![]() |
image by Google |
―Duas
indigentes e um cachorro. ―um policial comentava com outro, que pelo
fardamento, parecia ser seu superior. ―Não suportaram o frio, senhor. Uma pena.
Bem na noite de Natal. Vou mandar o rabecão recolhe-las.
―Cortaaaaaaaaaaaaaa.
Pára tudo.
O grito, num passe de mágica, fez tudo ao redor ficar imóvel. Todas as pessoas que estavam naquele beco ficaram paralisadas, parecendo
estátuas. Sequer o uivo do vento atreveu-se a ronronar naquele instante.
―Corta? Como assim?
―Dorinha acordou com o grito, e sem entender patavina, sentou-se na neve. ―Quem
gritou isso? E por que eu to morrendo de calor, se estava tão frio quando eu
morri? ―indignou-se. ―Ei! Não era para eu ter morrido? Isso aqui é o céu?
Jujubão e a outra
menina também acordaram com os gritos. Mas, ao que parecia, eram apenas eles
que estavam conscientes naquele lugar esquisito. Dorinha colocou-se em pé e
ajudou sua nova amiga a erguer-se também. E logo, a curiosidade tomou conta.
―Qual é o seu nome?
―Dorinha perguntou para a menina, enquanto fazia um carinho no cachorro.
―Que estranho! Faz
tantos anos que eu nasci, e nunca perguntaram meu nome. Nem sei se tenho nome!
Nitidamente, a menina
entristeceu. A cabeça baixou, quase colando o queixo ao peito, e dos olhos
correram algumas lágrimas. Dorinha, ao vê-la daquele jeito, correu para
abraçá-la, mas acabou chorando também.
―Você quer um nome, é isso? ―Dorinha perguntou, entre soluços.
―É! ―a menina sorriu
entre lágrimas.
―Não, ela não quer um
nome! E eu quero terminar essa história! Vocês acham que isto aqui é o que,
afinal? A casa da mãe Joana? ―uma voz sem rosto retumbou por todo o local.
―Quem é esse que tá
falando? ―Dorinha espantou-se, olhando para os lados e procurando
minuciosamente a fonte daquela voz.
Jujubão parecia
farejar algo, e Dorinha notou que o cachorro desconfiava de alguma coisa. Atiçou o
cachorro e fez com que ele procurasse. Aos poucos, e como a neve deixara de ser
fria, o faro do cachorro voltou, e ele seguiu um rastro que o fazia espirrar
constantemente, mas não pelo que antes era a neve, e sim por alergia. Sequer precisou ir muito longe. Ao sair do beco, todos levaram
o maior susto.
Um par de olhos e um
sorriso imenso apareceu diante deles, flutuando no ar. Todos estaquearam, e
quem mais se assustou foi a menina dos fósforos. Dorinha não conteve o espanto,
porém, sabia bem de quem se tratava. Já o cachorro não se conteve, e avançou ferozmente.
―O Gato da Alice! Só
podia ser você, pra bagunçar tudo aqui, gato danado! ―Dorinha sentenciou, batendo o pezinho
em sinal de reprovação. ―Eu já deveria estar acostumada com a bagunça que
existe pelo mundo mágico. O que tá acontecendo, gato? Tá desempregado também?
Fazendo algum bico?
Aquele sorriso
materializou-se em forma de gato, mas continuou flutuando, temendo um ataque do
cachorro. Os olhos agora mais pareciam bocas sorrindo, e calmamente, ele
dirigiu a palavra para Dorinha.
―Mocinha. Pra início
de conversa, vê se eu tenho cara de ser o gato de alguém! O Gato da Alice uma pinóia! Sou independente como todos os
gatos, e só aceitei entrar naquela história porque ela precisava de um certo
charme. O Lewis¹ sabia disso, tanto que me deu imediatamente um papel maior.
Salvei a história, eu diria!
―Sempre achei que você era meio atrevido e
convencido. Por isso preferia o coelho da Alice. ―Dorinha continuou calma, mas no fundo já começava a irritar-se com o gato.― Mas, tudo bem. Não estranho
mais nada por aqui! Agora, dá pra você parar com suas mutretas e descongelar
esse povo?
―Tá. Eu topo. Mas
lembre bem de uma coisa! Aqui, não sou um simples gato, muito menos o gato da
Alice. Sou o Diretor Cheshire². Então, mocinha, mais respeito comigo, entendeu? ―o gato
proferiu, com ares de pompa e nariz empinado. ―Ah! Já ia me esquecendo. Não sou
eu que tumultuo tudo, não. Pelo que sei, a cada vez que você aparece por aqui,
o departamento psiquiátrico dos personagens fica lotado. O Lobo Mau ainda tá por
lá.
―Pois é! ―Dorinha
concordou, baixando o olhar. ―Foi sem querer.
Quando Dorinha
levantou o olhar, espantou-se novamente. Viu o gato abrindo um sorriso imenso, e de repente todos estavam se movimentando novamente. Pareciam arrumar tudo, ajeitando as coisas como se aquele lugar não passasse de
um cenário de filme.
―Vamos lá, vamos lá.
Não temos tempo a perder. ―o gato de Cheshire ordenava, como se realmente
dirigisse um filme. ―Logo o Hans³ aparece por aqui, e se ver a gente parado,
sobra pro gostosão aqui.
―Por que arrumar tudo de novo,
seu diretor? Vamos começar a história novamente? ―alguém perguntou, irritando o gato.
―Por que? Por
queeeeeeeee? Eu digo o porquê! ―o gato ficou exaltado, e sem querer, desceu até
o chão, ficando ao alcance do cachorro, que avançou rapidamente. ―É porque na
história do Hans não tem duas meninas. Também não tem cachorro. E falando
nisso, dá pra alguém passar maquiagem nesse devorador de gatos e trazer um osso
pra ele? Antes que ele me engula!
―Jú! Comporte-se!
―Jú? ―o gato riu
descaradamente. ―Que nome horrível para um cachorro horrível. Aliás, já que
falamos em nomes, qual é o nome da menina dos fósforos, afinal? Dirijo essa
história desde 1900, e nunca soube o nome dela.
![]() |
image by Google |
A menina, que estava
um pouco mais atrás, corou. Aquilo, do nada, passou a ter uma importância
imensa para ela. E era estranho o fato, também, de que somente alguém de fora,
vinda de muito longe, é que importou-se com tal coisa.
―Eu não sei! Não tenho
nome. Me desculpem.
―Ah! Pára, vai! Assim,
estraga a maquiagem. ― o gato brincou, mas logo soltou um berro.
―Maquiaaaaaaaaaaaaaaaagem. Rápido. E tragam uma escova de dentes pra esse
cachorro. O bafo dele tá no meu cangote.
―Não se preocupe.
Vamos achar um nome pra você. ―Dorinha olhou ternamente para a menina. ―Você tem luz própria, reluz. E na história,
quando meu pai conta, ele sempre termina dizendo que você era uma luz que sempre
ia para o céu. Uma luz que ia. Luzia.
A menina, ao escutar
aquilo, sorriu e chorou ao mesmo tempo. Seus olhos brilharam, mas logo em
seguida, fixaram-se em alguém que apareceu na entrada do beco. Todos silenciaram
e também olharam. Era um homem franzino, de chapéu preto e capa, que em nada
combinava com o calor que fazia entre aquela lama de água seca e neve quente.
―God eftermiddag! ―o
homem falou, deixando Dorinha sem entender.
―Hans! ―o gato pareceu
ser aquele que mais ficou assustado com a presença daquele novo personagem, mas
tentou manter a pose. ―Não esperava você por aqui!
―Perdoem-me! ―o homem
desculpou-se, polidamente― Acabei por cumprimentá-los em dinamarquês. Sou Hans,
e acho que a justiça deve ser feita aqui, minha cara Dorinha. Por uma falha
minha, esta menina jamais teve um nome. E sabe? Gostei de Luzia.
Hans? Quem seria Hans?
Dorinha e a menina dos fósforos, agora chamada de Luzia, maravilharam-se com a
educação daquele homem. Ele parecia tão normal, mas havia algo nele que
encantava. No entanto, enquanto olhavam para o homem, descuidaram-se de
Jujubão, que se aproximou furtivamente do gato e, na primeira oportunidade,
tascou-lhe uma enorme mordida no rabo.
―Miaaaaaaaaaaaauuuuuu!
O gato soltou um berro
esganiçado e descambou numa corrida sem rumo. Atrás dele, o cachorro derrubava
o que aparecia pela frente, e por pouco não crava novamente os dentes no lombo
do gato. Dorinha, apavorada, chamava pelo cachorro, mas de nada adiantava. E em
poucos minutos, o que fora construído a mais de 160 anos acabou sendo levado ao chão.
Não satisfeitos, cão e gato correram para onde os figurantes do conto estavam
escondidos. Foi um pandemônio. Gritos e correria para todos os lados.
Algum tempo depois, o
gato apareceu atrás daquele homem misterioso. A cena que se via era a de um
campo de batalhas, com tudo destruído ou ruindo. O tal Hans parecia calmo, mas
o gato tremia e desesperava.
―E agora? ―dizia ele,
forçando o choro, como um verdadeiro ator canastrão. ―Este é um dos contos
mais importantes do Natal! Estou arruinado! Atrasaremos tudo, e muitos
figurantes daqui trabalham com o Papai Noel. Eles não poderão ir. O Natal
atrasará! As filhas das renas não terão peru para comer na ceia, pois as renas
ficarão desempregadas. E outras histórias sofrerão por falta de figurantes também. Que será de mim? Um gato
desempregado, falido e estropiado, largado pelas sarjetas imundas dessa cidade
poluída? Eca, tem uma pulga no meu rabo.
―Seja menos dramático, gato! ―o homem pediu,
sem alterar a calma.
―Menos dramático? Isso tudo foi
culpa desse cão-sauro das cavernas. E dessa... dessa... dessa invasora de
mundos mágicos! Vou comunicar a diretoria, os investidores e os patrocinadores de que o Natal vai ser cancelado e
pronto!
continua...
Marcio Rutes
não copie sem autorização, mesmo dando os devidos créditos.
SEJA EDUCADO (A). SOLICITE AUTORIZAÇÃO.
Notas:
¹ Lewis – referente a
Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson (27/01/1832 – 14/01/1898),
autor de Alice no País das Maravilhas (publicado pela primeira vez em
04/07/1865);
² Cheshire – referente
ao Gato de Cheshire, nome do Gato que aparece no conto Alice no País das
Maravilhas; Cheshire é um condado da Inglaterra. Cheshire é uma expressão inglesa para uma
pessoa que vive sorrindo ou ri muito;
³Hans – referente a Hans Christian Andersen.
Showwwwwwwww!! Showwwww!!!
ResponderExcluirMarcitooooooooo, seu danado, reli e vou te contar... não tem como não se perder em meio a tanto encantamento, aventuras e às vezes, isso dá é um nó na nossa caxola, na nossa imaginação seu traquina. Tamanha essa sua criação, essa arte de imaginar e construir com elementos disponíveis e claro, se não tiver, está sempre pronto pra inventá-los.
Você nãos sabe o quanto espereiiiiii pelo próximo capítulo e você, seu peste, gosta de atazanar a minha curiosidade e ainda não deu final pra essa história fantástica. Adorooooooooooo.
Puts, achei muito criativo, meu querido você misturar e até colocar os autores dos contos originais no meio hehe.
Camarote dos contos de fadas????? desde quandoooo???!!! hehe adoreiiiii.
Menino, assim que entrei e dei de cara com essa gato charmosamente convencido, hahaha... gamei! e Soltei a minha gargalhada, claro, como é de costume diante desses seus feitios.
Quando a nossa garotinha, a Luz se faz inteira, ia, vinha, luzia!
Agora vemmmm cááá'!!! Que porra é essa de Rena não ter peru pra comerrrr, Marcitoo???
Renas desempregadassss????
Que mais que falta, hum??? hehe
Ameiiiiiiiii e amo essas suas traquinagens. E seiiii que lááá vem ainda muita coisa.
Beijoooooooooooo
Sam.
Olá, Marcio. Passei por aqui só para desejar Feliz Natal. Já havia desejado por tabela no espaço da Sam, mas mesmo dois, bem misturados, unos ainda são. Assim sendo: Feliz Natal e tudo de bom em 2014!
ResponderExcluir"Faz tantos anos que eu nasci, e nunca perguntaram meu nome. Nem sei se tenho nome!"
ResponderExcluirEsta frase dá o que pensar, meu irmão, ela nos possibilita vôos mentais acerca do que é nominável, do que é inominável e da importância entre um e outro. Demonstra bem a relatividade entre as etiquêtas fugazes e os conteúdos assimilados. Mas, deixemos a filosofia na cozinha e vamos à sala de festas….
A seqüencia do teu conto de Natal interpenetra-se por universos paralelos de tempo e de dimensão, e faz surgir nesse "local de filmagens" presenças tanto curiosas como intrigantes (como diria certo poeta bigodudo recantista) de personagens e autores de uma outra época e continente. A história muda de tom e mistura sabores. (Fez-me pensar em certas "experiências alquímicas" com frutas e legumes torrados…) Personagens de ficção, como o gato de Carroll, descem para discutir com personagens reais deste teu conto. A questão maior da falta de nome da menina, relevado desde o início do capítulo, forçou a aparição (quase sobrenatural, diriam alguns) do contista dinamarquês em pessoa, de capa e cartola, mas (felizmente) sem guarda-chuva para bater nos outros!
E se a pequena Dorinha pasma diante da polidez e nobreza de caráter do europeu de uma outra época, o mesmo não se dá com o seu companheiro canino, e que não esquece as desavenças naturais de sua espécie com todo felino que apareça na frente dele! (comigo é assim, mexeu comigo eu prego fogo!!!)
E o conto quase vira letra de Vinícius quando este diz "Hay días que no sé lo que me pasa, eu abro meu Neruda e apago o sol, misturo poesia com cachaça e acabo discutindo futebol…" para se sair à francesa: Mas não tem nada não, tenho meu violão".
O teu conto, meu irmão, é mais taxativo: ficou confuso? então o Natal vai ser cancelado e pronto!
Mas que não se cancele jamais essa tua verve, Marcio, jamais…. Excelente!
Um forte abraço, meu querido amigo,
André