série RECONTANDO UM CONTO
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No entanto, a hora do dia que Dorinha mais gostava era justamente a de dormir. Seu pai já subia para o quarto com um grosso livro de fábulas, e se colocava a ler até que a menina adormecesse. Todavia, se o pai ficasse observando alguns instantes, veria que ela estava apenas fingindo, somente esperando o pai sair do quarto para, em um passe de mágica e com aquele pó de estrelas que ela carregava em si, transportar a ela e seu cão para o mundo dos sonhos, o Mundo Mágico que somente ela tinha acesso.
Essas fábulas que o pai lia a cada noite, todas clássicas, encantavam nossa pequena protagonista, e ela conhecia a quase todas. Algumas, porém, deixavam-na com a pulga atrás da orelha, e ela, dentro de uma perspicácia fora do comum, indagava e argumentava com o pai. Eram coisas que ela não conseguia concordar, e dava um trabalho enorme ao pai, pois mesmo que ele tentasse explicar que os tempos são outros, ela teimava em não aceitar.
E assim, em uma determinada noite, começou uma discussão entre os dois, mais ou menos assim:
DORINHA E O GATO DE BOTAS
―Mas, papai! Por que ele comeu o rato? Eu gosto do Ogro, e o gato transformou ele num ratinho e comeu ele sem dó!
―Filhinha, o Gato de Botas precisava enganar o Ogro, e fez ele se transformar em rato para ajeitar tudo. Senão, o Gato de Botas não poderia ficar com o castelo do Ogro e fazer o rei pensar que o rapaz era o Marquês de Carabás.
―Mas... mas... mas... ele enganou o Ogro, papi. Por que ele fez isso? E por que ele mentiu para o rei também?
―É somente um conto de fadas, minha querida. Agora dorme, tá bom? Amanhã o papai conta outra história pra você.
Dorinha não parecia nada satisfeita com aquela história que seu pai acabara de contar. Tanto que, após ganhar seu tão esperado beijo de boa noite e ver o pai ir para outro canto da casa, ela saiu na ponta dos pés e abriu silenciosamente a porta do quarto. E como de costume, Jujubão estava lá, abanando o rabo e esperando para mergulhar no mundo dos sonhos de sua pequena dona.
―Vem, Jú! Temos que acertar contas com um gato danado!
O cachorro entrou e logo se ajeitou no tapete. Com o focinho colado ao chão, ele viu a menina pular para a cama e se cobrir toda, apressadamente. Ela ficou somente com o rosto para fora das cobertas, olhando o cachorro, mas logo adormeceu. Aquele era, literalmente, um instante mágico, pois logo em seguida algo também tomava seu mascote, e do nada, ele adormecia profundamente. E se ambos pudessem ver o que acontecia naquele instante, ficariam maravilhados. Era como se uma luz intensa se desprendesse de seus corpos, flutuando para a janela e se perdendo para o horizonte. Assim, Dorinha e Jujubão partiam a cada noite para o mundo mágico dos sonhos da menina.
Estranhamente, Dorinha não estava calma ao chegar ao mundo mágico. Ela, que sempre ia até lá para brincar e aprontar suas artes, desta vez parecia aflita. Tanto que sequer procurou pela girafa, que ao vê-la, já veio oferecendo seu pescoço para servir-lhe de escorregador.
―Depois brincamos, menina. Agora, preciso encontrar um certo gato sapeca. Vai, Jú. Fareja ele!
Com menos de cinco minutos, Jujubão havia farejado algo. Um belo e suculento pé de ração para cães, com frutos no formato de pequenos ossos.
―Não, Jú. Eu quero um gato. Eu sei que ele tá aqui. Procura, vai!
―Olá! Eu posso ajudar?
Dorinha estranhou aquela voz. Mesmo sendo um mundo mágico de sonhos, ela era a única por ali com a capacidade de falar. Então, quem havia dito aquilo? Ela procurou por todos os cantos. Olhou para cá, para lá, até que sentiu algo puxando a ponta de seu vestido. E quando voltou seu olhar para baixo, reparou um pequeno gato malhado, e calçando um par de botas nos pés.
―Ah! Então é você, gato danado. Quero saber por que você enganou o Ogro e o rei!
―Puxa vida! ―o gato suspirou, baixando a cabeça. ―Acho que nunca mais vou me livrar desse peso.
A menina estranhou, mas esperta que era, pensou logo que o gato estava aprontando das suas, tentando enganá-la.
―Nem vem com essa, gato. Eu me lembro da história que meu pai contou. E você só aprontou por lá. Caçou, mentiu, traiu o Ogro...!
―Essa é uma história tão antiga, de um tempo em que nós, gatos mágicos, éramos muitos. Meu tátara-tátara-tátara-tetra-avô é quem aceitou participar. ―o gato continuou suspirando, agora olhando nos olhos da menina. ―Venha comigo. Vou te mostrar uma coisa.
Dorinha, mesmo desconfiada, chamou seu cachorro e, juntos, seguiram o gato. Os três andavam e, repentinamente, desapareceram, reaparecendo em outro canto qualquer do mundo mágico. Lá, um número enorme de gatos, de todas as espécies e idades, brincavam e corriam por todos os cantos.
―Veja! ―o gato apontou para aquela imensidão de outros gatos. ―Aqui é a Gatolândia. É aqui que nasce cada gato que aparece nos contos de fadas ou outras histórias que são contadas para as crianças. Também é aqui que são criados os gatos que apareceram nas histórias de bruxas ou de outros seres malvados.
―Que lindo! ―Dorinha não acreditava no que estava vendo, e arregalava os olhinhos a cada gato que passava por ela. ―São todos tão fofinhos e bonitos!
―Sim. Eles precisam ser assim, afinal, vão embalar tantos sonhos de criancinhas exatamente iguais a você.
―Mas, seu gato! E aqueles outros que estão mais pra lá! Eles não parecem tão fofinhos. Estão todos estropiados, machucados! O que aconteceu com eles?
―Alguns são gatos de histórias de terror, outros são gatos que participam das músicas iguais a “atirei o pau no gato”, e alguns são filhotes que os humanos nem deram chance de nascer!
―Existe isso, seu gato? Tem toda essa maldade?
―Tem sim. Muitas pessoas acreditam que os gatos são animais de bruxas, ou que trazem azar e coisas assim. Gatos não são nem bons nem maus. Eles são animais que precisam viver de seus instintos. Se caçam ratos ou outros pequenos animais, é porque isso faz parte da natureza deles. E não trazem azar, assim como as patas de coelho não trazem sorte. Se trouxesse sorte, o coelho não perdia a patinha.
―Então, seu gato, por que na história, aquele seu vovô enganou o Ogro?
―Porque naquela época era tudo diferente. As pessoas acreditavam em outras coisas, e os gatos eram ainda mais perseguidos. Acho que quem escreveu aquela história, devia gostar muito de gatos, por isso tentou fazer dele um herói. Aproveitou que todos tinham medo dos Ogros, e fez o meu vovô enganar o coitado.
―Mas eu to com peninha do Ogro, seu gato!
―Fica não! Olha ele ali!
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| Ogro - image by Google |
Dorinha olhou para onde o gato apontou, e viu um ser enorme, rodeado por pequenos gatos. Era o Ogro, sorridente e fazendo festa com os gatos.
―O que ele está fazendo aqui, seu gato?
―Ele se aposentou, e como adora gatos, veio ajudar a gente a cuidar dos filhotinhos. Ele fabrica pequenas botas para eles.
A noite terminou e, como sempre acontecia, Jujubão foi o primeiro a acordar. Ao lado dele, alguns biscoitos feitos de ração para cães e em formato de pequenos ossos estavam espalhados. Ele comeu um por um e, rapidamente, saiu do quarto, pressentindo que logo alguém chegaria para acordar a menina.
Perto da hora do almoço, o pai estranhou o sumiço de Dorinha. Procurou por toda a casa e, sem encontrá-la, começou a procurá-la por todos os cantos, completamente aflito. Mas logo sossegou. Alguém disse que vira a menina na loja de artigos para crianças, lá no vilarejo.
―Sim, ela passou por aqui. Eu estranhei, pois ela levou todos os sapatinhos para bebê que eu tinha na loja. Ela falou que depois o senhor pagaria, e que ela estava com muita pressa.
―Meu Deus! O que essa menina anda aprontando?
O pai de Dorinha mal terminara de pronunciar aquelas palavras quando um gato, todo desajeitado, passou pela porta da loja. Algo comum, claro, se o gato não estivesse usando sapatinhos infantis nas quatro patas. Os dois correram para a porta da loja, e o pai da menina logo descobriu o que estava acontecendo.
Em um canto da calçada, Dorinha estava com um gato no colo, toda afoita, tentando calçá-lo com alguns sapatinhos infantis.
―Dorinha, o que você está fazendo, minha filha?
―Ora, papai. Ajudando o tadinho do Ogro. Até parece que você não sonha!
Marcio Rutes
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Este conto é baseado na fábula O GATO DE BOTAS, de Charles Perrault. A fábula original foi lançada na coleção CONTOS DA MAMÃE GANSO, em 1697. Esta coleção reunia diversas fábulas de Perrault, e fez com que ele fosse considerado o pai da literatura infantil.
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