sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

UM CHEIRO DE SAUDADE

O saracoteio mascado e marcado no gingado daquele gado sinuelo apaixonava a menina. Lá da cerca ela olhava distante, se deixando flutuar sem sair do lugar. Ficava horas por ali, reparando aquele ir e vir dos bois no pasto. Cheiro de mato molhado era seu perfume preferido. 

Ela, ainda meninota, era dona de uma pirraça gostosa, de um sacudir de ombros que era de atormentar o pobre do pai. 

―Essa “muleca” vai me dar trabalho! ­­―resmungava o pai, sempre que via a menina sumir pelo prado afora. 

E assim ela cresceu, cheia de energia e vontade de conhecer gente nova. Sempre que podia, corria para a cidadezinha e ficava por lá, lendo as revistas usadas que o velho turco vendia no armazém. Era um deslumbramento único que florescia nos olhos quando ela parava em alguma foto da cidade grande. Coração batia forte. Na manhã seguinte, lá estava ela naquela cerca, conversando, mesmo que distante, com os sinuelos. Eles não entendiam nada, por certo, mas ela falava mesmo assim. Sonhava acordada enquanto falava. Quem sabe até vivesse aquele sonho ali mesmo, fazendo voar pelos campos cada pedacinho daquelas fotos da revista que ela trazia na memória. 

Ela nunca teve medo de sonhar, muito menos de cantar ao mundo seus sonhos, ou de se render ao destino. Porém, ela gostaria de fazê-lo ao seu modo. Seu mundo, aquele que existia dentro dela, era maior do que aquele prado habitado pelo gado e pelos pássaros brancos. Ela queria, e iria, conhecer o que existia além das planícies. Queria, ao menos uma vez na vida, fazer parte de uma daquelas fotografias que ela sempre via lá no armazém do velho turco. 

O tempo passou e ela cresceu. Já não cabia mais naquele lugar. 

―Tá! Eu te mando pra cidade, pra você estudar! ―o pai concordava, mesmo a contragosto. ―Mas eu sei, essa menina arteira vai correr o mundo, e a saudade da poeira vermelha vai trazer ela de volta! 

Os dias esticaram para ela. A ansiedade tomava seus instantes e sequer os sinuelos ela voltou a visitar. Comprou cada revista velha que o turco vendia, e praticamente decorou as palavras. Até que chegou o dia da partida. Mas mal sabia ela que o apito do trem seria o som que a acompanharia por quase 4 anos de seus futuros sonhos. 

Demorou um pouco, mas lá estava ela, cercada pelos altos edifícios e por aquele corre-corre das pessoas apressadas. De nada adiantava ela falar “bom dia”, pois a única coisa que ela recebia em troca era um olhar desconfiado. Durante a noite não tinha pio de coruja, e no lugar das estrelas, o que rebatia em sua janela era a luz daquela lâmpada irritante que ficava no poste da rua. Até o cheiro da cidade era outro. Um cheiro enjoado, de óleo queimado e fumaça. Como aquelas pessoas conseguiam passar o tempo todo com aquele cheiro no nariz? 

O olhar arteiro da menina foi se perdendo pelo gris daquelas paredes tristes que rodeavam sua face. O balançar dos ombros agora era apenas um jeito de desviar desse ou daquele que quase trombava com ela naquela pressa urbana. E o que um dia fora um sonho recheado de magia, hoje é somente uma semente de ilusão que fez brotar uma saudade sem igual. 

No quarto em que ela dormia, existia um cantinho onde ela cultivava um pedaço de seu passado. Lá, nesse canto, estavam as revistas que ela comprara do velho turco, aquelas mesmas que estampavam as fotos que despertaram tantos sonhos. Uma melancolia sem igual brotava dela a cada virar de páginas. O cheiro da revista velha fazia ela passear no tempo, e voltar para aquela cerca onde tanto tempo passou mirando o requebrar dos sinuelos. Hoje ela lembra que sequer foi lá para se despedir do gado e do mato molhado. 

Em certa feita, o velho pai foi para a cidade. Queria ver a filha, e também tudo aquilo que ela contava nas cartas que enviava. Parecia tudo tão bonito no papel, descrito por ela quase em poesia, que ele chegava a pensar que a menina jamais voltaria para suas raízes. E assim ele se preparou para ouvi-la dizer que por lá ficaria. 

O abraço foi inesperado, terno e demorado. Ela, assim que enxergou o pai pela frente, pulou nos braços dele e respirou aquele cheiro que somente ele tinha. Era cheiro de infância, de vida, de mato, de gado sinuelo. Era cheiro de sonho bom, do único sonho que a tomava em cada noite naqueles tempos de triste realidade. 

O pai não se conformou ao vê-la magra e pálida. O que haviam feito com sua menina arteira? Onde estava tudo aquilo que ela escrevia nas cartas? Todo aquele glamour da cidade grande? Seria tudo mentira? O que ele via, de verdade, era uma tristeza sem tamanho tomando os olhos de sua filha. 

Com um único toque das mãos no rosto do pai, ela fez um pedido velado, e que sequer precisou ser entendido para ser acatado. Voltaram no primeiro trem da manhã seguinte. E no cumprimento de um presságio, as boas-vindas foram dadas justamente por uma nuvem de poeira vermelha.


Os ombros da menina retomaram aos poucos aquele requebrar. O pai pensa que ela faz isso de tanto olhar os sinuelos, mas não liga mais para tal coisa. Ela voltou para a cidade logo no mês seguinte. Precisava terminar os estudos, mas retornou rapidinho para a cidade pequena. Virou professora, e tem uma pequena escola lá ao lado do prado, pertinho dos sinuelos. 

Por vezes, ela repara alguma meninota olhando revistas antigas e suspirando sobre aquelas fotos. Mas ela não fala nada. Sabe que em alguns momentos precisamos quase perder para reparar o valor que pequenas coisas podem ter. 

Ficam lá, ela e as crianças, entretidos na lousa e nos cadernos. Até que o apito do trem avisa que é quase hora do almoço. A correria é tanta, que ela mal consegue se despedir de todas as crianças. E o trem se vai, levando gente embora para correr atrás de sonhos novos ou já um tanto batidos.

 

Uma coisa, no entanto, ela aprendeu com tudo isso. Sonhos velhos sempre fazem brotar novas saudades.

imagens captadas no Google


Marcio Rutes





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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

SOMENTE PARA SEUS OLHOS

óleo sobre tela - obra de Fátima Kelbert (imagem do Google)

Era do alto daquele prédio que ele via as manhãs nascendo ou o dia se esvaindo. Estações do ano iam e vinham, ora com suas folhas amareladas sendo sopradas pelo vento, ora com novas folhas brotando dos galhos das árvores para, em tempos vindouros, tornarem a amarelar.

Assim o tempo passava, e ele ficava por lá, no alto daquele prédio. Mas não era louco, nem tanto desistira de viver uma vida comum, junto aos seus. Apenas gostava de observar a movimentação alucinada daquela alcateia humana, que em seus momentos mais calmos, eram capazes de se engolir uns aos outros.

No que se transformara aquele local tão tranquilo a que ele tanto se acostumara em seus bons tempos de criança? Onde estava o prazer de dizer “bom dia” a um conhecido qualquer e que sequer se sabia o nome? Perdera-se a educação, ou era o mundo que estava apressado em demasia? Ou seriam os frutos amargos de uma árvore chamada Progresso?

Carroças e coches viraram automóveis de luxo, e a comunicação já quase vinha embutida na orelha das pessoas. Elas, agora, pareciam falar sozinhas, e isso sim era estranho. Mas, tudo bem. Cada um com sua pressa ou sua loucura. E ele não estranharia se, em pouco tempo, as pessoas começassem a voar sem asas. Ah! Como seria bom. Ele próprio trataria de comprar algum aparelho para isso, só para chegar bem perto das nuvens mais altas e de lá fazer xixi mirando o mundo lá embaixo. Daria risada por saber que muitos iriam pensar que se trataria de chuva ácida.

―Como são bobos! ―comentou baixinho e soltando uma risada de canto de boca.

Voltou os olhos para uma tela branca, presa a um cavalete, a sua frente. Durante dias tentou captar algo para preencher de cor aquele pano já sujo pela fumaça. Sem se esperar, algumas gotas de chuva molharam a tela, e nesse instante ele reparou algo inusitado. A água da chuva reagiu com os resquícios de poeira e poluição que estavam na tela, formando um borrão estranho. “Uma mulher”, pensou ele.

―Uma linda e delicada mulher em minha tela! Vejam só!

Foi então que sentou em seu pequeno banco, dando vazão a tudo o que brotava de seus olhos e mãos. Quanto mais chovia, mais borrava e mais ele se entusiasmava. Aquela parecia ser, definitivamente, sua melhor obra. Sim, era agora uma mulher, e era tão bela que ele, em sua empolgação, esqueceu até da chuva. 

Curitiba antiga - 1952 - Av Luiz Xavier, Centro (imagem do Google)
Aquela foi sua obra-prima, nascida do cotidiano de muitos que, com seu progresso, propiciavam a fumaça que reagiu com a chuva e se fez tinta. De resto, seu talento deu conta. Foi uma obra sem precedentes, pintada em um único traço. Mas foi somente para seus olhos. O que ele não se deu conta, é que a chuva, mesmo ajudando a criar, logo depois tratou de lavar aquela tela.

O preço da criação, no entanto, foi mais alto do que parecia. A pneumonia, causada pela chuva fria, por muito pouco não o fez arcar com a morte. Com alguma sorte, muitos cuidados e também com os remédios da modernidade, conseguiu voltar ao alto daquele prédio tempos depois.

O banco, a murada de onde ele observava o cotidiano, e também a tela no cavalete. Tudo estava ali.

Sentou e, pacientemente, esperou novamente pela chuva. Ela destruíra sua melhor criação, mas também fora responsável pela breve existência dela. Por que, então, não tentar novamente?


Por via das dúvidas, deixou um guarda-chuva disposto ao seu lado. Aprendera a lição.





Marcio Rutes





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sábado, 17 de dezembro de 2022

VER E VIVER

image by Google

Da flor
O frescor,
Do amor
O calor,
Do beija-flor
O zumbido,
Do cupido
Seu lampejo caído.

Do frio
O orvalho,
Da noite
O bocejo,
Do mar
A onda a versejar,
Da chuva
A semente a brotar.

Da criança
O sorriso,
Da balança
O friozinho na barriga,
Do beijo
O gemido,
Do olhar
O riso contido.

E em cada manhã,
Uma palavra

Sempre em agradecimento.


Marcio Rutes


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