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sexta-feira, 24 de março de 2023

TUDO CULPA DO SALAME

 

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―Cadê a mala, amor?

―Ali no canto. Mas, pra que essa pressa?

―Taylane, minha amadinha. É nossa filha que vem nascendo! Qualquer erro nosso, qualquer descuido, e pode ser fatal pra ela! ―o marido se agitava, enquanto corria de um lado para o outro, completamente desesperado. ―E fica sentada aí na cama, senão vai molhar tudo. E a bolsa?

―No guarda-roupas, amore!

―Não essa! A bolsa da tua barriga. Gravidez. Lembra?

―Ah! Essa? É! Ela tá aqui ainda.

―Bom! Já liguei pro seu pai, e ele já deve ter saído de casa. Tá vindo pra cá. Já liguei para a sua médica, e também para o hospital. Tudo certo. Vamos embora?

E lá foram os dois, porta afora. Quando entraram no elevador, o marido tirou uma lista do bolso e começou uma checagem de cada item.

―Pelo visto, não esquecemos nada. A Taylândia vem ao mundo cercada de todos os cuidados.

―Washington Wesley Wanderson da Silva! Dá pro senhor se acalmar?

―Mas, meu amor! É o dia mais importante de nossas vidas.

―Eu sei. Mas você precisava me depilar também? ―ela questionou, fazendo cara de tristeza.

―Não reclame. Sei lá quem iria fazer isso lá no hospital. E nem pensar em saber que qualquer homem olhou as coisas da minha mulherzinha.

―Deus do céu! Você é um poço de ignorância, Washington Wesley Wanderson da Silva!

O pai de Taylane, quando viu os dois aparecerem na porta do elevador, já correu para encontrá-los. Todo afoito, mal cumprimentou e já saiu carregando a filha para o carro.

―Pai, por que essa pressa?

―O WWW (o marido) está com a razão, minha filha. É a Taylândia que precisa desse cuidado todo. Você é minha única filha, e ela é minha primeira neta. Então, sossega aí que vou colocar a sirene no carro pra abrir caminho.

­―Por favor, papai! Sirene não, eu imploro! Vou morrer de vergonha. Tudo bem que o senhor é delegado, mas pra quê isso?

A pobre coitada mal foi escutada. E assim, os três chegaram ao hospital. O marido e o sogro literalmente pularam do carro e correram para a rampa, mas pararam assim que notaram a falta de Taylane. Quando olharam para trás, repararam a moça já saindo do veículo, toda torta e segurando as costas. Voltaram e cada um pegou em um braço, carregando-a sem deixá-la encostar os pés no chão.

Dentro do hospital, tudo encaminhado. Era só esperar pela médica, que não demorou para chegar.

―Demorou, doutora! ―o marido, batendo o pé, reclamou.

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―São 4 horas da madrugada. Até os médicos dormem, vez ou outra. E um nascimento não é assim, como quem tira uma rolha de uma garrafa, sr. Washington. Bom, vamos lá! Cadê minha paciente?

O marido olhou para o relógio e apertou um botão qualquer. A médica, ao vê-lo fazer isso, baixou os ombros e desanimou, mirando-o diretamente nos olhos.

―Você não fez isso de novo, não é? Era só mais um treinamento?

―Duas horas e três minutos. Precisamos melhorar esse tempo! Não acha, meu sogro?

―Concordo, WWW! Acho que mais uns três treinamentos e baixamos uns 45 minutos.

―Eu não acredito! ―a médica bufou, saindo para o lado. ―Isso é uma gravidez que está no oitavo mês, e não um jogo de futebol. Vocês são loucos?

A médica sentou ao lado de Taylane e colocou a mão na barriga da moça.

―Coitada dessa criança! O pai é um doido, e o avô apóia e colabora. O que eu fiz pra merecer um cliente assim?

―Você, doutora? E eu? Convivo com esses dois malucos o tempo inteiro!

Um mês depois, uma mensagem fez o telefone de Washington vibrar. Era Taylane, dizendo que estava com vontade de comer salaminho. O marido, exagerado em seus atos, passou no açougue e comprou logo dez unidades.

“Vai saber qual é o que ela tá com vontade de comer!”. ―ele pensou, indo para o carro.

Ajeitou tudo no banco da frente do veículo e se preparou para sair, mas um dos salames insistia em não ficar na sacola. Ele, tranquilamente, pegou o salame e enfiou no bolso da jaqueta. O que importava, naquele instante, era voltar para casa. Já era tarde e ele estava cansado, e possivelmente a esposa só esperava por aqueles ditos salames para poder se saciar e repousar.

―Vou correr, senão é capaz da minha neném nascer parecida com um salame.

Já em casa, ele colocou a jaqueta nas costas da cadeira e chamou a esposa. Ela não se fez de rogada. Comeu até se refestelar. Mas o desejo foi além. Ainda fez o marido preparar pudim, brigadeiro de panela e macarrão com molho. Para encerrar, tomou quase meio litro de Coca-Cola sem gelo. O marido só olhava, sem entender como aquilo tudo poderia se ajeitar dentro da franzina esposa.

Durante a noite, na cama, ela parecia inquieta. Virava-se constantemente, até que dormiu. Repentinamente, o marido colocou uma das mãos nas pernas da esposa e reparou algo estranho. Então, tratou de chamá-la.

―Amorzinhoooo. Acho que você tomou refrigerante demais. A cama tá toda molhada.

Ela acordou e tateou a cama, constatando que era verdade aquilo que o marido falara. Ficou parada alguns instantes e, quando o marido acendeu as luzes, os dois se olharam, assustados.

“A bolsa estourou”! ―os dois gritaram, juntos.

―WWW, calma. ―a esposa, que jamais chamara o marido pelo apelido, gritou, tentando impor alguma ordem.

Ele sequer prestou atenção no que ela falava. A primeira coisa que fez foi ligar para o sogro que, obviamente, dormia profundamente.

―Alô, meu sogro. A bolsa estourou!

―O quê? Como? Bolsa estourou? ―o sogro balbuciou, até que acordou em um estalo, assustado. ―Que inferno! Como? Então perdi todo meu dinheiro que estava investido lá? Eu sabia que aquele corretor iria me passar a perna... ―um instante de silêncio. ―Mas de qual bolsa você está falando? Eu não investi nada na Bolsa de Tóquio! E nesse horário, só a bolsa japonesa deve estar aberta!

―A Taylândia, seu tonto! ―Washington irritou-se, tentando explicar que era a bolsa da barriga da esposa.

―Piorou! Se eu não investiria no Japão, vou investir na Tailândia? Tá burro, é?

―Burro tá você, seu tonto! Não é o país. É a Taylândia, a sua neta. A bolsa que rompeu é a da Taylane. Acordaaaaaaa. E vem logo pra cá, que eu to preparando tudo!

Ao desligar, o marido correu para a gaveta de sua escrivaninha, para procurar a lista de providências a serem tomadas naquele instante. Mas não achou nada. Desesperado, começou a contar nos dedos, até que parou e olhou para a esposa, que tranquila, só esperava por ele para poderem descer até a entrada do prédio.

―Como...?

―Bom, enquanto você se desespera, eu penso. E faço as coisas com calma. Vamos?

―Mas, e a...?

―Já peguei.

―E a...?

―Também!

―E... e... e...?

―Dá pra calar a boca e se vestir logo, que to começando a ter contrações? ­―Taylane não se aguentou e soltou um berro, fazendo com que o marido corresse para a cozinha e vestisse, unicamente, a jaqueta.

Ela, com contrações, mal reparou que o marido esquecera as calças. Naquele instante, ela notou que precisava pensar nela mesma, ou então, as coisas poderiam piorar um pouco. Chegara a hora de ver se aqueles treinamentos valeram para algo.

E tudo já se mostrou estranho no elevador. A demora foi tanta que o marido já pensava em descer pelas escadas mesmo. Até que, repentinamente, a porta do elevador abriu e eles puderam entrar. La dentro, um zelador já idoso descia com alguns apetrechos para limpeza. Ao ver aquele casal, arregalou os olhos, principalmente ao reparar que o marido estava apenas de cuecas. Mas calou-se. Vai que era alguma nova moda?

Lá embaixo, na entrada do prédio, o sogro já esperava, ansioso. E ao vê-los, tomou um susto.

―WWW. Pode me explicar esses trajes?

Washington sequer prestou atenção nas palavras que o sogro dissera. Passou por ele e foi até o porta-malas do veículo, jogando para dentro toda a bagagem que carregava. Deu novamente a volta e entrou, mandando o sogro acelerar.

Duas quadras mais adiante, o sogro parou o carro e ficou olhando para o genro, que estranhou o fato.

―Parou por que? Estamos com pressa, não estamos?

―Seu animal. Você me fez esquecer minha filha lá atrás.

Enquanto os dois discutiam, outro veículo dobrou a esquina e, sem esperar que o veículo daqueles dois estivesse parado bem no meio da avenida, chocou-se com o carro do sogro de Washington. O delegado desceu rapidamente e começou a xingar o outro motorista. Ou melhor, a “outra” motorista.

―Tinha que ser mulher! E, claro, só poderia dar nisso! Eu sou delegado, sabia?

―E eu sou juíza, sabia? E sabia, também, que o seu veículo estava parado de forma irregular, no meio de uma via pública?

―Calem a bocaaaaaaaaaaa!

Todos silenciaram e olharam para trás. Era Taylane, que arfante, acabara de chegar até onde eles estavam.

―As contrações estão aumentando. Vai nascer logo!

O desespero foi geral. Até a juíza, que sequer sabia o que estava acontecendo, entrou na dança. Precisavam ir rapidamente para o hospital, mas o veículo do pai de Taylane, naquele estado, sequer sairia do lugar. O carro da juíza também ficara muito avariado, e naquele horário não havia viva alma na rua. O marido tentou usar o telefone celular, mas estava sem bateria. O sogro, na pressa, esquecera o telefone em casa, e a juíza, ao procurar pelo telefone dela, descobriu que quebrara no acidente.

―E agora? O que fazemos? ―o marido suplicou, olhando para a juíza.

―Ei... eu poderia prendê-lo por atentado ao pudor, moço.

O pai de Taylane andou um pouco e reparou algo que poderia ajudar. Pediu aos outros que esperassem e, um pouco depois, voltava até eles com uma carona.

―Pai, isso é um caminhão da coleta de lixo!

―É um veículo, não é? Entra logo. Vai!

O marido ajeitou a moça na cabine do caminhão, e como não havia lugar para todos por lá, o pai e a juíza, que resolveu acompanhar para não perder o delegado de vista, precisaram ir na parte de trás do caminhão, literalmente pendurados.

Como o motorista havia recebido ordens tanto de uma juíza quanto de um delegado para “andar depressa”, abusou o quanto pode. Parecia se divertir com a situação. Mas não parava de olhar para as pernas de Washington. Não entendia por que alguém andava apenas de cuecas naquela hora da madrugada.

Na parte de trás do caminhão, cada um se agarrava como conseguia. E a pior parte ficou para o delegado. Em uma esquina, um saco de lixo se desprendeu e caiu sobre ele. No interior, algum tipo de líquido com cheiro putrefato derramou todo nas calças do pobre coitado. As blasfêmias eram ouvidas a metros de distância, mas logo foram substituídas por sonoras gargalhadas, pois ele reparou que não havia sido o único atingido por aquele líquido. A juíza também estava toda molhada, e completamente irritada. Com as calças encharcadas por aquele líquido mal cheiroso, ela não sabia se xingava ou chorava.

Quando o caminhão parou diante do hospital, o delegado pulou e tratou de tirar as calças, para se ver livre do mal cheiro. A juíza, estranhando aquilo, baixou o olhar e reparou que a situação dela também estava complicada, e piorava ainda mais com aquele cheiro insuportável. Sem escolha, e tomada pelo instinto de não perder o delegado de seu ângulo de visão, não pensou duas vezes. Também arrancou as calças e foi atrás daquele homem.

Na recepção do hospital, um alarde estava montado. Na pressa, ninguém lembrou de ligar para a médica. E quando conseguiram localizá-la, descobriram que ela não chegaria a tempo para fazer o parto. Um enfermeiro, vendo que ninguém se entendia e já conhecendo tanto Washington quanto o pai de Taylane, tratou de puxar a moça para o lado, e levou-a para outra sala, para tranquilizá-la e iniciar os procedimentos necessários. Enquanto isso, na recepção, a bagunça só criava mais tamanho, até que a atendente não aguentou e ameaçou chamar a polícia.

―Pode chamar. Eu sou delegado.

―E eu, juíza!

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―Então, vocês vão calar a boca, porque isto aqui é um hospital. Vocês estão pensando o quê, afinal? E posso saber por que os três estão quase pelados? Vocês estavam onde? Numa suruba?

―Olha o respeito, menina! ―o delegado levantou o dedo, irritado.

―Baixe o dedo, senhor! ―a enfermeira retrucou. ―É desse jeito que um delegado resolve as coisas? E mais um detalhe! Que cheiro dos infernos é esse? Ecaaaaaaa.

Os três se olharam, e só então Washington reparou que estava sem calças. O pobre coitado parecia desnorteado. Toda a sua atenção e zelo viraram naquilo. Sentia-se um fracassado. Mas balançou a cabeça, sabendo que não poderia ficar ali parado. O sogro e a juíza, engalfinhados em uma briga de impropérios e palavrões, não ajudariam em nada, e a esposa sumira.

Washington aproveitou que a atendente estava distraída com a briga dos outros dois e saiu de fininho. Foi se enfiando pelos corredores, até que por uma janela de vidro ele notou a esposa deitada em uma maca. Bateu no vidro e, quando estava por abrir a porta, um enfermeiro segurou-o pelo ombro.

―Posso saber o que o senhor está fazendo aqui?

―Sou o marido daquela moça ali!

―Vai assistir ao parto? Então, venha comigo! Mas antes, o senhor pode me explicar onde estão suas calças?

Washington não teve muita escolha e seguiu o enfermeiro. Aquilo não estava nos planos dele. Assistir ao parto da esposa? Ele não suportava ver sangue. Entrava em desespero a cada vez que isso acontecia.

Quando chegaram na outra sala, onde o enfermeiro iria preparar Washington para assistir ao parto, o rapaz se desesperou. Precisava fazer algo. Então, quando o enfermeiro se distraiu, ele pegou um gorro e um avental médico e saiu silenciosamente. Vestiu-se no corredor mesmo, e se esgueirou, olhando para todos os lados como se estivesse em uma cena de guerra. Inesperadamente, escutou algumas vozes e entrou na primeira sala que viu. Era uma sala com uma porta enorme, dividida em duas partes, mas ao que parecia, era apenas uma ante-sala. E para o azar do rapaz, aquelas vozes estavam cada vez mais próximas. O que restou para ele foi seguir em frente, até abrir outra porta igual a primeira. Assustou-se, pois acabou dando de cara com várias pessoas rodeando uma mulher, que estava deitada em uma mesa.

―Taylane? ―Washington murmurou, reconhecendo a esposa.

―Quem é o senhor? ―a pergunta veio de um homem enorme, que estava parado do outro lado da mesa onde a esposa se encontrava deitada.

Washington foi ladeando a mesa lentamente, até parar ao lado daquele homem.

―Eu sou o marido. E o senhor, quem é?

―Eu sou o médico que irá fazer o parto, pois a doutora Luiza não chegará a tempo.

Nesse momento, Washington olhou para a mesa onde a esposa estava deitada. O que ele viu, acabou fazendo com que um nó descesse por sua garganta. Taylane estava com os joelhos dobrados e abertos, e completamente desprovida de qualquer vestimenta.

Sem saber o que fazer, o rapaz enrubesceu e olhou para o médico. Gaguejou algumas palavras, e começou a arrancar o avental que utilizava, até ficar apenas de jaqueta e cuecas. Estava irritado e com ciúmes, e só pensava em afastar o médico dali. Suas mãos, afoitas, acabaram parando dentro dos bolsos, e ele notou que havia algo em um deles. Algo redondo e comprido, o salame. Então, pegou-o e começou a ameaçar o médico.

―Nem pense, seu doutorzinho. Nem pense que você vai ficar ai, olhando as coisas da minha mulher. ―o rapaz bufava e balançava aquele salame bem perto do nariz do médico.

Uma das enfermeiras, vendo a cena, tentou interceder, e o médico aproveitou a situação para “desarmar” o rapaz. Mas como ele não parava quieto, o médico largou o salame no primeiro lugar que viu, e que foi justamente na mesa onde Taylane estava, e bem entre as pernas da moça.

Outro enfermeiro entrou com uma câmera nas mãos. Taylane havia encomendado o registro em vídeo do nascimento da filha, e ele começou a filmar. Ao lado, ninguém se entendia. Duas enfermeiras tentavam conter Washington, enquanto o médico, desesperado, fazia de tudo para voltar para seu posto. Taylane, entre soluços e gemidos, tentava chamar a atenção de alguém, até que, com um resto de forças, soltou um berro.

―Socorroooooooooooooo.

Todos pararam imediatamente. O médico arregalou os olhos, mas não descuidou do rapaz, que estava, àquela altura, bem preso nas mãos das enfermeiras. Mas Washington foi o primeiro a perguntar algo.

―Nasceu?

Novo silêncio. Até que o enfermeiro, que filmava tudo, se voltou para as pernas de Taylane e caiu na gargalhada. Em seguida, desligou a câmera e olhou irônicamente para o rapaz, dizendo:

―Olha! Tem algo aqui, mas se for uma criança, acho que sua mulher deve ter ficado com muita vontade de comer alguma coisa, porque tá com uma cara danada de parecida com um salame.

Aquelas palavras, por mais que fossem apenas por brincadeira, surtiram um efeito não esperado em Washington. Ele, ainda mais irritado, livrou-se das enfermeiras, mas foi contido pelo médico. Taylane, vendo que não aguentaria mais, relaxou o corpo, e sem esperar, sentiu que Taylândia começava a dar as caras ao mundo. E como ninguém se entendia novamente, o enfermeiro que filmava largou a câmera e fez o que sabia. Amparou a criança e ajudou no parto. Minutos depois, um choro tomava o ambiente.

―Ah! Agora nasceu. E é uma menina! ―o enfermeiro comemorou, segurando a criança nas mãos. ―Mas ainda não entendi por que esse salame estava aqui! É alguma simpatia?

Um silêncio aterrador tomou conta daquela sala, quebrado unicamente pelo barulho do marido se estatelando ao chão.

Algumas horas mais tarde, com um número enorme de policiais e jornalistas na recepção do hospital, uma repórter gravava a matéria que iria ao ar naquele dia.

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―...ainda não sabemos se tudo isso foi algum ritual de um desses grupos de malucos que aparecem a todos os instantes, ou se foi um ato isolado de um pai desesperado, que ao se ver sem atendimento neste hospital de luxo, entrou em pânico. O que se sabe é que uma juíza e um delegado, que possivelmente fazem parte desse grupo de malucos que tentou dominar o hospital, foram flagrados a poucos instantes, trajando apenas roupas íntimas, numa das salas do hospital. Segundo testemunhas, os dois estavam lambuzados de sabão líquido da cintura para baixo, e exalavam um cheiro estranho, possivelmente "provindo" de alguma substância estranha, ou de algum ritual maluco que eles faziam. Muito estranho. Será parte do ritual de acasalamento desse grupo esquisito? Por sua vez, o pai da criança que nasceu foi autuado por invasão de área restrita do hospital, por desacato e por agressão. Ele ameaçou ao médico e a outros atendentes com um salame enorme e de origem desconhecida. Ainda será investigada a procedência do salame, mas ao que tudo indica, ele fazia parte da artimanha desse grupo para incrementar o ritual que eles iriam realizar aqui nesse hospital. E eu lhes pergunto. Será falta de fé? Será falta de segurança? De onde viemos? Para onde vamos? Isso é o cúmulo... corta e edita.



Marcio Rutes



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SEJA EDUCADO (A). SOLICITE AUTORIZAÇÃO.

sábado, 18 de março de 2023

MATILDE


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Ana caminhava lentamente pelo estreito corredor e, ao passar ao lado da sala, ouviu vozes masculinas. Como ela jamais conseguira conter seu ímpeto alcoviteiro (se é que alguma vez tentou!), colou a pequena e sagaz orelha à porta, e aproveitou. Do cômodo, reparou as vozes de Edú, seu irmão mais velho, e Nilo, o marido de sua melhor amiga.

—Ela é um espetáculo, meu amigo. —Nilo comentava, empolgado.

—E como ela é? —o outro questionava, mostrando interesse.

—Quando ela anda, não tem quem não repare. Quadris largos, com um rebolado bem marcado. A traseira é empinada. Puro mignon. Ela é minha e ninguém tira. Fiquei babando pela Matilde

Ana estarreceu. Sua melhor amiga estava sendo traída? Um turbilhão de pensamentos passou por sua cabeça, mas a vontade de colocar aquela bomba no Facebook e levar a fofoca adiante foi maior do que tudo. No entanto, era sua melhor amiga, e por certo deveria ser ela a primeira a saber. Depois, é claro, repartiria a informação com algumas poucas pessoas nas redes sociais. Então, em menos de cinco minutos, Ana estava em sua caminhonete e rumando apressadamente para a fazenda onde a amiga residia.

—Dedéia, minha amiga. É isso mesmo. Eu “vi” tudo, com essas orelhas que terra nenhuma há de comer. Afinal, não paguei uma fortuna em cirurgia plástica pra terra estragar tudo depois.

—Ana, que inferno! Eu não posso acreditar nisso! —Dedéia bufava, atônita. —O que mais ele falou, amiga? Diz, sem dó nem dor no “célebro”.

—Ah! Sei lá! Disse que ela é loira, alta e rica. Que conheceu ela em uma boate, e que ela é praticante de dança do ventre. Disse que tá apaixonado. E também que a bunda dela é grande.

—O que? —um berro esganiçado e carregado de raiva brotou da boca de Dedéia. Ela rodou nos calcanhares e começou a jogar tudo o que alcançava ao chão. —Loira? Rica? Faz aqueles “trem” esquisitos com a barriga? E ainda de bunda grande? Ah! Ele me paga. Me paga bem caro. O que eu faço, amiga? Me diz logo! O que eu faço com esse canalha?

—Se eu fosse você, destruía o que ele mais gosta. —Ana comentou em tom sarcástico, e, logo em seguida, sorriu como se estivesse plenamente satisfeita por incitar a amiga a fazer alguma maldade.

Dedéia ouviu aquilo e desapareceu pelas escadas que levavam ao segundo andar da casa. Ana, sem entender, foi atrás. Em instantes, localizou a amiga em um dos quartos, mas estaqueou, ficando boquiaberta com o que viu. Dedéia, armada com um taco de golfe, espancava violentamente um pato de borracha.

—Mas, o que você está fazendo?

—Ué! Fazendo o que você mandou. Estou destruindo o que ele mais gosta! Ele adora esse patinho de borracha. Quando vai pra banheira, só toma banho com esse patinho dentro da água.

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—Pelos deuses do “Olímpo Egípcio”! Sua tonta! E desde quando espancar um pato de borracha vai atingir o safado do teu marido? Tem que fazer algo mais impactante. Se bem que esse patinho é bonitinho! —Ana pegou o pato de borracha e perdeu alguns segundos, admirando-o e virando-o, até que reparou algo na parte de baixo do brinquedo. —E por que tem esse buraco desse tamanho na parte de trás do pato? Cabem meus dois polegares juntos aqui nesse buraco!

—Não seja indiscreta, amiga! Mas, você tá certa! Vou dar cabo disso agora mesmo. Ele brincou com fogo, então, vou contra-atacar com fogo também.

Dedéia agarrou o pato de borracha e desapareceu novamente. Ana, desanimada, sentou e esperou, pois sabia que a amiga pouco faria. Então, sem pressa, abriu o guarda-roupas e passou a admirar os vestidos de festa de Dedéia. E assim, o tempo passou. Meia hora depois, Ana sentiu um cheiro forte de fumaça, e correu até a janela. De lá, pode observar uma nuvem preta subindo aos céus. Aos tropeços, correu pelas escadas, e só parou quando chegou ao lado da amiga, que mantinha um olhar extremamente sórdido.

—Sua louca! —Ana gritou, pasmada. —O que você fez?

—Ué! Dei cabo das duas coisas que o pilantra mais gosta. O pato de borracha e a caminhonete dele.

—Essa é a minha caminhonete, sua estúpida!

—É? Vocês têm caminhonetes iguais? Nem me dei conta disso!

Sem que elas percebessem, as labaredas atingiram a casa, e em pouco tempo, tudo veio ao chão. Algumas horas depois, já com os bombeiros controlando tudo, Nilo chegou ao local, completamente desesperado.

—Homem é tudo igual. Vocês insistem na mentira até quando as provas são incontestáveis! Eu escutei você falar até o nome dela, seu safado! —Ana esbravejava, ainda querendo incitar a amiga a ficar com raiva do marido. —E você falou em alto e bom tom! Matilde!

—Espera! Espera um pouco! —Dedéia parou o que fazia e sentou a um canto, nitidamente desconcertada. —Matilde era minha vaquinha que morreu, e você tinha prometido comprar outra. Você não estava falando da... minha vaquinha, estava?

Nilo apenas balançou positivamente a cabeça, o que foi suficiente para que Dedéia quase entrasse em um colapso nervoso. Ana tentou acolhe-lha, mas acabou enxotada pela amiga. Um pouco mais distante, Nilo olhava para os restos de sua casa, e levou um susto enorme ao ouvir seu próprio telefone celular tocando. Saiu para o lado e atendeu, mostrando nervosismo.

—A situação tá feia. Tudo queimado. Minhas duas caminhonetes, caminhão, trator, minha casa, meus pertences. Meu patinho amado. Tudo. E o pior é que ainda vou ter que comprar uma droga de uma vaca pra sustentar a história que, por pura sorte, me livrou de um divórcio. Ainda bem que a porcaria da vaca tinha o mesmo nome que você. E por favor, Matilde. Não me liga mais no meu celular, meu amor. Senão, ainda arranjo encrenca por tua causa.


Marcio Rutes




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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

A GANG DAS VELHINHAS

 aviso (nota) do autor: o texto é longo... 

então, se você não é daqueles

 que "mergulha" naquilo que lê,

 nem passe daqui!


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A situação não anda boa para ninguém mesmo. E quem sabe para aquelas quatro senhoras e aquele senhor, presos em um distrito policial qualquer de uma cidade grande, a coisa fosse ficar ainda pior.

Acusações? Invasão, assalto a mão armada, sequestro, extorsão, tentativa de suborno e... assédio sexual seguido de atentado violento ao pudor. Mas, afinal, o que motivou quatro senhoras e um senhor, todos acima dos 65 anos de idade e vindos todos de famílias tradicionais, a cometer tantos crimes? Teriam sido eles as vítimas de alguma mente inescrupulosa dos tempos modernos, desses que aparecem nos programas policiais, e que os usou para depois se evadir e largar a culpa sobre eles? Ou fizeram tudo isso para se afirmar diante de uma sociedade que segrega cada vez mais o idoso? Abandono familiar? Tédio?

Não. O motivo foi bem outro. Fizeram tudo isso por serem responsáveis e por honrarem os compromissos assumidos. Ou seja, praticaram um ou mais crimes por serem, justamente, honestos. Curioso? Então, sente-se e se prepare, pois a história é longa.

Tudo começou em uma reunião do pequeno clube de baralho que Dona Maria mantinha em casa para, assim, reunir as amigas, distrair-se e manter as fofocas em dia. Dona Maria era a mais velha entre elas, 68 anos de idade, e viúva 5 vezes. Morava sozinha, e mesmo usando óculos, era a mais "ligeira" de todas. Na maioria das vezes acabava “limpando” as poucas economias das amigas. Leocádia, 66 anos, era a deslumbrada do grupo. Uma romântica que suspirava sempre que escutava “SHE” de Charles Aznavour. As amigas, sabedoras de que ela se derretia toda e perdia a concentração quando escutava essa música, colocaram em seus celulares uma cópia, e sempre que ela estava ganhando no jogo, davam um jeito e disparavam o player. Era batata. E além disso, era a cozinheira metida a nutricionista do grupo, mas suas orientações partiam ao rumo contrário daquilo que era correto, pois era nesses encontros que ela aproveitava para quebrar dietas e regimes.

Tinha a Dona Loló. 65 anos de idade, doceira de mão cheia, de pele jambo e surda feito uma porta. Não era incomum alguém falar “mandioca” e ela entender “como você está gostosa”. Sim. Ela era um tantinho obscena. Tarada mesmo. Segundo ela, ainda não tinha encontrado o homem certo para fazê-la “queimar a granola”. E por fim, Dona Ziza, professora de anatomia, psicóloga, solteirona e, segundo ela, virgem. Idade? Ela diz que não revela nem sob tortura. Também adora estudar ocultismo e é portadora de incontinência urinária.

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Ah! Sim. Quase esqueço de seu Macedo. Senhor alto, beirando seus 70 anos de idade, esquecido que dói, e que adora frequentar o clube de baralho “das meninas”. Obviamente, existe um interesse escuso delas sobre a presença dele. No caso, ele é quem financia os comes e bebes, e leva algumas substâncias proibidas para os encontros. Drogas? Que nada. Doces, filmes, ou qualquer outra coisa que as respectivas famílias cuidem para não serem consumidas por elas.

Apresentações feitas, vamos aos fatos que motivaram toda essa história.

O Natal se aproximava. Já era mês de julho e... sim, para elas, o tempo era uma agonia e passava voando. Mas, como eu dizia, elas queriam ter um Natal diferente, com mais dinheiro no bolso, e decidiram inventar algo que rendesse alguns trocados. Foi então que, numa das reuniões do clube, saiu uma conversa mais ou menos assim:

―Loló, você não ia trazer aquela sua prima pra gente depenar no baralho, filha?

­―Quem dera, Ziza. Aquela lá tá no pó da viola. Acho que não passa sequer a próxima gripe do frango. Tá feia a coisa. Mas é uma pena. Bem que ela merecia se divertir um pouco, né! Mas, e as amigas da Leocádia e da Maria? A gente poderia convidar elas.

―Esquece! ­―Maria respondeu, desanimada. ―Elas foram num desses chás de bebê. É sempre assim. Quando as coisas estão começando, tem festa. Quando estão terminando, tem lágrima. Chá de panela, chá de bebê. Depois, é chá de divórcio e velório.

―E por que vocês não inventam um CHÁ DE MORTALHA?

As quatro pararam o que faziam e olharam para a mesa. Lá, seu Macedo conferia alguns canhotos de apostas do jogo de bicho, mas largou tudo na mesa e ficou silencioso, olhando para as quatro mulheres.

―Explica isso, Macedo! ­―Ziza, a mais antenada das quatro, se interessou pelo assunto.

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―Simples! Vocês fazem uma lista dos amigos e conhecidos que já estão com um pé na cova, e propõe uma última comemoração. Como se fosse um desses chás de bebê ou de panela. Só que no lugar dos convidados levarem presentes e mimos para a criança ou para a casa, levam utensílios úteis para um futuro velório, como vale-pão, mortadela, vale-flor, mortalha, e coisinhas assim. Além do que, tem a festa que o futuro defunto vai fazer, ainda em vida, para os amigos e conhecidos. Todos se divertem e o candidato a defunto ainda sai no lucro. Para ir além, vocês podem até ter um caixão, para ensaios fotográficos. Quem sabe até vender um plano funerário seria interessante.

Aquilo parecia ser a ideia mais estapafúrdia possível, mas justamente por ser inusitada é que chamou a atenção de Ziza e das outras. Resultado? No dia seguinte estavam as quatro mulheres diante do computador, pesquisando e inventando um jeito de levar aquilo adiante.

A primeira dificuldade encontrada foi convencer alguém a ser o primeiro cliente. E lá vem seu Macedo novamente, com suas ideias mirabolantes.

―É simples. Uma de vocês quatro pode inaugurar tudo isso. É só fingir que é uma cliente, e sair convidando todo mundo. Ninguém precisa saber que isso é um empreendimento. A Maria, que é mais comunicativa, pode ser a Promoter do evento. Loló e Leocádia são mais emotivas, então puxam o choro, como carpideiras, e a Ziza, que sempre foi mais ligada nessas coisas de bruxaria, pode tranquilamente bancar a defunta.

―Sei não. E a incontinência urinária dela? ―Maria já saiu provocando. ―Ainda acabamos tendo que deixar um penico debaixo do caixão. Sem contar que seria o primeiro velório com morto mijado que eu iria presenciar.

Todos caíram na gargalhada, mas foi exatamente o que fizeram. Loló, que conhecia o gerente de uma funerária, tratou de arranjar o caixão, enquanto que as outras se ocuparam em convidar os amigos e convencer a todos de que aquilo não era loucura nenhuma, mas sim um jeito de se divertir. E foi basicamente o que aconteceu.

O “evento” foi um sucesso. Seu Macedo, vendedor nato, se deu conta de que aquilo era um acontecimento que poderia interessar à mídia, e também tratou de “espalhar” a notícia entre alguns de seus conhecidos. E deu certo. No dia seguinte, até a televisão deu pequena nota sobre o ocorrido.

Poucos dias se passaram, até que dona Maria apareceu afoita na casa de Ziza. Precisavam reunir o grupo com urgência, pois alguém estava disposto a contratá-los para um evento de Chá de Mortalha. Era o primeiro cliente. O diferencial é que seria um evento à fantasia, e o motivo escolhido foi Dia das Bruxas. Lançou-se, então, o CHÁ DE MORTALHA TEMÁTICO.

A notícia se espalhou de vez, tornando-se um sucesso. Não demorou para que aparecessem concorrentes, mas seu Macedo era um gênio para promover inovações. Em um dos eventos, fez todos irem de pijama, e quando a concorrência tentou fazer igual, lá estava ele promovendo o CHÁ DE MORTALHA NATURISTA. Loló adorou a ideia, enquanto Ziza torceu o nariz, mas fez a sua parte.

A coisa ia tão bem que até jornalistas de outros países se interessaram pela história. A mídia local não se cansava de fazer chacota, mas quanto mais se tentava ridicularizar a ideia, mais sucesso ela fazia. Dinheiro para o Natal? Que nada. Naquela altura, eles estavam pensando era em viajar para a Europa. E foi quando a ganância tratou de complicar tudo.

Uma nova cliente. Atriz famosa, mas com a carreira em declínio, e querendo mais alguns minutos de fama. Evento para sair em todos os maiores canais de mídia. Tema? Exotérico. E Ziza foi a primeira a se maravilhar. Bolou estratégias de mídia e desenhou cenários. Pensou em uma decoração extravagante. Velas. Muitas velas pretas. O que a atriz pensou sobre isso? Para ela pouco importava. Queria apenas um pouco mais de espaço nas revistas.

Leocádia e Loló também se maravilharam. A primeira pelo glamour do mundo dos artistas. Pensou em convidar Pedro de Lara, Dercy Gonçalves e Hebe para o evento, pois era fã ardorosa de cada um deles, mas desistiu assim que alguém comentou com ela que todos já haviam partido desta para melhor. Contentou-se com alguns figurantes que haviam participado do filme “O PAGADOR DE PROMESSAS”. Já Loló pensou na possibilidade de encontrar algum daqueles bonitões da TV. Quem sabe alguém como Toni Tornado, Rolando Boldrin ou Silvio Santos, ou até mesmo outro mais novo, como Raul Gil ou José Sarney. E ficou ali, deslumbrada. Era sonho, claro, mas quem disse que sonhar é proibido?

Para dona Maria a história era outra. “Negócios são negócios. E se traz dinheiro, to dentro”, dizia ela. Já seu Macedo estava pensativo. Quieto e sisudo, andava pelos cantos, nitidamente preocupado. Ziza, sem entender, foi até ele e perguntou se não tinha gostado da nova cliente. E ele logo expôs seus motivos.

―É muita areia pro nosso caminhãozinho! E as velas? Você relacionou 300 velas pretas aromatizadas, Ziza! Onde vamos conseguir tudo isso?

―Samira. ―Ziza respondeu de pronto, fazendo com que Macedo se engasgasse.

―Neeeeeeeeeeeeeem a pau! A Samira não! Eu e ela não podemos sequer transitar na mesma rua. Ela me odeia!

―Pára com isso, Macedo! Você é quem aprontou com ela! Lembro bem da história. Deixou ela esperando por 3 anos, enquanto você foi na esquina comprar cigarros. Quando voltou, estava casado e com dois filhos.

―Tá! Eu até aceito essa ira dela. Mas ela nunca esquece! Na última vez em que ela esteve lá em casa, colocou purgante na minha pasta de ameixa! Como se não bastasse, trancou todos os banheiros e jogou as chaves fora! Acho que ela não vai topar! E se aceitar, vai dar um jeito de ferrar tudo. Eu to avisando!

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Ziza, a muito custo, convenceu Macedo a aceitar a presença de mais uma sócia no evento. Assinaram contrato com a atriz e partiram para a organização de tudo. Eram extremamente profissionais, mas desta vez, algo estava errado. O deslumbramento de todos, cada um com seus motivos, levava-os a negligenciar alguma tarefa ou obrigação. E quando se deram conta, os prazos estavam esgotando e muito pouco já havia sido providenciado. Correria.

A divulgação, por conta de Macedo, foi maciça. Convidados de outras cidades e, claro, gerentes e donos de funerárias de todos os cantos. Todos interessados naquele negócio que não parava de crescer. E aos poucos, tudo foi se ajeitando, até que um problema inesperado pegou a todos com as calças nas mãos.

―Amanhã é o dia. E por sorte, está quase tudo pronto. ―Maria comentou, quase comemorando.― Falta apenas montar a estrutura das velas.

―Não tem problema quanto a isso. ―Ziza tomou a palavra, também demonstrando contentamento. ―A Samira me ligou ontem e disse que já está tudo lá na loja, separado em caixas de papelão.

As quatro mulheres estavam na sala, praticamente largadas pelos sofás e tomadas pelo cansaço, quando Macedo, literalmente, invadiu a casa, afoito e preocupado.

―Meninas, vocês não vão acreditar. A Samira... morreu hoje cedo.

―O quê? ―as quatro gritaram praticamente juntas, assustadas.

―Eu falei, bem que avisei... ―Macedo se encostou na porta, quase infartando. ―Avisei que essa peste ia aprontar pra mim! Ela não me perdoa. Pilantra!

­―E agora? ―Maria foi a primeira a retomar a consciência. ―Precisamos cancelar o evento. Sem as velas, nada feito.

―Nem brincando! Lembra que já recebemos adiantado? ­―Leocádia argumentou, mostrando desespero. ―E tem muitos convidados de fora e que já estão aqui. Tem a imprensa, os donos de funerária. E até a assessoria do Wanderley Cardoso disse que tem chances dele comparecer. Nem brincando que vamos cancelar. Temos que dar um jeito! O que você acha, Loló?

―Wanderley Cardoso? Mas... Mas... Você não tinha dito que ia tentar a presença do Jair Rodrigues? Você me enganou. Sabe que tenho uma quedinha pelo Jair, mas resolveu trazer justo o Wanderley? Ah, isso não vai ficar assim!

A bagunça foi geral. Ninguém falava coisa com coisa. Aos poucos, Macedo foi soltando o corpo, até sentar-se ao chão. A mulherada não parava, e falava, falava, falava. Até que Macedo viu algo que rendeu uma ideia. Debaixo da mesa, um pé-de-cabra sorria para ele.

―Vamos arrombar!

Todas calaram ao mesmo tempo. Arrombar? Arrombar o que? E, claro, por que?

―Ué! ―Macedo deu de ombros, mostrando que não tinham alternativa. ―Pelo que sei, as velas estão lá na loja do shopping. Já telefonei para a família da Samira, e eles disseram que não existe a mínima chance de fazerem nenhuma entrega antes de realizarem um inventário. Mas nós já pagamos por aquilo tudo. É nosso. E de mais a mais, assim me vingo daquela pilantra. Cáspita, ela não podia morrer num outro dia?

Estava decidido. Se esconderiam no shopping e, depois de fechado, arrombariam a loja de Samira e pegariam as velas. Seria fácil. A filha de Loló trabalhava por lá, e eles tinham acesso direto a administração. Para facilitar ainda mais, o vigia, Nestor, era conhecido de Leocádia. Ela sabia que ele só esperava todos saírem para cair no sono. Seria fácil.

Fácil? Não, não foi fácil.

A primeira parte até se deu com certa facilidade. Esconderam-se e, quando todos encerraram o expediente e esvaziaram o local, os "gatunos" saíram de onde estavam.

―Cadê o tonto do Macedo? ­―Ziza perguntou, sendo repreendida por Maria.

―Quieta. Fale baixo. Tá querendo chamar a atenção do quarteirão?

­―Tenho que falar alto. A Loló esqueceu o trem do aparelho de surdez em casa.

―Tá. Sem problemas. O Macedo tá ali no canto. Ficou muito tempo sentado e agora não consegue levantar. A Loló tá ajudando ele. Mas, e a Leocádia?

―Mandei ela desligar as câmeras. É a única que entende disso.

Ziza mal terminara de falar, e as luzes se apagaram. Na tentativa de desligar as câmeras, Leocádia se enganou e desativou a chave geral de energia do prédio.

―Tem certeza, Ziza? Será que ela sabe o que tá fazendo?

―Bom. Sem luz, as câmeras não vão poder filmar a gente. Agora vamos. Senão não vamos terminar isso até amanhecer.

Quando elas estavam saído da administração do prédio, Leocádia estava voltando. Contou que Nestor estava em uma salinha, roncando profundamente. Loló e Maria arrastavam Macedo, enquanto Ziza ia na frente, esgueirando-se pela parede como se fosse em um desses filmes de agentes secretos.

―O que ela pensa que está fazendo? ―Macedo perguntou, enquanto ajeitava algo dentro das calças.

―Liga não! ―Loló respondeu, olhando com curiosidade para Macedo. ­―Deixa ela brincar de “FULGA DE ALCATRÁZ”. Mas, diz uma coisa, Macedo! Por que você está mexendo dentro das calças? E o que é essa coisa comprida e grossa que está aparecendo aí? Que é isso?

―Arre! O pé-de-cabra, ué! Quer arrombar a fechadura de que jeito?

―Ah! Tá! Pé-de-cabra? Poxa, achei que era algo com mais utilidade! Que pena!

Um pouco mais adiante, Ziza parou e olhou para os lados. A pouca iluminação fez com que ela firmasse bem os olhos. Os demais também pararam e observaram, e se espantaram ao vê-la sair correndo de um jeito bem estranho.

―E agora? Onde essa doida vai? ―Leocádia perguntou, encostando-se na parede.

―Banheiro! ―todos os outros responderam, fazendo coro.

Meia hora depois, e com mais três idas ao banheiro, Ziza parou diante de uma porta metálica. Todos se olharam e estranharam. Ninguém lembrava de nenhuma placa vermelha na entrada da loja de Samira.

―Ziza! Você tem certeza de que é aqui?

―Maria, é claro que eu tenho! Extremo norte, perto do quiosque de sorvete. Agora, vamos logo, senão não saímos daqui hoje. Alguém lembrou de trazer os explosivos?

―Acho que ela esqueceu de tomar o Gardenal nesses dias. Só pode! ―Maria puxou o braço de Macedo, e o mandou fazer sua parte.

Macedo se abaixou, mas logo parou. Um estalo nas costas arrepiou todo mundo, e um “aiii” lamentoso partiu de sua boca.

―Danou tudo. ­―Ziza se agitou, voltando a falar alto.

―Danou nada! E pare de falar alto! Olhem o que eu roubei lá do Nestor!

Todos olharam para Leocádia, e viram a mulher balançando um jogo de chaves.

―São as chaves de segurança. O Nestor estava dormindo, e nem viu eu pegar. Mas quem de nós enxerga bem, o suficiente para achar a chave certa? Acho que a Loló, né? Vai, Loló. Loló... Lolóooooooooooooo... Eita. Até enxerga, mas escutar que é bom, nada!

―Loló, dá pra prestar atenção? Até parece que ta aí, perdida?

―Coceira na perseguida? ­―Loló soltou um grito, irritada. ­―Tão me chamando do quê? Eu tomo banho todos os dias, viu!

―Ai, ai! Isso vai demorar mais do que eu imaginei! ―Macedo desanimou, pegando as chaves das mãos de Leocádia. ―Ziza, você... Ziza? Onde ela foi?

E novamente o coro: “Banheiro”.

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Meia-hora depois, todos estavam dentro da loja. Não enxergavam um palmo diante do nariz, mas continuaram em frente. Passaram pelo balcão principal e foram diretamente para os fundos da loja, mais especificamente para o depósito. Lá, algumas caixas de papelão chamaram a atenção. Na lateral de cada caixa, uma etiqueta dizia “VELAS ESPECIAIS BIG NEGÃO”.

―Big Negão? Que droga de vela é essa? ―Macedo perguntou, olhando para Maria, que vinha logo atrás.

―Isso é coisa dessas doidas, dessas malucas que mexem com bruxaria! Só pode! Samira e Ziza! Quer o que? E vamos logo que não temos muito tempo. Cadê a Loló?

Quando Maria olhou para trás, reparou um vulto na porta, carregando algo comprido nas mãos, como se fosse um cacetete. O susto foi tanto, que ela quase se atirou nos braços de Macedo.

―Calma gente! ―Loló comentou, calmamente. ―Olhem só o que eu achei!

Loló chegou mais perto dos outros, e mostrou o que tinha nas mãos. O espanto foi geral. Ziza foi a primeira a expressar algo.

―Mas isso é uma benga! E é enorme! Onde você achou isso?

―Tava ali no balcão. Pelo visto é um vibrador. O que será que a Samira andava aprontando por aqui? Não sei por que, mas me deu uma saudade do falecido!

―Vocês querem parar de ficar admirando essa coisa? ­―Macedo reclamou, começando a recolher as caixas para levá-las até o estacionamento. ―Parece que nunca viram um pinto na vida!

E o coro fez presença novamente: “Desse tamanho, nunquinha”.

Tudo ia bem, até que já na boca do amanhecer, Nestor acordou e resolveu fazer a ronda. As caixas já estavam quase todas nos carros, e quando o grupo voltava para pegar o restante, deram de cara com o vigia. Ele, sem entender nada, ficou apenas olhando. E foi exatamente o que todos os outros fizeram. Ficaram estáticos. No entanto, espantaram-se pouco depois, ao reparar que Loló chegava sorrateira, por trás do vigia, e com algo nas mãos.

Ela se aproximou e encostou aquele vibrador nas costas do vigia e fingiu que era um assalto. Nestor, ao sentir que algo o espetava na altura das costelas, empalideceu. Foi dobrando os joelhos, até que do nada, desmaiou.

―Eita, cabra macho! ―Ziza comentou, rindo. ―Acho que ele não vai gostar muito quando descobrir que a Loló dominou ele com um pinto.

―Não podemos deixar ele aqui! ―Maria interrompeu, pensativa. ―Vamos levar junto! Vai que ele dá com a língua nos dentes antes de fazermos o evento?

E lá foram todos, arrastando o vigia. Já quase amanhecia, e Leocádia, a última a sair, virou para trás e tentou ler o que estava escrito na placa vermelha, logo na entrada da loja de Samira. Mas como seus óculos não ajudavam muito, pouco conseguiu ver.

―Hot Se... Hot Sex... ah, sei lá! Ficam dando esses nomes esquisitos pros comércios! Por que não dão um nome brasileiro, em bom português, ou algo assim?

Cansados, foram diretamente para o salão onde seria realizado o Chá de Mortalha. Por lá, deixaram as caixas e também Loló, que ficaria responsável pela montagem do cenário com as velas. Além disso, uma grande cortina preta esconderia toda a decoração especial, que seria mostrada somente quando a atriz se deitasse no caixão para fazer a sessão de fotos.

Ao voltar para um dos carros que estava estacionado na rua, Maria estranhou a ausência de Ziza. Procura daqui, procura dali e, ao vê-la, quase morreu de susto. Ziza, calmamente, despia Nestor, e o ajeitava no porta-malas do veículo de Macedo.

―Sua maluca! O que você tá fazendo? Por que isso?

―Vai que ele acorda e resolve fugir! Sem roupas não vai a lugar nenhum.

―Até que ele é um coroa bem enxuto! ―Maria arregalou os olhos, percorrendo todo o porta-malas do veículo.

―Isso não é hora para sentimentalismos. Vamos embora, Maria. Temos muito o que fazer ainda. E a Leocádia? Tá com o Macedo?

―Estão telefonando e confirmando tudo. Vamos com o carro do Macedo. Mas, e o Nestor? Já sequestramos mesmo! Fazemos o que com ele?

―Sei lá! Qualquer coisa! Podemos dar um porre nele, ou contratar uns garotos de programa e bater umas fotos! Se ele quiser dar com a língua nos dentes, fazemos chantagem!

―Ai, ai, ai! Santo Cristo! Você anda assistindo muita televisão!

Assim, o dia passou, com tudo se ajeitando e correndo bem. Para decepção de Leocádia e Loló, os únicos artistas que apareceram foram os funcionários de um tal Circo do Lingüiça, que estava instalado nas proximidades. Mas vários outros convidados deram o ar da graça, assim como a imprensa e os empresários.

A festa era puro glamour e divertimento. Flashes disparavam a cada instante, e os garçons não conseguiam ficar com as bandejas cheias. E tudo ia bem. Bem demais.

­―Ziza, você arrebentou! Adorei os detalhes das velas. Nossa, arrepiei!

―Do que você está falando, Loló? São apenas velas pretas aromatizadas.

―Pois é... e que velas! Ui, ui, ui! De tirar o fôlego! Mas vou lá pra trás da cortina, que já vamos abrir o palco principal. Aiiiiiiii, to emocionada. Vai ser o must!

―Pirou! Essa deve ter visto o passarinho verde!

Ziza estranhou, mas pegou o microfone para anunciar o descerramento da cortina.

―Por favor, gostaria da atenção de todos. Tenho certeza, meus amigos... que o que vocês assistirão aqui jamais será esquecido. ―Ziza falava, orgulhosa de tudo. ―Atrás dessa cortina estão signos daquilo que nos moveu desde nossa gestação. Atrás dessa cortina estão elementos que queimam em cada um de nós, simbolicamente. A chama que nos ilumina vem dessas belas peças. Que desça a cortina!

Assim foi feito. Calmamente, Macedo puxou a corda que abria a cortina. E, exatamente da maneira como Ziza havia dito, foi um espetáculo que ninguém esqueceu.

―Mas, o que é isso? ―uma senhora comentou ao ver todas aquelas velas acesas. ­―O que são essas velas? Me parecem algo conhecido.

―Olha, Mirtes. ―outra senhora respondeu, arregalando os olhos. ―Se a memória não me falha, são pintos!

O alvoroço foi geral. Quando Maria e Ziza olharam para trás, o que viram foi Loló terminando de acender a última vela, que era justamente em formato de pênis. E o que eles tinham ali era um tablado enorme, com mais de duzentas velas acesas, e todas elas pretas e no formato do órgão sexual masculino, porém, em um tamanho deveras avantajado.

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O alvoroço tomou conta. A atriz, sem entender nada, tentou levantar do caixão, mas a tampa escorregou e a deixou trancada. Os fotógrafos não perdoaram, e deram closes e mais closes naquelas velas inusitadas. Como se não bastasse todo o furdunço, Nestor resolveu dar o ar da graça. O problema é que além de bêbado, ele estava completamente nú, e mal conseguia trocar os passos. E mais flashes dos fotógrafos.

―Você não falou que ia amarrar ele, Ziza?

―Arre, não pensei que ele ia conseguir levantar depois de tomar quase um garrafão de cachaça.

E as coisas não paravam de piorar. Entre os convidados, estava a mulher do delegado de polícia, que se sentindo ofendida, telefonou para o marido. Em menos de uma hora, estavam todos na delegacia.

Lá, Maria tentava argumentar com o delegado. Explicou tudo o que ocorreu desde o início, e ele até parecia disposto a escutar, mas Macedo tentou atalhar, e ofereceu uma parte dos lucros do evento para o delegado. Resultado disso: todos presos.

No dia seguinte, recolhidos na cela da delegacia, Ziza se lamentava e argumentava com os demais.

―Pois é. No fim das contas, estragamos tudo. Mas, alguém sabe onde foi parar o Nestor, afinal?

―Abri o caixão e empurrei ele pra dentro. ―Macedo respondeu, de cabeça baixa. ―Bêbado daquele jeito, e pelado, só iria piorar as coisas. E tranquei, pra não ter problema dele sair.

Dois meses depois, com tudo mais calmo e todos em liberdade, mas respondendo processo, eles se reuniram novamente na casa de Maria, para tentar retomar o clube de baralho. Ziza e Macedo conversavam a um canto.

―Então, Macedo. Como ficou a invasão da loja?

―Eles só vão cobrar os prejuízos, e não vão prestar queixa! Só queria entender como é que fomos nos enganar de andar e invadir justamente um sex shop! Falando nisso, eles estão cobrando algo esquisito! Segundo eles, além das caixas com as velas, sumiram mais vinte vibradores, chicotes e lingeries especiais!

Os dois se olharam e riram, fazendo coro: “Loló”.

―E apesar de toda a bagunça, os donos de funerária gostaram! Temos mais gente interessada no Chá de Mortalha!

―Tudo bem, Macedo! Mas vamos esquecer isso por um tempo! O melhor é sossegar um pouco, pelo menos por enquanto! Só queria saber o porque daquela atriz retirar todos os processos que nos acusou inicialmente!

―Você não sabe o que aconteceu? O Nestor convenceu ela!

―E o que o Nestor tem com isso, santo Deus?

―Bom, quando eu empurrei ele para dentro do caixão e tranquei, nem reparei que ela estava lá também. O fato é que eles tiveram uma noite, digamos, bem próxima e muito inusitada. Vai saber o que aconteceu lá naquele caixão, não é?




Marcio Rutes



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