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domingo, 27 de abril de 2014

TUDO TEM UM FIM (re-edição)

re-edição

Uma de minhas crônicas que mais gosto, e que hoje, após ler o belo texto "É SABER QUE NUTRE", de Samara Bassi, me vi com a necessidade de trazê-lo novamente à baila.

Tenha uma boa leitura.




Que tal parar para refletir por alguns minutos?

“Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele...". Depois, conto quem foi o dono dessas palavras. Mas, vamos pensar um pouco sobre isso?

O planeta terra, antes do surgimento do homem, era um lugar horrível, cheio de animais gigantescos e perigosos, que viviam se devorando uns aos outros. A lei era aquela, o maior come o menor, ou, a união faz a força, e então, quem sofria era o maior. Feio isso, não é? As florestas eram dizimadas, muitas vezes, por vulcões ou períodos de intenso frio. Os animais também contribuíam para isso, pois precisavam de muita comida. Será que esses animais não tinham um pingo de consciência de que estavam acabando com o meio em que viviam? Mas eram animais irracionais, e só o que faziam, era lutar pela sobrevivência. E a natureza sempre tinha tempo de se refazer.

Então, o homem apareceu. Descobriu o fogo, a roda aro 17’’, plantou, colheu, desmatou para construir cidades, enfim, evoluiu e se transformou num ser racional. Fez guerras, dizimou e foi dizimado em vários locais durante esse período evolucionário, cometeu as maiores atrocidades em nome de qualquer tolice que achasse certo ou que pudesse lhe dar mais capacidade de domínio, se tornou mesquinho, egoísta, e passou a viver, também, pela lei do “maior come o menor”. Implantou-se uma corrente de poder mundo afora. Capitalistas, socialistas, anarquistas, fascistas, comunistas, neoliberais... não importa o nome que se dê ao movimento ou a corrente de poder, pois todas seguem um único mandamento, evoluir e tomar espaço a qualquer preço.

O mundo está sofrendo, e a natureza sangra mais a cada dia. Geleiras estão derretendo, oceanos subindo, o ar fica mais poluído e pesado, as florestas somem de nossas vistas numa velocidade espantosa. E sabe? Muitos defensores das florestas repousam o corpo em móveis de mogno. Hipocrisia? Não, ganância.

Os animais pré-históricos matavam outros animais para se alimentar, mas nunca os da mesma raça. E se algum estava doente, se afastava do grupo, evitando contágios e atraso no percurso, e morria solitário, para não degenerar ou enfraquecer a prole ou o grupo como um todo. A coletividade sobressaía. Já o homem, na sua ânsia de poder e na gana de estender seus territórios, aniquila seu semelhante, mata seu próprio pai para tirar-lhe as gerências, arrebenta o meio em que vive unicamente para construir artefatos que lhe dêem mais poderio e força. Ou seja, constroem algo para destruir algo. Inventam doenças para vender a cura.

Lévi-Strauss / image by Google
Autor: David Levine
Claude Lévi-Strauss, nascido em 28/11/1908 e falecido em 01/11/2009. Francês. Ele foi um dos mais renomados antropólogos que já passaram por este planeta, e falou aquela frase, lá do começo da crônica. Um visionário? Não. Apenas alguém que constatou uma triste verdade.

E hoje, olhando para nosso sofrido planeta, posso dizer que o homem e a natureza não co-existem em harmonia, e alguém terá que prevalecer. O engraçado é saber que, destruindo a natureza, estamos destruindo a nós mesmos. Cabe, então, dizer que basta a natureza cruzar os braços, para deixar que o homem se destrua sozinho?

A ganância e o egoísmo são os maiores entraves para a evolução humana. E você? O que tem feito para melhor o mundo em que vive?




Marcio Rutes




não copie sem autorização, mesmo dando os devidos créditos.
SEJA EDUCADO (A). SOLICITE AUTORIZAÇÃO.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

RECONSTRUIR



Tempestade - by Google
“Reconstruir”. Indica ação, ato ou efeito de refazer. 

Reconstruir, em sua acepção, pode demonstrar algo belo. A vontade e a força que vem do ser humano em montar algo novamente, a resiliência tão peculiar em alguns, a determinação para seguir adiante apesar dos percalços. Tantos são os fatores que podem influenciar no modo de agir das pessoas e fazê-las retomar algo, que muitas vezes mudamos nossos destinos até mesmo sem sentir. Em certos momentos, evoluímos, crescemos material e espiritualmente, mesmo apesar das intempéries. Já em outros, não encontramos força suficiente para tal, e permanecemos numa pasmaceira constante, ou pior, afundamos num estado de letargia crescente.

Música: Sândalo de Dandi (Metrô) - by YouTube

Reconstruir, no entanto, pode ascender de alguma ação desfavorável. Para reconstruir, é necessário que algo tenha ruído, sido desmontado ou destruído. Algo existia e, de repente, acabou. Em algumas situações, isso é feito de maneira planejada ou pensada, e resultará em algo melhor. Mas, e quando tudo acontece repentinamente? Catástrofes, de maior ou menor escala, acontecem todos os dias mundo afora. Furacões, terremotos e tantas outras ações da natureza interferem profundamente no mecanismo que move a existência do homem, mas não são as únicas causas que promovem “reconstruções”. A ganância, o egoísmo, a inveja, a violência, o desrespeito pelo próximo e tantas outras características negativas inerentes do caráter humano, também se delineiam nessa cadeia de ação que leva à prática de se precisar devolver a forma a algo que esfacelou.

Pessoas saem de suas casas e não voltam. São vítimas mortais de uma sociedade que se fecha em seu egoísmo. A violência corre solta, e quase nada se faz para contê-la. A palavra, arma maior da eloquência humana, virou apenas um artifício da retórica na boca daqueles que banalizam os poderes legais. E são tantas as violências.

Como se não bastasse a ânsia latente de muitos, que não se contém em seu ímpeto e saem disseminando a desordem e o escárnio, as mídias se aproveitam e pioram tudo, implantando ainda mais o conceito de anarquia na alma humana. E o que era um crime a ser julgado, condenado e castigado naturalmente pela justiça, vira um instrumento de lucro na horda comunicativa. Resumindo, para se ganhar mais, oprime-se mais. Como explicação barata, dizem que é o “povo assumindo seu direito à informação”. Pura balela. Quando a audiência cai, esse direito popular à informação é deixado de lado, quer seja pela mídia, quer seja pelo povo, que corre para se saciar em outro entrevero, e melhor ainda se for de alguém famoso, ou de algum escândalo de grandes proporções, ou ainda de algo que se possa sair falando aos quatro ventos, onde se acrescentam palavras à esmo e sem nenhuma verdade. Tudo, então, cresce novamente, tomando dimensões gigantescas, até cair a audiência e tudo voltar lá do começo, em um “looping” eterno. Teoria do infinito, ou uma ânsia inescrupulosa de se falar e difamar o alheio?

Existe a violência do lar, silenciosa por vezes, mas nem por isso de menor impacto. Os vícios, a ira, o ciúme infundado, o descaso conjugal, a luxúria, enfim, vários são os motivos que podem destruir uma família, e que encheriam várias linhas. Não raro, fatalidades acontecem, como pais espancando ou matando filhos, ou filhos matando os pais. Mulheres ou homens que traem sexualmente. Espancamento físico. Espancamento moral. Subserviência obrigatória ou, puramente, opressão física e moral. Escravidão. São muitas palavras duras, que chocam, mas que estão entrando na banalidade. E quer saber por que isso me assusta? Justamente por não nos “assustarmos” mais com tudo isso. Tudo já é tão “normal”, que dentro em breve sequer olharemos isso como uma situação de afronta, afinal, “é tão normal”...

Enfim, quando nos damos conta, precisamos RECONSTRUIR.

Quantas pessoas passam décadas ao lado de alguém, sendo oprimidas, massacradas em seu íntimo, e sequer se dão conta disso? São lesadas diretamente em seu caráter, ficam enfraquecidas, abstraídas da servidão mental pela qual estão passando, que qualquer reação parece incapaz de ser enxergada. Estão mergulhadas na situação, beirando o afogamento, mas não visualizam isso. Até que um dia, despertam para a realidade, e com isso, dois problemas surgem de pronto. Enfrentar a situação (sair dela) e, consequentemente, reconstruir a vida.

Dei voltas para chegar até aqui. Talvez eu próprio tenha caído na tal “retórica”, mas tentei traçar paralelos para mostrar que a violência doméstica não está assim, tão diferente de qualquer catástrofe natural que se vê no nosso dia-a-dia.


Fênix - by Google
Esta crônica não termina aqui, ela está apenas começando. Novo capítulo virá, e se me permitem antecipar, o que terei a dizer pela frente, muitas pessoas já estão vivendo em suas próprias carnes, e de um jeito muito amargo. Alguns nem conseguem se reerguer, não suportam enxergar a luz depois de sair da escuridão da caverna e retornam para dentro. Isso não é bom. Outros, em contrapartida, se refazem. Enfrentam as batalhas de peito aberto, mas as cicatrizes ficam. Conheço alguém assim, e me surpreendo a cada dia com essa pessoa. Mas isso é outra história, é outra crônica.


Marcio JR


terça-feira, 26 de abril de 2011

QUEM DISSE QUE A FOFOCA É UM ATRIBUTO FEMININO?

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Diz o dicionário que a fofoca é o comentário sobre a vida alheia, boataria, balela, mexerico. Penso eu que ela nasce da necessidade que as pessoas possuem em se “meter” na vida alheia. E é engraçado como algo, por vezes tão fútil, consegue ganhar dimensões suficientes para provocar inimizades entre pessoas, separar casamentos ou por em pé de guerra famílias inteiras.



A fofoca não anda muito longe da mentira. A diferença é que a mentira já floresce baseada em inverdades, enquanto que a fofoca se inspira em algum fato corriqueiro e ganha novos aspectos ou elementos na medida em que passa de pessoa por pessoa. É impressionante como cada um que recebe aquela informação a repassa sempre com algum ponto a mais. E o que nasceu como uma mera letra “a”, em pouco tempo se transforma em um “alfabeto” inteiro. É engraçado observar a disseminação desses boatos, principalmente porque sempre que se conta um mexerico para alguém, se pede segredo naquela informação. E essa palavra, segredo, parece ser o gatilho que detona a explosividade do boato. Em questão de horas, todos sabem daquilo, inclusive a própria vítima em questão. E não é difícil encontrar fofoqueiros que, perdidos na imensidão em que isso se transforma, acabam contando para a própria pessoa que deu origem a boataria. Detalhe: ainda pedem que aquilo não vá adiante.


Mas quero fazer justiça aqui. Dizem que a mulher é a maior fofoqueira. Ledo engano. Muitos homens são verdadeiras “lavadeiras”, daqueles que ao ouvirem qualquer coisa, mesmo sabendo que pode não ser verdade, sentem o maior prazer em sair contando mundo afora o que ouviram. Conheço alguns que chegam a roer os cotovelos, motivados pela raiva, ao não conseguirem arrancar de alguém algum boato. Quer deixá-los com comichão? Simples. Coloque-os próximos a pessoas que estejam falando em tom de voz baixo, cochichando, e não os deixe chegarem próximos desse grupo. Em pouco tempo, eles irão beirar a aflição. E na hora de espalhar um boato então? A mulher, nesse ponto, é discreta, pois prefere fofocar em foro particular. Já o homem, esse se esparrama, conta para todo um grupo, e se possível, coloca até na internet. Mas ambos, tanto o homem quanto a mulher, se descobertos, sempre têm o desplante de negar, e o fazem com uma veemência irritante.


Em tempos passados, uns dez anos, ocorreu um caso que ficou conhecido em toda a minha região, e que, inclusive, deu origem a esta crônica. Um amigo, hoje muito bem casado (terceiro casamento), e que tinha o singelo apelido de “bico doce”, foi envolvido numa rede de fofocas que quase o fez mudar de cidade, pela vergonha que passou. Omitirei o nome do coitado do Régis por motivos óbvios.


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Conta a história que o “bico doce”, além de beber além da conta, não desprezava nem respeitava mulher alguma. Numa determinada noite, enganou a pobre da namorada e saiu com os amigos e, lá pelo meio da festa, se enroscou com uma loira alta e simplesmente desapareceu. Dois dias depois, reapareceu e comentou com um dos amigos de seu grupo por onde andou e o que esteve fazendo. Como a história toda poderia compromete-lo, quase suplicou sigilo naquilo tudo. E foi o que bastou para que o fato virasse a maior "bomba" de todos os tempos na região. Em questão de horas, todo o bairro já sabia do ocorrido, e com detalhes que sequer o “bico doce” conhecia. A coisa se espalhou de tal jeito, que até o padre, ao receber o “bico doce” para a confissão, saiu dizendo:


--Tá, pula essa parte, porque eu já sei da história.

Injuriado com tudo aquilo, o pobre do “bico doce” procurou pelo amigo a quem contara a história, com a intenção de tirar satisfações.

--É dessa forma que você mostra sua amizade por mim? --questionou o irritado “bico doce”.

--Mas o que foi que eu fiz? --retrucou o outro, com a maior cara-de-pau. –Só contei para mais uma pessoa.

--Tá, eu sei. Mas precisava contar todos os detalhes, inclusive que eu me enganei e saí com um travesti?


Pois é. Algumas coisas, não se conta nem para o melhor amigo. E se você quer segredo em algo, guarde o fato unicamente para você, não é mesmo, Bico Doce?

Marcio JR

terça-feira, 5 de abril de 2011

NÃO ME PROVOQUE… / ou / QUEM FALA O QUE QUER…

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Frajola e Piu-Piu / image by Google
Quer me deixar irritado? Tente determinar o que eu devo gostar ou não.

Um dos piores hábitos do ser humano é justamente este, achar que nada presta além daquilo que se tem como gosto próprio. E, pior ainda, tentar impor isso para outras pessoas.

Numa reunião de amigos no último fim de semana, corria uma conversa animada sobre cinema. Cada um citava seus cult movies, quando um desses “ditadores do bom gosto” me olha e pergunta:

--Falando em cult movie, quais suas músicas preferidas?

Bom, pelo que sei a palavra movie ainda se traduz como “filme”, e se mudaram isso, esqueceram de me avisar. Mas, tudo bem, afinal pode ter sido mero engano da pessoa, ou a tentativa de mudança de assunto. Calmamente, fui abrindo um leque enorme, que ia da MPB, passava pelo rock, soul, jazz, blues, clássicos, samba, enfim, até que falei algo que colocou fogo na conversa. Claudinho e Buchecha. E foi quando ouvi a seguinte pérola:

--O que? Você gosta da música de dois “pedreiro”?

Fui provocado, e solicito licença para defender meu gosto musical.

Dos versos de Claudinho e Buchecha, na música FICO ASSIM SEM VOCÊ, extraí a seguinte passagem:

...tô louco prá te ver chegar
Tô louco prá te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração...

Por mais que os dois fossem cantores de FUNK ou HIP HOP, os versos acima mostram que a composição era voltada para o lado romântico, mas de uma forma alegre, que embala a juventude de hoje. A canção em si é leve, de letra fácil, melodiosa e, o que é melhor, prazerosa para se acompanhar e cantarolar junto, e, em momento algum, fere aos ouvidos. E não me refiro apenas ao estrondo das notas musicais, mas ao esmero, ao cuidado que os autores Abdullah  e Cacá Moraes empregaram na composição.

Em música alguma desta dupla, predomina linguagem chula, alusões ou apologia às drogas, preconceito ou algo que as desabone. E mesmo sendo músicas feitas para ficarem pouco tempo em execução, jamais descuidaram da qualidade da composição, seja em questão de arranjo musical ou elaboração das letras em português correto.

A dupla Claudinho e Buchecha vendeu 1 milhão de cópias do seu primeiro álbum (1996), e no ano seguinte bateu a marca de 1,2 milhão (A Forma). Neste mesmo ano, arrebataram o prêmio de Artista Revelação, no Video Music Brasil, da MTV.

A música que citei acima, inclusive, foi regravada por Adriana Calcanhoto e, num programa da TV Cultura, Nossa Língua Portuguesa, o professor Pasquale Cipro Neto fez uma análise minuciosa da letra e teceu vários elogios.

E quanto aos dois terem sido pedreiros, que mal há nisso? Não se pode mais evoluir, mudar de vida ou de profissão? Neste caso, quem nasce pobre, é obrigado a morrer pobre? Ao que tudo indica, e pelo pensamento do meu interlocutor, se você tem algum talento oculto, mas escolheu a profissão errada, terá que morrer exercendo sua primeira escolha.

Claudinho e Buchecha / image by Google
A dupla Claudinho e Buchecha se desfez tragicamente. No dia 13 de junho de 2002, na descida da Serra das Araras (RJ), o cantor Claudinho colidiu o automóvel que dirigia contra uma árvore, e morreu na hora.

Já em relação à pessoa que questionou meu gosto musical, ela que aprenda a falar corretamente, antes de colocar em dúvida as opções e escolhas de outras pessoas. Ou, então, que solicite nova mudança ortográfica em nossa língua, pois “dois pedreiro” é difícil de engolir. Dá-lhe concordância.

E, para finalizar esta crônica de desabafo, cabe dizer que aquele que me criticou, mais para o fim da reunião foi para um canto ouvir “FESTA NO AP”, do Latino. Pois é. Gosto é gosto, fazer o que?

Marcio JR

quinta-feira, 31 de março de 2011

LOUCAS, PERIGOSAS E ARMADAS COM O CARTÃO DE CRÉDITO

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Tenho passado por cada coisa nessa vida, que por vezes nem eu acredito. Como todo ser humano, vez ou outra preciso renovar minhas roupas, mas não sou daqueles que perde horas procurando ou provando. Nesse ponto, prefiro ser prático e rápido, apenas privando pelo conforto e por aquilo que me agrade aos olhos. O fato é que sempre que vou ao shopping para comprar roupas, me vejo enroscado em alguma encrenca, e normalmente pago sem dever.

Como conheço vários comerciantes (normalmente são meus clientes), procuro sempre algum conhecido. O engraçado é que, com o tempo, reparei que as vendedoras de lojas de roupas preferem atender aos clientes masculinos, largando para os vendedores (pobres coitados) a clientela feminina, principalmente as mais afoitas. No que cheguei à loja, reparei que duas mulheres olhavam para um certo traje na vitrine, ainda pelo lado de fora. Ao entrar, uma vendedora e um vendedor, os quais eu conhecia, me viram, e notaram que logo atrás entravam aquelas duas mulheres, já quase se empurrando. A vendedora se apressou e correu para me atender.

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Com vinte minutos, eu já havia feito uma pequena compra e estava satisfeito, e foi aí que se deu o perrengue. Quando olhei para o coitado do vendedor, ele já quase mediava uma luta livre entre aquelas duas mulheres, que embestaram ambas de querer o mesmo traje. Mas, só havia um na loja, e foi o maior corre-corre. O traje era composto de duas partes, e cada uma delas pegou uma peça. Na loja, além dos dois vendedores, ainda havia um terceiro (gerente, eu acho) e eu, e foi para o meu lado que elas vieram.

--Isso não fica melhor em mim? --uma delas perguntou, colocando a calça do traje na frente do corpo.

--Fica nada! --a outra interferiu, sem me deixar responder. --Ela é gorda e nem vai entrar nessa calça apertada. “Né” que você acha ela gorda?

--Gorda? Eu? --a primeira me olhou e fuzilou, como se eu é que a tivesse ofendido. --Seu atrevido, seu canalha. Fica “se fresqueando” para essa perua!!! No mínimo, deve ser um daqueles maridos safados, que deixa a mulher limpando a casa e vem na loja de roupas só para ficar paquerando uma mulher assim como eu, bonita e fina...

--Bonita e fina? --tornou a segunda, segurando os seios por baixo e levantando-os. --Homens como ele não correm atrás de desastres ambulantes assim, como você. Aliás, esse safado deve vir para as lojas de roupa é para bisbilhotar os provadores, isso sim. Deveríamos ir até a delegacia e dar queixa de assédio. O que você acha?

Quando ela falou aquilo, não agüentei e caí na gargalhada. Não iria ficar mais ali, aturando aquilo. Então, peguei minhas coisas e fui para o caixa, rindo. As duas ficaram lá, debatendo beleza e poder aquisitivo, enquanto eu reparava as imperfeições que cada uma carregava. Corpo? Não, não me refiro ao corpo, mas à falta de humildade, falta de respeito, tanto próprio quanto pelo próximo, excesso de vaidade, inveja, e outros, que nem vale a pena citar.

Saí de lá e, alguns dias após isso tudo, voltei até a loja, mas agora para um atendimento profissional, e descobri que, ao final de tudo, nenhuma das duas ficou com o traje. No meio da briga, que continuou após eu sair, as duas se descuidaram da roupa e o vendedor, cansado daquilo, vendeu o traje para uma terceira cliente que havia entrado na loja.


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Para aqueles que riram do “barco furado” em que entrei, aconselho ler o texto EXTRAVAGÂNCIA.

É de minha autoria, e está publicado no blog ARENA DAS CRÔNICAS, onde sou colaborador.

Marcio JR

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A MULHER PERFEITA

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Em outra época, os pais educavam os filhos homens para serem os provedores do lar. Normalmente, se formavam broncos, machistas, e pouco ligavam se tratavam ou não uma mulher com delicadeza. Grande número desses homens nunca aprendeu a respeitar uma mulher, principalmente aquela que ele mantinha dentro de casa, a esposa, que vivia quase que num cárcere. Mas, o tempo passou, e hoje, a maioria dos filhos sequer mantém contato com o pai. Alguns nem têm idéia de quem ele seja. A modernidade também alterou e aumentou um pouco a capacidade do homem em se mostrar sensível, e os machões de outrora, já admitem muita coisa que antes seria verdadeira heresia, como chorar ou se apaixonar, por exemplo.

No entanto, mesmo que a educação dessa época passada fosse severamente direcionada para um lado chauvinista, Carlos Eduardo, o Dudú, cresceu num ambiente mais aberto. Filho de músicos, sempre teve um contato estreito com as artes e letras. Sua situação financeira não dava para gastanças exageradas, mas, depois de formado, conseguiu manter uma condição social relativamente boa. Sua aparência era a de um atleta, coisa de genética, pois jamais praticou nada além de caminhadas, e as garotas viviam suspirando por ele e por seus cabelos aloirados. Ele, mesmo com esse assédio, não passava das paqueras. Quando argumentado se não pretendia casar, sempre repetia:

--Estou esperando a mulher perfeita, minha alma gêmea, a outra metade da minha laranja.

E assim, o tempo passava. Boatos sobre sua condição sexual eram constantes, e não era incomum alguém afrontá-lo e tratá-lo de pederasta (o termo era comum no começo dos anos 80), o que o deixava fulo, mas, mesmo assim, ele se controlava e continuava em sua busca. Um dia, ela apareceria, sua mulher perfeita.

Certa vez, encontrou alguém que pensou ser sua iminente pretendente. Morena, alta, belíssima e culta. Não havia homem que não desatinasse por aquela mulher, principalmente por ela ser de família de posses, e muitas. Mas, para desespero geral, ela era apaixonada pelo Dudú, e eles noivaram. Algum tempo depois, a bela morena foi encontrada aos prantos na praça da igreja, e espalhava aos quatro ventos que o noivo a havia abandonado. Não contente, contou a todos o motivo da separação: ela não era uma tampa (a tampa da panela dele). E foi além, relatando que, no alto de seus vinte e cinco anos, ainda era pura, e o Dudú sequer se interessou pela questão. O falatório foi geral, e o Dudú precisou mudar de cidade. Foi de São Paulo para o Rio de Janeiro morar e trabalhar.

A cidade mudou, mas o assédio não. As mulheres sobravam aos borbotões, e ele as tinha a sua bel vontade. Mas, e quem disse que ele ligava? Ele queria uma em especial, a mulher perfeita. E assim, chegamos à virada do milênio, e o Dudu, aos seus cinquenta anos de idade. Sua condição financeira melhorou, mas o aspecto físico e os cabelos decaíram e caíram. As mulheres já não se interessavam tanto, mas ele não ligava. Ainda esperava aquela que o completaria.

E foi que, numa tarde de chuva, ele correu para se esconder numa confeitaria e a viu. Era ela, e ele sabia, pois um estrondo tomou conta de seu cérebro. Seu corpo tremeu todo, e o suor correu em bicas, parecendo acompanhar o retumbar do coração.

Mas, por que ela? Não tinha nenhum atrativo especial, era baixinha, cheia de sardas, cabelo desgrenhado, o comportamento não era lá dos melhores e, além do que, muito mais jovem. Mas, era ela, e ele tinha certeza disso, mesmo sendo totalmente diferente de tudo o que idealizou no transcorrer dos anos. Pensou, olhou, analisou e achou um problema. Encontrá-la ele já havia feito, mas como se aproximar?

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Durante um mês, ele a seguiu, cercou, tentou se aproximar, até que conseguiu. Descobriu seu nome: Diana. E desmoronou de vez, apaixonado. Fez de tudo, desde as flores, presentes, convites para passeio, propostas de namoro, propostas menos descentes, e nada. Até que um dia, já cansado de esperar, resolveu abrir o jogo e se declarar apaixonado e querendo casar. O que ele ouviu dela?

--Sai prá lá, tio. O que eu quero com um cinquentão? Além do quê, estou atrás do homem perfeito, minha alma gêmea, a tampa da minha panela, e definitivamente, esse homem não é você.

Marcio JR

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

NO BALANÇO DO TEMPO

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Em 2007, alguém me mostrou o quanto é importante dar mais valor às pessoas e menos ao tão famigerado "tempo". A pedido de uma grande amiga, reedito este texto, lançado originalmente com o nome de "O TEMPO".

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Existe algo na vida que é muito complicado de se fazer: viver.

Viver exige sacrifícios que, muitas vezes, não estamos dispostos a fazer. Compartilhar é uma delas. O egoísmo, se não cuidamos, toma conta de nossa existência, fazendo de nossas vidas algo fútil, que é viver para si próprio. As coisas mais simples, quando não sabemos compartilhar, passam a ser vistas como um meio material de se ter mais, sempre mais. Mas o compartilhamento não é restrito aos objetos ou artefatos, mas também aos sentimentos. Tornamo-nos egoístas por sequer dedicar o mínimo tempo para ouvir o que alguém tem para nos dizer, por não nos preocuparmos com o que alguém possa estar pensando ou se esse alguém tem algum problema. Parar para escutar outras pessoas nos toma tempo, e esse tempo é necessário para ganhar mais tempo. E assim vivemos, perdendo tempo para ganhar tempo.

O tempo, quem sabe, seja o maior vilão, induzindo o ser humano à ilusão de que, quanto mais tempo ele obtiver ignorando os outros, melhor ele viverá. Ledo engano. Quanto mais nos preocupamos com o tempo, menos tempo nos restará para simplesmente viver. E afirmo, a vida é curta e cruel. Se não aproveitarmos agora, amanhã não dará tempo para isso, pois o amanhã pode não existir.

Seria tão mais simples se as pessoas, ao invés de correrem desesperadas e sem olhar para o lado, simplesmente sorrissem e cumprimentassem alguém, por mais que fosse um desconhecido. Então, você perguntará: “Mas o que eu ganharia com isso, sorrindo para alguém, um desconhecido?”. E eu responderei: “Talvez nada, ou quem sabe a satisfação de ter, unicamente, sorrido e sido simpático para alguém que estivesse precisando do sorriso de outro alguém, um mero desconhecido, para melhorar seu dia”. Você estaria compartilhando alegria e simpatia e, mais, estaria começando a ser menos egoísta. Pode parecer engraçado, mas um simples sorriso pode mudar a vida de alguém, principalmente a de quem sorri.

As coisas mais belas e que nos dão mais satisfação estão nas coisas mais simples e singelas. Não precisamos de nada sofisticado e dispendioso para nos sentirmos melhores do que somos, pois somos todos iguais. Todos necessitamos de carinho, afeto, compreensão e, principalmente, da dedicação de outras pessoas. Não nascemos para vivermos sós ou isolados. O ruim é que, na maioria das vezes, demoramos para perceber isso.

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Tente sorrir mais, ser gentil, falar “eu te amo” para a pessoa amada ou, melhor, tente amar alguém. E então, você verá que o tempo passará a ser irrelevante. Tente fazer alguém mais feliz, e também verá que se sentirá mais feliz. Olhe diretamente nos olhos de alguém, mas não com o intuito de menosprezar, e sim, de compreender a mensagem que aquele outro par de olhos quer lhe dizer. Perdoe mais, o ódio deixa a alma amarga. Mas, principalmente, se entregue mais à vida, e só assim, você verá o quanto de tempo perdeu vivendo de forma errada.


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Carregue contigo a verdade dos teus sentimentos. É a única verdade terrena de que você precisa. Mas nunca brinque com o sentimentos dos outros, ou a tua verdade passa a ser uma grande mentira.

MARCIO JR

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM

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O que observamos primeiro em alguém? Como julgamos uma pessoa? Será que nossos critérios estão aptos a separar o joio do trigo, ou nos deslumbramos com meras cascas, sem nos importar com o principal, ou seja, o conteúdo, a essência?

Iludimo-nos, às vezes, com aspectos físicos, inteligência, nível de conhecimento ou posicionamento social das pessoas. É algo até certo ponto normal, pois quem não gosta de observar alguém bem apessoado e demonstrando firmeza ao descrever certo assunto?
As pessoas belas e que ostentam bens materiais caros sempre nos despertam a atenção também. Mas, o que agrada aos olhos e ouvidos, normalmente ilude o cérebro à primeira vista. E, em certas ocasiões, ilude tanto, que nos vemos envolvidos em grandes equívocos.

A questão de beleza física é muito relativa, tendo cada indivíduo um padrão para classificar esse item. Porém, com a tecnologia caminhando a passos largos, hoje se pode utilizar várias formas para produzir beleza artificial, seja em aparência facial ou condicionamento físico. E quantas vezes olhamos para alguém sem o mínimo atrativo e ficamos pensando: “essa pessoa é feliz assim, sem chamar a atenção de ninguém?” Talvez seja, pois não é a ostentação de beleza que vai fazer de alguém uma pessoa feliz. Assim como a quantidade de bens materiais ou um nível superior de conhecimento vai render mais ou menos essa condição.

São muitas as qualidades que admiro nas pessoas, e uma das que mais me apetece é a humildade. Uma pessoa humilde, independente de beleza física, condição social ou nível de conhecimento, jamais se aproxima de alguém com o intuito de menosprezar ou espezinhar. A humildade implica em despojamento, modéstia e simplicidade. A bondade que emana da alma de uma pessoa humilde a faz extremamente atraente, e ela dissemina essa bondade sem exigir nada em troca. Ela não humilha ninguém, não rebaixa ao próximo com seu conhecimento ou posicionamento social, ao contrario, ela reparte o conhecimento que tem. E então, por menor que seja o atrativo físico que essa pessoa humilde tenha, ela passa a ser de uma beleza enorme, pois é a grandeza de seu espírito que passamos a enxergar.

Já a pessoa sem essa bondade de espírito, se utiliza de cada aspecto artificial para se aproximar de alguém e tentar causar boa impressão. Essas pessoas nos iludem, se instalam em nossas mentes com uma facilidade enorme e, quando estamos entregues a elas, sofremos grandes decepções. Acordamos para o fato de que fomos enganados, e por vezes sem nenhum propósito concreto. Existem indivíduos que fazem isso como um ardil para algo ilícito ou simplesmente por crueldade mesmo. Dilapidam o patrimônio de terceiros ou magoam as pessoas para saciar um prazer sórdido que carregam com elas.

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Logicamente, nem sempre essas pessoas iludem outras por pura intenção. Fazem até sem ter noção do ato que estão praticando. São pessoas que iludem a si próprias, muito mais do que aos outros. Gastam o que tem para produzir um visual da moda, se endividam para adquirir bens que causem impacto (automóveis, por exemplo, ou telefones e jóias caríssimas), e se utilizam de conhecimentos adquiridos em almanaques de farmácia como uma forma de se mostrarem inteligentes. Por que isso? Pela necessidade que têm de aparecer perante aos outros, de se sentirem notados, pela ânsia ignorante de terem o ego massageado. Não causam relativo perigo, mas perturbam nossa paciência.

Então, não julgue ou pré-julgue alguém sem antes conhecer de fato essa pessoa. Você poderá desperdiçar a chance de conhecer alguém muito belo(a), e isso, independente da beleza física ou qualquer outra coisa que os olhos ou ouvidos possam vir a notar.

Marcio JR



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

“TROPA DE ELITE” É CONTO INFANTIL?

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Reedição

Carol, Bernardo e Sofia querem dormir. Idades: seis, quatro e dois anos. E todos são ávidos por historinhas para dormir. A esposa já se aninhou por perto também e, engraçado, é a primeira que dorme. Coloco os maiores ao lado da mãe e pego a Sofia no colo e a deixo escolher a história.

Vamos começar. Primeira historinha escolhida é “O patinho feio”. A leitura ia bem até que, num certo ponto, me deparo com atitudes que, em linguagem moderna, parece bullyng. Os patinhos, irmãos do feioso, literalmente humilham o dito patinho feio.  Paro a leitura e me pergunto até que ponto aquilo poderia influenciar a formação de caráter das crianças. Por via das dúvidas, melhor mudar de história. Vamos para outro conto.

A Sofia, maluca por imagens, põe o dedo sobre o “Gato de botas”. Tá bom, um gato que usa botas. Que mal pode haver nisso? Prá encurtar, durante o conto o gato roubou, usou de artimanhas ilícitas para se apropriar de um castelo, mentiu, induziu à mentira quando obrigou aldeões a enganarem o rei, fez seu dono mentir ao rei para poder se casar com a princesa (golpe do baú) e ainda praticou canibalismo, pois comeu o ogro, que era o dono legal das terras locais (acho que seria homicídio com ocultação de cadáver). É... passemos adiante.

Já tenho vontade de pedir para a Sofia ir mais devagar, mas ela foi mais rápida que eu, e o conto da vez seria “A bela e a fera”. A essa altura, a mãe, a Carol e o Bernardo já haviam dormido, e a Sofia mal entendia o que estava acontecendo. Então, passei os olhos por esse conto, e também por outros e vi algumas coisas que não gostei e que relato abaixo:

-A bela e a fera – cárcere privado, seqüestro, atitudes vingativas

-A cigarra e a formiga – vadiagem

-Branca de neve – morte encomendada, tentativa de homicídio, uso de drogas

-A pequena vendedora de fósforos – crianças largadas ao relento, morte de indigentes

-Ali Babá e os 40 ladrões – politicagem, roubo, apropriação e uso indevido de senha (abre-te sésamo)

-Cachinhos dourados – invasão de domicílio, furto

-Cinderela – exploração de trabalho escravo, inveja, ganância

-João e Maria – gula, tentativa de assassinato e canibalismo (a bruxa queria devorar as crianças)

-Chapeuzinho vermelho – canibalismo (o lobo comeu a vovó), assédio, mentira, crime ambiental (mataram o lobo)

-João e o pé de feijão – roubo, assassinato (o gigante despencou das nuvens quando o pé de feijão foi cortado), crime ambiental (corte do pé de feijão)

-Pinóquio – mentira

-Negrinho do Pastoreio – violência contra a criança, racismo, homicídio com requintes de crueldade.

A essa altura, eu já estava desnorteado. Continuar lendo aquilo e ter o risco de meus filhos absorverem aqueles valores (valores?), ou parar definitivamente aquelas leituras e eu mesmo escrever os contos? Cabe dizer que estou pensando seriamente na segunda hipótese.

As crianças que cito como filhos, são personagens fictícios, mas, cabe algumas questões, as quais ficam rebatendo na minha mente. Filhos, o que mostrar a eles com relação a esses contos ou outros mais modernos? O que deixar assistir na TV, quais informações sobre o mundo eles podem ter? Quando liberar a internet para eles? Até que ponto isso tudo influencia na formação do caráter de uma criança?

Num exemplo mais próximo, o da televisão, tomemos dois programas muito apreciados pelas crianças. Em primeiro lugar, o desenho do Pica-Pau, que eu adorava. A violência e os maus exemplos predominam, onde a maioria é cometida pelo personagem principal do desenho. E sabe o que mais? Mesmo aprontando tanto, ele sai, quase sempre, ileso e vencedor em seus embates. O segundo programa é uma produção mexicana e que atende pelo nome de “As aventuras do Chaves”. Dele, temos um exemplo péssimo de violência contra a criança, pois os personagens infantis vivem levando beliscões, cascudos, tapas ou sofrendo agressões verbais dos personagens adultos. Além disso, existe um sério caso de discriminação social entre os personagens da história e uma série de outros problemas, que alongariam demais esta crônica.

Já nem sei mais se contaria uma história infantil para meu filho ou o colocaria para assistir ao filme “Tropa de Elite”. A violência contida é quase a mesma.

Marcio JR

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

TRAIÇÃO

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Aquela mesa estava silenciosa. Até os filhos adolescentes, sempre ativos, se mantinham calados. O marido esticou o braço para pegar a travessa de macarrão e, ao se aproximar dela, deu de encontro com a mão da esposa. Os dois se tocaram e se olharam de imediato, deixando um grande constrangimento os tomar. Os dois filhos também levantaram a cabeça e olharam para os pais, esperando que a qualquer momento uma guerra de ofensas aflorasse. Mas não aconteceu, e assim continuou o jantar, silencioso e amargo.

Após o término dos pratos principais, veio a sobremesa. Era uma noite de sexta-feira, a tradicional noite das doces e tenras tortas da esposa. Mas até a torta ficou ali, relegada ao silêncio. O marido mantinha a cabeça baixa, remoendo cada pensamento que lhe vinha a cabeça, enquanto a esposa o fitava de canto de olho, inquieta e irritada. Um dos filhos se levantou e fez menção de se retirar do local, mas foi contido pela mãe, que implorou para que ficasse, pois precisavam resolver aquela situação ali, em família. O outro filho, um pouco mais novo, soluçava solitário, prevendo o futuro que os aguardava.

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Durante vinte anos, foram uma família unida, onde o companheirismo e a dedicação imperou. Mas, e agora, o que fariam? Alguém de fora quebrara a hegemonia daquele lar, destruindo laços que se pensavam indestrutíveis, mas que se partiram ao primeiro sinal de fraqueza do corpo. E aquela aventura sexual valera a pena? Justificava a perda de confiança de alguém que caminhara junto por mais de vinte anos de alegrias e intempéries? E foi então que alguns nós apareceram nas gargantas de todos quando o marido levantou e foi para o quarto. Ao voltar, depositou ao chão duas grandes malas e foi até os filhos, beijando-os ternamente. A esposa o olhou com ar de irritação, e não se surpreendeu ao vê-lo, simplesmente, virar as costas e sair porta afora.

--Filhos, não pensem que seu pai os está abandonando. Ele apenas...

--Mãe, corta o papo! --o filho mais velho falou, em tom áspero --Nós já sabíamos que iria acabar assim. Mas está tudo bem, afinal, o mundo não é perfeito, não é assim? Só queremos um favor seu. Mantém aquele seu namorado bem longe daqui.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

GENTILEZA E SORRISO: FERRAMENTAS PARA MELHORAR O MUNDO

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Você já tentou entender o ser humano? Independente de sua resposta, pare o que está fazendo e pense: por que reclamamos tanto da falta de gentileza, compreensão e carinho que acomete a humanidade? Esse mundo está assim, tão egoísta, que chegamos ao ponto de achar necessário tantas manifestações por uma melhoria fraternal no mundo? O pior é que está.


Vi uma cena rara dia desses. Dois adolescentes, brincando com seus “skates”, pararam o que estavam fazendo e, sem ninguém pedir auxílio, se puseram a ajudar um senhor que se locomovia pela calçada numa cadeira de rodas. E mais, eles ainda se dispuseram a conversar com esse senhor por uns dez minutos e, pasmem, abriram um sorriso por isso. Vou além, e digo que não existia grau de parentesco entre eles e muito menos qualquer amizade. Ajudaram um estranho. E isso é muito triste. Não me entenda de forma errada, pois não é o fato descrito que considero triste, mas sim a questão de ver, constatar, que esse tipo de atitude já não mais existe ou, no mínimo, a frequência com que vemos acontecer é muito pequena.


Olhe para os lados, e me diga quantas pessoas você vê esboçando um sorriso neste momento. Sei, ninguém, pois você está sozinho. Mas, você está sorrindo? Muitas pessoas vivem repetindo que a humanidade perdeu o hábito de sorrir, mas elas próprias não exercitam esse gesto tão simples e salutar. Nem sempre estamos com vontade de sorrir, eu sei, mas repare, se qualquer pessoa sorrir ao nosso lado, faremos o mesmo, por puro reflexo. É contagioso, quase igual ao bocejo. Obviamente, existem momentos de dor extrema em que isso não é possível, mas, na maioria das vezes, acontece sim. E pense, será que aquela pessoa que sorriu e te fez sorrir, tinha motivos para aquilo? Não terá sido um mero gesto de gentileza? Se for, funcionou. Resultado disso: um tão singelo sorriso, ajudou aquele que sorriu e, principalmente, aquele que foi contagiado por esse belo ato. Parece pouco, mas tornou o ambiente mais alegre.


BOM DIA. Ah! Como é bom ouvir isso. “OLÁ, TUDO BEM, COMO ESTÁ?, COM LICENÇA, ME DESCULPE, ME PERDOE”. Ninguém perderá seus dentes por falar algo gentil ou educado para outra pessoa. Sempre existem, claro, aqueles indivíduos pelos quais não nutrimos, ou sequer merecem, muitos afetos, mas nem por isso precisamos fazer de um ambiente coletivo uma praça de guerra. Não gosta de alguém? Tudo bem, apenas cumprimente e se mostre educado, mas não procure picuinhas para piorar seu dia e também o dessa pessoa. Evite provocações mútuas. Se seu desafeto só tem grosserias no vocabulário, você não precisa ser, necessariamente, igual. Ou precisa? E, além disso, os outros que estão no mesmo ambiente não têm nada com a situação de inimizade existente entre vocês.


Alguns alegam que esquecem a gentileza porque estão atarefados ou a falta de tempo os deixa estressados. Mas, que tempo se perde para cumprimentar alguém, ou pedir de forma gentil que algo seja feito? Pelo contrário, a falta dessa educação é que toma mais tempo, pois aquele que se viu espezinhado ou ofendido, fará tudo de uma forma mais amarga, mais a contragosto. Um mero “por favor”, seguido de um sorriso, pode acelerar muito as coisas. E se for acompanhado de um “agradecido, obrigado, Deus lhe pague, ótimo trabalho”, as portas para sua volta e, consequentemente, uma nova solicitação de alguma coisa, estarão sempre abertas. O exercício da gentileza pode ser demorado, mas rende excelentes frutos. O que muitos esquecem, no entanto, é que para ser tratado de forma agradável, devemos agir assim também. Normalmente, existe uma questão de reciprocidade envolvendo o tratamento. Trate bem, e assim tenderá o retorno da ação.


Fatores como situação financeira, desemprego, estresse, doença, depressão, pressão profissional, entre outros, acarretam uma alteração de humor, e relegam a gentileza e a educação para segundo plano. O engraçado é que acabamos condenando essas pessoas, mesmo sem saber que elas estão com problemas. E muitos de nós, que tanto reclamam, só o que sabem fazer é apontar a situação, mas mostrar uma solução ou tomar uma atitude, isso elas não sabem fazer. Talvez o que elas desconheçam, é que essa solução é a mais simples que se possa imaginar. Basta a iniciativa de sorrir e ser educado. Somente isso.


Muitos entenderam a mensagem, mas para os carrancudos de plantão, aqueles que teimam em achar que o mundo conspira contra eles, vou resumir e falar claramente. Não adianta reclamarmos que não existe mais gentileza e educação no mundo, se nós mesmos esquecemos de tratar os outros dessa forma. Vamos reclamar sim, claro, mas, antes de qualquer outro, nós, que tanto reclamamos, é que devemos dar o bom exemplo.


Tenho certeza de que a gentileza e a educação não irão consertar o mundo, mas, em compensação, o tornarão um lugar muito mais agradável de viver.