quarta-feira, 15 de julho de 2015

MIGALHAS



image by Samara Bassi
Nunca foi muito fácil falar de mim mesmo. Bom, a bem da verdade, e por mais que alguns deem risada do que direi, no meu caso o ato de falar é que nunca foi fácil. Chame de timidez, introspecção, vergonha, formação intelectual precária, ou seja lá o que for, mas o fato é esse. Tive dificuldades com o tal “falar” durante quase uma vida toda.

Bom, quem sabe por isso eu escrevi tanto nessa minha trilha de migalhas que venho seguindo?

As primeiras experiências do tal "falar" sempre são mais fáceis, apesar de árduas. Calma, eu explico. Quando sequer sabemos o be-a-bá, lá estão pai, mãe, tios e um monte de gente mais velha fazendo aquele famoso (e completamente desnecessário, senão prejudicial) introdutório do ato de falar no estilo eu-falo-erradamente-e-você-repete. Mais ou menos assim, ó: gugú-dadá, bebê qué papá? fala mã-mãe meu bebê cuti-cuti, fala pá-pai bobão, bebê feiz totô?, etc, etc... Obviamente, não me lembro bem dessa fase, mas penso que me arrepiava só de ver um adulto falando assim perto de mim, e, claro, com aquele biquinho que todo mundo faz. Mas, enfim, esse é o começo, e só o que temos que fazer é tentar repetir. Mais depois, a coisa aperta, e os adultos que ensinavam tudo errado passam a nos corrigir sempre que engatamos em alguma palavra. Que vida, não? Primeiro, nos ensinam do jeito mais equivocado, e depois, se nos equivocamos, nos censuram e corrigem.

Próxima etapa: escola. Aqui, outro perrengue para mim. No meu tempo de primário, quatro décadas atrás, a coisa era diferente. As professoras não eram nada compreensíveis, e se não aprendíamos por bem, ia por mal mesmo. É nessa época que se começa a entrar na língua formal, é claro que muito superficialmente, mas o nível começa a mudar. Detalhe. Pouco se explicava e muito se impunha. No entanto, eu ganhei um presente imenso nessa mesma época. Algo que somente lá na adolescência é que dei o devido valor. Trilhei meus primeiros passos numa coisa chamada escrever.

imagem coletada no Google
O tempo passou, e sobrevivi aos primeiros anos de escola. Lembro que a cada vez que algum professor me chamava para ler ou falar, era um calvário. Pedagogos ou psicólogos, hoje, dariam solução facilmente, mas naquela época sequer se sonhava com isso. Crescíamos assim mesmo, com essa sensação de terror de se apresentar em público, de medo de ler em voz alta, ou de pavor em ter alguém julgando.

Quando cheguei nos meus quinze ou dezesseis anos, notei que gostava muito mais de escrever do que do próprio ato de ler. Tá, hoje eu sei. Um completa o outro. Mas eu sequer pensava nisso nessa época. E foi quando um mero professor de português me ajudou a amar desmedidamente o ato de escrever. Ele pegou uma de minhas redações e disse que aquilo estava um lixo, e que eu jamais conseguiria escrever uma migalha sequer que se aproximasse de algo que ele chamou de “composição aceitável”. Fiquei puto da cara com ele, mas hoje eu agradeço. E esses parágrafos, até agora, são dedicados unicamente a esse professor de português.

Pós-adolescência, juventude, fase madura. Em cada uma dessas fases aprendi alguma coisa, e trouxe comigo. Resultado? Hoje eu falo pelos cotovelos, me informo, falo mais ainda, me informo mais, e falo de novo. Procuro bases para argumento, aceito críticas, critico, busco pessoas que se interessam por assuntos que vão além das novelas ou filmes para dialogar... e assim vou. Eu sei que tudo isso é quase uma catarse, e também um escudo, mas sou assim.

Isso tudo que relatei acima fui achando pelo caminho, seguindo as migalhas que estavam na trilha. Na minha trilha. O engraçado é que tudo parecia acontecer mecanicamente. Até que um dia precisei me questionar, me perguntar onde eu estava errando e por que existia uma sensação de vazio nas minhas composições. O ofício de escrever me completava, mas naquilo tudo tinha alguma coisa que não caminhava bem. Eu não conseguia atingir as pessoas como queria, faltava algo. Foi quando me disseram que eu não deveria obrigar os outros a falar minha língua. Era eu quem deveria falar a língua de meu público. Um sábio conselho que trago até hoje. Não entendeu? É mais ou menos como “se está em Roma, aja como os romanos”. Resumo da ópera: lá fui eu me adaptar. Mas foi bom. Conheci pessoas de outras áreas, com outros assuntos e outras idéias. Não sei se consegui a adaptação que queria ou como ela deveria ser, mas entrei num mundo completamente diferente.

Quando comecei essa adaptação, achei que era um tanto tarde, pois eu já estava pra lá dos quarenta anos de idade, mas logo depois, um fato me deu a certeza de que não poderia ter sido diferente. Mas isso explico mais para frente.

O que sei é que minha vida mudou completamente quando pisei na sala de um curso de publicidade. Foi como dar asas a uma imaginação que já voava mesmo sem ter céu para isso. Mudei um tempo de cidade, perdi completamente o medo de expor minhas composições e conheci pessoas de todos os jeitos. Algumas muito especiais. Uma delas, inclusive, resolveu aparecer em minha vida para, pouco tempo depois, deixar um imenso buraco. Um buraco grande a Bessa. Mas, tudo bem, é a vida.

Vai daqui, vai de lá, e as migalhas sumiram do caminho. Aquelas mesmas que eu estava tão acostumado a seguir. Me senti um pouco perdido, sem ter como me guiar, até que enfiei a mão no bolso e encontrei algo inesperado. Um pão que era interminável (isso é metáfora, tá bom?). Levei um tempinho para entender isso, e como aquele pão teimava em não acabar, eu ia rasgando e jogando os pedaços pelo caminho, para ver se ele diminuía ou desaparecia, mas ele continuava lá, no meu bolso, se refazendo a todo instante.

Entrei em tantos assuntos esquinais depois disso. Passei por tantas “vibes”. Criei coragem para dizer as verdades que doíam aos outros mas que, ao mesmo tempo, me engasgavam.

Acreditei em tantas coisas antes impossíveis, que minha trouxa de viagem pesou nas costas. E desacreditei em tantas outras para, somente então, perceber que muita coisa nessa vida se finge de fácil somente para esconder que é, realmente, ...fácil.

Amar é fácil. Acreditar em céu e inferno também. Mas admitir que se gosta de arroz e feijão queimados, pipoca estourada com pimenta malagueta ou algodão-doce roxo, isso é difícil. Sim, pois acreditar no amor é uma convenção. Já céu e inferno é imposição, e acredita-se, muitas vezes, para satisfazer aos outros, mas as pessoas tendem a acreditar. Já nessas outras coisas (o feijão e arroz queimados, a pipoca com pimenta e o algodão-doce roxo), é questão de gosto, e se alguém não gosta, lá vem aquele “ecaaaaa, você gosta disso?”. Pois é. Para alguns, só podemos gostar do que eles gostam. E durante muito tempo, a coisa funcionava assim para mim. Dizer que gostava, ou não, de algo unicamente para satisfazer quem estava perto. Demorei para mudar isso. Mas mudei.

O pão? Continuava no bolso. Só que agora, por onde eu andava eu via passarinhos me seguindo. Num belo dia, resolvi guardar o pão e parei de jogar os pedaços. E aquela passarinhada berrou sem parar. Foi quando um estranho me disse que eu tinha o dever de alimentar aqueles pássaros, pois fora eu quem tinha deixado os ditos mal acostumados. Tá, vamos nessa. Eu continuei, e até exagerei. Pedaços maiores, o pão inteiro, mais frequência na alimentação... até que além dos passarinhos de sempre, resolveram aparecer pássaros maiores, inclusive urubus. Os grandes pássaros, mais ávidos, roubaram o pão de minhas mãos, e se foram, acabando com a mágica da restauração. Ficaram junto a mim apenas os pequenos passarinhos, que passaram a se alimentar de sementes, mas continuaram comigo pelo caminho.

Ali, em meio aos que ficaram, encontrei uma pequena passarinha. Ela, quem sabe, nem fosse a mais aparente. Pelo contrário, ela tinha os mesmos problemas que eu tinha lá atrás. Não gostava muito de aparecer. Mas eu a enxergava perfeitamente, e a admirava tanto que passei a observá-la cada vez mais.

O caminho estreitou, depois alargou demais, secou, virou rio, escarpa, buraco, subida, descida, até se transformar, dois anos atrás, numa bela vereda. Alguns passarinhos ficaram pelo caminho, outros seguiram trilhas diferentes, enquanto os que me seguiam iam comendo sementes e “plantando” as mesmas pelas beiradas, de um jeito só deles. E quer saber o fruto que vertia dessas sementes que eles “plantavam”? Pães mágicos. Somente pessoas com um certo dom é que conseguiam vê-los. Alguns outros, como eu, podiam colhê-los, mas raros eram aqueles que sabiam usá-los corretamente e não os perdiam. Quem conseguia aprender, pasme, virava passarinho plantador de pão. Eu, no entanto, perdi o pão e por pouco não perco a mágica de enxergar os próprios passarinhos. Perdi sim, mas entendi a mensagem. Não aquela do homem me dizendo que eu tinha a obrigação de alimentar os pássaros. Eu falo da mensagem verdadeira.

Hoje eu sei que é fácil alimentar fartamente quando se tem o que dar, sem pensar no futuro. Só que nessa hora, poucos sabem guardar para um momento de carestia. E, além disso, aparecem os esfomeados, aqueles que são gulosos ou, o que é pior, que só aparecem para se aproveitar e roubar daqueles que realmente precisam. Esses esfomeados-esganiçados usurpam o que podem e depois somem. A verdadeira mensagem veio de uma certa passarinha, que desde o começo guardava as migalhas que eu desperdiçava pelo caminho. Então, no dia que me vi faminto, ela deu para mim aquilo que ela amealhou pelo caminho.

Há que se ter o que plantar, mesmo que se tenha um pouco de fome. Se você tem duas sementes, coma uma. Amenize sua fome. Mas a outra semente, plante-a. Só assim, mesmo tendo que esperar um pouco, você terá mais amanhã. E se nascer pão, então espalhe-as pelo caminho, para alimentar quem realmente precisa e sabe reconhecer esse gesto. Mas sempre guarde algumas migalhas. Mesmo pequenas, elas te alimentarão algum dia e, claro, servirão de sementes.

imagem coletada no Google
Essa passarinha, que eu tentei certa vez prender em mim e precisei soltar para não perdê-la, se transformou em algo muito maior do que uma mera companheira em minha vereda. Hoje, faz dois anos que ela disse SiM para mim. Posso afirmar, com toda a certeza de todos esses anos de crenças e descrenças, de que ela é a maior certeza de minha vida. Se um dia eu achei que amar era fácil, ela me fez ver que sim, realmente é fácil. Mas, me ensinou também que não basta amar. Tem o respeito, o companheirismo, a cumplicidade, a vontade de querer amar sempre mais, o caminho, a vereda, as migalhas, a liberdade das asas... Ela me ensinou a ser moleque de novo, e me mostrou que existem pessoas que gostam de falar, enquanto outras preferem escutar. Me mostrou que isso é absolutamente normal. E eu achando que era um estranho por não gostar de falar! Tá, hoje falo demais, não é, Samara? Parte dessa culpa, acho, deve ser tua.

Lá atrás, falei que a adaptação que precisei parecia ter vindo tarde demais, e comentei também que eu estava errado. Pois é. Não poderia ter sido antes. Não sei se acredito em destino, mas gosto de pensar que tudo estava predestinado a ser assim. Senão, penso que teria atrapalhado um pouco a vida de alguém que é bem mais nova que eu. E ela precisava ter vivido o que viveu, ter passado pelas experiências que teve, senão, como poderia, hoje e mesmo muito mais nova, me ensinar tanto quanto ensina?

O fato é que amar, realmente, é fácil, mas somente quando temos a pessoa certa ao nosso lado. E eu amo minha Samara e a tenho SeMpre junto a mim.

Ah! Sim. Faltou dizer algo. Sabe no que eu acredito, depois de tudo o que relatei? Creio que se pode "acreditar" naquilo que quiser, desde que haja vontade de enxergar algo belo, assim como a magia de duas folhas numa poça d’água. Elas não estavam lá para qualquer um, mas sim para aqueles que souberam apreciá-las. Os demais sequer reparam nelas, ou passaram por cima, resmungando com a chuva.


Entendeu? Não? Tudo bem. Espero que teu caminho seja o suficientemente grande para que isso, algum dia, faça sentido.



Marcio Rutes



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quinta-feira, 4 de junho de 2015

VERDADES E MENTIRAS

série EMPÍRICA MENTE


imagem coletada no Google
Talvez você queira, um dia, mudar o mundo. Quem sabe você pretenda ser um líder religioso que orientará muitos para a paz. Você pode vir a ser um guru, um conselheiro, alguém admirado e procurado por muitos que buscam as verdades e mentiras que existem por aí.

Mas, como entender e mudar o mundo, se você não é capaz de se entender? Como saber o que é necessário para a paz, se você próprio vive em conflito? Como aconselhar alguém, se o que mais brota de tua mente é a dúvida?

A catarse, a exteriorização dos sentimentos… sim, são necessários, mas há que se saber até onde podemos “exteriorizar” e, sempre, o que devemos exteriorizar. Algumas miudezas devemos levar conosco, para uma jornada longa e que castigará os pés. Um caminho árduo, sinuoso e sombrio nasce conosco, embutido num lugar único e que leva a um destino que apenas uma única pessoa pode chegar, se chegar: seu próprio “eu”.

Fazemos nossas próprias verdades, e como muitos dizem por aí, uma mentira dita muitas vezes vira uma verdade. Você tem dito verdades para si mesmo, ou se enche de mentiras para tentar, assim, satisfazer o espírito com algo que lá adiante servirá como desculpa para sua covardia em encarar as realidades que tanto te assustam?

Nem toda verdade é uma verdade por inteiro, assim como nem toda mentira tem seu cunho irreal. Então, no que acreditar? O que contar para seu íntimo? Como mensurar toda essa informação que te chega sem se contaminar com toda essa imensa aura de fumaça pegajosa que recobre o que você deveria estar rejeitando?

Não existe uma verdade única. Não existe. Existem as verdades que você quer ouvir. Existem as verdades que saciam teu ego submisso ou submetedor. Existem as verdades que corrompem e assustam. Existem as verdades que denigrem ou que fabricam heróis e vilões. Existem as verdades do corpo. Existem as verdades da alma.

Existem, no entanto, algumas verdades que estão atrás de barreiras quase intransponíveis. São verdades que não dizem respeito apenas a você, mero pedaço de carne que um dia apodrecerá para sustentar aquilo que você hoje destrói. São verdades não corrompidas, guardadas numa ampulheta celeste própria para marcar o tempo que te resta antes mesmo dele começar a correr. São verdades que uma mente capciosa e um espírito fraco jamais entenderão. São verdades que não falam nada e que sequer podem ser descritas por palavras, pois elas não são tangíveis a olho nu ou visíveis para mãos feitas de carne. Distantes demais para a ciência descrevê-las, mas próximas em demasia para que o ser humano se perca dentro delas.

Do que elas falam? Como vou saber, companheiro, se sou um mero andarilho ainda, preso na corrente do tempo e do vento? Ainda estou capengando com minhas próprias conjurações, e das minhas pernas, sequer os joelhos desatolei.

Mude o mundo, mas primeiro, preocupe-se em arrumar tua casa. Nada pode ser começado do meio. Ou tua casa pouco importa para você? Uma maratona se começa no primeiro passo. Maldita é a mania que o tal humano carrega em tentar apressar tudo. Apresse o vento, e ele vira tempestade. E sabe o que é engraçado? Na tempestade, casas saem voando, mas o junco verga e volta. A natureza levou milhares de anos para aperfeiçoar o junco.

Somos inteligentes? Sim, é claro que somos. Mas, o que é a inteligência senão a capacidade de raciocínio somada à quantidade de conhecimento adquirido e a velocidade com que se processa tudo isso?

Conhecimento? De que? Verdadeiro, ou contado pelo homem?

Sim, somos inteligentes. Raciocinamos sobre aquilo que nos dão, e quem somos nós para contestar os livros que mandam ler? Somos inteligentes sobre aquilo que conhecemos, mas somos alienados diante da quantidade absurda de falsa informação alardeada todos os dias por todos os meios que fazem tudo isso chegar aos nossos ouvidos.

Beba Coca-Cola, compre Batom, eu quero minha Calói, gordura demais faz mal, café faz bem, seja vegetariano e viva uma vida saudável, o corpo precisa de carne, o homem descende do macaco, os continentes eram formados por um único bloco, meu deus é melhor que o teu, use camisinha, cuidado com o câncer de pele, aspirina é um bom analgésico mas faz mal pro estômago, alopatia irá te curar, a religião salvará o mundo, a religião acabará com o mundo, homem deve constituir família com uma mulher, dê a outra face, cure chulé com vinagre, somente a fé liberta, a ciência explicará, deus voltará, deus não existe, deus existe, você é aquilo que você come, você come aquilo que você é, o inferno te espera, a terra é o inferno... etc... etc... etc.............. etc.

O inferno está dentro de sua mente, não dentro de seu espírito. Se você pensa que aqui é o inferno, então viverá uma vida atribulada, onde quase nada dará certo. Seu espírito busca sempre o equilíbrio, onde o bem e o mal te darão a sabedoria suficiente para caminhar em paz. Equilíbrio entre um e outro, o negativo e o positivo. E você não precisa ser um doutor em nada para buscar esse equilíbrio, como também ninguém poderá fazer isso por você. No entanto, você precisa estar disposto a buscar isso dentro do lugar mais complexo que existe: você mesmo. Então o inferno começará a fazer sentindo, e você verá que ele é construído por você mesmo e para você mesmo. Céu e inferno, equilibrados, te fazem caminhar entre um e outro, mas quando você não se permite tal equilíbrio, poderá cair dentro da fogueira que você tanto insiste em apurar.

Ao tentar buscar o equilíbrio dentro de seu "eu", você não irá se perder, pelo menos não mais do que já está perdido. Você é um labirinto, mas não se preocupe com isso. Labirintos existem unicamente para te dar o tempo necessário para se preparar para aquilo que irá encontrar no fim do caminho. E se você não encontrar a porta derradeira do labirinto, é porque não se preparou o suficiente. A paciência não é um dom, mas um requisito necessário para não se perder ainda mais dentro de você mesmo. E ela, a paciência, deve ser aprendida e desenvolvida, exercitada a cada instante e com muito empenho. Muitos jamais conseguirão desenvolvê-la e, por consequência, nunca encontrarão o rumo certo dentro de seu labirinto íntimo.

E se a pessoa conseguir achar a saída, o que ela irá encontrar do lado de fora?

Nada, pois esta não é uma saída para fora. Jamais falei isso. Falei em “fim do caminho”, que na realidade é, somente, uma pequena parte de uma jornada sem fim. Você está entrando, e não saindo. Ao encontrar esse “fim do caminho”, você começará a entender que as verdades são desnecessárias, pois não existem mentiras, pelo menos não aquelas que se pensa existir quando falamos dos mistérios do universo. Somos energia, e a carne é apenas um mero frasco que acomoda nossa essência. Alimento para o corpo se acha em qualquer quintal, mas para o espírito, esse precisamos cultivar internamente, em nós mesmos.

imagem coletada no blog Mundo Bonsai
Então, se você entendeu o que escrevi acima, no fim do labirinto você poderá encontrar a si próprio, preso e perdido pelas verdades e mentiras humanas. Você se vê vítima de sua própria tirania. Uma coisa eu te garanto, companheiro. Quebrar as correntes que te prendem não será tarefa fácil. Ninguém gosta de desacreditar naquilo que levou uma vida inteira achando ser verdade. E nesse momento, ao olhar para trás, você verá que seu labirinto se modificou e ficou milhares de vezes mais complexo. Então, te cabe uma decisão: voltar e desistir, fingindo que aquilo tudo não passa de um sonho muito louco ou uma alucinação causada por algum cogumelo muito do besta, ou enfrentar as verdades e mentiras terrenas para, assim, começar a buscar aquilo que talvez você jamais alcance, que são justamente os mistérios que passarão a te guiar.

Difícil, não é?

Um dia você entenderá que pode voar. Não com asas, mas com aquilo que te foi dado, teu pensamento. Só lembre que até a mais robusta águia enfrenta problemas com o vento forte. Nessas horas, ela pousa e repousa, esperando pacientemente a ventania passar. Mesmo desprovida da capacidade de raciocinar, ela usa seus instintos. Estes, por sua vez, são suas verdades, as únicas que ela conhece. Para a águia, não existem mentiras.


Entendeu agora?


Marcio Rutes



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quinta-feira, 16 de abril de 2015

LOUCA LIBERDADE



imagem coletada no Google






Quero toda sua pouca castidade
Quero toda sua louca liberdade
Quero toda essa vontade
De passar dos seus limites
E ir além, e ir além...
”.¹








Talvez você nem saiba, menina, mas quando você tinha lá os teus 16 anos, já existia quem te descrevesse para o mundo. Alguém cantava teus passos futuros num ritmo que me fazia dançar mentalmente e imaginar onde andaria aquela que seria a dona da minha vontade.

O engraçado, menina, é que existia em você uma vontade tão grande de liberdade, ou de voar, ou ainda de expansividade, que você se encolhia. É. Ninguém entendia teus anseios. E era no seio dessas querências que você foi moldando todo teu caminho, sempre assim, quietinha e com esse jeito acanhado.

Me apaixonei por você sem ao menos saber que você existia. Eu te amei em sonho, em pensamento, no cheiro do teu perfume que vinha pelo vento. Te desenhei tão perfeitamente num papel imaginário mas, veja que coisa estranha... eu não sei desenhar sequer uma linha reta com uma régua. Mas desenhei. E guardei esse desenho no álbum dos meus dias.

Sou um maluco apaixonado por tudo aquilo que me faz bem, e você sabe fazer isso como ninguém. Sempre fez, desde antes de me conhecer. Não entendeu? Ah! Tão fácil de explicar. Você só me ensinou coisa boa, como a ser paciente, pois te esperei tanto, e tanto... ou ainda a jamais perder a esperança. Me ensinou a lutar pelo que eu quero e acredito, e também que os limites... os limites são apenas provas de uma etapa, e que se forem vencidos, passamos prá outra. Aprendi, com você, que o amor não é essa coisinha banal e meramente etérea que alguns praticam. Fui a fundo nessa arte, e vi que sou um mero aprendiz. E quer saber? O mais gostoso de tudo é aprender com você como se ama de verdade.

Mas o melhor de tudo é que você tem me ensinado, nos nossos dias de hoje e amanhã, que somos, sim, dois alquimistas insaciáveis, e que aos poucos libertam seus sonhos e desejos. E estamos fazendo isso juntos, mesmo que trombando contra algumas montanhas teimosas, que insistem em bloquear nossas veredas.

Te ver pela primeira vez não foi como ver o mar. Não, não foi. Foi mais. Foi como olhar pela janela de um trem, lá no meio do desconhecido, e enxergar a mais alta montanha, no meio do verde ensolarado, e mirar lá em cima um pássaro ávido por escalar aquele mirante desafiador.

É. Te ver pela primeira vez me deu vontade de voar, e provar toda essa louca liberdade que, agora, você sabe que te move.

Gostoso é saber que não precisamos de praças imensas, com seus jardins povoados de gente louca e apressada, mas sim de um quintal lá nos fundos de nossa casinha pequena no pé do morro. Diamantes? Que nada. Queremos cascalho, seixos e quartzo, artesanalmente moldados pelas mãos do universo. Nada de champanhe cara e licor marrasquino. Um vinho feito das nossas uvas já satisfaz. E nas nossas loucuras, transar na rede é muito melhor do que dormir em lençóis de seda dos hotéis de luxo.

Prá nós dois, criança combina com lama, não é? E com fruta no pé, com pipa subindo alto e com alguns palavrões que nós mesmos vamos ensinar. Nada dessa criação casta e absurdamente alienante que hoje se verga em nome de uma “vida politicamente correta”. Nossa cria será solta e sabedora de sua liberdade, mas também do respeito que deverá ter pelo próximo, seja ele gente, bicho ou um mero capim.

E assim, menina, nossa semente será deixada, para continuar tudo aquilo que cremos e escrevemos. Que o universo não apenas nos ouça, mas que nos eternize no sangue perfumado e na tez clara de Clara.

Pois sabemos “...que a vida pode ser maravilhosa”.²

E foi quando te vi matéria–prima das minhas lágrimas de felicidade.

Jamais tenha medo de sonhar, pois o sonho é o princípio de toda e qualquer realização. Eu te sonhei durante toda a minha vida, e será assim para o SeMpre.

E se eu precisar agradecer a alguém por ter me apresentado você, acho que agradeceria ao Ivan Lins, pois foi justamente por ele que descobri que uma certa menina Vitoriosa já habitava meu peito, e com raízes que somente vidas passadas poderiam, e podem, explicar.

Essa louca liberdade está em você, menina. É hora de ir além.



¹ e ²“Trecho da música VITORIOSA
Autores: Ivan Lins , Victor Martins
Álbum: O Essencial De Ivan Lins
1999”.


Marcio Rutes



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