domingo, 18 de agosto de 2013

TUDO CULPA DO SALAME

image by Google
―Cadê a mala, amor?

―Ali no canto. Mas, pra que essa pressa?

―Taylane, minha amadinha. É nossa filha que vem nascendo! Qualquer erro nosso, qualquer descuido, e pode ser fatal pra ela! ―o marido se agitava, enquanto corria de um lado para o outro, completamente desesperado. ―E fica sentada aí na cama, senão vai molhar tudo. E a bolsa?

―No guarda-roupas, amore!

―Não essa! A bolsa da tua barriga. Gravidez. Lembra?

―Ah! Essa? É! Ela tá aqui ainda.

―Bom! Já liguei pro seu pai, e ele já deve ter saído de casa. Tá vindo pra cá. Já liguei para a sua médica, e também para o hospital. Tudo certo. Vamos embora?

E lá foram os dois, porta afora. Quando entraram no elevador, o marido tirou uma lista do bolso e começou uma checagem de cada item.

―Pelo visto, não esquecemos nada. A Taylândia vem ao mundo cercada de todos os cuidados.

―Washington Wesley Wanderson da Silva! Dá pro senhor se acalmar?

―Mas, meu amor! É o dia mais importante de nossas vidas.

―Eu sei. Mas você precisava me depilar também? ―ela questionou, fazendo cara de tristeza.

―Não reclame. Sei lá quem iria fazer isso lá no hospital. E nem pensar em saber que qualquer homem olhou as coisas da minha mulherzinha.

―Deus do céu! Você é um poço de ignorância, Washington Wesley Wanderson da Silva!

O pai de Taylane, quando viu os dois aparecerem na porta do elevador, já correu para encontrá-los. Todo afoito, mal cumprimentou e já saiu carregando a filha para o carro.

―Pai, por que essa pressa?

―O WWW (o marido) está com a razão, minha filha. É a Taylândia que precisa desse cuidado todo. Você é minha única filha, e ela é minha primeira neta. Então, sossega aí que vou colocar a sirene no carro pra abrir caminho.

­―Por favor, papai! Sirene não, eu imploro! Vou morrer de vergonha. Tudo bem que o senhor é delegado, mas pra quê isso?

A pobre coitada mal foi escutada. E assim, os três chegaram ao hospital. O marido e o sogro literalmente pularam do carro e correram para a rampa, mas pararam assim que notaram a falta de Taylane. Quando olharam para trás, repararam a moça já saindo do veículo, toda torta e segurando as costas. Voltaram e cada um pegou num braço, carregando-a sem deixá-la encostar os pés no chão.

Dentro do hospital, tudo encaminhado. Era só esperar pela médica, que não demorou para chegar.

―Demorou, doutora! ―o marido, batendo o pé, reclamou.

image by Google
―São 4 horas da madrugada. Até os médicos dormem, vez ou outra. E um nascimento não é assim, como quem tira uma rolha de uma garrafa, sr. Washington. Bom, vamos lá! Cadê minha paciente?

O marido olhou para o relógio e apertou um botão qualquer. A médica, ao vê-lo fazer isso, baixou os ombros e desanimou, mirando-o diretamente nos olhos.

―Você não fez isso de novo, não é? Era só mais um treinamento?

―Duas horas e três minutos. Precisamos melhorar esse tempo! Não acha, meu sogro?

―Concordo, WWW! Acho que mais uns três treinamentos e baixamos uns 45 minutos.

―Eu não acredito! ―a médica bufou, saindo para o lado. ―Isso é uma gravidez que está no oitavo mês, e não um jogo de futebol. Vocês são loucos?

A médica sentou ao lado de Taylane e colocou a mão na barriga da moça.

―Coitada dessa criança! O pai é um doido, e o avô apóia e colabora. O que eu fiz pra merecer um cliente assim?

―Você, doutora? E eu? Convivo com esses dois malucos o tempo inteiro!

Um mês depois, uma mensagem fez o telefone de Washington vibrar. Era Taylane, dizendo que estava com vontade de comer salaminho. O marido, exagerado em seus atos, passou no açougue e comprou logo dez unidades.

“Vai saber qual é o que ela tá com vontade de comer!”. ―ele pensou, indo para o carro.

Ajeitou tudo no banco da frente do veículo e se preparou para sair, mas um dos salames insistia em não ficar na sacola. Ele, tranquilamente, pegou o salame e enfiou no bolso da jaqueta. O que importava, naquele instante, era voltar para casa. Já era tarde e ele estava cansado, e possivelmente a esposa só esperava por aqueles ditos salames para poder se saciar e repousar.

―Vou correr, senão é capaz da minha neném nascer parecida com um salame.

Já em casa, ele colocou a jaqueta nas costas da cadeira e chamou a esposa. Ela não se fez de rogada. Comeu até se refestelar. Mas o desejo foi além. Ainda fez o marido preparar pudim, brigadeiro de panela e macarrão com molho. Para encerrar, tomou quase meio litro de Coca-Cola sem gelo. O marido só olhava, sem entender como aquilo tudo poderia se ajeitar dentro da franzina esposa.

Durante a noite, na cama, ela parecia inquieta. Virava-se constantemente, até que dormiu. Repentinamente, o marido colocou uma das mãos nas pernas da esposa e reparou algo estranho. Então, tratou de chamá-la.

―Amorzinhoooo. Acho que você tomou refrigerante demais. A cama tá toda molhada.

Ela acordou e tateou a cama, constatando que era verdade aquilo que o marido falara. Ficou parada alguns instantes e, quando o marido acendeu as luzes, os dois se olharam, assustados.

“A bolsa estourou”! ―os dois gritaram, juntos.

―WWW, calma. ―a esposa, que jamais chamara o marido pelo apelido, gritou, tentando impor alguma ordem.

Ele sequer prestou atenção no que ela falava. A primeira coisa que fez foi ligar para o sogro, que obviamente, dormia profundamente.

―Alô, meu sogro. A bolsa estourou!

―O quê? Como? Bolsa estourou? ―o sogro balbuciou, até que acordou num estalo, assustado. ―Que inferno! Como? Então perdi todo meu dinheiro que estava investido lá? Eu sabia que aquele corretor iria me passar a perna... ―um instante de silêncio. ―Mas de qual bolsa você está falando? Eu não investi nada na Bolsa de Tóquio! E nesse horário, só a bolsa japonesa deve estar aberta!

―A Taylândia, seu tonto! ―Washington irritou-se, tentando explicar que era a bolsa da barriga da esposa.

―Piorou! Se eu não investiria no Japão, vou investir na Tailândia? Tá burro, é?

―Burro tá você, seu tonto! Não é o país. É a Taylândia, a sua neta. A bolsa que rompeu é a da Taylane. Acordaaaaaaa. E vem logo pra cá, que eu to preparando tudo!

Ao desligar, o marido correu para a gaveta de sua escrivaninha, para procurar a lista de providências a serem tomadas naquele instante. Mas não achou nada. Desesperado, começou a contar nos dedos, até que parou e olhou para a esposa, que tranquila, só esperava por ele para poderem descer até a entrada do prédio.

―Como...?

―Bom, enquanto você se desespera, eu penso. E faço as coisas com calma. Vamos?

―Mas, e a...?

―Já peguei.

―E a...?

―Também!

―E... e... e...?

―Dá pra calar a boca e se vestir logo, que to começando a ter contrações? ­―Taylane não se aguentou e soltou um berro, fazendo com que o marido corresse para a cozinha e vestisse, unicamente, a jaqueta.

Ela, com contrações, mal reparou que o marido esquecera as calças. Naquele instante, ela notou que precisava pensar nela mesma, ou então, as coisas poderiam piorar um pouco. Chegara a hora de ver se aqueles treinamentos valeram para algo.

E tudo já se mostrou estranho no elevador. A demora foi tanta que o marido já pensava em descer pelas escadas mesmo. Até que, repentinamente, a porta do elevador abriu e eles puderam entrar. La dentro, um zelador já idoso descia com alguns apetrechos para limpeza. Ao ver aquele casal, arregalou os olhos, principalmente ao reparar que o marido estava apenas de cuecas. Mas calou-se. Vai que era alguma nova moda?

Lá embaixo, na entrada do prédio, o sogro já esperava, ansioso. E ao vê-los, tomou um susto.

―WWW. Pode me explicar esses trajes?

Washington sequer prestou atenção nas palavras que o sogro dissera. Passou por ele e foi até o porta-malas do veículo, jogando para dentro toda a bagagem que carregava. Deu novamente a volta e entrou, mandando o sogro acelerar.

Duas quadras mais adiante, o sogro parou o carro e ficou olhando para o genro, que estranhou o fato.

―Parou por que? Estamos com pressa, não estamos?

―Seu animal. Você me fez esquecer minha filha lá atrás.

Enquanto os dois discutiam, outro veículo dobrou a esquina e, sem esperar que o veículo daqueles dois estivesse parado bem no meio da avenida, chocou-se com o carro do sogro de Washington. O delegado desceu rapidamente e começou a xingar o outro motorista. Ou melhor, a “outra” motorista.

―Tinha que ser mulher! E, claro, só poderia dar nisso! Eu sou delegado, sabia?

―E eu sou juíza, sabia? E sabia, também, que o seu veículo estava parado de forma irregular, no meio de uma via pública?

―Calem a bocaaaaaaaaaaa!

Todos silenciaram e olharam para trás. Era Taylane, que arfante, acabara de chegar até onde eles estavam.

―As contrações estão aumentando. Vai nascer logo!

O desespero foi geral. Até a juíza, que sequer sabia o que estava acontecendo, entrou na dança. Precisavam ir rapidamente para o hospital, mas o veículo do pai de Taylane, naquele estado, sequer sairia do lugar. O carro da juíza também ficara muito avariado, e naquele horário não havia viva alma na rua. O marido tentou usar o telefone celular, mas estava sem bateria. O sogro, na pressa, esquecera o telefone em casa, e a juíza, ao procurar pelo telefone dela, descobriu que quebrara no acidente.

―E agora? O que fazemos? ―o marido suplicou, olhando para a juíza.

―Ei... eu poderia prendê-lo por atentado ao pudor, moço.

O pai de Taylane andou um pouco e reparou algo que poderia ajudar. Pediu aos outros que esperassem e, um pouco depois, voltava até eles com uma carona.

―Pai, isso é um caminhão da coleta de lixo!

―É um veículo, não é? Entra logo. Vai!

O marido ajeitou a moça na cabine do caminhão, e como não havia lugar para todos por lá, o pai e a juíza, que resolveu acompanhar para não perder o delegado de vista, precisaram ir na parte de trás do caminhão, literalmente pendurados.

Como o motorista havia recebido ordens tanto de uma juíza quanto de um delegado para “andar depressa”, abusou o quanto pode. Parecia se divertir com a situação. Mas não parava de olhar para as pernas de Washington. Não entendia por que alguém andava apenas de cuecas naquela hora da madrugada.

Na parte de trás do caminhão, cada um se agarrava como conseguia. E a pior parte ficou para o delegado. Numa das curvas, um saco de lixo se desprendeu e caiu sobre ele. No interior, algum tipo de líquido com cheiro putrefato derramou todo nas calças do pobre coitado. As blasfêmias eram ouvidas a metros de distância, mas logo foram substituídas por sonoras gargalhadas, pois ele reparou que não havia sido o único atingido por aquele líquido. A juíza também estava toda molhada, e completamente irritada. Com as calças encharcadas por aquele líquido mal cheiroso, ela não sabia se xingava ou chorava.

Quando o caminhão parou diante do hospital, o delegado pulou e tratou de tirar as calças, para se ver livre do mal cheiro. A juíza, estranhando aquilo, baixou o olhar e reparou que a situação dela também estava complicada, e piorava ainda mais com aquele cheiro insuportável. Sem escolha, e tomada pelo instinto de não perder o delegado de seu ângulo de visão, não pensou duas vezes. Também arrancou as calças e foi atrás daquele homem.

Na recepção do hospital, um alarde estava montado. Na pressa, ninguém lembrou de ligar para a médica. E quando conseguiram localizá-la, descobriram que ela não chegaria a tempo para fazer o parto. Um enfermeiro, vendo que ninguém se entendia e já conhecendo tanto Washington quanto o pai de Taylane, tratou de puxar a moça para o lado, e levou-a para outra sala, para tranquilizá-la e iniciar os procedimentos necessários. Enquanto isso, na recepção, a bagunça só criava mais tamanho, até que a atendente não aguentou e ameaçou chamar a polícia.

―Pode chamar. Eu sou delegado.

―E eu, juíza!

image by Google
―Então, vocês vão calar a boca, porque isto aqui é um hospital. Vocês estão pensando o quê, afinal? E posso saber por que os três estão quase pelados? Vocês estavam onde? Numa suruba?

―Olha o respeito, menina! ―o delegado levantou o dedo, irritado.

―Baixe o dedo, senhor! ―a enfermeira retrucou. ―É desse jeito que um delegado resolve as coisas? E mais um detalhe! Que cheiro dos infernos é esse? Ecaaaaaaa.

Os três se olharam, e só então Washington reparou que estava sem calças. O pobre coitado parecia desnorteado. Toda a sua atenção e zelo viraram naquilo. Sentia-se um fracassado. Mas balançou a cabeça, sabendo que não poderia ficar ali parado. O sogro e a juíza, engalfinhados numa briga de impropérios e palavrões, não ajudariam em nada, e a esposa sumira.

Washington aproveitou que a atendente estava distraída com a briga dos outros dois e saiu de fininho. Foi se enfiando pelos corredores, até que por uma janela de vidro ele notou a esposa deitada numa maca. Bateu no vidro e, quando estava por abrir a porta, um enfermeiro segurou-o pelo ombro.

―Posso saber o que o senhor está fazendo aqui?

―Sou o marido daquela moça ali!

―Vai assistir ao parto? Então, venha comigo! Mas antes, o senhor pode me explicar onde estão suas calças?

Washington não teve muita escolha e seguiu o enfermeiro. Aquilo não estava nos planos dele. Assistir ao parto da esposa? Ele não suportava ver sangue. Entrava em desespero a cada vez que isso acontecia.

Quando chegaram na outra sala, onde o enfermeiro iria preparar Washington para assistir ao parto, o rapaz se desesperou. Precisava fazer algo. Então, quando o enfermeiro se distraiu, ele pegou um gorro e um avental médico e saiu silenciosamente. Vestiu-se no corredor mesmo, e se esgueirou, olhando para todos os lados como se estivesse numa cena de guerra. Inesperadamente, escutou algumas vozes e entrou na primeira sala que viu. Era uma sala com uma porta enorme, dividida em duas partes, mas ao que parecia, era apenas uma ante-sala. E para o azar do rapaz, aquelas vozes estavam cada vez mais próximas. O que restou para ele foi seguir em frente, até abrir outra porta igual a primeira. Assustou-se, pois acabou dando de cara com várias pessoas rodeando uma mulher, que estava deitada em uma mesa.

―Taylane? ―Washington murmurou, reconhecendo a esposa.

―Quem é o senhor? ―a pergunta veio de um homem enorme, que estava parado do outro lado da mesa onde a esposa se encontrava deitada.

Washington foi ladeando a mesa lentamente, até parar ao lado daquele homem.

―Eu sou o marido. E o senhor, quem é?

―Eu sou o médico que irá fazer o parto, pois a doutora Luiza não chegará a tempo.

Nesse momento, Washington olhou para a mesa onde a esposa estava deitada. O que ele viu, acabou fazendo com que um nó descesse por sua garganta. Taylane estava com os joelhos dobrados e abertos, e completamente desprovida de qualquer vestimenta.

Sem saber o que fazer, o rapaz enrubesceu e olhou para o médico. Gaguejou algumas palavras, e começou a arrancar o avental que utilizava, até ficar apenas de jaqueta e cuecas. Estava irritado e com ciúmes, e só pensava em afastar o médico dali. Suas mãos, afoitas, acabaram parando dentro dos bolsos, e ele notou que havia algo num daqueles bolsos. Algo redondo e comprido, o salame. Então, pegou-o e começou a ameaçar o médico.

―Nem pense, seu doutorzinho. Nem pense que você vai ficar ai, olhando as coisas da minha mulher. ―o rapaz bufava e balançava aquele salame bem perto do nariz do médico.

Uma das enfermeiras, vendo a cena, tentou interceder, e o médico aproveitou a situação para “desarmar” o rapaz. Mas como ele não parava quieto, o médico largou o salame no primeiro lugar que viu, e que foi justamente na mesa onde Taylane estava, bem entre as pernas da moça.

Outro enfermeiro entrou com uma câmera nas mãos. Taylane havia encomendado o registro em vídeo do nascimento da filha, e ele começou a filmar. Ao lado, ninguém se entendia. Duas enfermeiras tentavam conter Washington, enquanto o médico, desesperado, fazia de tudo para voltar para seu posto. Taylane, entre soluços e gemidos, tentava chamar a atenção de alguém, até que, num resto de forças, soltou um berro.

―Socorroooooooooooooo.

Todos pararam imediatamente. O médico arregalou os olhos, mas não descuidou do rapaz, que estava, àquela altura, bem preso nas mãos das enfermeiras. Mas Washington foi o primeiro a perguntar algo.

―Nasceu?

Novo silêncio. Até que o enfermeiro, que filmava tudo, se voltou para as pernas de Taylane e caiu na gargalhada. Em seguida, desligou a câmera e olhou irônicamente para o rapaz, dizendo:

―Olha! Tem algo aqui, mas se for uma criança, acho que sua mulher deve ter ficado com muita vontade de comer alguma coisa, porque tá com uma cara danada de parecida com um salame.

Aquelas palavras, por mais que fossem apenas por brincadeira, surtiram um efeito não esperado em Washington. Ele, ainda mais irritado, livrou-se das enfermeiras, mas foi contido pelo médico. Taylane, vendo que não aguentaria mais, relaxou o corpo, e sem esperar, sentiu que Taylândia começava a dar as caras ao mundo. E como ninguém se entendia novamente, o enfermeiro que filmava largou a câmera e fez o que sabia. Amparou a criança e ajudou no parto. Minutos depois, um choro tomava o ambiente.

―Ah! Agora nasceu. E é uma menina! ―o enfermeiro comemorou, segurando a criança nas mãos. ―Mas ainda não entendi por que esse salame estava aqui! É alguma simpatia?

Um silêncio aterrador tomou conta daquela sala, quebrado unicamente pelo barulho do rapaz se estatelando ao chão.

Algumas horas mais tarde, com um número enorme de policiais e jornalistas na recepção do hospital, uma repórter gravava a matéria que iria ao ar naquele dia.

image by Google
―...ainda não sabemos se tudo isso foi algum ritual de um desses grupos de malucos que aparecem a todos os instantes, ou se foi um ato isolado de um pai desesperado, que ao se ver sem atendimento neste hospital de luxo, entrou em pânico. O que se sabe é que uma juíza e um delegado, que possivelmente fazem parte desse grupo de malucos que tentou dominar o hospital, foram flagrados a poucos instantes, trajando apenas roupas íntimas, numa das salas do hospital. Segundo testemunhas, os dois estavam lambuzados de sabão líquido da cintura para baixo, e exalavam um cheiro estranho, possivelmente "provindo" de alguma substância estranha, ou de algum ritual maluco que eles faziam. Muito estranho. Será parte do ritual de acasalamento desse grupo esquisito? Por sua vez, o pai da criança que nasceu foi autuado por invasão de área restrita do hospital, por desacato e por agressão. Ele ameaçou ao médico e a outros atendentes com um salame enorme e de origem desconhecida. Ainda será investigada a procedência do salame, mas ao que tudo indica, ele fazia parte da artimanha desse grupo para incrementar o ritual que eles iriam realizar aqui nesse hospital. E eu lhes pergunto. Será falta de fé? Será falta de segurança? De onde viemos? Para onde vamos? Isso é o cúmulo... corta e edita.


Marcio Rutes


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

DORINHA E UMA CHAPEUZINHO VERMELHO BEM DIFERENTE (série RECONTANDO UM CONTO)

Chapeuzinho Vermelho - by Google
―Papis, ninguém matou o lobo!

―Filha, olha bem. Isso é o que diz aqui no conto que li. A vovó da Chapeuzinho Vermelho precisava ser resgatada, então, os lenhadores...

―Eu vi o lobo ontem ainda, papis. E ele tava vivinho da Silva. Até brincou com o Jú! Só acho que ele tinha que parar de ser assim, tão teimoso. Tadinha da vovó. Mas ele não é tão mau assim, viu! É só no conto.

­―Essa tua imaginação é muito fértil, Dorinha. Agora, vai dormir, vai! Amanhã vamos cuidar do nosso jardim, e quero você bem disposta pra me ajudar com as lavandas.

Como acontecia em todas as noites, o pai mal virava as costas, e lá ia a menina chamar por seu cachorro, o Jujubão.  Ele entrava e já ia tratando de deitar no tapete, pois sabia que a viagem para o mundo dos sonhos não demoraria.

―Jú, hoje vamos ter trabalho duro. Temos que dar um jeito desse Lobo Mau parar de azucrinar a vovó e a coitada da Chapeuzinho. Mas acho que não vamos conseguir sozinhos. Vou precisar da ajuda de mais alguém.

E assim, Dorinha adormeceu, iniciando o encantamento que levava a cada noite tanto ela quanto seu mascote para o mundo mágico dos sonhos. A chegada no mundo mágico era sempre uma festa, mas a pressa em procurar por Chapeuzinho Vermelho era grande, e Dorinha pouco parou para brincar. Precisava conversar com Chapeuzinho Vermelho e, assim, bolar um jeito de dar uma lição no Lobo Mau.

Procuraram por todos os cantos, mas não encontraram ninguém. Sequer a casa da vovó tinha alguém para dar informações. Mas, em compensação, o lobo andava espreitando, zanzanando por todos os cantos.

―E agora, Jú? O que eu faço?

O cachorro latiu repentinamente, e apontou o focinho para o alto. Lá, a estrela cadente que dava magia para a menina corria de um lado para o outro. E num estalo, Dorinha teve uma idéia.

―Você é muito esperto, Jú! Bem pensando. Eu posso trazer quem eu quiser aqui, pro nosso mundo. Vou procurar uma criança que esteja dormindo agora, que adore animais e, principalmente, doces. Pois assim, se o lobo tentar passar a perna na gente, ela me ajuda a defender os doces.

Pensando dessa maneira, Dorinha sentou e fechou os olhos. Concentrou-se o máximo que pode e, como num passe de mágica, alguém apareceu diante dela, mas não era uma criança, e sim uma moça já bem grandinha, e que tomou o maior susto.

―Onde eu estou? ―a moça perguntou, olhando tudo ao redor e achando lindo cada coisa em que seus olhos repousavam. ―É um sonho? Se for, é meu sonho de uma vida inteira.

Repentinamente, a moça começou a encolher, encolher, até se transformar em criança. Dorinha, que estranhara o fato de ter trazido alguém adulto para seu mundo mágico, logo entendeu o porquê disso ter acontecido. A moça, possivelmente, tinha uma alma de criança muito ativa, e agora, o mundo mágico estava cuidando para que ela assumisse essa forma.

―Olá! Eu sou Dorinha, e você está no meu mundo mágico. Ah! Sim. Este aqui é o Jujubão, meu cachorro. E você, quem é?

―Eu? ―a moça, agora uma meninota de uns 10 anos de idade, olhava assustada para suas mãos e pernas, que terminavam de encolher. ­―Samara... Samara Bassi. Mas, o que é que está acontecendo aqui, afinal?

Em menos de 15 minutos, Dorinha e seu jeito bem convincente colocaram a nova visitante do mundo mágico a par de toda a situação. Estranhamente, e sem duvidar de nada, a pequena Samara estava eufórica e afoita para encontrar o Lobo. Mas Dorinha sabia que não seria fácil convencer aquele cabeça-dura a parar de atormentar a vida dos habitantes daquele lugar. Então, sentaram e bolaram um plano. Substituiriam Chapeuzinho Vermelho e a vovózinha.

―Pois é! ―Dorinha deu de ombros, desanimada. ―Mas, nem a vovó está em casa. Quem poderíamos usar para substituir a vovó?

―Já sei! ―a pequena Samara comentou, cochichando no ouvido de Dorinha. ­―Será perfeito. Mas não podemos fazer agora, senão pode dar errado. Depois você chama nossa nova vovózinha. Vamos pra casa do bosque preparar tudo?

E assim, as duas meninas e o cachorro foram para o bosque. Correram e brincaram com os animais, comeram frutas pelo caminho e, por pouco, não esquecem do que pretendiam. Até que, do nada, apareceu algo que prendeu a atenção da pequena Samara.

―Dorinhaaaaaa... aqui. Vamos usar essa casa.

­―Não dá, Samara. Essa é a casa da bruxa que tenta pegar João e Maria. A casa da vovó é outra.

Chapeuzinho Vermelho - by Google
Samara parou diante da casa e arregalou os olhos. As paredes eram de chocolate ao leite com flocos e amendoim torrado, o telhado era de doce quebra-queixo, as portas de waffer, as janelas de gelatina, e ainda tinha sorvetes, balas e pirulitos enfeitando tudo.

―Mas... mas... mas... ela parece vazia. Não vai fazer diferença. Vamos, Dorinha. E olha. Lá dentro tem uma cama pra vovózinha. Tem tudo o que precisamos.

Dorinha não entendia muito bem as intenções da nova amiguinha, mas enfim, concordou. Afinal, não poderiam esperar muito, e logo o lobo apareceria. Então, entraram e se aprontaram para chamar mais alguém para substituir a vovó. Mas quando Dorinha se virou para chamar Samara, viu a amiguinha subida numa cadeira, tentando arrancar alguns caramelos que estavam na parede. Até na porta já faltava um pedaço de chocolate, e que era justamente a maçaneta.

―Samara, o que você está fazendo? Não pode comer a casa da bruxa. Isso é de outra história!

―Ah! Ela nem vai sentir falta de um pedacinho. E depois, to pegando um pouco pra encher a cestinha que vou levar pra enganar o lobo.

As duas sentaram e Dorinha tratou logo de chamar a nova vovó.

―Tem certeza, Samara? Isso me parece meio estranho!

―Vai por mim! É a pessoa certinha pra substituir a vovó. É meio cri-cri, mas vai ajudar bastante.

Jujubão, que pressentia algo estranho, cobriu os olhos. Em instantes, outra pessoa adulta aparecia no mundo mágico, e logo em seguida, se transformava em criança. E exatamente como da outra vez, o susto veio junto.

―O que eu estou fazendo aqui? E por que eu encolhi? To criança... eeeeeeeiiii. Eu conheço você! Samara, você encolheu? Voltou a ser criança?

­―Oi, ratinho branco! ―Samara cumprimentou o menino que acabara de aparecer.

―Olá. Eu sou Dorinha! E você é o Cri-crílo, quer dizer, o Marcio, amigo da Samara, não é?

O menino não estava entendendo patavinas, mas logo foi colocado a par de tudo. E mais uma vez, Dorinha utilizou sua magia para fazer com que tudo fosse compreendido.

―Mas, por que eu tenho que ser a vovó? Eu não quero ser a vovó. Eu quero ser o caçador...

―Cri-crilo, você vai ser a vovó sim. E não reclama. ­―taxativa, Samara olhou para o menino, e entregou-lhe algumas roupas.

―Isso é uma calçola. E isso uma camisola. Eu não quero usar isso.

―Shhhhhhhhhhh... senão não vai mais comer leite em pó. E nada de ficar comendo as paredes da casa enquanto estivermos lá fora. ―Samara arrebitava o pequeno nariz e levantava o dedinho enquanto falava com o menino, que só a olhava e atendia.

Enquanto tudo se resolvia com relação a vovó, Dorinha tratou de preparar a roupa da nova Chapeuzinho.

―Dorinha, eu posso ser a Chapeuzinho Roxo? Posso, posso, posso? Diz que sim, diiiiiiiizzzz!!!!! E posso comer uns algodões-doces que estão nascendo ali no quintal da bruxa?

Depois de algum tempo, e com o Cri-crilo... digo, com o menino a postos dentro da casa, Dorinha e Samara foram para a floresta. Não tiveram nenhum problema para localizar o lobo, mas estranharam ao vê-lo com um par de fones de ouvido nas orelhas.

―O que ele está fazendo? Ouvindo música? ―Dorinha perguntou, estranhando a situação. ―Acho que não. Parece que está no telefone. Vai lá, Samara. E não esquece de cantar a musiquinha.

Samara saiu de onde estava escondida e começou a andar, fingindo que estava indo para a casa da vovó. Mas cantar, isso era outra história, principalmente porque ela sequer lembrava da música que fazia parte daquele conto. O jeito foi improvisar.

Jingle Bells, Jingle Bells,
acabou o papel.
Não faz mal, não faz mal,
embrulha com jornal”.

―Essa não. ­―Dorinha chamou, pedindo que Samara cantasse a música certa.

­―Mas, e qual é a música certa? Eu não lembro!

­―Canta qualquer uma, menos uma de Natal, senão o Papai Noel vai achar que é com ele.

Quando Dorinha falou que poderia ser qualquer uma, Samara ficou pensando. Música de lobo. Lobo Mau. Lobo que devora a vovó. Devora.

Chapeuzinho Vermelho - by Google
Teus sinais
me confundem da cabeça aos pés
mas por dentro eu te devoro.
Teu olhar não me diz exato quem tu és
mesmo assim eu te devoro...
Te devoraria a qualquer preço,
porque te ignoro, te conheço,
quando chove ou quando faz frio...
”.

E nada do lobo prestar atenção.

―Ei, seu lobo bobo. O que você tá fazendo que não me deu trela?

O lobo olhou para Samara e estranhou. Aquela não era a Chapeuzinho Vermelho, então, foi até ela e começou a fazer perguntas.

―Escuta. Cadê a Chapeuzinho Vermelho? To esperando ela faz um tempão e nada. Tava vendo aqui o meu Facebook, e ela nem avisou nada que não viria.

―Ah! Bom... quer dizer! ―aquilo não estava nos planos, mas Samara improvisou como pode. ―É que ela foi tratar os bixinhos dela que estão dodóis. Parece que o porquinho tá com gripe do frango, e ela não pode vir hoje. Eu sou a prima dela, a Chapeuzinho Roxo.

―Bom, então, acho que vou tirar o dia de folga. ­―o lobo comentou calmamente, colocando os fones no ouvido. ―Escute, menina, você gosta de “Ah Lelek Lek Lek Lek”? Adoro essa música.

―Tá besta, é? Isso não é música pra criança. E você, pare de ser folgado e vai jáááááá pra casa da vovó, que to indo levar esses doces pra ela. Tá pensando que isso aqui é casa da mãe Joana, é?

―Eita, que menina estressada. Eu devia ter aceitado aquele bico lá na história dos Três Porquinhos. O cachê tava melhor, e não tinha tanta gente dando pití!

―E por que não foi, então?

―Minha asma. E tenho rinite também. Esse negócio de soprar, soprar, soprar... isso acaba comigo. Mas, vou indo. Até mais.

―Ei, seu lobo! ―Samara chamou, fazendo o lobo suspirar. ―A vovó está na casa da bruxa. Parece que o pessoal do controle da dengue passou lá na casa dela pra pulverizar. Hehe.

―Escuta, baixinha. ―o lobo comentou, nitidamente irritado. ―Você não está complicando demais essa história?

―Baixinha é a mãe da mãe da sua mãe! E tem mais. Aqui é o mundo mágico, e eu posso tudo. Xispa daqui já! Vai logo, porque senão o Cri-crílo... digo, a vovó vai cansar de esperar.

O lobo baixou os ombros e começou a andar, balançando negativamente a cabeça.

―Bem que meu mapa astral avisou que hoje não seria um bom dia! Eu devia ter ficado na cama! Mas, esperar o que de um lobo que é do signo de leão com ascendente em peixes? Só podia dar nessa bagunça!

Enquanto o lobo se afastava, Dorinha saiu de onde estava e correu para encontrar a pequena Samara. As duas ficaram observando o lobo, e quando Dorinha se virou para conversar com a amiga, se espantou. Ela não estava mais ali.

―Samaraaaaa. ―Dorinha chamava, tentando falar baixo para não chamar a atenção do lobo. ―Cadê você?

―Aqui em cima. ―a voz de Samara soou próxima, mas Dorinha não conseguia localizá-la. ­―Aqui em cima dessa árvore esquisita, Dorinha. Olha só! É um pé que dá umas frutas esquisitas. Parece goiaba, mas quando eu abro, tem macarrão com molho. Eu não quero mais sair daqui.

―Aiai... ―Dorinha suspirou. ―Esqueci que é a primeira vez dela por aqui, e qualquer desejo se torna realidade. Isso vai ser mais difícil do que eu pensava.

Algum tempo depois, Dorinha, Samara e Jujubão chegavam na casa feita de doces e que pertencia a bruxa das histórias de João e Maria. Os três correram para alguns arbustos, que pareciam feitos de folhas de gelatina, e ficaram escutando e observando. Nada. Nem um pio que fosse.

―Ai, ai, ai. Será que o lobo pegou o Cri-crílo, Samara?

―Sossega, Dorinha. Conheço bem o Cri-crílo. Se aquele lá começou a falar, o lobo deve ter desanimado de vez e dormiu. Vamos lá ver.

―Tá. Então, coloca teu capuz vermelho... quero dizer, capuz roxo, prepara a surpresa que tá no cesto de doces, e vai lá. Eu e o Jujubão vamos ficar aqui fora esperando ele sair.

Samara se ajeitou toda e parou bem perto da porta da casa. Silêncio. Ela abriou lentamente a porta e entrou, indo diretamente para o quarto. Lá, mais silêncio. Mas ela reparou que alguém estava na cama, com as cobertas puxadas até a cabeça. E pelo tamanho, não era o Cri-crílo.

Quando Samara chegou mais perto, reparou os pés do lobo para fora do cobertor, e foi logo falando.

―Eita, vovó. Que pé peludo que você tem! Uma depilação ia bem, né?

―São minhas... ―o lobo começou a falar naturalmente, mas parou e afinou a voz, tentando imitar a vovó. ―São minhas meias de lã, minha netinha. A vovó morre de frio nos pés, e isso faz um mal danado pro reumatismo.

―Hum! Sei. Ihhh! Vovó, que mão grande você tem. E que coisa mais feia! Pode parar tudo. Vamos cortar já essas unhas, principalmente essa unha comprida no mindinho. Ecaaaa.

A menina abriu uma das gavetas da cômoda e achou o que queria. Um cortador de unhas. O lobo, assustado, se agitou todo, mas não teve escapatória. Samara agarrou sua pata e tascou-lhe o cortador, fazendo voar pedaços de unha para todos os lados.

―Pronto. Agora tá mais bonitinha. Só falta pintar. Que cor você quer, vovó?

E novamente, o lobo se agitou inteiro, mas de pouco adiantou.

―Vovó... que orelhão enoooooooorme.

―É pra te escutar melhor minha... ―o lobo parou de falar e viu Samara se aproximar com um objeto estranho, parecendo um pequeno aspirador de pó. ―Ei, o que você pensa que vai fazer? Pare... não... socorrooooooo.

―Pode ficar quietinha, vovó. Tá cheio de sujeira nesse orelhão. Volta aqui, vovó.

O lobo pulou da cama e desistiu da encenação que fazia. Correu para a parede e ficou ali, tremendo como vara verde. De repente, a porta do quarto abriu e o lobo se assustou mais ainda.

―Cri-crílo! Tá tudo bem com você?

―Tá sim. Mas esse lobo bobo é muito folgado.

O lobo, repentinamente, começou a chorar. Quando abriu a boca, Samara reparou que ele estava com alguns dentes quebrados.

―O que foi, lobinho? O que o Cri-crílo fez com você? ―Samara amansou a voz, começando a se preocupar com o lobo.

―Eu falei que ia devorar ele, como tá no script da história, e ele saiu dando risada. Daí, vi que ele tava comendo alguma coisa, e fiquei com vontade. Mas ele não quis me dar.

―Oras, ele quis pegar meu leite em pó. Disse que ia pegar de qualquer jeito, e saiu correndo atrás de mim.  Daí, sai de lado e ele caiu em cima do penico que tava ali do lado.

―Buááááá. ―o lobo começou a chorar, descontrolado. ―Essa vovó é maluca. Depois, ficou me falando um monte na orelha, dizendo que eu era muito mal, isso e aquilo. Por último, me fez sentar na cadeira e disse que se eu queria imitar a vovó, eu tinha que me maquiar. E me passou pó-de-mico no nariz. Buáááá.

―Vovó, uma vírgula. Só porque to com essa calçola, essa touca e essa camisola, é? Vou te mostrar quem é a vovó aqui!

O corre-corre foi geral. Dorinha e Jujubão, que estavam do lado de fora, escutaram a barulheira e correram para dentro. Jujubão, ao ver o lobo correndo, pulou e tentou morder seu rabo, mas o que conseguiu pegar foi justamente a barra da camisola que o Cri-crílo estava usando, que acabou tropeçando e caindo perto de Samara.

Dorinha, assustada, não sabia o que fazer. Jujubão latia e corria atrás do lobo, que para se esconder das coisas que o Cri-crílo jogava nele, tentava subir na mesa. Fora da confusão, Samara descascava alguns caramelos e aproveitava para descansar um pouco numa rede ao canto da sala. E a bagunça só aumentava, até que um grito se fez ouvir.

―Paaaaarem. O que é isso? Tão pensando que isso aqui é a casa da mãe Joana, é?

Todos pararam e olharam para a porta. O lobo foi o primeiro a respirar e falar algo.

―Vovó! Que bom que você chegou. Esse povo é louco.

Dorinha estranhou, pois conhecia aquela senhora de outros sonhos, e sabia que ela não era a vovó da Chapeuzinho.

―Não é a vovó! É a bruxa do Joãozinho e Maria.

―Podem parar. ―a velha senhora tornou a tentar colocar ordem em tudo. ―Eu sou as duas. Tanto a vovó quanto a bruxa. A vida dos contos de fada anda um tanto difícil, e só com uma aposentadoria, não tem como viver. Trabalho lá e faço um bico aqui. E hoje, eu precisei substituir o coelho da Alice, que tá com conjuntivite. Esse mundo mágico já não anda mais o mesmo.

Aos poucos, tudo foi se esclarecendo, e as crianças entenderam que tudo o que acontecia ali era apenas fruto da imaginação de cada um. Entenderam, também, que alguns animais utilizados como vilões nas histórinhas infantis não são maus, justamente como o lobo de Chapeuzinho Vermelho. Precisavam de um vilão, e sobrou para ele.

―Desculpa, seu lobo! ―Dorinha chegou bem perto dele e fez um carinho. ―Eu achei que você era mal porque vivia perseguindo a Chapeuzinho. Mas, também, ninguém me explica essas coisas. E desculpa também, vovó, por nós comermos sua casa. Daqui a pouco o Joãozinho e Maria chegam, e tudo tá bagunçado.

A vovó, vendo a preocupação da menina, levantou a mão e estalou os dedos. Tudo começou a girar e, para surpresa de todos, tudo voltou ao normal.

―Aqui é o mundo mágico, Dorinha. Aqui, se o coração for puro, tudo pode. Mas quanto a você, menino. Tira jáááááááá minha camisola. E pára de comer meu leite em pó.

O lobo, mais calmo, olhou para o lado e viu a cesta de doces que Samara esquecera largada. Quando retirou o guardanapo que recobria os doces, lambeu-se todo e lembrou que na confusão, acabou sem comer nada. Em poucas bocadas, comeu todo o conteúdo do cesto.

―Seu lobo, não faz isso!

Quando Samara gritou, já era tarde demais. O lobo estranhou e colocou as mãos na barriga, sentindo que ela começava a fazer um barulho estranho. Torceu daqui, remexeu dali, e pálido, perguntou.

―O que tinha nesses doces? Seus pestinhas, o que vocês fizeram?

―Bom... foi ideia da Samara, seu lobo.

―Ideia minha nada, Dorinha. Foi coisa do Cri-crílo.

Todos silenciaram e olharam para o menino, que se esbaldava novamente com a lata de leite em pó da vovó.

­―Esquenta não, seu lobo. Foi só um pouco de purgante pra elefante que eu coloquei nos doces. Só um vidrinho.

―Cri-críloooooooooo. Eram só duas gotas, seu maluco.

E assim, a noite acabou. Dorinha, quando acordou, correu para olhar o livro de histórias de seu pai. Lá, um desenho mostrava a bagunça que eles armaram no mundo mágico. Mais para o fim do conto, em outra imagem, o lobo aparecia correndo para o supermercado, para comprar papel higiênico. E Dorinha sorriu novamente, sabendo agora que os contos são para divertir e ensinar algo.

O que ela aprendeu? Que não se deve prejulgar nada, e nem se prender em preconceitos. Antes de condenar, é preciso entender e saber exatamente o que está acontecendo. Ou alguém pode acabar pagando injustamente, exatamente como aconteceu com o lobo.

Chapeuzinho Vermelho - by Google
Em outra parte do mundo, a pequena Samara e o Cri-crílo também acordavam. Algumas frutas estranhas, na cômoda do quarto de Samara, deram a certeza de que tudo o que viveram fora pura realidade. Ela pegou uma das frutas e retirou uma tampinha no topo. Dentro da fruta, uma bela e suculenta porção de macarronada.

―Mas, se foi tudo verdade, então...

Samara, ficou imaginando o que Dorinha deixara de presente para o Cri-crílo.

―Se para mim ela deixou essas frutas de macarronada, então para ele, só pode ter dado uma enorme lata de leite em pó.

Assim ela imaginou, mas teria caído na gargalhada se pudesse vê-lo agora, completamente irritado e sem entender o que estava acontecendo.

―Que trem é esse? Samaraaaaaa! Dorinhaaaaa! Por que eu estou vestido com essa camisola e essa calçolaaaaaaaaaa?


Marcio Rutes



********************************

Saiba mais sobre:





********************************

Não raro, algumas pessoas se tornam especiais na vida de outras pessoas. São seres cativantes e especiais, que chegam para somar, para ajudar a abraçar a vida de um jeito ainda mais gostoso.

Esta série de contos infanto-juvenis está ainda em seu início, e este em especial fugirá um pouco da estrutura imaginada por mim. Mas o motivo é por demais especial.

Este conto da Dorinha foi especialmente escrito para homenagear SAMARA BASSI, tanto que a própria Samara (junto a mim, o Cri-crílo Marcio) virou personagem.

Samara, sei que o que estou te dando é quase nada, mas é aquilo que sei fazer, que é te tocar o coração com minhas palavras. 

FELIZ ANIVERSÁRIO meu amor.



domingo, 11 de agosto de 2013

DORINHA E O GATO DE BOTAS (série RECONTANDO UM CONTO)

image by Google
―Mas, papai! Por que ele comeu o rato? Eu gosto do Ogro, e o gato transformou ele num ratinho e comeu ele sem dó!

―Filhinha, o Gato de Botas precisava enganar o Ogro, e fez ele se transformar em rato para ajeitar tudo. Senão, o Gato de Botas não poderia ficar com o castelo do Ogro e fazer o rei pensar que o rapaz era o Marquês de Carabás.

―Mas... mas... mas... ele enganou o Ogro, papi. Por que ele fez isso? E por que ele mentiu para o rei também?

―É somente um conto de fadas, minha querida. Agora dorme, tá bom? Amanhã o papai conta outra história pra você.

Dorinha não parecia nada satisfeita com aquela história que seu pai acabara de contar. Tanto que, após ganhar seu tão esperado beijo de boa noite e ver o pai ir para outro canto da casa, ela saiu na ponta dos pés e abriu silenciosamente a porta do quarto. E como de costume, Jujubão estava lá, abanando o rabo e esperando para mergulhar no mundo dos sonhos de sua pequena dona.

―Vem, Jú. Temos que acertar contas com um gato danado.

O cachorro entrou e logo se ajeitou no tapete. Com o focinho colado ao chão, ele viu a menina pular para a cama e se cobrir toda, apressadamente. Ela ficou somente com o rosto para fora das cobertas, olhando o cachorro, mas logo adormeceu. Aquele era, literalmente, um instante mágico, pois logo em seguida algo também tomava seu mascote, e do nada, ele adormecia profundamente. E se ambos pudessem ver o que acontecia naquele instante, ficariam maravilhados. Era como se uma luz intensa se desprendesse de seus corpos, flutuando para a janela e se perdendo para o horizonte. Assim, Dorinha e Jujubão partiam a cada noite para o mundo mágico dos sonhos da menina.

Estranhamente, Dorinha não estava calma ao chegar ao mundo mágico. Ela, que sempre ia até lá para brincar e aprontar suas artes, desta vez parecia aflita. Tanto que sequer procurou pela girafa, que ao vê-la, já veio oferecendo seu pescoço para servir-lhe de escorregador.

―Depois brincamos, menina. Agora, preciso encontrar um certo gato sapeca. Vai, Jú. Fareja ele!

Com menos de cinco minutos, Jujubão havia farejado algo. Um belo e suculento pé de ração para cães, com frutos no formato de pequenos ossos.

―Não, Jú. Eu quero um gato. Eu sei que ele tá aqui. Procura, vai!

―Olá! Eu posso ajudar?

Dorinha estranhou aquela voz. Mesmo sendo um mundo mágico de sonhos, ela era a única por ali com a capacidade de falar. Então, quem havia dito aquilo? Ela procurou por todos os cantos. Olhou para cá, para lá, até que sentiu algo puxando a ponta de seu vestido. E quando voltou seu olhar para baixo, reparou um pequeno gato malhado, e calçando um par de botas nos pés.

―Ah! Então é você, gato danado. Quero saber por que você enganou o Ogro e o rei!

―Puxa vida! ­―o gato suspirou, baixando a cabeça. ­―Acho que nunca mais vou me livrar desse peso.

A menina estranhou, mas esperta que era, pensou logo que o gato estava aprontando das suas, tentando enganá-la.

―Nem vem com essa, gato. Eu me lembro da história que meu pai contou. E você só aprontou por lá. Caçou, mentiu, traiu o Ogro...

―Essa é uma história tão antiga, de um tempo em que nós, gatos mágicos, éramos muitos. Meu tátara-tátara-tátara-tetra-avô é quem aceitou participar. ―o gato continuou suspirando, agora olhando nos olhos da menina. ―Venha comigo. Vou te mostrar uma coisa.

Dorinha, mesmo desconfiada, chamou seu cachorro e, juntos, seguiram o gato. Os três andavam e, repentinamente, desapareceram, reaparecendo num outro canto qualquer do mundo mágico. Lá, um número enorme de gatos, de todas as espécies e idades, brincavam e corriam por todos os cantos.

―Veja. ―o gato apontou para aquela imensidão de outros gatos. ­―Aqui é a Gatolândia. É aqui que nasce cada gato que aparece nos contos de fadas ou outras histórias que são contadas para as crianças. Também é aqui que são criados os gatos que apareceram nas histórias de bruxas ou de outros seres malvados.

―Que lindo! ―Dorinha não acreditava no que estava vendo, e arregalava os olhinhos a cada gato que passava por ela. ―São todos tão fofinhos e bonitos.

―Sim. Eles precisam ser assim, afinal, vão embalar tantos sonhos de criancinhas exatamente iguais a você.

―Mas, seu gato! E aqueles outros que estão mais pra lá! Eles não parecem tão fofinhos. Estão todos estropiados, machucados! O que aconteceu com eles?

­―Alguns são gatos de histórias de terror, outros são gatos que participam das músicas iguais a “atirei o pau no gato”, e alguns são filhotes que os humanos nem deram chance de nascer.

―Existe isso, seu gato? Tem toda essa maldade?

―Tem sim. Muitas pessoas acreditam que os gatos são animais de bruxas, ou que trazem azar e coisas assim. Gatos não são nem bons nem maus. Eles são animais que precisam viver de seus instintos. Se caçam ratos ou outros pequenos animais, é porque isso faz parte da natureza deles. E não trazem azar, assim como as patas de coelho não trazem sorte. Se trouxesse sorte, o coelho não perdia a patinha.

―Então, seu gato, por que na história, aquele seu vovô enganou o Ogro?

―Porque naquela época era tudo diferente. As pessoas acreditavam em outras coisas, e os gatos eram ainda mais perseguidos. Acho que quem escreveu aquela história, devia gostar muito de gatos, por isso tentou fazer dele um herói. Aproveitou que todos tinham medo dos Ogros, e fez o meu vovô enganar o coitado.

­―Mas eu to com peninha do Ogro, seu gato!

―Fica não! Olha ele ali!

Ogro - image by Google
Dorinha olhou para onde o gato apontou, e viu um ser enorme, rodeado por pequenos gatos. Era o Ogro, sorridente e fazendo festa com os gatos.

―O que ele está fazendo aqui, seu gato?

―Ele se aposentou, e como adora gatos, veio ajudar a gente a cuidar dos filhotinhos. Ele fabrica pequenas botas para eles.

A noite terminou e, como sempre acontecia, Jujubão foi o primeiro a acordar. Ao lado dele, alguns biscoitos feitos de ração para cães e em formato de pequenos ossos estavam espalhados. Ele comeu um por um e, rapidamente, saiu do quarto, pressentindo que logo alguém chegaria para acordar a menina.

Perto da hora do almoço, o pai estranhou o sumiço de Dorinha. Procurou por toda a casa e, sem encontrá-la, começou a procurá-la por todos os cantos, completamente aflito. Mas logo sossegou. Alguém disse que vira a menina na loja de artigos para crianças, lá no vilarejo.

―Sim, ela passou por aqui. Eu estranhei, pois ela levou todos os sapatinhos para bebê que eu tinha na loja. Ela falou que depois o senhor pagaria, e que ela estava com muita pressa.

­―Meu Deus. O que essa menina anda aprontando?

O pai de Dorinha mal terminara de pronunciar aquelas palavras quando um gato, todo desajeitado, passou pela porta da loja. Algo comum, claro, se o gato não estivesse usando sapatinhos infantis nas quatro patas. Os dois correram para a porta da loja, e o pai da menina logo descobriu o que estava acontecendo.

Num canto da calçada, Dorinha estava com um gato no colo, toda afoita, tentando calçá-lo com alguns sapatinhos infantis.

―Dorinha, o que você está fazendo, minha filha?

―Ora, papai. Ajudando o tadinho do Ogro. Até parece que você não sonha!


Marcio Rutes






********************************


Este conto é baseado na fábula O GATO DE BOTAS, de Charles Perrault. A fábula original foi lançada na coleção CONTOS DA MAMÃE GANSO, em 1697. Esta coleção reunia diversas fábulas de Perrault, e fez com que ele fosse considerado o pai da literatura infantil.

Saiba mais sobre:

O Gato de Botas                Charles Perrault


********************************


Este conto é especialmente dedicado a Samara Bassi, que tanto sonhou e me encantou, até que fez nascer Dorinha e Jujubão.
Não é exagero algum chamá-la de "mãe" de Dorinha.
A você, Samara, meu agradecimento especial e de todo o coração.