 |
| image by Google |
Sentou-se lá, distante. Da rodovia chegavam alardes do movimento da tarde, que entre veículos e pessoas, o que restava era o barulho do caos. Sem pressa, apoiou as mãos naquele chão árido e levantou, deixando que a visão se perdesse naquele tumulto. E caminhou.
Entrou pela cidade já na entrada da noite, sempre andando sem pressa. Os altos edifícios assustavam um pouco, e o turbilhão de pessoas que despencavam por suas bocas era alucinante. Uns corriam para seus veículos e se trancavam. Pareciam mal humorados. Outros se atropelavam pelas calçadas, correndo e se desviando até de suas próprias sombras, que eram estampadas ao chão pelas luzes artificiais. Pressa e desconfiança, era o que se via nesses.
A noite já caminhava alta e fria, e ele se encolhia entre os trapos que vestia. Nas portas fechadas do comércio, reparou algumas pessoas espalhando papelões pelas soleiras. Nos becos, as prostitutas se mostravam quase nuas para arrebatar clientes.
Num desses becos pelos quais ele atravessou, viu certo homem trajando um macacão branco e imundo despejando na lixeira uma quantidade grande de restos de comida. Um pouco adiante, várias crianças esperavam, perdidas e encobertas pelas sombras. A fome as levava até ali. E na rua principal, decorada por luzes de todos os tipos e intensidades, vários bares eram disputados por pessoas empoladas e mostrando descontração.
O frio aumentava, mas ele não parava. Caminhou como se procurasse algo, até que avistou, ao longe, uma cruz enorme e iluminada. Foi até lá e subiu as grandes escadarias, parando somente diante da suntuosa porta. Era uma igreja, mas estava fechada. Ao olhar para o chão, notou marcas estranhas, como se algo tivesse sido incinerado naquele lugar, deixando, assim, o granito manchado. E não estava errado. Um mendigo fora vítima de desordeiros, e terminou ali, queimado.
Baixou a cabeça e prosseguiu em sua jornada. Da rua, olhava para alguns televisores ligados pelos bares. Na programação, políticos espalhavam efusivamente que "muito se fazia pelo bem do povo". Um pouco mais adiante, a polícia enfrentava, entre tapas e tiros, alguns traficantes de drogas. No meio do tumulto, uma bala perdida acabara de acertar uma jovem estudante que retornava para seu lar.
Em seu trajeto, passou por um parque da cidade, e parou para olhar o lago. Na outra margem, uma jovem atirava algo, embrulhado em jornal, diretamente na água. Ela correu e, pouco tempo depois, alguns indigentes recolhiam aquele embrulho. Era uma criança recém nascida e que, por pura sorte, ainda estava viva.
De seus olhos brotava tristeza. Não queria mais ver aquilo, e rumou para fora da cidade. Caminhou muito e depressa. O céu, mesmo frio, mostrava um brilho fantástico, mas parecia parado, estacionado e apenas acompanhando os passos daquele homem. E assim foi, até as luzes da cidade ficarem para trás e se apagarem. A rodovia, antes larga, virara agora uma via estreita, e pouco depois, perdeu o asfalto. As luzes que guiavam seu caminho brotavam das estrelas e da lua, e como companhia, só escutava o pio das corujas.
Subiu montanhas e atravessou vales, até que, pela manhã, chegava num povoado pobre, na beira de um rio. Havia muito lixo por todos os lugares, mas não existia sinal maior de destruição. Tudo estava quieto, sem alardes e gritos, e a única igreja, uma pequena sala bem ao centro da comunidade, não tinha porta. Pelas frestas nas paredes das choças, o que se via eram pessoas dormindo amontoadas, mas ninguém estava ao relento ou passando frio. Quem não tinha casa, era recolhido pelos demais e se alimentava com o pouco que nutria a todos. Tudo era dividido.
Seu caminho terminara. Estava dentro de uma das choças, mais precisamente no quarto de uma mulher grávida. Maria era a mais humilde daquele vilarejo, e em poucos dias seu filho nasceria. Era uma gravidez de risco, mas ela, em momento algum, tentou cometer aborto. Ele ajoelhou diante dela e estendeu a mão, tocando aquela enorme barriga. Lágrimas correram de seus olhos, vermelhas e incandescentes, e em instantes, seu corpo virou fumaça, desaparecendo por completo.
Ao despertar, como fazia diariamente, Maria ajoelhou-se e apanhou um pequeno e envelhecido crucifixo. Ao olha-lo, antes de iniciar sua oração, notou algo estranho. Dos olhos do Cristo, vertiam pequenos cristais vermelhos, que pareciam escorrer num suplicio nítido. E sem se dar conta, ela amparava nas mãos toda a tristeza que um homem carregava a mais de dois milênios. A tristeza de ver que muito pouco fora compreendido pelo ser humano.
Marcio JR