terça-feira, 31 de julho de 2012

FORA DE COMBATE

COMUNICADO:

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Aos amigos, aos visitantes de meu blog e a todos aqueles que se aventurarem por aqui nos próximos dias.

Infelizmente, e totalmente contra minha vontade, estou e continuarei afastado dos blogs e de qualquer atividade virtual que mantinha. Fui acometido por uma crise totalmente inóspita e que me deixou fora de combate.

Mas não se preocupe. Não se trata de problema de saúde, pelo contrário. Estou muito bem nessa parte. E também não é crise sentimental, pois nessa parte, penso ter equilibrado um tanto as coisas. Tempo? É! Até poderia culpá-lo, mas para ler e escrever, sempre dei jeito nisso. A situação é pior. É tecnológica.

O fato é que depois de "torrar" 4 (quatro) computadores, reduzindo-os a míseras sucatas, notei que fiquei sem equipamento. Isso mesmo. Os quatro computadores a que tenho acesso em minha propriedade resolveram dar pane, e todos eles justamente comigo no comando.

Tentei de tudo. Chamei técnico, liguei para a revenda, dei banho de sal grosso, acendi vela de 7 dias, encomendei umas macumbinhas com a Sam Bassi (não pense besteira... macumbinha é como chamamos o velho e bom incenso), ameacei jogá-los do alto do Everest, fui na placa mãe de santo... enfim, nada.

Então, como a fase anda complicada, resolvi tirar umas férias forçadas. Passarei ainda um certo período ausente, dando cabo (ou tentando) de alguns trabalhos e preparando algumas novidades.

Deixo aqui meu pedido de desculpas a todos. Assim que eu consiga sanar esse toque de Midas ao inverso, eu volto.

Abraços.


Marcio JR

quinta-feira, 26 de julho de 2012

ALGODÃO DOCE



algodão doce - by Google
re-edição

Corria ligeirinho, apressado, e parecia que aquela rua não tinha fim. Ah! Mas lá estava ele, o vendedor daquele pedaço de nuvem rosada, deliciosa e que colava nos lábios. Algodão doce.

A fila estava grande, será que iria sobrar algum? Um só que fosse? Ele, pequenino, saltitava tal qual cabritinho. Os meninos maiores empurravam, pisavam. Mas ele era persistente, iria ficar ali o tempo que fosse, e até sentou para esperar a fila diminuir de tamanho. Aquilo era bom demais. Algodão doce.

Até que ouviu algo que não gostou muito:

--Tá faltando dinheiro, garoto! --o vendedor falava para algum menino. –- Volta prá casa e pede mais prá mãe. Fala prá ela que custam cinqüenta centavos.

Ali sentado, o menininho abriu as mãos e só viu vinte e cinco centavos. A mãe, tadinha, não tinha mais dinheiro. E o pai, se por sorte achasse um emprego, daria, mas também não tinha. Ficou ali, macambúzio, por um bom tempo. Olhava para os demais e notava que se deliciavam, mastigando, chupando aquele pedaço sublime do céu. Levantou e sentiu a barriguinha murcha mexendo e roncando, chamando por aquele doce. Mas ninguém olhava para ele, e nem dariam um teco que fosse. Quando havia somente mais um doce no tabuleiro, meio quebrado, meio amassado e pela metade, foi até o vendedor e fez uma proposta. Seus vinte e cinco centavos por aquele meio algodão.

--Tá sonhando? Vai trabalhar. Ainda ganho uns quarenta centavos neste aqui.
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O menininho baixou o rosto, já cheio de lágrimas, e sumiu estrada afora.

Vinte anos depois, aquele mesmo menininho, já homem feito, caminhava com sua enxada apoiada no ombro, a caminho do roçado. Ao passar por uma árvore, notou um amontoado de terra com uma cruz de madeira plantada ao centro, e uma placa fixada na árvore, que dizia o seguinte:

“Aqui jaz o doceiro. Mais um esganiçado e egoísta que a fome matou”.

Pense nos seus atos agora. O que você negar hoje para alguém, amanhã pode faltar para você mesmo. Sempre tem Alguém olhando seus atos. Alguém que tudo vê e tudo anota.


Marcio JR

domingo, 22 de julho de 2012

FARDO

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Sentou-se lá, distante. Da rodovia chegavam alardes do movimento da tarde, que entre veículos e pessoas, o que restava era o barulho do caos. Sem pressa, apoiou as mãos naquele chão árido e levantou, deixando que a visão se perdesse naquele tumulto. E caminhou.

Entrou pela cidade já na entrada da noite, sempre andando sem pressa. Os altos edifícios assustavam um pouco, e o turbilhão de pessoas que despencavam por suas bocas era alucinante. Uns corriam para seus veículos e se trancavam. Pareciam mal humorados. Outros se atropelavam pelas calçadas, correndo e se desviando até de suas próprias sombras, que eram estampadas ao chão pelas luzes artificiais. Pressa e desconfiança, era o que se via nesses.

A noite já caminhava alta e fria, e ele se encolhia entre os trapos que vestia. Nas portas fechadas do comércio, reparou algumas pessoas espalhando papelões pelas soleiras. Nos becos, as prostitutas se mostravam quase nuas para arrebatar clientes.

Num desses becos pelos quais ele atravessou, viu certo homem trajando um macacão branco e imundo despejando na lixeira uma quantidade grande de restos de comida. Um pouco adiante, várias crianças esperavam, perdidas e encobertas pelas sombras. A fome as levava até ali. E na rua principal, decorada por luzes de todos os tipos e intensidades, vários bares eram disputados por pessoas empoladas e mostrando descontração.

O frio aumentava, mas ele não parava. Caminhou como se procurasse algo, até que avistou, ao longe, uma cruz enorme e iluminada. Foi até lá e subiu as grandes escadarias, parando somente diante da suntuosa porta. Era uma igreja, mas estava fechada. Ao olhar para o chão, notou marcas estranhas, como se algo tivesse sido incinerado naquele lugar, deixando, assim, o granito manchado. E não estava errado. Um mendigo fora vítima de desordeiros, e terminou ali, queimado.

Baixou a cabeça e prosseguiu em sua jornada. Da rua, olhava para alguns televisores ligados pelos bares. Na programação, políticos espalhavam efusivamente que "muito se fazia pelo bem do povo". Um pouco mais adiante, a polícia enfrentava, entre tapas e tiros, alguns traficantes de drogas. No meio do tumulto, uma bala perdida acabara de acertar uma jovem estudante que retornava para seu lar.

Em seu trajeto, passou por um parque da cidade, e parou para olhar o lago. Na outra margem, uma jovem atirava algo, embrulhado em jornal, diretamente na água. Ela correu e, pouco tempo depois, alguns indigentes recolhiam aquele embrulho. Era uma criança recém nascida e que, por pura sorte, ainda estava viva.

De seus olhos brotava tristeza. Não queria mais ver aquilo, e rumou para fora da cidade. Caminhou muito e depressa. O céu, mesmo frio, mostrava um brilho fantástico, mas parecia parado, estacionado e apenas acompanhando os passos daquele homem. E assim foi, até as luzes da cidade ficarem para trás e se apagarem. A rodovia, antes larga, virara agora uma via estreita, e pouco depois, perdeu o asfalto. As luzes que guiavam seu caminho brotavam das estrelas e da lua, e como companhia, só escutava o pio das corujas.

Subiu montanhas e atravessou vales, até que, pela manhã, chegava num povoado pobre, na beira de um rio. Havia muito lixo por todos os lugares, mas não existia sinal maior de destruição. Tudo estava quieto, sem alardes e gritos, e a única igreja, uma pequena sala bem ao centro da comunidade, não tinha porta. Pelas frestas nas paredes das choças, o que se via eram pessoas dormindo amontoadas, mas ninguém estava ao relento ou passando frio. Quem não tinha casa, era recolhido pelos demais e se alimentava com o pouco que nutria a todos. Tudo era dividido.

Seu caminho terminara. Estava dentro de uma das choças, mais precisamente no quarto de uma mulher grávida. Maria era a mais humilde daquele vilarejo, e em poucos dias seu filho nasceria. Era uma gravidez de risco, mas ela, em momento algum, tentou cometer aborto. Ele ajoelhou diante dela e estendeu a mão, tocando aquela enorme barriga. Lágrimas correram de seus olhos, vermelhas e incandescentes, e em instantes, seu corpo virou fumaça, desaparecendo por completo.

Ao despertar, como fazia diariamente, Maria ajoelhou-se e apanhou um pequeno e envelhecido crucifixo. Ao olha-lo, antes de iniciar sua oração, notou algo estranho. Dos olhos do Cristo, vertiam pequenos cristais vermelhos, que pareciam escorrer num suplicio nítido. E sem se dar conta, ela amparava nas mãos toda a tristeza que um homem carregava a mais de dois milênios. A tristeza de ver que muito pouco fora compreendido pelo ser humano.

Marcio JR