sábado, 17 de novembro de 2012

O PERFUME QUE FICOU EM MIM

filme PERFUME DE MULHER - by YouTube

O ar da manhã, sempre perfumado daquele cheiro de flor acordando, me encanta os sentidos. Durante muito tempo, foi este o perfume que carreguei comigo. Até acredito que era o único perfume de que precisava em mim.

O tempo, com seu perfume amadeirado, caminhou comigo e contagiou minha pele. A impetuosidade da juventude, que acomete nos verdes anos com seu odor mais ácido, porém um tanto volúvel, ficou para trás. E o que era pressa se transformou na mais pura vontade de aproveitar o odor de cada dia, de cada instante.

Aprendi que cada coisa, cada acontecimento, cada momento (seja ele feliz ou não) tem uma identidade bem marcada. É como se uma memória olfativa me dominasse e me impusesse fragmentos perfumados daquilo que vivi e absorvi por essa já longa estrada. Seletivo que sou, o que me fica são os bons momentos, pois, e por sorte, os cheiros desagradáveis dos momentos ruins, esses se confundem e amenizam com o tempo. Não serão esquecidos, por certo, mas serão sobrepostos por odores que possuem elementos capazes de eternizar sentimentos bons na alma.

Estranhamente, e como a memória não é capaz de sintetizar odores, associo aromas e cheiros a imagens. Dia desses embarquei numa nostalgia tremenda, relembrando instantes de pura magia. Um filme brotou em meus pensamentos, e nele, um casal dançava tango. Al Pacino e Gabrielle Anwar protagonizaram uma das mais belas cenas a que pude assistir, e foi então que me dei conta de que não existia, ainda, um perfume a que eu pudesse associar tal momento.

Celêdian Assis
Revirei toda minha bagagem de memória, andei pelo jardim de casa, busquei no mais remoto daquilo que conheço, e somente um perfume me ocorreu para ancorar nesta tão bela recordação: o perfume do carinho, do afeto, da simplicidade, e da magia que vem de ti, Celêdian Assis.

Hoje é teu aniversário, minha querida amiga. É pena que a única coisa que posso te dar é o meu abraço imaginário e todo o carinho que consigo te enviar daqui, em palavras. Mas, saiba que você é uma das pessoas que mais admiro e respeito. O fato de poder tê-la como amiga já é, por si só, um dos maiores presentes que a vida me deu.

O perfume que ficou em mim? É o mais puro aroma de nossa bela amizade, Celêdian.

Feliz aniversário, minha preciosa e estimada amiga.


Marcio JR

sábado, 3 de novembro de 2012

MATILDE

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Ana caminhava lentamente pelo estreito corredor e, ao passar ao lado da sala, ouviu vozes masculinas. Como ela jamais conseguira conter seu ímpeto alcoviteiro (se é que alguma vez tentou!), colou a pequena e sagaz orelha à porta, e aproveitou. Do cômodo, reparou as vozes de Edú, seu irmão mais velho, e Nilo, o marido de sua melhor amiga.

—Ela é um espetáculo, meu amigo. —Nilo comentava, empolgado.

—E como ela é? —o outro questionava, mostrando interesse.

—Quando ela anda, não tem quem não repare. Quadris largos, com um rebolado bem marcado. A traseira é empinada. Puro mignon. Ela é minha e ninguém tira. Fiquei babando pela Matilde

Ana estarreceu. Sua melhor amiga estava sendo traída? Um turbilhão de pensamentos passou por sua cabeça, mas a vontade de colocar aquela bomba no Facebook e levar a fofoca adiante foi maior do que tudo. No entanto, era sua melhor amiga, e por certo deveria ser ela a primeira a saber. Depois, é claro, repartiria a informação com algumas poucas pessoas nas redes sociais. Então, em menos de cinco minutos, Ana estava em sua caminhonete e rumando apressadamente para a fazenda onde a amiga residia.

—Dedéia, minha amiga. É isso mesmo. Eu “vi” tudo, com essas orelhas que terra nenhuma há de comer. Afinal, não paguei uma fortuna em cirurgia plástica pra terra estragar tudo depois.

—Ana, que inferno! Eu não posso acreditar nisso! —Dedéia bufava, atônita. —O que mais ele falou, amiga? Diz, sem dó nem dor no “célebro”.

—Ah! Sei lá! Disse que ela é loira, alta e rica. Que conheceu ela numa boate, e que ela é praticante de dança do ventre. Disse que tá apaixonado. E também que a bunda dela é grande.

—O que? —um berro esganiçado e carregado de raiva brotou da boca de Dedéia. Ela rodou nos calcanhares e começou a jogar tudo o que alcançava ao chão. —Loira? Rica? Faz aqueles “trem” esquisitos com a barriga? E ainda de bunda grande? Ah! Ele me paga. Me paga bem caro. O que eu faço, amiga? Me diz logo! O que eu faço com esse canalha?

—Se eu fosse você, destruía o que ele mais gosta. —Ana comentou em tom sarcástico, e, logo em seguida, sorriu como se estivesse plenamente satisfeita por incitar a amiga a fazer alguma maldade.

Dedéia ouviu aquilo e desapareceu pelas escadas que levavam ao segundo andar da casa. Ana, sem entender, foi atrás. Em instantes, localizou a amiga num dos quartos, mas estaqueou, ficando boquiaberta com o que viu. Dedéia, armada com um taco de golfe, espancava violentamente um pato de borracha.

—Mas, o que você está fazendo?

—Ué! Fazendo o que você mandou. Estou destruindo o que ele mais gosta! Ele adora esse patinho de borracha. Quando vai pra banheira, só toma banho com esse patinho dentro da água.

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—Pelos deuses do “Olímpo Egípcio”! Sua tonta! E desde quando espancar um pato de borracha vai atingir o safado do teu marido? Tem que fazer algo mais impactante. Se bem que esse patinho é bonitinho! —Ana pegou o pato de borracha e perdeu alguns segundos, admirando-o e virando-o, até que reparou algo na parte de baixo do brinquedo. —E por que tem esse buraco desse tamanho na parte de trás do pato? Cabem meus dois polegares juntos aqui nesse buraco!

—Não seja indiscreta, amiga! Mas, você tá certa! Vou dar cabo disso agora mesmo. Ele brincou com fogo, então, vou contra-atacar com fogo também.

Dedéia agarrou o pato de borracha e desapareceu novamente. Ana, desanimada, sentou e esperou, pois sabia que a amiga pouco faria. Então, sem pressa, abriu o guarda-roupas e passou a admirar os vestidos de festa de Dedéia. E assim, o tempo passou. Meia hora depois, Ana sentiu um cheiro forte de fumaça, e correu até a janela. De lá, pode observar uma nuvem preta subindo aos céus. Aos tropeços, correu pelas escadas, e só parou quando chegou ao lado da amiga, que mantinha um olhar extremamente sórdido.

—Sua louca! —Ana gritou, pasmada. —O que você fez?

—Ué! Dei cabo das duas coisas que o pilantra mais gosta. O pato de borracha e a caminhonete dele.

—Essa é a minha caminhonete, sua estúpida!

—É? Vocês têm caminhonetes iguais? Nem me dei conta disso!

Sem que elas percebessem, as labaredas atingiram a casa, e em pouco tempo, tudo veio ao chão. Algumas horas depois, já com os bombeiros controlando tudo, Nilo chegou ao local, completamente desesperado.

—Homem é tudo igual. Vocês insistem na mentira até quando as provas são incontestáveis! Eu escutei você falar até o nome dela, seu safado! —Ana esbravejava, ainda querendo incitar a amiga a ficar com raiva do marido. —E você falou em alto e bom tom! Matilde!

—Espera! Espera um pouco! —Dedéia parou o que fazia e sentou a um canto, nitidamente desconcertada. —Matilde era minha vaquinha que morreu, e você tinha prometido comprar outra. Você não estava falando da... minha vaquinha, estava?

Nilo apenas balançou positivamente a cabeça, o que foi suficiente para que Dedéia quase entrasse em um colapso nervoso. Ana tentou acolhe-lha, mas acabou enxotada pela amiga. Um pouco mais distante, Nilo olhava para os restos de sua casa, e levou um susto enorme ao ouvir seu próprio telefone celular tocando. Saiu para o lado e atendeu, mostrando nervosismo.

—A situação tá feia. Tudo queimado. Minhas duas caminhonetes, caminhão, trator, minha casa, meus pertences. Meu patinho amado. Tudo. E o pior é que ainda vou ter que comprar uma droga de uma vaca pra sustentar a história que, por pura sorte, me livrou de um divórcio. Ainda bem que a porcaria da vaca tinha o mesmo nome que você. E por favor, Matilde. Não me liga mais no meu celular, meu amor. Senão, ainda arranjo encrenca por tua causa.



MarcioJR

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

NASCE DORINHA, A MENINA QUE ADORA SONHAR

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O velho Juba estava ansioso. Andava de lá para cá, deitava, levantava, arranhava a porta, mas nada acontecia. Ele sabia que algo estava acontecendo naquele quarto, mas estava demorando demais para que aquela porta se abrisse. Seus instintos caninos não costumavam errar e, repentinamente, alguns gritos quebraram o silêncio que imperava na casa grande.

A porta do quarto foi aberta e algumas mulheres passaram por ela, desesperadas e correndo. Uma delas, uma senhora de idade já avançada, mostrava o rosto todo molhado por lágrimas e foi para o corredor, enquanto outras duas ganharam a direção da porta de saída da casa e desapareceram sabe-se lá para onde. O velho Juba assustou-se, e por muito pouco não foi pisado por aquelas pessoas apressadas. No entanto, seus instintos fizeram com que ele voltasse a atenção para o interior do quarto. Lá, prostrada na cama, estava outra mulher, completamente encharcada de suor e pranto. Nos braços dela, uma criança recém-nascida.

O cachorro colocou o focinho quarto adentro e caminhou lentamente. Parou somente perto do leito e, sem saber o que acontecia, deitou-se ali, como se iniciasse a guarda daquela mulher que ficara sozinha. Mas não demorou muito e várias pessoas entraram novamente naquele recinto, deixando tudo ainda mais tumultuado.

Ninguém se entendia, e a desordem crescia cada vez mais. Todos olhavam para a criança e balançavam a cabeça negativamente, até que outro homem, um tanto mal educado e que o cachorro não conhecia, entrou no quarto. Ele olhou, olhou, olhou e sentenciou: “nasceu morta”. Nesse instante, o que já era desespero acabou se tornando martírio e agonia para todos.

O velho Juba latiu, como se pressentisse o ocorrido e lamentasse em conjunto com os demais, mas foi contido a chutes por aquele último homem que entrara no quarto. Segundo ele, “ali não era lugar para um pulguento dormir”. O cão baixou a cabeça e saiu, entristecido, mas ficou por perto, vendo cada uma das pessoas deixar aquele ambiente também. Pouco tempo foi necessário para que ficassem apenas a mãe e a criança naquele quarto, o que fez com que o animal se aventurasse novamente e retornasse até ao lado da cama. E lá ele ficou, num misto de tristeza e desesperança, olhando para a mulher.

A mãe mal tinha forças para chorar, e o que fazia agora era apenas gemer. Porém, ela silenciou repentinamente, assim como todo e qualquer outro barulho que se fazia ouvir na casa. Tudo ficou estranhamente silencioso. O cachorro apontou as orelhas e, rapidamente, pulou e se colocou em estado de alerta. Farejou e olhou de soslaio para os cantos, mas não viu nada. Seus dentes apareceram e foram acompanhados de um rosnado, assim como seus pelos se ouriçaram tal qual um porco espinho. Tinha mais alguém ali, e alguém desconhecido.

Um latido miúdo, de cachorro novo, veio da sala, e logo em seguida o filhote do velho Juba entrou no quarto. No entanto, não era ele o motivo dos temores do velho cão, que continuava em estado de alerta. O cachorrinho, que parecia não ligar muito para as preocupações do pai, passou por ele como se nada estivesse acontecendo. Parou apenas ao lado da cama e iniciou uma série de latidos agudos, que mais pareciam uivos. O cachorro mais velho olhou para a cama e se ouriçou ainda mais, sentindo uma presença forte naquele lugar. Mas não enxergava nada. Apenas sentia algo.

O cachorrinho começou a rodar em seu próprio eixo, como se corresse atrás do próprio rabo. Brincava e pulava, latindo descabidamente. Ao contrário do velho cão, o filhote estava feliz. Parecia ver algo que o outro não enxergava. Até que, sem mais nem menos, o filhote parou o que fazia e arregalou os olhos, mirando diretamente a cama onde a mãe recolhia seu bebê nos braços. E os olhos do cachorro espelharam algo surpreendente. Uma luz intensa apareceu e cobriu tudo, sumindo rapidamente para dentro daquela criança e, também, para dentro do próprio filhote. Nesse momento, tudo pareceu congelar, e somente o  velho cão conseguia se mover ou sentir algo, mesmo sem ver o que acontecia. Ele uivou ferozmente e, em seguida, correu até a cama, mas ao chegar ao lado dela, parou o que fazia e olhou ternamente para a criança. Ela estava sorrindo docemente, como se acordasse naquele mesmo instante de um sono profundo e de um sonho bom.

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Ali, naquele instante, nascia Dora, a Dorinha, a menina que mesmo antes de nascer, já passeava pelo mundo dos sonhos. E foi justamente por adorar esse mundo mágico, que ela se atrasou até para nascer. Foi necessário que um anjo a buscasse e a trouxesse para a terra da realidade, ou então, ela já teria ficado por lá mesmo. Como se não bastasse o atraso da menina, o anjo se descuidou e deixou seu pó de estrelas derramar sobre a menina e, também, sobre o cãozinho, mas isto é outra história.

O velho Juba não demorou muito para partir, e seu filhote, que ganhou o nome de Jujuba, cresceu junto com Dorinha. A menina, que nasceu sorrindo, aprontou e brincou muito, e junto com ela, vários outros personagens apareceram, seja neste mundo ou no mundo mágico. Somente ela e seu pequeno companheiro sabem como chegar até este mundo, mas com certeza, histórias sobre ele não irão faltar.




Marcio JR