―Mas, filha! Você
tem certeza disso que está me falando? Seu marido “tchum” mesmo? Quero dizer...
ele... é... bem, como eu posso dizer isso de modo não agressivo?
―Ele dá ré no quibe, Padre! É isso
mesmo! É um desavergonhado!
Padre Zinho, já antigo por aquelas
paragens de cidades pequenas, tentava entender o que aquela paroquiana
explicava. Mas, além do relato daquela mulher ser muito confuso, o nervosismo
que ela carregava piorava tudo.
―Trinta e cinco anos, Padre Zinho. ―ela
relatava, lamentando-se e soluçando. ―E pra quê? Tanta dedicação minha, tanto
zelo, os cuidados com a família... pra quê, Padre Zinho?
―Acalme-se, minha filha... ―o Padre
começava a ficar incomodado, ainda mais quando se deu conta de alguns barulhos
logo atrás do confessionário. ―Tente relaxar e me contar direito sobre essa
história toda. Não há mal que não se possa remediar...
―Que remediar, Padre? Remediar pra
quê? Criei meus filhos como eu pude, mandei pra faculdade na cidade grande, e
agora, vem o Juvenal com essa história! E o pior é que o nosso filho mais velho
tá metido em tudo isso! ―ela engrossou o tom de voz, como se tivesse tomado uma
decisão. ―Quero divórcio, e dos dois! Do meu marido e do meu filho! Não quero
ficar mal falada por aí!
O Padre tomou o maior susto ao
escutar aquilo. Divórcio do marido ele até entendia, mas mãe divorciar de
filho? “Desfilhar”? E quando o Padre baixou a cabeça para tentar raciocinar,
escutou novo barulho, como se algo caísse no assoalho de madeira, e bem atrás
do confessionário novamente.
―Filha, vamos do começo. Me conte
tudo.
―Bom, Padre Zinho, tudo começou num
sábado logo cedo...
“...o Juvenal havia dito que ia
pescar com a turma. Até aí, tudo bem, mas descobri que o Lourenço também ia. E
o senhor bem conhece o Lourenço. Aquele lá é chegado numa jogatina e, o que é
pior, não pode ver rabo de saia...”.
―Não precisa entrar em detalhes.
Vamos deixar o irmão do prefeito de fora disso. ―o padre pediu, ainda
incomodado com os barulhos que escutava.
“...meu filho falou que também iria
para a pescaria, e eu me senti mais despreocupada. Depois que eles saíram,
esperei a venda da Augusta abrir e fui pra lá, pois fiquei sabendo que o filho
da Maria Francisca, aquele que tá na capital, tinha virado viadinho, e eu
queria mais detalhes...”
―Pula essa parteeeeeeeeeeeeee...
“...taáááá. O senhor anda muito
estressado, Padre Zinho. E to notando isso desde aquele dia que viram o senhor
lá pelos lados da Maloca dos Viúvos. Lembra? Foi quando o senhor pegou aquela diarréia...”.
―Chegaaaaaa. A senhora veio aqui pra
pedir conselhos e confessar, ou pra fofocar, alcovitar e difamar? Quer que eu
lhe escomungue? Se não quer, é melhor segurar essa língua de lavadeira! ―o
padre perdeu as estribeiras, mas conseguiu calar aquela mulher, ao menos por
alguns instantes. ―Agora, continue!
“...credo, que jeito de falar comigo,
que sou uma mulher tão pudica! Bom, eu não fiquei muito tempo lá na Augusta,
pois aquela franguinha da afilhada dela estava lá. Eita menina fofoqueira
aquela, e o senhor sabe que eu detesto fofoca. Quando cheguei em casa, reparei
que o carro do Juvenal estava parado na rua do lado, e não tinha ninguém
dentro. Estranhei e fui pra casa. Entrei de fininho e vi o Zé da Rosca, aquele
da padaria, e o Juvenal conversando na sala, enquanto meu filho tava no
telefone, conversando com alguém...”.
―E o que isso tem demais?
“...foi o que eu escutei, Padre
Zinho. Foi o que eu escutei que me deixou desarvorada. Meu filho falava assim
no telefone: ‘pois é, meu pai tá precisando de um macho; a gente tá indo
pescar, então, se você tiver alguns, a gente passa aí e pega; devolvemos depois
da pescaria’...”.
―Machos? Eu escutei bem?
“...pois é, padre Zinho. E o
desavergonhado do meu filho ainda falou que não era pra se preocupar, isso
porque eles iam ‘cuidar’ muito bem dos machos, e que se desse, era pra mandar
‘aqueles machos pretos maiores’. Eu quase morri, Padre. Além do meu Juvenal ser
baitola, ainda é chegado num negão! O que é que eu faço, Padre? Me diz?...”
“...mas a coisa não pára por aí não!
Tinha coisa pior! Ainda escutei o Zé da Rosca falar que era uma pena que o
senhor não ia poder ir junto, porque quando o senhor tava estudando, tinha
‘feito uns cursos e sabia lidar com machos’. Quando escutei isso, não entendi
mais nada. Muito me admira o senhor, Padre Zinho! Justo alguém que deveria
cuidar do galinheiro, anda frangueando por aí? Tudo bem que um padre não possa
comer o milho, mas também não deve usar o sabugo...”.
―O quê? Você ficou maluca? ―o berro
que o Padre soltou foi ouvido até fora da igreja.
―É isso mesmo que o senhor escutou.
Aliás, já telefonei pro meu irmão, que conhece o Bispo. Amanhã mesmo ele tá
aqui, pra tirar isso a limpo com o senhor. Bem que eu desconfiei que isso aí
que o senhor usa tava mais pra saia do que pra batina.
O padre apenas abria e fechava a
boca, sem saber o que dizer. Até que, num dado momento, escutou alguns
bochichos e resolveu espiar por um vão logo atrás dele, o que permitia que ele
tivesse alguma visão do pequeno cômodo que ficava logo atrás do confessionário.
Lá, duas beatas saíam às pressas, falando muito e rindo sem parar.
―Meu Deus! Não faltava mais nada! ―o
Padre suspirou, balançando negativamente a cabeça. ―As irmãs Cascadura
escutaram tudo! Agora, a cidade inteira vai ficar sabendo dessa história
maluca! Valha-me, Senhor!
Algum tempo depois, em outra parte da
cidadezinha, Juvenal e seu filho paravam o carro bem diante de uma pequena
oficina.
―Heitor! ―Juvenal chamou, enquanto
descarregava algumas coisas do carro. ―Eu trouxe os peixes que tinha te
prometido.
Heitor, o mecânico, apareceu logo em
seguida, todo sujo de graxa.
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ferramenta "MACHO", para fazer rosca interna |
―E minhas ferramentas? Conseguiu
usar? Esses machos são difíceis de arranjar por aqui, principalmente esses
pretos maiores. Comprei lá na capital.
―Pois é, meu amigo! Quase que eu não
consigo recolocar aquele parafuso. Agora, dá uma licencinha, que vou ali na
igreja cumprimentar o Padre Zinho. Esse danado, além de Padre, também fez curso
de torneiro mecânico. Quero que ele dê uma olhada na minha rosca.
Um pouco mais atrás, as irmãs
Cascadura escutavam a conversa, mas a única parte que ouviram, ou que quiseram
escutar, foi justamente a última.
―Escutou isso, Gervásia?
―Escutei sim, Leocádia! Então é
verdade mesmo! Mas não entendi uma coisa.
―O que é que você não entendeu,
Gervásia?
―É o Juvenal ou o Padre que tá com
problema na rosca?
―Pare com isso! Não devemos ficar
fazendo juízo errado dos outros. Só vamos passar lá em casa, que quero colocar
isso logo no meu Zap Zap. Babado de primeira!
―Reparou como esse povo anda pecador, Leocádia? Acho que aqui nessa cidade, só
nós duas é que nos salvamos. Vamos embora, que não quero me contaminar com
esses pecadores!
imagens coletadas no Google
Marcio Rutes
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