quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DA DINAMARCA

 


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Maio de 2012, em algum condomínio residencial desse nosso enorme Brasil.

A pressa, muitas vezes, é inimiga de todos os atos, e quando aliada aos maus costumes, é ainda pior. Naquele prédio, chamado Reino da Dinamarca, parecia que todos tinham o péssimo hábito de apertar os dois botões de espera do elevador, independente para onde fossem. Quando a porta do elevador abria, pouco importava seu trajeto, e todos se enfiavam para dentro. O resultado era mais demora, e muita reclamação quando alguém entrava e constatava o trajeto contrário daquele que era pretendido. Porém, todos os moradores ostentavam certo status, nem sempre verdadeiro, mas ostentavam. E assim, fingiam que nada viam, e viviam alimentando-se meramente de aparências.

Certa feita, o elevador parara no décimo quinto andar e, como sempre, sacolejou um pouco. Ninguém deu atenção, e mais alguém entrou. Estavam, àquela altura, em cinco no mesmo ambiente, e todos faziam aquele semblante de quem olha uma paisagem, ou seja, miravam a tudo e fingiam não enxergar nada, apenas deixando o olhar se perder pelo horizonte. Na descida, outro sacolejo, e dona Emma, senhora de seus bem vividos 85 anos, suspirou.

―Só falta enguiçar! ―ela comentou, como se antevisse o feito.

Cinco segundos depois, um sacolejo maior e, bruscamente, o elevador parou. Dona Camélia, vizinha de dona Emma, blasfemou imediatamente.

―Pago esse condomínio para compartilhar espaços com essas bocas de sapo. ―fazendo clara referência à dona Emma em seu presságio.

―Gente, não vamos brigar! Já, já tudo volta ao normal. ―Guilherme, um janota de brechó e com sorriso amarelado, emendou rapidamente. ―Este elevador é seguro! Eu garanto!

Antes, nada tivesse dito. Bastou a frase ser proferida, e as lâmpadas se apagaram.

―Meu Jesus! Hecatombe!

―Quem falou essa asneira? ―Dona Emma perguntou, como se sentisse indignação pela ignorância que ouvira.

―Foi a Jandira! ―a resposta, em voz masculina, veio do fundo do elevador. ―Ela só sabe falar do “fim do mundo Maia”!

―Tinha que ser essa oxigenada! ―Dona Camélia completou, em tom zombeteiro. ―E você deve ser o traste do marido dela, que só sabe pagar as contas dessa perua descabida e mal vestida! Tá aí, com esse micro-vestido e acha que está trajada! Despudorada!

―Mais educação, gente! Se não podemos conviver harmoniosamente lá fora, ao menos aqui vamos manter o respeito até que alguém venha em socorro. ―tornou o janota, querendo amainar os ânimos.

―Ecaaaaaaa! Que cheiro é esse? ―Jandira perguntou e segurou no braço daquele que ela pensava ser o marido. ―To com medo, morzim. Não gostei do barulho deste cheiro.

―Jandira! Cheiro não faz barulho! E seu marido está para o outro lado. Eu sou o Guilherme! Mas, que este cheiro está horrível, isso está! Que foi isso, afinal?

―Foi essa desenxabida da Camélia! Deve ter almoçado batata-doce e soltou um pum! ―Dona Emma emendou rapidamente, em tom maldoso.

―Não solto pum. Sou chique. Eu flatulei.

Novo ruído, agora estridente, tomou o ambiente, e foi seguido de outro sacolejo, o que ouriçou ainda mais aos pobres náufragos do elevador. Repentinamente, todos ficaram em silêncio, e um silvo recortado e repetido se fez ouvir.

―Affff Maria, meu São Jorge dos Sovacos Peludos!  E agora? Esse maldito cheiro de novo, e fez barulho, seu Guilherme. Viu como cheiro faz barulho? ―Jandira comentou, quase berrando aos ouvidos do homem que estava ao seu lado.

―Jandira, meu amor. O Guilherme está do outro lado. Eu sou o seu marido. Não precisa gritar, pois está escuro, e isso não diminui minha capacidade auditiva. Mas, honestamente, você está com a razão! Dona Camélia, por favor!

―Não foi ela, fui eu! ―Dona Emma respondeu, tomando as dores da outra senhora. ―To nervosa, e quando to assim, meus intestinos entram em pânico. E qual é o problema? Vou fazer de conta que o senhor nunca peidou pela vida afora!

―Aaaiiii! Quem me bateu? ―o janota berrou, nitidamente descontente e irritado.

―Fui eu, seu tarado! ―Dona Camélia também berrou. ―Que história é essa de apalpar meus seios?

―Não apalpei seio nenhum! Só queria apertar os botões do painel, sua maluca! E me bateu com o que, afinal? Com um cacetete?

―Não. Com meu bastão retrátil de metal, de 60 centímetros de haste. Mas para tarados, tenho outra coisinha aqui. Quer ver?

Uma faísca azul iluminou todo o ambiente, e veio acompanhada de um barulho esquisito, imitando uma descarga elétrica. A gritaria foi geral, e quando a luz azul cessou, o que se escutou foi o estatelar de alguém ao chão.

―Gostou do meu choque elétrico, seu mauricinho de quinta categoria?

―Dona Caméliaaaa! Foi o meu marido que a senhora estrebuchou! Ele enfarlicou, e nem um suspiro o tadinho soltou! A senhora matou ele! ―Jandira reclamou, meio soluçante.

―Errei? Não tem problema. Tem mais um pouco de carga. Vem cá, seu traste, que vou te mostrar a não abusar mais de velhinhas indefesas! Cadê você?

O ambiente iluminou-se novamente em um tom azulado, mas desta vez, ninguém gritou.

―Errou novamente, sua maluca! ―o janota respondeu, em tom zombeteiro.

―Mas acertei alguém! Quem foi? ―Dona Camélia mostrou-se reticente.

―Ah! Não! Quem soltou esse pum agora? ―Jandira perguntou, recuperando-se do susto anterior.

―Acertei a Emma! E meu Deus! Que cheiro de peixe podre é esse? Ela peidou de novo! Tudo culpa sua, seu tarado. Vem cá, que tenho mais um presentinho pra você!

―O que a senhora vai fazer agora? Tá maluca?

Diante da dúvida sobre o que Dona Camélia faria, o janota tentou sair para o lado e tropeçou, caindo e enroscando-se ao vestido de Jandira, que por ser pequeno e preso apenas na altura dos seios, foi basicamente arrancado do corpo da moça. Ela, agora nua e tentando se abaixar para socorrer o marido, desesperou-se ao perceber que alguém arrancara sua única peça de roupa. Sem saber o que fazer, apalpou o chão e agarrou-se à roupa de Dona Camélia, puxando com toda a força, mas voltou ao chão.

―Você está aí, seu tarado? Quer arrancar minha saia, é? Vou te mostrar a não abusar de uma donzela meio virgem! Toma! ―Dona Camélia também se desesperou, sem saber ao certo o que acontecia.

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Novo barulho, agora parecendo um spray ou algo do gênero. Em instantes, o ambiente foi tomado por uma nuvem extremamente ardida aos olhos, o que fez Jandira puxar ainda mais a saia de dona Camélia para baixo, até quase tirá-la. Dona Camélia não entendeu o que estava acontecendo e desequilibrou-se, sentando-se e espirrando novamente aquele líquido. Jandira levantou e levou com ela a saia da senhora idosa, enquanto o janota protegia o rosto com o vestido da moça.

―Que inferno foi esse que você espirrou, sua velha doida? ―o janota perguntou, arfante e tentando limpar o rosto.

―Spray de pimenta. E devolve minha saia, seu tarado, que eu saí desprevenida da cintura pra baixo!

―Não peguei sua saia. Tá maluca? To com um pano na mão, que nem sei o que é!

―É meu vestido, seu tarado! E me devolve, que também to sem nada por baixo. To peladinha aqui! ―Jandira suplicou, tateando as pernas de dona Camélia.

O reboliço foi geral e ninguém se entendia. E também pouco notaram que, lentamente, o elevador descia até o térreo.

Lá embaixo, Emanuel, o porteiro, já esperava o elevador com as portas externas abertas, e quando ele chegou, o que se viu foi algo inusitado.

―Pela madrugada! Minha Santa Clara do Elevador Quebrado! O que é isso? ―questionou o porteiro, que, de posse de seu telefone celular de última geração, filmava a tudo o que via.

No hall de entrada, várias pessoas também estavam boquiabertas. Dentro do elevador, o gás de pimenta ainda forçava seus ocupantes a manter os olhos fechados pela ardência.

Jandira estava completamente nua. O janota, com o vestido de Jandira aos olhos, dava a impressão de que cheirava o vestido da moça, e ela, com os olhos e a boca ardendo, passava a saia de dona Camélia pela boca, tentando eliminar o gás de pimenta que a incomodava. A moça, querendo se por em pé, segurava agora as pernas do janota.

Ao chão, o marido de Jandira, ainda desmaiado e estatelado, estava  com a boca bem próxima à boca de dona Emma, que se mantinha deitada de barriga para baixo. O detalhe que mais chamou a atenção de todos, no entanto, foi justamente a situação de dona Camélia, que além de se encontrar nua da cintura para baixo, ainda esfregava o rosto em algum tecido para tentar, assim, limpar o gás de pimenta dos olhos. E o primeiro lugar que ela encontrou, diante de seu desespero, foi o tecido da saia que cobria as nádegas de dona Emma.

O murmúrio contagiou a todos, mas foi imediatamente contido por um barulho estranho, como um silvo que se repetia de forma entrecortada (outro pum de dona Emma). E logo, alguém professou em alto e bom tom.

―Camélia, minha véia. Não bastasse a pouca vergonha de eu descobrir que você é sapatão, vocês ainda poluem o ambiente com esse cheiro de gambá bêbado! Ecaaaaa. Quem comeu batata-doce?

No dia seguinte, uma nota enorme no jornal chamou a atenção do porteiro do prédio.

SIM, HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DA DINAMARCA*.




*Príncipe Hamlet, em Hamlet, de William Shakespeare.


Marcio Rutes



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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

RETALHOS

 

Geada em Curitiba / image by Google
Existem três coisas que geram um fascínio automático em minha mente: um sorriso qualquer pela manhã, um par de olhos curiosos e a palavra “saudade”. 

Era um inverno rigoroso, e minha mãe, que sempre gostou de acordar antes do sol nascer, me chamava muito cedo para ir à escola. Não era muito longe de casa, uns 40 minutos andando naquele passo de criança de nove anos de idade, e após o parco café da manhã, saíamos eu e minha irmã, cada um com seus poucos cadernos e com as mínimas roupas de frio que tínhamos, que eram totalmente inadequadas, para não dizer quase esfarrapadas. O calçado fino me faz lembrar até hoje do chão gelado e da sensação horrível e dolorosa que isso trazia.

Essas lembranças fazem par com o vento frio que nos cortava o rosto, resultante da geada que deixava tudo branco e com um aspecto belo, mesmo sendo insuportável para o corpo de uma criança com a nutrição bem desequilibrada. No meio da caminhada, surgiam do horizonte aqueles filetes de sol, que mais pareciam mágicos, misturando-se ao vapor que saia de nossas bocas quando expirávamos o ar dos pulmões. Aquilo era mágico, uma sensação única. Adiante, mais e mais crianças se juntavam a nós, e ao darmos conta, éramos muitos.

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Já perto da escola, sempre reparava uma senhora, de idade bem avançada, sentada em uma cadeira colocada quase fora de seu portão. Ela pouco se importava com o frio, e durante anos esteve ali, com sua face amarrotada e castigada pelo tempo. Seu cabelo estava sempre preso, e era esplendidamente branco, um verdadeiro algodão. Quando passávamos, ela nos mirava, de forma serena, e nos seguia apenas com aquele par de olhos curiosos. Ela sabia que na volta, passaríamos por ali e, como se ela não soubesse, pegaríamos escondidos algumas frutas de seu pomar. Ela sempre via, mas nunca nos reprimiu ou negou uma daquelas frutas.

Hoje pela manhã, ao passar nesse mesmo lugar, a nostalgia me tomou. Senti saudades daquele frio nos pés, por mais cortante e insuportável que ele fosse, e dos raios de sol secando o orvalho ou derretendo a geada. As árvores frutíferas não estão mais lá, sequer a casa está. Fiquei lá parado por alguns minutos, observando, até que veio em minha mente uma imagem daquela senhora. Lá estava ela, novamente, me olhando com aquele par de olhos curiosos. E é engraçado, pois foi somente hoje que lembrei da única vez em que a vi sorrindo. Foi em uma manhã de inverno, a única em que fui sozinho à escola. Ao passar naquele lugar, ela mirou-me diretamente nos olhos e soltou aquele singelo sorriso, único, o primeiro que vi vindo dela. E então, naquela mesma noite, fiquei sabendo que ela se fora.

Muita coisa aconteceu desde então, coisas boas e ruins. Mas é engraçado que são coisas tão simples, como essas acima, que nos marcam por toda uma vida.



Marcio Rutes


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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

SERENATA PARA SASSÁ

 

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Enfim, tudo pronto. O violão estava afinado e a noite, por sorte, seria limpa e estrelada, com a mais bela lua seresteira. Bom, assim pensavam aqueles dois, pois diante dos problemas de visão que portavam, era difícil tanto afinar um instrumento musical quanto enxergar estrelas. Não eram portadores de cegueira total, mas as dificuldades para diferenciar cores e formas, em uma distância relativamente curta, eram enormes. Os amigos ajudaram muito, e eles, sempre confiantes, partiram para a primeira serenata de suas vidas.

Armandinho, o irmão mais velho, estava apaixonado. Conhecera Silvana, a Sassá, na fundação de assistência que frequentavam, e ela, moça espevitada e também portadora de problemas de visão, logo se enveredou pelo moço romântico e batalhador. A cidade pequena era cheia de armadilhas em suas calçadas. Buracos e obstáculos atrapalhavam muito, o que obrigava os dois a apoiarem-se um no outro em quase metade do caminho para suas casas. Conversas bobas e sensações de bem-estar apareciam por quase todo o percurso, fazendo com que a fundação de assistência se tornasse uma mera desculpa para que eles pudessem se encontrar todos os dias. Enamoraram-se.

Hugo, o irmão de Armandinho, era moço estudado. Mais novo, ele nunca se conformou com as restrições que a vida impunha. Certa feita, aos 15 anos de idade, armou sua trouxa de roupas e partiu para a cidade grande, para morar com os tios e estudar. Voltou formado em Letras, coisa que poucos naquela pequena cidade sabiam para que servia, e também ostentando um visual estranho, de cabelo colorido e roupa extravagante. No entanto, o que ninguém compreendia era aquele aro metálico que ele usava no nariz, parecendo uma argola que se coloca em focinhos de bois para amansá-los.

Os amigos e familiares, ao descobrir a paixão de Armandinho por Sassá, fizeram festa. Ele, muito querido por todos, estava em êxtase, e queria porque queria dar um presente para sua amada, mas precisava ser algo diferente, original, que impactasse o vilarejo inteiro. Hugo contou que na cidade grande existia uma tal “tele-mensagem”, que nada mais era do que um automóvel equipado com potentes caixas de som e luzes. O veículo parava diante da casa de alguém e um locutor recitava poesias ou, meramente, fazia alguma homenagem previamente escrita para a pessoa residente na casa.

Armandinho gostou da ideia, mas desiludiu, pois ali não existia tal coisa. Foi onde sua capacidade de improvisação entrou em ação. Juntou todos os amigos e, para cada um, deu uma tarefa. Alguns correram até a chácara de seu Ambrósio e pediram emprestado um Tobata, espécie de pequeno trator para espaços reduzidos ou manuseio de plantações de menor escala, enquanto outros deram jeito de arranjar uma carroça que se adaptasse ao mini-trator. Para Heitor, pai de Armandinho, ficou o encargo de procurar a estação da rádio local e conseguir algum tipo de equipamento de som para instalar na carroça. Por sorte, além do equipamento de som, ele conseguiu um eletricista, que montou o equipamento e o colocou para funcionar. A mãe, dona Jesuína, arranjou as roupas e fez o marketing e divulgação do evento, não deixando nenhuma amiga sem saber do ocorrido. Ela, em sua simplicidade, não reparou que a sagacidade de mãe zelosa tomava conta, e até para o padre Eustáquio ela acabou dando incumbência. Ele, na surdina, aproveitava os momentos em que estava com os fiéis no confessionário e espalhava a novidade.

O que ninguém notou é que aquilo que era para ser uma simples serenata, acabou tomando ares de evento intermunicipal, pois até seu Leocádio, prefeito da cidade vizinha e irmão de padre Eustáquio, entrou na dança e resolveu ajudar, patrocinando o evento que, para ele, poderia render alguns votos em sua pretensão a atingir cargos maiores na política estadual. Então, preparou alguns cartazes, juntou seus correligionários e confirmou presença.

Tudo caminhava as mil maravilhas. Padre Eustáquio se ofereceu para ficar por perto na hora da cantoria. Era o único que conhecia alguma coisa de música, e por certo poderia ajudar, caso algo precisasse ser improvisado. E lá foram todos, com os dois irmãos vestidos a caráter. Terno branco e chapéu Panamá, também branco, e tudo patrocinado por seu Leocádio.

Na rua, a satisfação de dona Jesuína era imensa. Olhando ao redor, ela jurou ver mais gente do que nas festas da quermesse da Igreja. Se soubesse contar, poderia dizer que o grupo passava, tranquilamente, dos 100 integrantes. E lá foram todos eles, em passeata, até a casa de Silvana, a amada Sassá de Armandinho.

Padre Eustáquio também estava orgulhoso. Conseguia, não se sabe como, impor ordem a toda aquela gente. Até haviam pensado em um grande alarde após a cantoria, com passos ensaiados de dança e tudo. Mas, existia um problema. Sassá era moradora nova, e não frequentava a igreja. Sequer seus pais ou familiares eram conhecidos. Onde era a casa dela?

―Olha, padre Eustáquio. Eu inté sei, mais num vô consigui guiá tudo esse povo inté lá! ―Armandinho comentou, se aprumando dentro da apertada e incômoda gravata. ―É du lado da casa nova que o prefeito construiu e que se mudou inda ontem. O sinhô sabe dadonde é?

―Aquelas duas casas iguais, lá na praça? Sei sim.

O padre confirmou e subiu na carroça. Com alguns berros, ordenou todos em marcha e, ao chegar bem próximo ao local, colocou sua estratégia em prática. Pediu a algumas beatas da igreja para ajudá-lo na organização do povo. Elas estavam incumbidas de observar os movimentos do padre e, na hora certa, aparecer de supetão e propiciar a maior algazarra. E até nisso seu Leocádio ajudou, dando a elas alguns uniformes que, obviamente, carregavam seu slogan político e seu nome.

Com tudo pronto e silencioso, Armandinho deu a deixa para Hugo começar a tocar o violão.

―Como assim? Eu não sei tocar esse negócio. Ninguém me falou que eu deveria tocar violão.

Padre Eustáquio pressentiu que tudo poderia desmoronar, e correu em socorro. Em menos de 5 minutos, ele já tinha encontrado um violeiro e o colocado junto aos irmãos. Ninguém menos do que seu Leocádio.

E também não demorou para passarem a seu Leocádio a programação da serenata. Iriam começar com a música que Sassá mais gostava, e que era um clássico da música sertaneja: ABRA A PORTA, MARIQUINHA. Armandinho, diante de seu pouco talento, faria a voz masculina, deixando para Hugo a voz feminina. E começaram.

Armandinho - Abre a porta Mariquinha
Hugo - Eu não abro não
Hugo - Você vem da pagodeira
Hugo - Vai curar sua canseira
Hugo - Bem longe do meu colchão
Armandinho - Abre a porta Mariquinha
Hugo - Eu não abro não
Hugo - Você vem da pagodeira
Hugo - Vai curar sua canseira
Hugo - Bem longe do meu colchão

Nada. Um silêncio aterrador. Sequer um pio de coruja ou latido de cachorro se escutava. Armandinho, que mal enxergava, perguntou para seu Leocádio o que estava acontecendo, e ele apenas deu de ombros, mostrando que também não estava entendendo patavina de nada. Partiram, então, para a segunda parte da música, toda cantada por Armandinho.

Armandinho
Oh! Mariquinha abre a porta e não reclama
Mostra que você me ama que eu não quero discussão
Você queria que seu bem fosse bocó
Pra te levar no forró
E depois ficar na mão

Assim que o último verso foi cantado, uma das janelas do segundo andar se abriu lentamente. Alguém, todo de branco, caminhou até a sacada e, segurando uma espingarda de dois canos, disparou para cima.

―O qui é qui ocêis quérem aqui, seus bosta? I qui negócio é esse di chamá minha muié Mariquinha pra módi abri a porta?

Ninguém entendeu nada. Até que o padre se deu conta do que estava acontecendo. E teve certeza quando, ao olhar para a outra casa, viu uma moça na sacada.

―Minha Nossa Senhora da Viola Quebrada! Essas duas casas são iguais, e esse tanço do Armandinho se enganou de casa! Essa aqui é a casa do prefeito! Meu Jesus me acode!

Lá em cima, o homem bufava e recarregava a espingarda. Até que parou e olhou bem para os três homens que estavam lá embaixo.

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―Mais eu num querdito! Intão é ocê, Leocádio? Seu bosta. Pensa qui num alembro qui ocê foi apaxonado pela minha Mariquinha antes di eu casá cum ela? I qui história é essa di vim aqui, cantá dizêno pra ela abrí a porta i ti levá pro colchão dela? Ah! Eu mato ocê, peste! I adispois, mato di novo, só pra ter certeza de que tá bem morrido, traste!

Seu Leocádio se desesperou e levantou. Nisso, padre Eustáquio também saiu de onde estava e ergueu os braços, querendo parar aquele homem tomado pela raiva e que estava na sacada, terminando de recarregar a espingarda. As beatas, mais distantes, acharam que era o sinal para começar a algazarra e, rapidamente, atiçaram o povo, que saiu da surdina e foi todo para frente da casa onde os outros estavam. Nas mãos, todos carregavam cartazes e faixas com o nome de seu Leocádio, e para piorar, ainda entoavam versos da música que Armandinho havia escolhido para a homenagem.

O furdunço foi geral. Não demorou e os dois prefeitos estavam frente a frente, se acusando. Ao ver todo aquele povo usando camisetas e portando faixas e cartazes com o nome de seu Leocádio, o outro prefeito considerou uma afronta tanto pessoal quanto política, e chamou seus correligionários. Seu Leocádio, vendo que iria apanhar e não tinha para onde correr, telefonou para sua cidade e chamou seus seguranças. A guerra estava formada.

Armandinho, perdido naquele tumulto, se amparou em alguém, e para não cair, segurou firmemente na pessoa. Não esperava, no entanto, que fosse justamente dona Mariquinha. Bem perto deles, Sassá e seus pais assistiam a tudo, e mais atrás, o marido de dona Mariquinha e seu Leocádio também pararam para admirar o que estava acontecendo perto deles. O que todos viam, condenou Armandinho a pagar por algo que ele sequer sabia que estava acontecendo. No desespero de segurar em algo para não cair, ele se apoiou justamente no peito de dona Mariquinha, mais precisamente no seio esquerdo.

―Abestado! Mato ocê, seu peste! ―o marido de dona Mariquinha berrou, empunhando a espingarda.

O tumulto generalizou, e só não piorou porque o padre, armado com a espingarda de alguém, deu dois tiros para cima e fez todos sossegarem. Foi o tempo suficiente para tirarem dali o pobre do Armandinho. Porém, Hugo havia desaparecido, e por mais que procurassem, não conseguiam encontrar. Só foram ter notícias dele alguns meses depois.

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Passados alguns anos, a animosidade que se instalou entre as duas cidades, isso por conta do pé-de-guerra que os dois prefeitos declararam na época, parecia acalmar. Seu Leocádio é, agora, aliado político de seu antigo rival, ou seja, justamente do marido de dona Mariquinha. Ambos estão na capital e tramam lançar como candidato para deputado federal o pobre do Armandinho, que depois de tudo, ganhou espaço na rádio local e nos jornais da região. Ficou famoso.

O irmão de Armandinho, que sumira, foi descoberto tempos depois, em uma cidade do litoral. Virara poeta hippie e ganhava a vida cantando versos para os turistas e vendendo artesanato que sua esposa confeccionava. Quem é a esposa? Sassá.

Padre Eustáquio foi quem mais penou com o ocorrido. Largou a batina e ficou pelas ruas, mas não demorou para se reerguer. Hoje, além de ser um dos banqueiros do jogo de bicho da cidade, ainda mantém uma linha de importação de bebidas. Ou melhor, compra bebida falsificada no Paraguai e distribuiu para toda a região. Com os lucros, sustenta a campanha política de Armandinho. Além disso, acabou casando e tendo filhos, e justamente com dona Mariquinha, que largou o prefeito e abriu, na época ainda, um sex shop na cidade.

E como dizem, entre mortos e feridos, todos se salvaram e vivem em paz.


Marcio Rutes


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