tumem?



Marcio JR

sexta-feira, 13 de maio de 2011

TRAVESSURAS DA LOIRINHA: TUDO CULPA DO MACACO


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 --Oh! Paiêêêê! --a loirinha gritou, correndo pelo jardim e já quase entrando em casa, praticamente arrastando uma amiguinha pelo braço. --Cadê aquele teu pincel nuclear?

--Calma, filha. Não corra dentro de casa, ou você pode se machucar. --E não é pincel nuclear, e sim, pincel atômico. Está lá na biblioteca. Mas, por que você precisa dele?

--Tem um monte de brincadeiras “lesgais” no blog do Xipan... e eu quero brincar também. Já brincamos de montão lá na casa da Clarinha. Deixa a gente brincar aqui também? Deixa, vai? Diz que sim, diz que sim. Diiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz!

--Claro. Mas quem é esse tal Xipan? E o que é “lesgal”?

--Depois te conto. Vamos, Clarinha. Dá pra usar o computador da biblioteca.

O pai apenas balançou a cabeça e sorriu. Lembrou de sua infância, e de como eram boas as brincadeiras sem os artifícios eletrônicos, mas, como ele sempre dizia, “o tempo passa, então, acostume-se a ele”.

Algum tempo depois, as meninas corriam novamente pelos corredores da casa. O pai interrompeu a leitura de um jornal e chamou a atenção das meninas.

--Não corram dentro de casa, crianças. Já cansaram das brincadeiras no tal blog do Xipan?

--Nada, pai. O macaco é show. Mas é que o computador da biblioteca tá ruim. Vamos usar o do meu quarto.

--O computador da biblioteca tá ruim? Como assim, se ele é novinho? E que história é essa do Xipan ser um macaco?

As meninas sequer prestaram atenção ao pai, e sumiram pelo corredor. Mas não demorou muito tempo, e elas estavam em algazarra novamente, só que agora, no segundo andar da casa.

--Oh! Papito querido. Não se preocupa não, que só estamos trocando de computador. Vamos pegar o “notebuque” da mamãe, tá bom?

O pai, absorto na leitura do jornal, pouco deu atenção, mas estranhou quando, um pouco mais tarde, as meninas passavam por ele e se dirigiam para a pequena marcenaria que ele mantinha nos fundos de casa. Nas mãos da loirinha, o tal pincel atômico.

Algo estava acontecendo, e a curiosidade o fez largar o jornal e seguir as meninas, apenas por garantia. E lá foi ele, pisando macio para não fazer nenhum barulho, até que chegou ao puxado, nos fundos da casa. Lá, as meninas faziam farra diante do computador, e ao que tudo indicava, utilizavam aquela dita caneta para escrever diretamente na tela do aparelho.

--Mas, o que é que vocês duas estão fazendo, afinal? --o pai perguntou, fazendo ares de descontente.

--Ué! –a loirinha deu de ombros, voltando-se para o pai. --Joguinho dos sete erros do blog do Xipan Zeca, papai.

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--Mas, mas, mas... vocês estão riscando toda a tela do meu notebook! Por que não imprimiram esse negócio?

--Era prá imprimir o "gonócio"? Ops! --um sorriso amarelado apareceu nos lábios da loirinha. --Será que o papai vai ficar muito brabo quando descobrir que já fizemos liga-ponto, caça-palavras, labirinto e pintamos o macaquinho nos outros computadores? Mas, olha papi, é tudo culpa do Xipan. Quem manda ele não escrever lá no blog que era para imprimir as "bagacinha"?

--Essa menina sozinha, já é um suplício. E agora, arranja um macaco para ajudar a dar idéias? --o pai desanimou, deixando cair os ombros. --O mundo tá perdido. 

Marcio JR

terça-feira, 10 de maio de 2011

MUITO ALÉM DE UM OLHAR

Jesus e as Crianças / image by Google
Conta a lenda, que quando Jesus andou na terra, ele foi convidado a ir até um vilarejo muito rico. Lá, todos queriam a salvação, e pensavam que agradando a Jesus, eles conseguiriam uma passagem para o reino de Deus.

Jesus aceitou o convite, e iniciou sua caminhada até o vilarejo. A pessoa que o convidou se apressou e correu na frente, montado em seu belo cavalo, para preparar uma grande festa. Levaria alguns dias para que Jesus chegasse até lá, e a comemoração em homenagem a ele deveria ser a maior já vista. E assim foi feito.

Vários escravos foram trazidos de todos cantos, muitos cabritos recheavam espetos e panelas, outros ficaram guardados para sacrifício, e as donzelas acabaram retiradas para seus lares e trancadas, para que Jesus pudesse escolher uma delas para desposar. Enfim, tudo estava preparado para a satisfação do salvador daquelas almas.

Quando finalmente o grande dia chegou, todos estavam afoitos. Esperavam ansiosamente pela entrada do Mestre pelos portões da aldeia. Mas ele não chegava. Mandaram que batedores verificassem o caminho, e nada. E foram todos para os portões do vilarejo. Então, sem que eles se apercebessem, alguém vindo de dentro da vila chamou-os.

--O que vocês tanto esperam? Por que a ansiedade?

Todos olharam para trás, e se surpreenderam ao reparar que aquele que os chamava era, justamente, Jesus. Correram até ele, cercaram-no e caíram de joelhos. Alguns trouxeram pão e vinho, e os mais afoitos já carregavam até as filhas para entregar ao Mestre.

--Parem com tudo isso. --Jesus ordenou, afastando-se. --Vocês querem salvar suas almas dessa forma, comprando o perdão? Passei entre vocês, vestido de mendigo, e quase ninguém me viu. Só ligam para a ganância que carregam nos olhos.

--Mas, senhor. Se estava disfarçado, como poderíamos vê-lo? E quem o reconheceu, afinal?

Jesus se afastou um pouco e puxou para perto de si uma menina, muito nova e com trajes rasgados e sujos.

Jesus e as Crianças / by Google
--Senhor, isso é impossível! --um dos aldeões se indignou, chegando mais próximo do Mestre. --Essa menina, além de escrava, é cega!

--Sim, ela é uma escrava, e também cega. Mas ela não me viu com os olhos do rosto, ela me enxergou com o coração. E quando me aproximei, ela me acolheu de imediato, mesmo eu me vestindo de mendigo, e dividiu comigo as únicas coisas que tinha dela própria. Algo que, pelo que vejo, falta a todos vocês e os afasta cada vez mais do Pai.

--Mas o que uma escrava pode ter que seja dela mesma, e que nós não temos?

Jesus, naquele momento, puxou a menina para perto de si e colocou a mão sobre a cabeça dela. Ficou assim alguns instantes e depois olhou um por um daqueles que o cercavam, até que falou:

--Ela tem algo que ninguém pode retirar, seja pela escravidão ou pela cegueira. Ela tem amor no coração e humildade.



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música: Ciclo Sem Fim / Tema do filme O REI LEÃO
Um presente para uma GUERREIRA
FLÁVIA



Este texto é dedicado a alguém muito especial, uma menina de 14 anos, e que perdeu a visão em 2008. O nome dela é FLAVIA, e a história dela chegou até mim faz pouco tempo, através de uma amiga blogueira, chamada Otília (blog DE MÃE PARA MÃE).

Não conheço a FLÁVIA, mas adquiri por ela uma grande afeição. Ela é batalhadora, e mesmo tendo tudo para se entristecer, ainda sorri, e não perdeu as esperanças de, um dia, voltar a enxergar. Para aqueles que quiserem conhecer um pouco mais da história dela, basta clicar neste link (FLÁVIA..MEU NOVO E DOCE APRENDIZADO!!! ).

Se estivesse diante dela agora, creio que não diria absolutamente nada. Sorriria para ela, e acho que algumas lágrimas correriam. Mas falaria sim, através do coração, porque sei que o coraçãozinho dela vê tudo o que se passa a sua volta.

Peço àqueles que passarem por aqui hoje, que não deixem abraços ou beijos para mim, mas sim para ela, que merece todos os abraços e beijos do mundo. 


Deixe, se quiser, um recadinho para a Flávia, pois tenho certeza de que alguém irá ler para ela, não é OTÍLIA?


Marcio JR

domingo, 8 de maio de 2011

RETALHOS

Geada em Curitiba / image by Google
Existem três coisas que geram um fascínio automático em minha mente: um sorriso qualquer pela manhã, um par de olhos curiosos e a palavra “saudade”. 

Era um inverno rigoroso, e minha mãe, que sempre gostou de acordar antes do sol nascer, me chamava muito cedo para ir à escola. Não era muito longe de casa e, após o parco café da manhã, saíamos eu e minha irmã, cada um com seus poucos cadernos e com as mínimas roupas de frio que tínhamos. O calçado fino me faz lembrar até hoje do chão gelado e da sensação horrível e dolorosa que isso trazia. Essas lembranças faziam par com o vento frio que nos cortava o rosto, resultante das geadas que deixavam tudo branco e com um aspecto belo, mesmo sendo terrível de se aguentar. No meio da caminhada, surgiam do horizonte aqueles filetes de sol, que mais pareciam mágicos, misturando-se ao vapor que saia de nossas bocas quando respirávamos. Adiante, mais e mais crianças se juntavam a nós, e ao nos darmos conta, éramos muitos.

image by Google
Próximo à escola, sempre reparava uma senhora, já bem velha, sentada numa cadeira, quase fora de seu portão. Ela pouco se importava com o frio, e durante anos esteve ali, com sua face amarrotada e castigada pelo tempo. Seu cabelo estava sempre preso, e era esplendidamente branco, um verdadeiro algodão. Quando passávamos, ela nos mirava, calma, e nos seguia apenas com aquele par de olhos curiosos. Ela sabia que na volta, passaríamos por ali e, como se ela não soubesse, pegaríamos escondidos algumas frutas de seu pomar. Ela sempre via, mas nunca nos reprimiu ou negou uma daquelas frutas.

Pessegueiro / image by Google
Hoje, ao passar nesse mesmo lugar, a nostalgia me tomou. Senti saudades daquele frio nos pés, por mais cortante que ele fosse, e dos raios de sol secando o orvalho ou derretendo a geada. As árvores frutíferas não estão mais lá, sequer a casa está. Fiquei lá parado por alguns minutos, observando, até que veio em minha mente uma imagem daquela senhora. Lá estava ela, novamente, me olhando com aquele par de olhos curiosos. E é engraçado, pois foi somente hoje que lembrei da única vez em que a vi sorrindo. Foi numa manhã, a única em que fui à escola sozinho. Ao passar naquele lugar, ela mirou-me diretamente nos olhos e soltou aquele singelo sorriso. E então, naquela mesma noite, ela se foi.

Muita coisa aconteceu desde então, coisas boas e ruins. Mas é engraçado que são coisas tão simples, como essas acima, que nos marcam por toda uma vida.



Marcio JR