segunda-feira, 24 de junho de 2013

SOMENTE PARA SEUS OLHOS

óleo sobre tela - obra de Fátima Kelbert (imagem do Google)

"Somos, de fato, postos à prova todos os dias, desde as mínimas coisas até as mais difíceis decisões. E laboriosas situações também. 
Estamos diante das escolhas antes mesmo de abrir os olhos e mesmo depois de fechá-los.

Se sonhamos, ou temos pesadelos, será por consequência dos tipos de pensamentos que alimentamos um dia inteiro? E quiçá uma vida inteira?"
Samara Bassi



Era do alto daquele prédio que ele via as manhãs nascendo ou o dia se esvaindo. Estações do ano iam e vinham, ora com suas folhas amareladas sendo sopradas pelo vento, ora com novas folhas brotando dos galhos das árvores para, em tempos vindouros, tornarem a amarelar.

Assim o tempo passava, e ele ficava por lá, no alto daquele prédio. Mas não era louco, nem tanto desistira de viver uma vida comum, junto aos seus. Apenas gostava de observar a movimentação alucinada daquela alcateia humana, que em seus momentos mais calmos, eram capazes de se engolir uns aos outros.

No que se transformara aquele local tão tranquilo a que ele tanto se acostumara em seus bons tempos de criança? Onde estava o prazer de dizer “bom dia” a um conhecido qualquer e que sequer se sabia o nome? Perdera-se a educação, ou era o mundo que estava apressado em demasia? Ou seriam os frutos amargos de uma árvore chamada Progresso?

Carroças e coches viraram automóveis de luxo, e a comunicação já quase vinha embutida na orelha das pessoas. Elas, agora, pareciam falar sozinhas, e isso sim era estranho. Mas, tudo bem. Cada um com sua pressa ou sua loucura. E ele não estranharia se, em pouco tempo, as pessoas começassem a voar sem asas. Ah! Como seria bom. Ele próprio trataria de comprar algum aparelho para isso, só para chegar bem perto das nuvens mais altas e de lá, fazer xixi mirando o mundo lá embaixo. Daria risada por saber que muitos iriam pensar que se trataria de chuva ácida.

―Como são bobos! ―comentou baixinho e soltando uma risada de canto de boca.

Voltou os olhos para uma tela branca a sua frente. Durante dias tentou captar algo para preencher de cor aquele pano já sujo pela fumaça. Sem se esperar, algumas gotas de chuva molharam a tela, e nesse instante ele reparou algo inusitado. A água da chuva reagiu com os resquícios de poeira e poluição que estavam na tela, formando um borrão estranho. “Uma mulher”, pensou ele.

―Uma linda e delicada fêmea em minha tela! Vejam só.

Foi então que sentou em seu pequeno banco, dando vazão a tudo o que brotava de seu olhos e mãos. Quanto mais chovia, mais borrava e mais ele se entusiasmava. Aquela parecia ser, definitivamente, sua melhor obra. Sim, era agora uma mulher, e era tão bela que ele, em sua empolgação, esqueceu até da chuva.

Curitiba antiga - 1952 (imagem do Google)
Aquela foi sua obra-prima, nascida do cotidiano de muitos que, com seu progresso, propiciavam a fumaça que reagiu com a chuva e se fez tinta. De resto, o talento dele deu conta. Foi uma obra sem precedentes, pintada num único traço. Mas foi somente para seus olhos. O que ele não se deu conta, é que a chuva, mesmo ajudando a criar, logo depois tratou de lavar aquela tela.

O preço da criação, no entanto, foi mais alto do que parecia. A pneumonia, causada pela chuva fria, por muito pouco não o fez arcar com a morte. Com alguma sorte, muitos cuidados e também com os remédios da modernidade, conseguiu voltar ao alto daquele prédio tempos depois.

O banco, a murada de onde ele observava o cotidiano, e também a tela no cavalete. Tudo estava ali.

Sentou e, pacientemente, esperou novamente pela chuva. Ela destruíra sua melhor criação, mas também fora responsável pela breve existência dela. Por que, então, não tentar novamente?


Por via das dúvidas, deixou um guarda-chuva disposto ao seu lado. Aprendera a lição.




*******************



Um agradecimento

Quero agradecer, de todo o coração, ao gesto maravilhoso de Samara Bassi, que gentilmente tem me cedido o direito de citá-la (fragmentos de seus comentários aos meus textos) em minhas crônicas e contos.
Poder compartilhar daquilo que ela escreve ou pensa é um prazer único.

Mais de Samara Bassi aqui: Uma canção pra você viver mais 

Marcio Rutes
(Marcio JR)


quarta-feira, 19 de junho de 2013

DOS ELEMENTOS QUE ME COMPÕEM

imagem: arquivo pessoal - todos os direitos reservados

MÃOS
"Elas também são casas.
São, ainda, o intermédio
da criação de nossa alma 
no mundo. Na escolha 
das cores, nos traçados, 
nos rabiscos. Escrevem e 
apagam. Rascunham. Tecem 
uma constelação bonita de 
tantas outras mãos e brilham, 
quando cumprimentam a vida."

Samara Bassi






Da sugestão de uma palavra, ou do sabor de uma brisa, sempre brotam momentos inesquecíveis. E mesmo que a palavra ou a brisa sejam intocáveis, o sentimento provocado por eles é suficiente para tornar tangível qualquer sonho de voar mais alto.

Tanto falei das mãos, dos sonhos e do tempo, que creio ter feito um elo entre essas três coisas. Sempre esparsos, esses três elementos vinham a mim como um alento. Em cada período que algo não estava bem, lá estava um deles me socorrendo. Por vezes, o tempo se encarregava de cicatrizar uma ou outra ferida, enquanto que os sonhos me acomodavam num descansar da alma. Assim, tudo amainava e caminhava num ritmo todo meu, embalado pelo som de uma flauta de Pan, encontrada unicamente em meus momentos oníricos. Tantas foram as vezes que um par de mãos alvas e pequenas apareceram em meus sonhos segurando essa flauta. Mãos. Mãos segurando uma flauta. Mãos, sonhos e tempo.

Quando me dei conta, tracei toda uma vida sonhando. Nunca me deixei ficar sem esse algo a mais que permeia alguns de nós. Sim, algo a mais. O sonhar é um “querer ir além”, como se aquilo que se apresenta não bastasse. Não me refiro à ganância, pelo contrário, mas sim ao fato de buscar algo que se acredite ser bom, de descobrir novas fronteiras. Num certo dia, o sonho ficou maior do que eu, e precisou vir a tona, e um novo elemento juntou-se aos meus dias: a palavra.

Escrevi tanto, mas tanto, que nem sei se não me soterrei nas minhas próprias confabulações. Mas tudo bem, sempre foi tudo tão introspectivo, tão guardado para mim mesmo... será que foi mesmo? Não, não foi. Assim como aconteceu com os sonhos, minhas palavras também tomaram corpo e cresceram, escapando de mim. Espalharam. A brisa deu jeito de espalhá-las. E aí está o quinto elemento que compõe minha existência. O vento.

O sonho, o tempo, a palavra e a brisa. Quatro elementos que seguiram sempre comigo. Acostumei-me a eles de tal forma, que se qualquer um deles faltasse, eu próprio não me reconheceria no espelho d’água que carregamos nos olhos. Todavia, ainda faltava um elemento para ser trazido a mim: as mãos que seguravam aquela flauta de Pam em meus sonhos. Foi quando o vento e a palavra decidiram se encarregar de buscá-las.

Num sem-querer dessas esquinas do destino, o vento (carregando minhas palavras), fez uma curva e estacionou num remanso que acalentava não a música de Pan, mas sim as mãos de alguém que escrevia palavras tão sublimes, que o próprio Pan se encantava com elas e compunha suas músicas. O vento, sem pestanejar, descarregou ali as minhas palavras e voltou, tal qual um pombo-correio apressado, para me guiar até essas mãos mágicas.

O tempo entrou em ação, atiçou os sonhos, e por mais de dois anos, me fez fazer brotar palavras suficientes para atulhar de trabalho o coitado do vento. Isso tudo unicamente para banhar com letras aquele par de mãos serenas e mágicas que ele próprio, o vento, havia encontrado.

imagem: arquivo pessoal - todos os direitos reservados
Soberano, o tempo correu e fez das suas. Mas não foi carrasco. Num dia de outono, de leve brisa, aquele par de mãos fecharam um ciclo em minha vida. Essas mãos, juntamente com as minhas, num enlace de calor e magia, fecundaram algo que ficará marcado para sempre em mim. O sentimento de completude me veio, como se os cinco elementos que me formam estivessem juntos e alinhados. O espiritual e o carnal tornaram-se um só, e toquei a vida como poucos fizeram. Entendi a essência que me compõe.

Mãos. Não as minhas, mas aquelas que me guiaram para meu próprio eu. As mãos alvas, macias e quentes. As mãos daquela que compôs as notas para acertar o compasso do meu coração. Não são mágicas, mas sim milagrosas. Sabem fazer laços sem amarras, e juntamente aos braços, enlaçam num abraço onde somente o mais tolo pensaria em se libertar.


Dou-me por completo, onde cada elemento que há em mim me foi presenteado por um ser divino. O maior e mais valioso presente que me foi dado? O último elemento, claro. As mãos. E o bom é que elas me trouxeram junto alguém muito especial. Mãos, corpo, alma e coração. Alguém muito além daquilo que meu sonho mais intenso pudesse ter imaginado.


Marcio Rutes
(Marcio JR)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

BRISA FRIA DE OUTONO

crônicas de uma música

image by Google






“Das minhas buscas, eu não sei da ordem, pois todas são prioridades e meus olhos apenas se fecham para senti-las melhor, para resgatar aquela maresia preenchendo o peito e todo o som ao redor dos meus ouvidos, mesmo que numa espreitada, numa curva, numa tsunami interna e desconhecida.
Samara Bassi






Carregava um sonho na palma das mãos. E cantava também. Cantarolava Don´t Know Why, em voz baixa e bem ritmada, enquanto caminhava em meio aquele turbilhão de pessoas apressadas. Os olhos, agora calmos, mostravam o avermelhado deixado pelas lágrimas de antes, secadas com a seda de um par de mãos pequenas e alvas. Mãos quentes aquelas.

Um esbarrão ou outro não eram suficientes para tirá-lo de seus pensamentos. Como ela estaria agora? O que estaria fazendo? Talvez cantarolando a mesma música que o tomava por horas.

Os rostos contrários quase raspavam o seu, e ele sequer se preocupava em desviar. Na realidade, ele não enxergava mais nada além da rua e da pouca luminosidade do fim de tarde. Logo anoiteceria. Uma noite feita para não ser dormida, mas sim consumida com parcimônia. Algumas estrelas apareceriam, por certo, mesmo que vítimas da luz forte da metrópole. Tão fácil confundir discos voadores com estrelas, mas ele não se importava. A artificialidade do modernismo já não importava mais. Queria apenas o natural do pio da coruja, mas isso ele não teria ali. Teria que imaginar por si próprio os gorjeios da madrugada.

O vento, um tanto repentino, barrou seus passos. Lavanda. Sentiu-se inundar pelo odor canforado que bailava pelo ar. Arregaçou a manga da camisa e cheirou os braços. Ela passara lavanda em seus pulsos, mas não era dali que o cheiro perpetuava. Vinha de longe, vinha do alto. E ele apenas afinou o olfato e seguiu o vento. Talvez uma superfície de riso estivesse ancorada no mais frio dos arredores. Era assim que ele sentia aquele cheiro refrescante, como um riso sem fim a tomá-lo.

Consumiu as escadas lentamente, passo por passo, como se cadenciasse a respiração e a passada, até que chegou diante da porta. Novamente lavanda. Entrou. A música brotou do interior daquele quarto, e num instante ele escutou

“...eu esperei até o sol raiar
não sei por quê eu não fui;
deixei você ali, onde você gosta de estar,
não sei por quê eu não fui...”.

Tantas foram as vezes em que acovardou os sentimentos, que guardou tristezas, ou que deixou de ir. Mas hoje ele entende. Não era a hora, nem aquilo que parecia ser. Não era ele ou o destino, mas um recontar de histórias gêmeas. Não era ela em outros bancos de praça, nem tanto era o vestido dela a bailar sob o sol da tarde.

image by Google
Ali era o lugar onde ela gostava de estar, e ele não a deixou ali. Desta vez não. Foi buscar um abraço devido aos dois, ou um caminhar de mãos dadas pelo chão de estrelas que ela tantas vezes pintou em letras pelas telas da vida. Vinho e macarrão nunca foram tão saborosos numa noite de outono. Foi quando o pulsar sereno da noitinha revelou o sorriso largo de alguém que saia do outro cômodo. Pele alva e mãos pequenas recepcionaram-no num abraço sem medida.

Não foi preciso esperar até o sol raiar.





X X X X X X X X X X


crônicas de uma música

O texto acima não é uma tradução e não faz menção literal à música "Don´t Know Why" de Norah Jones. Longe disso, pois em qualquer tradução, muitas vezes existe a perda da essência daquilo que se traduz. O que fiz foi apenas escrever de forma alusiva o que sinto e visualizo quando escuto tal canção.



música Don´t  Know Why (Norah Jones) - by YouTube



Marcio JR
(Marcio Rutes)