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Meu avô materno, Vicente, era um descendente de poloneses em sua segunda geração no Brasil. Não o conheci, pois faleceu em 1967, um ano antes de meu nascimento, mas por relatos confiáveis e apaixonados, sei que era daqueles homens que mantinha no fio do bigode a sua reputação. Valia o primeiro dito, e a hombridade era sua mentora. Baixinho, portava um bigode vasto, cujo cuidado extrapolava até o bom senso. Homem de palavra forte, no entanto, com um coração capaz de explodir frente a qualquer injustiça.
Roceiro que acabou sendo por toda sua vida, foi criado naquele sistema antigo, pela imposição do medo. Se fizesse tal coisa o dedo cairia, se falasse palavrões ou mentiras a língua secaria, se não obedecesse aos pais, o “coisa ruim” apareceria, e por aí vai. Hoje, as crianças dariam risadas frente a tal coisa, mas na época (começo do século passado), era tudo levado muito a sério, e o medo imperava.
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| requinta / image by Google |
E meu avô cresceu. Já na pós-adolescência, se transformou num músico por natureza. Não sabia ler ou escrever, mas a sanfona e a “requinta” dispensavam essas necessidades. Para os pais, aquilo era um problema. Como segurar em casa um jovem talentoso e trabalhador, se as moçoilas estavam ávidas por casar rapidamente? Acabavam empunhando o medo como jeito de censurar e manipular. “Não saia a noite, pois o ‘coisa ruim’ pode te seguir”, dizia minha bisavó. “Olha, que o ‘bicho feio’ vem levar teu dinheiro”, completava meu bisavô.
Numa tarde, após entregar uma carroçada de hortaliças numa quitanda, meu avô se preparava para ir ao baile. Seus pais, cuidadosos em excesso com ele, começaram com as suas. “Vi aquele do capote (o ‘coisa ruim’) rondando por aqui”, dizia a mãe. E lá vinha o pai: “Óie... se você sentir cheiro de enxofre, pique a mula”. E nada dele desistir de ir ao tal baile. Era maior de idade, gostava de um vaneirão, e por certo iria, com ou sem aprovação dos pais, o que era uma coisa rara para a época.
Procurando não dar muito ouvidos, mas temeroso, lá foi meu avô, montado em sua égua. Tinha um enorme cuidado e amor por qualquer animal, mas aquela potranca era especial. Na ida, e com tudo claro, nenhum problema, já na volta do baile, com tudo escuro e virado num breu, a coisa apertava. E mesmo Vicente sendo daqueles que não corria de ser vivente algum, tremia na base quando o assunto era qualquer coisa do outro mundo.
Ao chegar perto de casa, foi logo desencilhar a égua e tratá-la, mas afinou os ouvidos, pensando ter escutado alguém pisar o capim seco. Um arrepio correu por sua espinha e incomodou até a égua, que ficou arisca, e o assustou mais ainda. “Será o cramunhão? Jesus tem piedade!”. Com esses pensamentos, meu avô terminou o trato ao animal e se preparou para sair do celeiro. Olhou para o lado e viu um chicote trançado, feito de couro cru. O pegou e saiu pé ante pé. Os olhos, inquietos, divisavam tudo em linha reta, e quando virou porta afora, um uivo esganiçado tomou conta do ambiente.
--Valha-me, Deus. Vá de retro, coisa ruim. Tem piedade dessa alma minha, que é a única que eu tenho... --ficou em silêncio por um instante e olhou para o chão. --Você? Cão danado. Devia te dar uma bronca por quase fazer eu me borrar.
Meu avô tinha um cachorro perdigueiro que vivia aos seus pés, e na saída, o coitado do animal estava deitado à porta. Sem vê-lo, meu avô pisou em sua pata e a gritaria foi enorme. Mais calmo, mas com o coração ainda acelerado, lá foi Vicente no caminho de casa. Tudo ali era distante, e para chegar até lá, tinha que passar por duas porteiras e um mata-burro. Um pouco adiante, no meio de algumas árvores e passagem obrigatória, algo se mexia, como uma sombra.
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| mata-burro / image by Google |
Na medida em que se aproximava daquele pequeno bosque, meu avô arqueava os ombros. “Será?”, pensava ele, temeroso. Mas seguiu, olhando para o cachorro e tocando-o a frente dele. “Vai, cão. Qualquer coisa, eu te defendo!”, resmungava. E a escuridão parecia aumentar, junto com a chuva fina, que deixava tudo muito liso. Quando finalmente chegou até as árvores, um cheiro enjoativo, parecendo algo apodrecido, veio até suas narinas. Aquilo o deixou ainda mais temeroso. Como se não bastasse isso, uma sombra surgiu dentre as árvores, parecendo envolta numa grande capa. E daquela sombra, uma voz rouca começou a falar, deixando meu avô pálido e tremendo até o calcanhar. Ele tentou caminhar para trás, mas patinou no terreno e caiu sentado.
--O dinheiro! --falou aquela voz, parecendo tomar todo o ambiente. --O dinheiro!
Ao se por em pé, meu avô lembrou do chicote que carregava, e não pensou duas vezes. Bateu com gosto, e foi batendo, batendo, até que aquela sombra saiu correndo pelo meio do campo. A sombra despencou para um lado, e meu avô para o outro, sem sequer lembrar do barro pelo carreiro.
Entrou em casa e correu para um canto, olhando pelo estreito da janela. Todos se assustaram, e minha bisavó logo perguntou:
--O que é isso, criatura? Até parece que viu o “coisa ruim”? Cumpadí Honório teve aqui inda agorinha. Por sorte, ele não te viu nessa agonia toda, senão, amanhã corria que você era um frozinha. O que foi? Brigou no baile? Bem feito.
Meu avô nem quis se ater naquela conversa. Quem sabe, nem conseguisse falar, frente ao susto. Mas, tudo bem, no outro dia contaria o ocorrido. E assim, a noite passou, lenta e com ele coberto até a cabeça. Já cedo, mal saindo da madrugada, um bafafá enorme se armava na cozinha. Vicente levantou e espreitou, estranhando a presença do padre e do padrinho Honório ali, naquela hora.
--Vicente, venha aqui, meu filho. O que aconteceu ontem, afinal? --o pai perguntou, apertando o cachimbo contra a boca.
Meu avô relatou tudo, se vangloriando de ter dado a maior surra no “coisa ruim”.
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--Que “coisa ruim”, que nada! --o padre gritou, interrompendo a narrativa de meu avô --o tal “coisa ruim” que você chicoteou, era o teu padrinho Honório, que estava escondido naquelas árvores para se proteger da chuva.
--Mas, e aquela voz esquisita, e ainda por cima me pedindo dinheiro, igual que nem que minha mãe sempre fala? --meu avô argumentou, pasmo.
--Ele tá que não pode nem falar, de tão rouco pelas cantorias nesses bailes. E o dinheiro? Tinha vindo te pagar pelo carregamento de legumes de hoje à tarde, seu abestado. --o padre completou, visivelmente irritado.
--Mas... Mas... E aquele cheiro ruim, parecendo sovaco sujo de cavalo? Não é o cheiro do inferno? --meu avô continuou, como se tentasse ainda se defender.
O padre respirou fundo e olhou para todos, completando.
--Já cansei de falar pro Honório tomar um banho por semana, pelo menos, que evita muitas coisas ruins. Muitas.
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Em homenagem a meu avô materno, Vicente Staroy, que o câncer levou deste mundo em janeiro de 1967. Um homem que não conheci, mas que respeito e admiro. Nascido e criado na roça, um respeitador das leis de Deus, teve em seu caráter e na força dos braços as ferramentas para criar 10 filhos, e dar a eles um exemplo a ser seguido. Sem contar que deixou um infindável número de “causos” a serem contados.
Marcio JR