sábado, 7 de abril de 2012

A FÁBULA DE MAYS


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Em tempos remotos, muito antes de Jesus Cristo andar pela terra e quando os povos ainda viviam em pequenas aldeias, surgiu nas costas do que hoje é o Golfo do México um povoado chamado Mayrim, que mais tarde daria origem ao povo Maia. Era um grupo audacioso e guerreiro, que rapidamente dominou toda a região. Porém, a audácia se transformou em ganância, o que levou aquele povo a ser temido por todos os demais, fosse por sua inteligência na arte da guerra ou pela truculência que eles empregavam contra seus inimigos após as conquistas.

As crianças dessa aldeia eram preparadas desde muito novas para crescerem fortes, como verdadeiros guerreiros. Aquelas que não demonstravam aptidões para isso, eram treinadas para outras funções, como as de sustento da aldeia e, principalmente, dos grupos de ataque. Com o passar do tempo, e com o aumento absurdo da ganância daquele povo, tudo o que era produzido para a alimentação, acabava destinado aos guerreiros, e assim, os demais habitantes começaram a passar sérias privações. Sem alternativas para manter seus guerreiros bem alimentados, o líder da aldeia acabou por escravizar seu povo, e entre eles, seu próprio filho Mays, que não tinha aptidões guerreiras.

Com o passar do tempo, uma grande estiagem foi anunciada, e na medida em que os campos secavam, o poderio guerreiro diminuía. Territórios foram perdidos para outros povos, que se aproveitavam da desgraça Mayrim para retomar o que lhes fora tirado em outros tempos. Alguns começaram a notar algo estranho naquela situação climática, pois apenas os campos da aldeia Mayrim é que se mantinham sem chuva, enquanto os demais se mostravam férteis. Então, para tentar entender o que estava ocorrendo, um grupo de Mayrins viajou durante dias, até encontrar um oráculo muito antigo, e que segundo a crença, falava com os deuses. Porém, o que eles ouviram desse oráculo, não foi nada bom.

--Vocês estão sendo castigados. A ganância os dominou, e em nome dela, vocês destruíram, mataram, tomaram o que não lhes pertencia, escravizaram. E agora, somente a chuva do arrependimento é que alimentará seu povo. Mas, somente a chuva mais pura.

Assim falou o oráculo, e depois se calou, sem explicar mais nada. Os anos passaram lentamente, com a situação de fome piorando a cada dia. Não existiam mais guerreiros, e sequer os líderes da aldeia aguentaram a fome, sucumbindo um a um. Um dos poucos que ainda se mantinha altivo e com ânimo, era Mays, o filho legítimo do último lider guerreiro. Mas, Mays era diferente, e não enxergava a guerra como um meio justo de viver. Pelo contrário, sempre teve amor pela terra e pelas coisas que ela oferecia. E mesmo enquanto escravo, nunca reclamou de lavrar ou plantar.

As coisas pioravam a cada dia, o que deixava até Mays muito entristecido e desanimado. Ele, agora casado e com filhos, via seu povo definhar ainda mais, e sabendo que tudo estava próximo do fim, foi até seu mirrado campo de plantio. A noite era de luar, o que permitia ver a secura da terra. Suas pernas, enfraquecidas pela fome, não aguentaram e jogaram-no ao chão de joelhos. Atrás dele, um de seus filhos, o mais velho, o observava, e ficou assustado quando uma luz intensa tomou seu pai.

Mays, ainda de joelhos, olhava para o alto e suplicava por seu povo. Olhou firmemente na direção da lua, e deixou que suas lágrimas corressem, até caírem de seu rosto e atingirem o chão. Aquela luz o tomou de tal forma, que seu corpo todo brilhava, e em instantes, ele desapareceu. Seu filho correu até onde ele estava, mas não encontrou nada alí. A única coisa que viu, foram alguns pontos brilhantes no chão, justamente onde as lágrimas de seu pai haviam caído. E o menino ficou ainda mais assustado ao ver, logo em seguida, brotar do chão um arbusto esquisito e brilhoso, trazendo nas pontas, as lágrimas de Mays. Gostas de chuva despencaram e molharam a face do menino, que não sabia se chorava pelo pai, ou se alegrava pelo fim da estiagem.

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Depois daquilo, Mays nunca mais foi visto por ninguém. Contam que aqueles arbustos que o menino viu aparecer, cresceram como mágica e se multiplicaram, alimentando e salvando a aldeia Mayrim. Dizem, também, que isso só foi possível porque Mays chorou as lágrimas do arrependimento, e deu sua vida por seu povo, e os deuses reconheceram e retribuíram com a chuva pura em troca da vida daquele líder. Aqueles arbustos foram batizados de Zea Mays (traduzido, quer dizer “sustento da vida”), em homenagem ao grande chefe Mays, e hoje é amplamente consumido pelo mundo todo e popularmente conhecido como milho.


Marcio JR


domingo, 25 de março de 2012

A VIDA ENSINA

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Hoje, ela busca um amor maior. Traz nos olhos a certeza de que a esperança não é algo fútil e nem passageiro, mas carrega marcas profundas na alma, vindas de um passado que a castigou demais. Teria tudo para ser amarga, revoltada e, quem sabe, até mesmo uma mulher perversa e vingativa. No entanto, existe nela uma força superior e que a guia por caminhos que poucos conseguiram se aventurar e vencer.

O Natal estava próximo quando a conheci. Ela caminhava com passos miudinhos e ariscos, nada típicos para uma criança de doze ou treze anos de idade. Seus olhos corriam para todos os cantos, rápidos, e pareciam procurar algo além daquilo que eles poderiam observar. E quando algo a assustava, ela desaparecia na multidão. Eu olhava lá da minha janela e logo a via, brotando de algum lugar, no meio daquele povo todo. Ela parecia mágica: desaparecia aqui e, rapidamente, aparecia em algum canto distante.

musica Hey, Jude (Kiko Zambianchi) - by YouTube

Ela era uma menina de rua. E aprendera a sobreviver ali, naquele mundo cruel e frio. Um mundo que não perdoava erros e descuidos. Um mundo onde a esperteza precisava imperar. Um mundo que matava pela fome e, não raro, pelo medo.

Ela não entendia o por quê de ter que viver naquele meio. Tantas crianças corriam próximas a ela, com suas roupas caras e objetos que ela sequer sabia para que serviam. Essas crianças viviam sorrindo e ostentando uma vida que ela não conhecia. E quando ela tentava se aproximar de alguma dessas crianças, algum adulto aparecia e a enxotava. Quem sabe sua carinha suja de terra assustasse aqueles adultos e seus filhos, ou então eles temessem alguma doença? E a menina entristecia, sem conseguir entender o jeito arredio daqueles seres que deveriam ser seus semelhantes. Seria ela a culpada?

Aos poucos, ela se revoltava com tudo aquilo.

Quando a noite se aproximava, ela aparecia lá perto do restaurante. Sempre sobrava algum resto, e ela, pequena que era, acabava conseguindo alguma coisa. A dona Maria, cozinheira do restaurante, dava seu jeito e levava algo para ela comer. Mas sempre fazia isso de forma escondida. E pagou caro por isso. O dono do restaurante percebeu e demitiu a pobre mulher. Por que fez isso? Simplesmente por não querer “aquele tipo de gente” rondando por ali e incomodando seus clientes. Dali para diante, a menina passou a se alimentar com o que conseguia, e por certo, nem sempre achava algo para comer.

Certa vez a vi com um cachorro e achei algo um tanto estranho. Mesmo com tudo o que ela passava naquele mundo hostil, deu o nome de FELICIDADE ao pequeno animal. Era seu amigo, seu segundo melhor amigo. Perguntei a ela quem era o melhor amigo, achando que era algum outro morador de rua, ou então alguém que lhe ajudava, e me surpreendi com a resposta.

--DEUS é meu melhor Amigo.

Vi ali que aquela menina era diferente. Juro que quando ela se virou e saiu, procurei um par de asas nas costas dela. Não sei o que pensei, nem sei se entendi direito toda aquela situação, mas vi esperança nela. Não nos olhos, mas esperança na alma.

E assim, o tempo passou. Ela arranjou um violão e aprendeu a tocar. Felicidade, seu cachorro, não largava dela, e onde um estava, o outro estava também. Me acostumei tanto a ver aqueles dois, que quando eles não apareciam, eu me preocupava. Mas logo eles surgiam de algum canto e eu me acalmava. Certo dia, a tristeza. Um automóvel perdeu o rumo e atropelou o cachorro, e não sei o que doeu mais. Se ver o pobre animal no chão, ou olhar para o rosto coberto de pranto da menina.

Mesmo assim, com toda tristeza, ela seguiu em frente.

Para ela, Felicidade (o cachorro) não havia morrido, e sim, virado um anjo para acompanhá-la. Não culpou Deus por ter levado ou tirado a única coisa que tinha. Pelo contrário, agradeceu a Deus por ter dado um mundo melhor ao companheiro. Ela, então, se fortaleceu e ensinou uma lição enorme para todos que a conheciam. Ter na fé um instrumento de superação e resiliência.

Ela esperou calmamente a recompensa de sua fé. Algum tempo depois, alguém a viu pelas ruas e, sem explicação, a adotou. Um casal a levou dali, e muito mais do que um teto, deram a ela uma família. Mas, o mais interessante neste ato, é que o real presente não foi para a menina, e sim para o casal. A menina deu a eles um coração recheado de amor, esperança e magia. Sim, magia. Ela consegue transformar pessoas. Faz com que nuvens negras virem a mais bela chuva de verão, e magnetiza corações de um jeito, que é impossível não sorrir quando ela está perto.

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Hoje, a menina virou mulher. Ainda não é mãe, mas acredito que isso não demore para acontecer. Como falei no começo, ela busca um amor maior, mas não qualquer amor. Ela sabe que dentro de sua fé e crença na vida e em Deus, existe um amor superior a tudo o que conhecemos. Raras são as pessoas que conseguem se revestir dessa força superior, desse amor. Ela vai conseguir, já está quase lá.

Ressentimento ou mágoa da vida? Raiva daqueles que a desprezaram ou negaram algo na infância sofrida? Por certo que não. Ela aprendeu com tudo isso, e trouxe para a vida adulta uma gana de viver e de amar seu próximo que a fez alguém de alma única.


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Este é um conto fictício em partes. Não conheci pessoalmente, ainda, a pessoa que me inspirou a criar a personagem principal, e o enredo também não é real. No entanto, algumas pessoas que passarem por aqui e se propuserem a ler o texto, reconhecerão nele uma pessoa muito querida entre os blogueiros.

É alguém que realmente sofreu muito nessa vida e teve um cachorro chamado Felicidade. Obtive permissão dela para escrever este texto baseado no que ela viveu, mas não colocarei o nome dela aqui sem sua devida permissão.

Aprendo com ela diariamente, e virou uma verdadeira irmã menor para mim. Minha maninha. Se ela autorizar, coloco rapidinho o nome dela logo abaixo do texto, mas acredito que quem a acompanha, já sabe direitinho quem é, não é Maninha?


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E como ela acabou de autorizar a divulgação do nome, alí no terceiro comentário, tenho o prazer de dizer que é a FERNANDA, a NANDA, do blog ALEATORIAMENTE.


Esse anjo em forma de ser humano é um exemplo de vida a ser seguido, e nada me deixaria mais satisfeito do que se cada um que passasse por aqui fosse até ela e constatasse por conta própria a grandiosidade da alma desta menina-moça-mulher. Ela conseguiu dar um novo significado para palavras como fé e esperança, e com isso, me fez enxergar com outros olhos a vida.


Se hoje eu penso a vida de um jeito mais leve e esperançoso, devo muito disso a ela e ao que leio e aprendo com suas palavras. Vá até o blog dela. Vale, e muito, a visita. Tenho certeza de que você se sentirá diferente unicamente pelo fato de ler o que essa mocinha escreve.


ALEATORIAMENTE


Clique no link acima para conhecer a Nanda




Marcio Jr

sábado, 10 de março de 2012

RE-ENCONTRANDO AS ORIGENS

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O quarto sufocava. Por mais que tentasse fechar os olhos, eles insistiam em permanecer abertos. O sono não vinha, e durante anos ela ficou assim, numa insônia torturante. Lá fora, a lua era convidativa, principalmente quando se juntava com a lufada de ar fresco da madrugada. O luar permitia ver o imenso gramado e as árvores, que mesmo com a penumbra batendo sob suas copas, não pareciam assustadoras como nos filmes de terror. Um pouco mais distante, a ponte e a saudade. O riacho fazia barulho, um barulho corrente e borbulhante. Ela encostou a cabeça na soleira da janela e, aos poucos, adormeceu.

Seu corpo transportou a saudade do peito para o gramado, e mesmo dormindo, se viu lá, solta na luz do luar. Descalça, sentiu nos pés a maciez rude da grama recém aparada. Seus pés, de pele fina, sentiram a necessidade de tocar mais vezes o chão, não pela tentativa de engrossar mais a pele, mas sim pela enorme energia contida em seu corpo e que precisava ser descarregada. Suas mãos eram alvas e, estranhamente, pequenas. Ela estava pequena. Ela estava criança, adolescente. Uma linda e tímida adolescente de uns 16 anos de idade.

música: Reflections of My Lyfe (The Marmalade) - by YouTube

Silvos curtos chegaram aos seus ouvidos. Cigarras. No entanto, não eram cigarras da madrugada, e sim daquelas que se escuta durante o dia. Estranhou aquilo, mas pouco importava, pois não passava de um sonho, e ali, naquele devaneio, tudo poderia acontecer. As árvores balançaram, exatamente como ela via acontecer em sua infância, e ela foi até lá, até o lugar onde costumava passar várias horas de seu dia quando mais nova.

Caminhou lentamente, deixando a grama e o orvalho umedecerem seus sentimentos. A saudade doía muito, a embargava, e ao se aproximar da figueira, sentiu um aperto enorme no coração. Estava ao lado da ponte, e um medo imenso estampou seus olhos. Não queria olhar para o outro lado da ponte, mas precisava, sabia disso. Sabia que suas origens estavam lá, esperando por ela, cobrando pelo esquecimento e pelo abandono.

Sua natureza pobre nunca a assustou. Cresceu ali e pouco conhecia de outros lugares ou de outras culturas. Era órfã de sentimentos em sua caminhada pela vida, pois tudo o que conheceu e quis estava bem ali, do outro lado daquele riacho, que em outros tempos foi um belo e vívido ribeirão de ilusões. Levantou a cabeça e forçou os olhos. Alguém estava lá, chamando-a para o outro lado.

Sua mente deu mil voltas. Sentimentos brotaram e a angustiaram. Seria ele? Estaria lá aquele que a fez sonhar e se apaixonar, para depois abandoná-la naquele lugar distante? Aquele mesmo que a entregou à sorte da saudade? Ela o amava, sempre amou, e o que restava agora era o sentimento de falta. Tantos anos esperando sua volta, sua mão, seu sorriso.

A surpresa foi maior do que aquela que ela imaginava. Não era ele, e sim, ela mesma, chamando-a. Sem pestanejar, ela pisou a ponte e caminhou. Estranha sensação. Depois que ele partiu, ela nunca mais cruzou a ponte. Talvez por medo, ou quem sabe uma negação do passado. Mas agora não. Ela caminhava sozinha, sem saber direito o que buscava.

Do outro lado, ela mesma a esperava. Mais adiante, ele repousava sob alguns arbustos, dormindo. Ela ficou parada, admirando-o. Ele estava jovem também. Mas, que loucura era aquela? Por que ele estava ali, dormindo ao relento? O sonho virara pesadelo?

Remexeu as entranhas da memória e relembrou do dia em que ele se fora. Na noite anterior, teriam um encontro, mas ela se amedrontou diante da timidez e da falta de coragem em assumir seus sentimentos mais íntimos. Ela o amava e desejava, e ele a amava silenciosamente, respeitando-a em seus temores. Naquela noite, justamente naquela em que ela poderia fazê-lo ficar e mudar toda uma história, ela se acovardou e fugiu. Ele dormira ali, exatamente como fazia agora.

No dia seguinte, ele partiu, juntamente com a família. Partiram para outra vida, para outra existência. Um acidente na rodovia os fez de vítimas, e ninguém sobreviveu.

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Quem sabe se ela suprimisse o medo e o tocasse, ele acordaria e desistiria de partir, mas era somente um sonho, um sonho do qual ela não queria acordar. Um sonho onde ela poderia tê-lo e protegê-lo, nem que somente diante dos olhos e sem tocá-lo. Mas ela o tinha perto.

Estranhamente, depois de vários anos, ela conseguia sonhar novamente. Buscou tanto isso, vê-lo mais um dia, mais um instante, um mero instante.

Estava decidida, ficaria ali, naquele mundo novo que se apresentou a ela. Um mundo onde, por mais que a saudade doesse, ela tinha algo que tanto buscava, seu primeiro, único e verdadeiro amor.

Jamais acordou. Sua vida, agora, está na essência de um amor do qual ela fugiu. Seu semblante, para quem a olha deitada naquela cama, é sereno e terno. Mas, o que ninguém imagina, é que ela se recusa a despertar. Está lá, zelando pelo sono eterno de alguém que ama.




Marcio JR