segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A REVOLTA DE ANTUNES

 

(1) Serra da Mantiqueira (veja crédito da imagem ao final do conto)
Para alguns ele era Antonho Antunes. Para outros, apenas Antunes. O fato é que quando ele chegou naquela casa, foi a maior briga pelo nome. Cogitaram tudo, indo do clássico ao absurdo. Chegaram a matutar o nome de Sapé Queimado para o coitado.  Até de Missanga ele foi chamado. Seu Givanildo queria que ele fosse Antunes, enquanto a esposa batia o pé e contrariava. Será Antonho. Acabou ficando Antonho Antunes.

Confesso que tenho mais apreço por Antunes, então assim chamarei esse pobre coitado nessa curta história.

Antunes não teve descanso desde que nasceu. Ele não era daquele lugar. Fora achado em um campo por seu Givanildo, que sem o menor respeito (coisa que nunca teve) tratou de leva-lo embora, sem sequer se importar de onde ele era ou se teria alguém a sofrer por ele. Cresceu rápido, mas completamente raquítico, pois a alimentação era mínima e totalmente inadequada. Assim que pode, já trabalhava duro, e apanhava muito quando as coisas não iam bem para os escambos que seu Givanildo praticava.

Antunes conheceu soiteira. O couro vivia vergado pelas lambadas ardidas que tomava. Mas não reclamava. Apenas trabalhava de cabeça baixa e com o estômago roncando. Dormia, na maioria das vezes, ao relento. Preferia assim, pois detestava ficar entre quatro paredes. Gostava do ar mais fresco da noitinha, de ver a luz da lua ou de sentir a chuva.

Das tantas e tantas noites que varou em claro, tantas também foram as vezes em que o olhar se perdeu pelas montanhas vizinhas. Lá sim deveria ter algum cantinho para viver em liberdade, longe do trabalho escravo imposto a ele naquele sítio. O mundo parecia ser diferente naquele lugar tão ao alcance dos olhos, mas tão distante de um corpo aprisionado. Corpo sim, alma jamais.

Certa feita, depois de uma chuva torrencial, Antunes voltava do roçado e tropeçou, rolando por uma ribanceira. Seu Givanildo desceu até ele e, de posse de um cajado de madeira, bateu tanto no pobre que sua cabeça abriu, quase arrancando uma orelha. Antunes não esboçou a mínima reação. Apenas ficou deitado até que aquele homem cansasse de bater. Fingiu-se de morto.

O tempo passou. Antunes cresceu bastante, mas continuava um saco de ossos. Jamais teve esperanças de conseguir se libertar da opressão daquele homem mesquinho e desumano que o levará ainda pequeno, mas também jamais deixou de sonhar com as montanhas. Noite após noite, olhava para lá e se deixava levar pelo ar frio que tanto fazia bem a ele. Até que o sol quente da manhã lembrava que ele tinha um roçado inteiro para cuidar e, claro, algumas chibatadas para levar.

Se alguém por aquelas bandas soubesse contar, certamente teria perdido as contas de quantas vezes Antunes foi surrado até ficar entrevado no chão seco. Antunes aprendeu apanhando. Fingia um desmaio, e seu Givanildo já comentava: “Tem que trabalhar nu circo, seu imprestáver. Parece inté que tá morto. Faiz inguarzinho.”. Depois, ele levantava meio capengando e tomava o rumo de casa.

Teve uma vez em que Antunes cansou de apanhar. Revoltou-se. Atacou seu Givanildo como pode. Cabeçadas, dentadas e chutes não faltaram. Seu Givanildo, assustado, levantou a soiteira, mas não adiantou. Antunes estava carregado de raiva. Forçou-o a caminhar para trás até que, inesperadamente, uma urutú cruzeiro deu um bote certeiro. Seu Givanildo estremeceu. Matou a cobra a pauladas e partiu ensandecido para cima de Antunes, mas o máximo que conseguiu foi agarrar-se a ele.

Com algum custo, os dois chegaram até a casa de seu Givanildo. Chamaram o médico da região, mas não teve jeito. O homem morreu dois dias depois. Mas não sem antes deixar uma ordem para o filho mais velho: “Mate esse desgramado do Antunes.”.

Gaité, o filho de seu Givanildo, não teve coragem de cumprir aquela ordem. Mas nem por isso agiu com algum caráter. Negociou Antunes para um dos produtores de carvão da área, daqueles que vivem explorando trabalho escravo. E Antunes logo percebeu que tudo continuaria igual ao que sempre fora, ou até pior. Então, de que adiantara ele ter se rebelado?

Mas algo inesperado aconteceu. Já no primeiro dia de lida, perto de um arroio, o carvoeiro ficou descontente com o serviço de Antunes. Desta vez a surra foi com uma correia.

Antunes estava enfraquecido, pois não se alimentava já fazia vários dias. Escorregou e caiu, ficando com a cabeça completamente dentro da água, o que fez com que o carvoeiro parasse e observasse.

―Matei o traste. Mas num prestava pra muita coisa mesmo. ―comentou o carvoeiro. ­―E se não morreu, num guenta muito. Que fique aí, pra alimentar argum animar ou os urubú, que devem estar famintos.

O carvoeiro virou as costas e foi-se embora. Quando chegou ao local onde ficavam os fornos, ordenou que um de seus empregados fosse até o local e recolhesse a lenha que Antunes puxava antes do ocorrido. O empregado foi, mas voltou com uma notícia não muito boa para o patrão.

―Sinhô! Num achei o tar lá no arroio. Será que o peste inviveu di novo e deu no pinote?

Cavalo idoso - by Google
E assim, Antunes conseguiu sua tão sonhada liberdade, fingindo algo que as surras ensinaram. Para o carvoeiro, ele tinha morrido, e se o tal ficasse por lá mais alguns minutos, isso realmente teria acontecido. Mas bastou que ele virasse as costas para que Antunes levantasse rapidamente e ganhasse o rumo das montanhas.

Hoje, Antunes vive solto pelos costados verdes do Morro da Imbuia(²). Não é raro passar por lá e vê-lo galopando, já bem mais gordo. Galopando? Pois é. Antonho Antunes não é um ser humano, mas sim um cavalo. No entanto, isso não diminui o sofrimento das surras e do trabalho forçado, ou de todos os outros maus tratos, diminui?



Marcio Rutes




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Notas
(¹): A imagem da Serra da Mantiqueira mostrada logo no começo deste conto foi retirada da web, mais precisamente do site do Instituto Pinho Bravo.

Visite o site do Instituto

Link da imagem: 

(²): Morro da Imbuia é um nome fictício, e não faz parte do complexo da Serra da Mantiqueira.
O conto não é ambientado na Serra da Mantiqueira. A utilização da imagem deu-se, unicamente, pela extrema beleza que a Serra da Mantiqueira revela, casando perfeitamente com a liberdade tão sonhada pelo personagem principal.

4 comentários:

  1. Que belo disfarce na linguagem. E quantos maus tratos recebem os animais para que cumpram a servidão. E quanta lucidez! No jogo narrativo. E na própria transmutação do animal. Mais uma vez você dá uma banho na linguagem, na sua estética, ao criar uma atmosfera quer aprisiona o leitor, deixando-o a um só tempo ávido para descobrir a essência do servo e para dar-lhe a liberdade desejada. Mais uma vez, é com o brilho da linguagem e da economia verbal, tão própria dos mestres do conto, que o leitor fica enleado. Parabéns, Márcio!
    Um abraço,

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  2. Querido Amigo, comecei a ler o texto e logo a tristeza me invadiu, porque lembrei do tempo em que o trabalho nas aldeias, na casa dos grandes lavradores ( fazendeiros) era assim, uma quase escravidão, só que não me consta que houvesse tanta chicotada. Alguns pais, como não tinham condições de alimentar tantos filhos, mandavam-nos " servir " ( era esse o termo usado) para casa dos lavradores, a troco de comida e roupa; alguns nem acabavam a primária ( até à quarta série) ; o trabalho era duro para crianças e muitas eram mal alimentadas também. À medida que lia o teu texto fui recordando algumas dessas crianças que conheci e que, hoje, felizmente, estão bem e conseguiram recuperar e curar as feridas do passado. Como já te disse várias vezes, viviamos em ditadura e além da miséria, não havia qualquer tipo de protecção para essa exploração de trabalho imfantil, beirando a escravidão. Hoje, tudo mudou; as crianças da minha aldeia estudam, os lavradores daquele tempo já deram lugar aos filhos que já têm uma visão muito diferente e os trabalhadores são tratados com respeito. O que eu não esperava era que, afinal, o Antunes fosse um cavalo que teve o azar de ser encontrado por um malvado que logo o colocou ao seu serviço maltratando-o de uma maneira imperdoável e irracional. Essa descoberta diminui o sofrimento das surras, perguntas tu e eu respondo que não diminui, que o sofrimento continua a ser terrivel , mas se fosse na criança, como pensava no inicio?. Não devemos maltratar os animais e eu seria incapaz de o fazer; abonio pessoas que o fazem constantemente, mas infligir tamanha dor a uma criança, com chicotadas e cajadadas e outras atrocidades, para mim aumentaria o sofrmento. Afinal, há diferenças entre um cavalo e uma criança indefesa, por muito que eu respeite os animais. Gostei muito, Márcio, tanto do conto, quanto da maneira simples como escreves. Não precisas de metáforas para dar beleza ao texo parabéns, Amigo! Beijinhos e boa noite. Saúde para todos aí em casa
    Emilia

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  3. Olá, amigo Márcio, a leitura que fiz deste seu conto estava desde o início centrada num menino que teria sido "adotado" pelo Givanildo. Sendo assim, li com certa amargura por ver o sofrimento da criança que era surrada por esse homem de forma insuportável. Mas, quando cheguei ao final da história foi que vi que se tratava de um cavalo, e não de um ser humano. Neste ponto pareceu-me que havia algum defeito na narrativa o que me levou a uma releitura. Então percebi que a narrativa estava perfeita como, por exemplo, quando consta que fora achado num campo pelo Givanildo, que sem o menor respeito tratou de leva-lo embora, sem sequer se importar de onde ele era ou se teria alguém a sofrer por ele.
    Essa parte deixou claro, na releitura, que o narrador não estava enganando o leitor. Vi então, que a narrativa estava perfeita. Então eu disse para mim mesma:
    Bah! Desta vez o Márcio me enganou!
    Parabéns, amigo, pelo belo conto.
    Uma boa semana, sempre com saúde e paz.
    Grande abraço.

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  4. Olá, Márcio, bem, começando te digo que gostei muito dessa atrapalhada dos nomes do infeliz ser humano. Começou com o esquisito Antonho, Sapé Queimado, Missanga!! Minha mãe do céus! Começou a loucura! Uma criança (assim pensei) com o nome de velho? Pô... mas tudo bem, o conto não é meu! rss Se Givanildo quis Antunes, que assim seja.
    Confesso que comecei a ficar condoída com esse pobre ser tão frágil, levando tanta lambada do infeliz carrasco Givanildo. Antunes apanhava tanto que teve um surto de inteligência e fingiu-se de morto! Guri esperto! Nessas alturas confesso que gostaria de estar lá pra baixar o sarrafo no Givanildo e roubar o Antunes. Mas pensei, o Márcio está alternando, um conto hilário e na outra postagem um conto que comove e assim por diante. Então estamos na vez do conto triste. E fui ficando cabreira com essa narrativa cruel.
    Mas, Márcio... que loucura, amigo, putz que volta me destes!! O Antunes era um cavalo!!! Claro, se fosse eu o cavalo tinha dado uns coice no Véio!! Teria matado o Givanildo de tantos coices!
    Mas e o que te direi agora, depois desse final?
    Que você levou os leitores onde quis, né? rss Um conto muito agradável, cheio de manobras e que acabei de ler sorrindo, muito melhor ter sorrido do que ter ficado indignada. Mas condeno esse tratamento com os cavalos também, o Givanildo era um psicopata, e como tal tinha de ter ido para um hospício o resto da vida. Aplausos, amigo, fantástico! rsss
    Grande abraço daqui dos pampas, e olha... os Gaúchos sabem muito bem tratar os cavalos, viu!?

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