sábado, 30 de abril de 2011

PENSANDO NA VIDA

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Nascemos para morrer um dia. Essa é a única coisa que se pode afirmar como certa nesse mundo. E pode acontecer amanhã, daqui um mês, um ano, cem anos. Mas um dia acontecerá.

Muitas pessoas afirmam que, pouco antes de “partirmos”
, assistimos a um pequeno filme de nossas vidas, e ali, constatamos todas as coisas boas e ruins pelas quais passamos ou fomos protagonistas. E nessa hora, vemos se nossa vida, realmente, valeu a pena.

Mas, por que esperar esse momento tão fatídico para fazer um balanço de nossas vidas? Por que não fazer isso de tempos em tempos, apenas para ver se está realmente tudo bem e, ainda melhor, se podemos fazer com que a vida valha ainda mais a pena? Então, mãos a obra.

música: ANANAU (grupo Alborada) - by YouTube

Procure um lugar tranquilo, longe de barulhos irritantes, pessoas que possam atrapalhar suas divagações, desligue seu celular, enfim, tire alguns minutos para você e seu espírito poderem conversar um pouco e comece, logicamente, do começo.

Sua infância. Ela valeu a pena? Você brincou tudo o que tinha direito de brincar? Correu, pulou, se machucou, “roubou frutas”, teve um cachorro, chorou o que pôde? Não? Meu amigo, a infância só passa no corpo, mas a mente e a alma sempre guardam uma criança. Nunca é tarde para fazer algumas estripulias, no bom sentido, claro. Nada pior do que um adulto que não teve uma boa infância. Ou você acha que me contenho quando posso brincar, correr, pular, fazer arte? Sou uma eterna criança, adoro isso, e não estou nem aí se alguém me taxar de bobo, de inconsequente. Bobo é aquele que não sabe aproveitar a vida, e inconsequente é aquele que, ao não brincar mais, acaba se estressando com a vida.

E a pré-adolescência? Os brinquedos são outros, as descobertas da vida iniciam, alguns começam a paquerar, achamos amigos, os esportes incitam sonhos. Viveu tudo isso? Foi bom? Eu jogo videogame sempre que me dá vontade. Só não abuso nos esportes, pois meu joelho esquerdo não gosta muito. Mas, te garanto, foi a fase da minha vida que mais aproveitei até agora, e se deixei de fazer algo lá atrás, faço agora, só para ter o gosto de ver como é.

A adolescência. Namorar, sair, passear, estudar, namorar, namorar e namorar. Também aparece o primeiro emprego para quem precisa trabalhar. Estudou? Namorou, passeou, curtiu bem? Nem preciso falar, não é? Eu não estudei tudo o que eu queria e estou com quarenta e três anos, mas pretendo, logo logo, mais alguns cursos, quem sabe uma faculdade também. Aliás, se deixar, passo a vida fazendo isso, pois simplesmente é um vício que tenho. Namorei pouco, mas diria que foi com muita qualidade, e saí muito, passeei muito. Como curti essa fase. Mas quero mais, ainda existem muitos lugares aos quais quero ir e conhecer. Só o primeiro emprego não foi lá essas coisas, mas consertei depois.

Fase adulta e suas responsabilidades. E nem venha me dizer que não há como se aproveitar bem a vida nesta fase, pois é justamente aqui que a vida nos dá mais oportunidades. O casamento, os filhos, a profissão definitiva, a liberdade e o gosto de ter o comando da própria vida, enfim, tantas coisas que esse período nos traz. Até mesmo o divórcio e os recomeços têm lá suas vantagens. Claro que um divórcio não é uma coisa boa, mas dá experiência e não tem que ser, necessariamente, regado à discórdia. Então? Tudo bem nesta etapa da vida? Não? Então, por que não faz algo para melhorar? Já estamos na idade adulta, e, com isso, seu tempo está esvaindo. Aproveite para melhorar agora, porque, se esperar muito, acaba sendo tarde.

Não posso falar muito da próxima e melhor fase, que alguns chamam de terceira idade, outros de melhor idade ou, ainda, de fase idosa. Mas, pode ter certeza de que, se Deus permitir, aproveitarei ao máximo.

Num balanço rápido, brinquei o que pude, aprontei muito, namorei pouco mas sempre foi muito proveitoso, tive bons empregos e em todos me empenhei e fui reconhecido, estudo e me informo desde que entrei numa escola, constitui família, me divorciei mas tenho uma amizade enorme com minha ex-esposa, e, para finalizar, existem duas coisas das quais muito me orgulho. A primeira é o meu namoro com as letras. Escrevo, muito, e escrevo porque gosto. Andei desmotivado, mas foi temporário, e voltei rapidinho e com a corda toda. A segunda, é meu xodó, minha maior contribuição para esse mundo, meu FILHO. Um garotão, que hoje está com 18 anos, e que se transformou num homem inteligente, honesto, carinhoso, companheiro e de um coração enorme. Minha semente para a eternidade está com ele, e tenho certeza de que será muito bem aproveitada.

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Se Deus me chamasse agora, neste exato momento, tenho certeza de que minha vida teria valido, e muito, a pena. Obviamente, iria negociar, pois ainda quero conhecer meus netos, alguns lugares onde ainda não estive, quero ler alguns livros, namorar mais um pouco, se possível ter mais uns filhos... mas a voz de nosso Pai é soberana. Creio que eu partiria sorrindo.



E você? Sua vida está valendo a pena até agora? Não? Então, está esperando o que para melhora-la?


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30 de abril.

Uma certa pessoa está de aniversário. Uma amiga. Não, mais do que uma amiga, uma verdadeira irmã de coração, que me atendeu em sua bondade quando precisei, que me aconselhou, que me orientou, puxou a orelha.

Gostaria de dar a ela um presente, mas, estamos distantes. Então, dou a ela essa energia tão grande e bonita que ela plantou em mim a algum tempo atrás. A energia da fé e da esperança, da amizade, da sabedoria de quem sabe olhar a vida, da humildade. Você me deu essa energia, e agora, te mando em dobro.

Ester, minha querida Hadassa.

Um dia especial, por certo, pois é seu aniversário.

No entanto, todos os dias são especiais, pois em cada dia, vejo o quanto valeu a pena ter você como amiga.

Um beijo enorme, e toda a felicidade do mundo, minha querida amiga.


Ester - blog Universos


Marcio JR

terça-feira, 26 de abril de 2011

QUEM DISSE QUE A FOFOCA É UM ATRIBUTO FEMININO?

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Diz o dicionário que a fofoca é o comentário sobre a vida alheia, boataria, balela, mexerico. Penso eu que ela nasce da necessidade que as pessoas possuem em se “meter” na vida alheia. E é engraçado como algo, por vezes tão fútil, consegue ganhar dimensões suficientes para provocar inimizades entre pessoas, separar casamentos ou por em pé de guerra famílias inteiras.



A fofoca não anda muito longe da mentira. A diferença é que a mentira já floresce baseada em inverdades, enquanto que a fofoca se inspira em algum fato corriqueiro e ganha novos aspectos ou elementos na medida em que passa de pessoa por pessoa. É impressionante como cada um que recebe aquela informação a repassa sempre com algum ponto a mais. E o que nasceu como uma mera letra “a”, em pouco tempo se transforma em um “alfabeto” inteiro. É engraçado observar a disseminação desses boatos, principalmente porque sempre que se conta um mexerico para alguém, se pede segredo naquela informação. E essa palavra, segredo, parece ser o gatilho que detona a explosividade do boato. Em questão de horas, todos sabem daquilo, inclusive a própria vítima em questão. E não é difícil encontrar fofoqueiros que, perdidos na imensidão em que isso se transforma, acabam contando para a própria pessoa que deu origem a boataria. Detalhe: ainda pedem que aquilo não vá adiante.


Mas quero fazer justiça aqui. Dizem que a mulher é a maior fofoqueira. Ledo engano. Muitos homens são verdadeiras “lavadeiras”, daqueles que ao ouvirem qualquer coisa, mesmo sabendo que pode não ser verdade, sentem o maior prazer em sair contando mundo afora o que ouviram. Conheço alguns que chegam a roer os cotovelos, motivados pela raiva, ao não conseguirem arrancar de alguém algum boato. Quer deixá-los com comichão? Simples. Coloque-os próximos a pessoas que estejam falando em tom de voz baixo, cochichando, e não os deixe chegarem próximos desse grupo. Em pouco tempo, eles irão beirar a aflição. E na hora de espalhar um boato então? A mulher, nesse ponto, é discreta, pois prefere fofocar em foro particular. Já o homem, esse se esparrama, conta para todo um grupo, e se possível, coloca até na internet. Mas ambos, tanto o homem quanto a mulher, se descobertos, sempre têm o desplante de negar, e o fazem com uma veemência irritante.


Em tempos passados, uns dez anos, ocorreu um caso que ficou conhecido em toda a minha região, e que, inclusive, deu origem a esta crônica. Um amigo, hoje muito bem casado (terceiro casamento), e que tinha o singelo apelido de “bico doce”, foi envolvido numa rede de fofocas que quase o fez mudar de cidade, pela vergonha que passou. Omitirei o nome do coitado do Régis por motivos óbvios.


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Conta a história que o “bico doce”, além de beber além da conta, não desprezava nem respeitava mulher alguma. Numa determinada noite, enganou a pobre da namorada e saiu com os amigos e, lá pelo meio da festa, se enroscou com uma loira alta e simplesmente desapareceu. Dois dias depois, reapareceu e comentou com um dos amigos de seu grupo por onde andou e o que esteve fazendo. Como a história toda poderia compromete-lo, quase suplicou sigilo naquilo tudo. E foi o que bastou para que o fato virasse a maior "bomba" de todos os tempos na região. Em questão de horas, todo o bairro já sabia do ocorrido, e com detalhes que sequer o “bico doce” conhecia. A coisa se espalhou de tal jeito, que até o padre, ao receber o “bico doce” para a confissão, saiu dizendo:


--Tá, pula essa parte, porque eu já sei da história.

Injuriado com tudo aquilo, o pobre do “bico doce” procurou pelo amigo a quem contara a história, com a intenção de tirar satisfações.

--É dessa forma que você mostra sua amizade por mim? --questionou o irritado “bico doce”.

--Mas o que foi que eu fiz? --retrucou o outro, com a maior cara-de-pau. –Só contei para mais uma pessoa.

--Tá, eu sei. Mas precisava contar todos os detalhes, inclusive que eu me enganei e saí com um travesti?


Pois é. Algumas coisas, não se conta nem para o melhor amigo. E se você quer segredo em algo, guarde o fato unicamente para você, não é mesmo, Bico Doce?

Marcio JR

sexta-feira, 22 de abril de 2011

CHICO CONTENTE - NÃO ERA O DIA DA ONÇA

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Chico Contente era um caboclinho que vivia pros lados de Piracicaba, isso lá nos idos da década de 30. Ligeiro na lábia, ganhava a vida com sua pequena tropa de mulas, mas a estrada de ferro teimava em tirar seus negócios. Contador de histórias e causos, era adorado por todos, e mesmo que ninguém acreditasse em uma palavra sequer que viesse de sua boca, bastava chegar em algum lugar, para que se formasse uma concorrida roda de prosa em torno dele.

--Oh! Chico. --alguém chamava, já puxando uma garrafa de pinga. --I aquela veiz qui a onça te incurralô, hómi? Conta pra nóis!

--Pois, óie! --Chico só olhava e mastigava os próprios lábios, enquanto media seu público. --Daquela veiz, mi deu inté um revertério:

“Tava eu cum minha Zarôia, aquela mula qui tenho i qui coxeia pru lado isquerdo, lá prás banda di Sorocaba. A noite tava arta i eu acindi a foguêra, mais a Zarôia tava por dimais inquieta. Fui ispreitá um poco mais adiante, i quano mi dô conta, a Zarôia passô qui nem corisco, i fiquei a pé. Prá piorá as coisa, inté a mardita da foguêra saiu no pinote. I foi intão que começô a miadera. Aquilo era qui nem qui casal di jumento zurrando, hómi! I o pior é qui vinha prás minha banda.”

--I ocê, hómi? --algum dos ouvintes se assustava, mesmo sem acreditar muito. --O qui ocê feiz?

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“Inveredei pros mato. Se ia fugir, tinha que achar argum canto miór prá módi camuflá, ou inté um rio prá podê atravessá no nado. I corri, corri qui corri, mais já tava cansado, c'as perna trançano iguar pato bêbado. Os miado ficô perto, e quano oiei pro lado, tava lá as bicha, uma parda e uma branquinha, branquinha”.

--Pára, Chico! Onça branca nos arredor di cá?

“Num ti méte, qui acho qui ela tava trocano as pena. Mais num pudia ficá alí, i corri di novo, inté qui cheguei num paredão di preda. Num sô di réza, mais naquela hora, caí de jueio no chão e juntei as mão, pedino pro Pai um cadinho de perdão pur tudas tramóia qui armei aqui. I fiquei alí, cos zóio fechado só isperano o bote das onça, i nada. Tudo ficô quétinho, quétinho”.

--Fala, hómi! --já berrava alguém, nervoso com a interrupção da história. --O qui as onça fizéro?

O Chico era mestre em preparar um cenário de suspense. Arregalava bem os olhos e mirava um por um de seus espectadores, até que arrematava:

“Ieu tava alí, rezano, i quano oiei pro lado, tava as duas onça, tumem di jueio no chão, cas pata de riba juntinha e dizeno ‘obrigado, Pai, pela refeição que nos concede...’ ”.

A gargalhada estourava por todos os lados, e quando todos achavam que o causo havia acabado, o Chico surpreendia e já falava:

“Mais cêis acham qui cabô? Cabô nada! Porveitei qui elas sí perdêro nos gardecimento, e piquei a mula, qui di burro, só meu pai quano foi prá capitar pra módi cumprá máquina di fazê chovê. Corri o qui pude, e as peste das onça atráis. Corri tanto, qui umas légua adespois, passei inté pela mula Zarôia, qui di tão cansada, tava inté coxando do otro lado, prá inconomizá perna. I as onça quasi no meu lombo. Inté qui Jisus arresorveu mi acudí”.

--Lá vem lorota di novo. --o padre, que estava sentado logo atrás do Chico, bronqueou e só coçou o queixo, esperando ansioso pelo final da narrativa.

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“Pois óie, seu padre, ti juro qui é vredade. Num tinha nadica naquela campina, i quano oiei di novo, tinha lá uma ingrejinha. Apressei a passada, mais já tava sentino o bafo quente delas no meu cangote. Tava veno qui num ia consegui chegá, i quano elas tava pra mi dá o bote, elas patináro i iscorregáro, i eu entrei na ingrejinha”.

Todos ficaram calados, apenas se olhando mutuamente. Aquela história ninguém conhecia ainda, e vinda do Chico, tudo era possível. O fato é que ele conseguiu seu propósito, e a dúvida remoia a cabeça de cada um, até que, sem aguentar, o padre levantou e encarou o Chico bem nos olhos, arrematando assustado.

--Mais, Chico, seu porquêra. Si tô no teu lugar, tinha me cagado intero, hómi!!

--Seu padre, cum todo respeito. Ondi u sinhô acha que as onça patináro i iscorregáro?


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Ana Marly de O. Jacobinio
Este "causo" é uma junção e adaptação de dois contos de domínio público, que deixo aqui em homenagem a minha querida amiga e "madrinha" literária, a piracicabana Ana Marly de Oliveira Jacobino.

Algumas pessoas, como a Ana, são donas de uma generosidade fora do comum, e não medem esforços para ajudar àqueles que estão começando algo em suas vidas. E esta caipiracicabana, como ela mesma se denomina, tem sido uma grande incentivadora e colaboradora em meu caminho literário, além de mestra e amiga.

Humilde, extremamente talentosa e dona de um dos sorrisos mais cativantes que conheço, mantém um blog onde canta uma de suas grandes paixões, ou seja, a cidade de Piracicaba (Agenda Cultural Piracicabana).

Então, a ti Ana, minha querida amiga e madrinha, assim como a todos aqueles que frequentam o ABISMO DAS VAIDADES e o ARENA DAS CRÔNICAS, uma PÁSCOA recheada de paz, amor e felicidades.

FELIZ PÁSCOA.
Marcio JR


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