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quarta-feira, 19 de junho de 2013

DOS ELEMENTOS QUE ME COMPÕEM

imagem: arquivo pessoal - todos os direitos reservados

MÃOS
"Elas também são casas.
São, ainda, o intermédio
da criação de nossa alma 
no mundo. Na escolha 
das cores, nos traçados, 
nos rabiscos. Escrevem e 
apagam. Rascunham. Tecem 
uma constelação bonita de 
tantas outras mãos e brilham, 
quando cumprimentam a vida."

Samara Bassi






Da sugestão de uma palavra, ou do sabor de uma brisa, sempre brotam momentos inesquecíveis. E mesmo que a palavra ou a brisa sejam intocáveis, o sentimento provocado por eles é suficiente para tornar tangível qualquer sonho de voar mais alto.

Tanto falei das mãos, dos sonhos e do tempo, que creio ter feito um elo entre essas três coisas. Sempre esparsos, esses três elementos vinham a mim como um alento. Em cada período que algo não estava bem, lá estava um deles me socorrendo. Por vezes, o tempo se encarregava de cicatrizar uma ou outra ferida, enquanto que os sonhos me acomodavam num descansar da alma. Assim, tudo amainava e caminhava num ritmo todo meu, embalado pelo som de uma flauta de Pan, encontrada unicamente em meus momentos oníricos. Tantas foram as vezes que um par de mãos alvas e pequenas apareceram em meus sonhos segurando essa flauta. Mãos. Mãos segurando uma flauta. Mãos, sonhos e tempo.

Quando me dei conta, tracei toda uma vida sonhando. Nunca me deixei ficar sem esse algo a mais que permeia alguns de nós. Sim, algo a mais. O sonhar é um “querer ir além”, como se aquilo que se apresenta não bastasse. Não me refiro à ganância, pelo contrário, mas sim ao fato de buscar algo que se acredite ser bom, de descobrir novas fronteiras. Num certo dia, o sonho ficou maior do que eu, e precisou vir a tona, e um novo elemento juntou-se aos meus dias: a palavra.

Escrevi tanto, mas tanto, que nem sei se não me soterrei nas minhas próprias confabulações. Mas tudo bem, sempre foi tudo tão introspectivo, tão guardado para mim mesmo... será que foi mesmo? Não, não foi. Assim como aconteceu com os sonhos, minhas palavras também tomaram corpo e cresceram, escapando de mim. Espalharam. A brisa deu jeito de espalhá-las. E aí está o quinto elemento que compõe minha existência. O vento.

O sonho, o tempo, a palavra e a brisa. Quatro elementos que seguiram sempre comigo. Acostumei-me a eles de tal forma, que se qualquer um deles faltasse, eu próprio não me reconheceria no espelho d’água que carregamos nos olhos. Todavia, ainda faltava um elemento para ser trazido a mim: as mãos que seguravam aquela flauta de Pam em meus sonhos. Foi quando o vento e a palavra decidiram se encarregar de buscá-las.

Num sem-querer dessas esquinas do destino, o vento (carregando minhas palavras), fez uma curva e estacionou num remanso que acalentava não a música de Pan, mas sim as mãos de alguém que escrevia palavras tão sublimes, que o próprio Pan se encantava com elas e compunha suas músicas. O vento, sem pestanejar, descarregou ali as minhas palavras e voltou, tal qual um pombo-correio apressado, para me guiar até essas mãos mágicas.

O tempo entrou em ação, atiçou os sonhos, e por mais de dois anos, me fez fazer brotar palavras suficientes para atulhar de trabalho o coitado do vento. Isso tudo unicamente para banhar com letras aquele par de mãos serenas e mágicas que ele próprio, o vento, havia encontrado.

imagem: arquivo pessoal - todos os direitos reservados
Soberano, o tempo correu e fez das suas. Mas não foi carrasco. Num dia de outono, de leve brisa, aquele par de mãos fecharam um ciclo em minha vida. Essas mãos, juntamente com as minhas, num enlace de calor e magia, fecundaram algo que ficará marcado para sempre em mim. O sentimento de completude me veio, como se os cinco elementos que me formam estivessem juntos e alinhados. O espiritual e o carnal tornaram-se um só, e toquei a vida como poucos fizeram. Entendi a essência que me compõe.

Mãos. Não as minhas, mas aquelas que me guiaram para meu próprio eu. As mãos alvas, macias e quentes. As mãos daquela que compôs as notas para acertar o compasso do meu coração. Não são mágicas, mas sim milagrosas. Sabem fazer laços sem amarras, e juntamente aos braços, enlaçam num abraço onde somente o mais tolo pensaria em se libertar.


Dou-me por completo, onde cada elemento que há em mim me foi presenteado por um ser divino. O maior e mais valioso presente que me foi dado? O último elemento, claro. As mãos. E o bom é que elas me trouxeram junto alguém muito especial. Mãos, corpo, alma e coração. Alguém muito além daquilo que meu sonho mais intenso pudesse ter imaginado.


Marcio Rutes
(Marcio JR)

domingo, 14 de abril de 2013

UM CHEIRO DE SAUDADE

image by Google
O saracoteio mascado e marcado no gingado daquele gado sinuelo apaixonava a menina. Lá da cerca ela olhava distante, se deixando flutuar sem sair do lugar. Ficava horas por ali, reparando aquele ir e vir dos bois no pasto. Cheiro de mato molhado era seu perfume preferido.

Ela, ainda meninota, era dona de uma pirraça gostosa, de um sacudir de ombros que era de atormentar o pobre do pai.

―Essa “muleca” vai me dar trabalho! ­­―resmungava o pai sempre que via a menina sumir pelo prado afora.

E assim ela cresceu, cheia de energia e vontade de conhecer gente nova. Sempre que podia, corria para a cidadezinha e ficava por lá, lendo as revistas usadas que o velho turco vendia no armazém. Era um deslumbramento único que florescia nos olhos quando ela parava em alguma foto da cidade grande. Coração batia forte. Na manhã seguinte, lá estava ela naquela cerca, conversando mesmo que distante com os sinuelos. Eles não entendiam nada, por certo, mas ela falava mesmo assim. Sonhava acordada enquanto falava. Quem sabe até vivesse aquele sonho ali mesmo, fazendo voar pelos campos cada pedacinho daquelas fotos da revista que ela trazia na memória.

Ela nunca teve medo de sonhar, muito menos de esconder ou de se render ao destino. Seu mundo, aquele que existia dentro dela, era maior do que aquele prado habitado pelo gado e pelos pássaros brancos. Ela queria, e iria, conhecer o que existia além das planícies. Queria, ao menos uma vez na vida, fazer parte de uma daquelas fotografias que ela sempre via lá no armazém do velho turco.

O tempo passou e ela cresceu. Já não cabia mais naquele lugar.

―Tá. Eu te mando pra cidade, pra você estudar. ―o pai concordava, mesmo a contragosto. ―Mas eu sei, essa menina arteira vai correr o mundo, e a saudade da poeira vermelha vai trazer ela de volta.

Os dias esticaram para ela. A ansiedade tomava seus instantes e sequer os sinuelos ela voltou a visitar. Comprou cada revista velha que o turco vendia, e praticamente decorou as palavras. Até que chegou o dia da partida. Mas mal sabia ela que o apito do trem seria o som que a acompanharia por quase 4 anos de seus futuros sonhos.

Demorou um pouco, mas lá estava ela, cercada pelos altos edifícios e por aquele corre-corre das pessoas apressadas. De nada adiantava ela falar “bom dia”, pois a única coisa que ela recebia em troca era um olhar desconfiado. Durante a noite não tinha pio de coruja, e no lugar das estrelas o que rebatia em sua janela era a luz daquela lâmpada irritante que ficava no poste da rua. Até o cheiro da cidade era outro. Um cheiro enjoado, de óleo queimado e fumaça. Como aquelas pessoas conseguiam passar o tempo todo com aquele cheiro no nariz?

O olhar arteiro da menina foi se perdendo pelo gris daquelas paredes tristes que rodeavam sua face. O balançar dos ombros agora era apenas um jeito de desviar desse ou daquele que quase trombava com ela naquela pressa urbana. E o que um dia fora um sonho recheado de magia, hoje é somente uma semente de ilusão que fez brotar uma saudade sem igual.

No quarto em que ela dormia, existia um cantinho onde ela cultivava um pedaço de seu passado. Lá, nesse canto, estavam as revistas que ela comprara do velho turco, aquelas mesmas que estampavam as fotos que despertaram tantos sonhos. Uma melancolia sem igual brotava dela a cada virar de páginas. O cheiro da revista velha fazia ela passear no tempo, e voltar para aquela cerca onde tanto tempo passou mirando o requebrar dos sinuelos. Hoje ela lembra que sequer foi lá para se despedir do gado e do mato molhado.

Em certa feita, o velho pai foi para a cidade. Queria ver a filha, e também tudo aquilo que ela contava nas cartas que enviava. Parecia tudo tão bonito no papel, descrito por ela quase em poesia, que ele chegava a pensar que a menina jamais voltaria para suas raízes. E assim ele se preparou para ouvi-la dizer que por lá ficaria.

image by Google
O abraço foi inesperado, terno e demorado. Ela, assim que enxergou o pai pela frente, pulou nos braços dele e respirou aquele cheiro que somente ele tinha. Era cheiro de infância, de vida, de mato, de gado sinuelo. Era cheiro de sonho bom, do único sonho que a tomava em cada noite naqueles tempos de triste realidade.

O pai não se conformou ao vê-la magra e pálida. O que haviam feito com sua menina arteira? Onde estava tudo aquilo que ela escrevia nas cartas? Todo aquele glamour da cidade grande? Seria tua mentira? O que ele via, de verdade, era uma tristeza sem tamanho tomando os olhos de sua filha.

Com um único toque das mãos no rosto do pai, ela fez um pedido velado, e que sequer precisou ser entendido para ser acatado. Voltaram no primeiro trem da manhã seguinte. E no cumprimento de um presságio, as boas-vindas foram dadas justamente por uma nuvem de poeira vermelha.

Os ombros da menina retomaram aos poucos aquele requebrar. O pai pensa que ela faz isso de tanto olhar os sinuelos, mas não liga mais para tal coisa. Ela voltou para a cidade logo depois disso. Precisava terminar os estudos, mas retornou rapidinho para a cidade pequena. Virou professora, e tem uma pequena escola lá ao lado do prado, pertinho dos sinuelos.

Por vezes, ela repara alguma meninota olhando revistas antigas e suspirando sobre aquelas fotos. Mas ela não fala nada. Sabe que em alguns momentos precisamos quase perder para reparar o valor que pequenas coisas podem ter.

Ficam lá, ela e as crianças, entretidos na lousa e nos cadernos. Até que o apito do trem avisa que é quase hora do almoço. A correria é tanta, que ela mal consegue se despedir de todas as crianças. E o trem se vai, levando gente embora para correr atrás de sonhos novos ou já um tanto batidos.

Uma coisa, no entanto, ela aprendeu com tudo isso. Sonhos velhos sempre fazem brotar novas saudades.



música AÇAÍ (Djavan) - by YouTube

Marcio JR
(Marcio Rutes)


sábado, 4 de fevereiro de 2012

...MORREU LÁ, SENTADO E CHORANDO!

image by Google
Era sempre uma cena triste, passar naquela ladeira e olhar a velha oficina de marcenaria e carpintaria. Na janela pequena, aquela que dava para a rua, aparecia seu Almar, carpinteiro, marceneiro, artesão e pescador dos bons. Ele ficava por lá, sentado na velha cadeira de palha, que o amparou por anos a fio. Essa cadeira fez parte de sua vida. Ela viu nascerem gamelas, cuias, pilões, violas de cocho, rabecas, violões... pois é, hoje chamaríamos o seu Almar de luthier, mas ele, mesmo um mestre sem entender as letras, se considerava apenas um marceneiro, nada mais do que isso. E como ele era bom. Tratava a madeira com uma paixão ardente. Falava com ela. Entendia cada nota que ela emitia mesmo antes de virar um instrumento.

música: UM VIOLEIRO TOCA (Almir Sater) - by YouTube

Seu Almar nasceu pobre, filho de agricultores, lá no começo do século passado. Família grande, muitos irmãos e um pai que amava música. Cresceu e, onde era a propriedade do pai, um vilarejo grande se formou, tirando um pouco a magia do lugar. Desde cedo se enveredou pela carpintaria, mas a marcenaria era algo natural dentro dele. Ainda criança, aos doze anos de idade, fabricou as ferramentas que lhe faltava para fazer pequenos artefatos de madeira. Eram utensílios domésticos para a mãe e objetos para auxiliar ao pai na lida da roça. Não viveu disso, não ganhou dinheiro, pois era da carpintaria que se sustentava, mas levou a marcenaria até o fim da vida como um linimento para a alma.

Cada ferramenta que ele fabricava era uma extensão de seus dedos e mãos. Tratava melhor delas do que um pai trata a um filho. Era delas que ele tirava alegria, e ele retribuía a elas com imenso respeito e amor. As ferramentas, fosse da carpintaria ou da marcenaria, eram responsáveis por algo que muito orgulhava àquele homem: jamais deixara de cumprir algo que tratara, fosse um serviço ou qualquer outra coisa. Jurava sempre que levaria isso até o fim da vida.

Das terras do pai, restou um pedaço de chão dobrado para ele, que logo foi tomado pelo vilarejo. Nunca teve posses, mas nem precisava de muito. Tinha sua carpintaria e, também, Mariquinha.

Ah! Mariquinha. A Maria dos cachos negros, como era chamada quando ainda menina. Longos cabelos e um sorriso sempre tímido nos lábios. A lavoura judiou dela desde criança, e aos quinze anos, se viu sozinha no mundo. Os pais, lavradores, morreram numa peste, sabe-se lá qual, pois sequer ela lembrava. Seu Alberto, pai de Almar e homem de alma boa, recolheu a moça. "Onde come um, comem dez, e ela não vai ficar no relento", disse ele, com um vozeirão de espantar até cavalo no pasto. Mas era esperto, e logo viu que teria mais do que uma filha. Teria uma nora.

No entanto, seu Alberto sempre cuidou. A moça casou pura, sem que Almar sequer tivesse beijado a moça antes do casamento. Ao menos assim se crê até hoje. E dona Mariquinha, prendada, fez de seu Almar o homem mais feliz daquele mundo. Tiveram filhos, oito no total, todos muito bem criados e educados. Nunca faltou nada. Nenhum deles há de dizer que o suor de seu Almar deixou algo faltar, seja na mesa das refeições, seja no companheirismo de pai, seja na educação que tiveram.

Mas o tempo não perdoa, voa. Cada um dos filhos, no seu devido momento, casou e foi para a cidade grande. Seu Almar sempre falava que enquanto tivesse dona Mariquinha e a carpintaria, viveria feliz, pois os filhos, mesmo com uma saudade danada de doída, esses ele criou para o mundo. Assim, envelheceu, e também Mariquinha, que mesmo com a pele amarrotada, era vista por seu Almar como “a seda que recobria um coração”. Não importava, para ele, a seda da pele, pois para essa, ele nunca ligou. Mas a seda dos sentimentos de um coração puro, que ele sempre enxergou na companheira, seria eterna.

Então, após os filhos partirem para a vida própria, dona Mariquinha passou a acompanhar seu Almar até a oficina todos os dias. Ele sentava naquela cadeira, a que dava para a janela, e ela ficava diante dele, em outra cadeira. Lá, ela cantarolava e asseava as ferramentas, enquanto ele trabalhava lentamente, conforme as mãos comandavam. Foi assim por vinte anos.

Os filhos vinham vez ou outra, e traziam os netos, mas nenhum se interessou em seguir os passos do avô. Até que um dia, numa manhã ensolarada, dona Mariquinha não acordou. E seu Almar chorou pela primeira vez na vida.

Os anos seguiram, poucos, até a morte de seu Almar. E dia após dia, ele foi para a carpintaria. Sentava na cadeira e trabalhava. Cantarolava as mesmas canções que dona Mariquinha cantava. E quer saber? Seu Almar conversava. Conversava muito. Conversava com dona Mariquinha. Loucura? Talvez. Para ele, no entanto, era a seda de um coração puro que vinha para descansar os olhos avermelhados pela saudade.

Quem olhava de fora, se entristecia. Via seu Almar lá, sentado e naquela agonia. Na hora de ir para casa, ele terminava o asseio das ferramentas. Não descuidou delas. Arrumava cada uma no lugar e fechava tudo. Ao sair, esperava um pouco e dizia, em pensamento: “Logo estaremos juntos. Assim que Deus quiser, eu irei”.

Numa tarde de setembro, um cliente muito antigo passou pela oficina de seu Almar. Ele encomendara uma viola de cocho há mais de um ano, mas não tinha pressa. Era uma forma de manter aquele pobre homem ocupado, tendo o que fazer do tempo. E naquele dia, o instrumento estava pronto.

image by Google
Ao entrar na oficina, o homem cumprimentou seu Almar, mas não obteve resposta. Ele estava ali, sentado naquele mesmo lugar e sorrindo, olhando para a cadeira em que dona Mariquinha sempre sentava. Ao lado, a viola prontinha. O homem ainda chamou novamente, mas logo viu que seu Almar não responderia. Havia uma paz imensa naquele lugar, e seu Almar, como dizem por aí, só esperou terminar seu compromisso, honesto que era, para depois ir encontrar a mulher amada.

Seu Almar morreu lá, sentado e chorando! Chorando o amor à vida, aos filhos. Chorou e cantou seu amor pelo trabalho, pela profissão, pelas tão estimadas ferramentas. Mas morreu sorrindo, sabendo que dona Mariquinha só esperava ele terminar aquele serviço contratado para vir buscá-lo. Ela sabia, como todos, do orgulho que ele possuía em jamais ter enganado ninguém. E não seria ali, nem diante de tanta saudade, que ele deixaria de cumprir um trato.

O marceneiro, o carpinteiro, o homem da alma musical não está mais lá, naquela janela. No entanto, muitos que passam por lá juram que escutam, ainda, a velha lixadeira fazendo barulho, uma mulher cantando e um homem amando intensamente a vida e a esposa.


Marcio JR


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

UMA CRÔNICA FALANDO DO AMOR E DA SAUDADE

Fui desafiado. Certa pessoa me criticou (uma boa crítica, aliás), dizendo que minhas crônicas e artigos têm de tudo, estudos comportamentais, sarcasmo, humor, coisas místicas, “chás milagrosos”, puxões de orelha, veneno, o lado macabro da vida, entre outras “amenidades”, mas nunca teve como temática o amor e a saudade. Pois bem. Desafio aceito.

Mas, o que falar, quando tudo o que se pensa já está dito? Por vezes, mesmo não tendo o mínimo talento para a poesia, me arrisco pelos versos e falo do amor, mas aqui é diferente, principalmente quando eu mesmo já massacrei o uso da metáfora exagerada em crônicas. E falar de amor sem metáfora, é como fazer menção à natureza e não citar a cor verde. Puxa daqui, pensa de lá e, do nada, ouço o seguinte verso de uma canção:

“Meu amor!
Ah! Se eu pudesse te abraçar agora,
Poder parar o tempo nessa hora,
Prá nunca mais eu ver você partir!” **

Algumas pessoas são donas de um jeito único de falar as coisas, simples, e que, por menor que seja o número de palavras, conseguem expressar magistralmente o que querem transmitir. E o Luiz Ayrão foi muito feliz nos versos acima. O sentimento de amar vai muito além do simples “gostar” ou querer ter alguém perto de si. Ele nos entorpece de tal forma, que pensamos coisas que vão muito além da imaginação ou do poder humano.

Segundo os filósofos, o amor é uma emoção poderosa, um sentimento muito forte que se nutre por outra pessoa ou por algum objeto. Ainda segundo eles, “o amor não é apenas uma emoção: pode também ser um tipo de relação”. Que me desculpem os filósofos de cátedra, mas penso que o amor vai além do que eles dizem, e compartilho da opinião do filósofo popular, do poeta Luiz Ayrão: quero parar o tempo quando minha amada está por perto. Essa é a emoção poderosa que o amor me dá, a sensação (a vontade) de poder parar o tempo, e imortalizar aquele momento, o qual sempre será diferente e mais intenso do que qualquer outro que já vivi. Vive-se, então, para o momento, mas sempre esperando o próximo, onde a ansiedade toma conta em virtude da espera. E se juntar algo chamado “distância física” nisso tudo, por um motivo alheio à vontade do casal, a coisa vira saudade, e daí, "danou-se" tudo.

Saudade causa uma série de problemas. Assim como a paixão provoca aflição, a tal saudade acomete a pessoa com uma agonia que é de dar dó. Perde-se a fome, a imunidade do corpo fica baixa, os olhos vagueiam num horizonte imaginário, o sono desaparece, a joanete começa a latejar, as mãos tremem de frio, mesmo no calor. Enfim, corpo e mente entram em parafuso. Até que chega a hora do reencontro. E nessa hora, não tem idade. Pode ser adolescente, idoso, tímido, extrovertido... basta um beijo para uma comichão atacar todo o corpo, com arrepios subindo e descendo do pé ao pescoço. O casal fica bobo, e aquele momento, quando se está “matando” a saudade, parece que será o último antes do mundo acabar.

Amor. Defini-lo? Esqueça isso, pois o amor não se define, você tem que vivê-lo, sentí-lo em sua essência e intensidade. O amor deixa qualquer um meio abobado, fazendo loucuras que, em sã consciência, consideraria um absurdo. Ele desperta personalidades ocultas no ser humano. Faz pessoas ríspidas se transformarem em românticas, faz céticos crerem naquilo que não podem ver ou tocar, faz pessoas amarguradas acreditarem na felicidade novamente.

Amar não é “fazer amor”. Isso é transar, fazer sexo, praticar atividade sexual. Se alguém condicionar o ato de “amar” alguém à prática do sexo, esse alguém não está amando, só está querendo algo momentâneo. O ato e o sentimento de amar não é e nunca foi condicional. Ele é involuntário, nasce e cresce sem permissão ou convite. E é pleno. Amar vai muito além do querer, do ter e do poder. Ele envolve respeito, entrega, dedicação, resiliência, confiança, carinho e tantas outras coisas que, se for para falar aqui, escrevo um livro.

Posso ter falado de um jeito bem humorado sobre o amor e a saudade, mas ambos são algo que se deve enxergar com muita seriedade. Falar “eu te amo”, nos dias de hoje, passou a ser algo fútil, que se diz da boca para fora. Amar tem que ser considerado como uma união de almas, e não somente de corpos. Deve-se comungar de sentimentos e atos, de idéias e gestos. Deve ser algo vivido e renovado a cada instante. Falar do amor, qualquer um fala, amar, qualquer um pode amar também, mas respeitar a pessoa amada, se entregar a ela e, acima de tudo, se doar em sua totalidade, isso é outra história. Já a tal saudade... essa não escolhe vítima, e nem tem como fugir dela. Chega, se instala, maltrata e nem se importa se a pessoa quer sentí-la ou não. São coisas do coração, o dito amor e a saudade. E quando eles acometem alguém, não tem filósofo, médico, pesquisador, cientista ou professor que explique ou dê jeito.

Agora, com licença, pois preciso dar um jeito nessa minha joanete, que tá doendo uma enormidade.
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** Os versos citados são da música OS AMANTES, composta em 1977 por Sidney da Conceição, Lourenço e Augusto Cesar. Foi gravada originalmente por Luiz Ayrão.