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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DA DINAMARCA

 


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Maio de 2012, em algum condomínio residencial desse nosso enorme Brasil.

A pressa, muitas vezes, é inimiga de todos os atos, e quando aliada aos maus costumes, é ainda pior. Naquele prédio, chamado Reino da Dinamarca, parecia que todos tinham o péssimo hábito de apertar os dois botões de espera do elevador, independente para onde fossem. Quando a porta do elevador abria, pouco importava seu trajeto, e todos se enfiavam para dentro. O resultado era mais demora, e muita reclamação quando alguém entrava e constatava o trajeto contrário daquele que era pretendido. Porém, todos os moradores ostentavam certo status, nem sempre verdadeiro, mas ostentavam. E assim, fingiam que nada viam, e viviam alimentando-se meramente de aparências.

Certa feita, o elevador parara no décimo quinto andar e, como sempre, sacolejou um pouco. Ninguém deu atenção, e mais alguém entrou. Estavam, àquela altura, em cinco no mesmo ambiente, e todos faziam aquele semblante de quem olha uma paisagem, ou seja, miravam a tudo e fingiam não enxergar nada, apenas deixando o olhar se perder pelo horizonte. Na descida, outro sacolejo, e dona Emma, senhora de seus bem vividos 85 anos, suspirou.

Só falta enguiçar! ela comentou, como se antevisse o feito.

Cinco segundos depois, um sacolejo maior e, bruscamente, o elevador parou. Dona Camélia, vizinha de dona Emma, blasfemou imediatamente.

Pago esse condomínio para compartilhar espaços com essas bocas de sapofazendo clara referência à dona Emma em seu presságio.

Gente, não vamos brigar! Já, já tudo volta ao normal. Guilherme, um janota de brechó e com sorriso amarelado, emendou rapidamente. Este elevador é seguro! Eu garanto!

Antes, nada tivesse dito. Bastou a frase ser proferida, e as lâmpadas se apagaram.

Meu Jesus! Hecatombe!

Quem falou essa asneira? Dona Emma perguntou, como se sentisse indignação pela ignorância que ouvira.

Foi a Jandira! a resposta, em voz masculina, veio do fundo do elevador. Ela só sabe falar do “fim do mundo Maia”!

Tinha que ser essa oxigenada! Dona Camélia completou, em tom zombeteiro. E você deve ser o traste do marido dela, que só sabe pagar as contas dessa perua descabida e mal vestida! Tá aí, com esse micro-vestido e acha que está trajada! Despudorada!

Mais educação, gente! Se não podemos conviver harmoniosamente lá fora, ao menos aqui vamos manter o respeito até que alguém venha em socorro. tornou o janota, querendo amainar os ânimos.

Ecaaaaaaa! Que cheiro é esse? Jandira perguntou e segurou no braço daquele que ela pensava ser o marido. To com medo, morzim. Não gostei do barulho deste cheiro.

Jandira! Cheiro não faz barulho! E seu marido está para o outro lado. Eu sou o Guilherme! Mas, que este cheiro está horrível, isso está! Que foi isso, afinal?

Foi essa desenxabida da Camélia! Deve ter almoçado batata-doce e soltou um pumDona Emma emendou rapidamente, em tom maldoso.

Não solto pum. Sou chique. Eu flatulei.

Novo ruído, agora estridente, tomou o ambiente, e foi seguido de outro sacolejo, o que ouriçou ainda mais aos pobres náufragos do elevador. Repentinamente, todos ficaram em silêncio, e um silvo recortado e repetido se fez ouvir.

Affff Maria, meu São Jorge dos Sovacos Peludos!  E agora? Esse maldito cheiro de novo, e fez barulho, seu Guilherme. Viu como cheiro faz barulho? Jandira comentou, quase berrando aos ouvidos do homem que estava ao seu lado.

Jandira, meu amor. O Guilherme está do outro lado. Eu sou o seu marido. Não precisa gritar, pois está escuro, e isso não diminui minha capacidade auditiva. Mas, honestamente, você está com a razão! Dona Camélia, por favor!

Não foi ela, fui eu! Dona Emma respondeu, tomando as dores da outra senhora. To nervosa, e quando to assim, meus intestinos entram em pânico. E qual é o problema? Vou fazer de conta que o senhor nunca peidou pela vida afora!

Aaaiiii! Quem me bateu? o janota berrou, nitidamente descontente e irritado.

Fui eu, seu tarado! Dona Camélia também berrou. Que história é essa de apalpar meus seios?

Não apalpei seio nenhum! Só queria apertar os botões do painel, sua maluca! E me bateu com o que, afinal? Com um cacetete?

Não. Com meu bastão retrátil de metal, de 60 centímetros de haste. Mas para tarados, tenho outra coisinha aqui. Quer ver?

Uma faísca azul iluminou todo o ambiente, e veio acompanhada de um barulho esquisito, imitando uma descarga elétrica. A gritaria foi geral, e quando a luz azul cessou, o que se escutou foi o estatelar de alguém ao chão.

Gostou do meu choque elétrico, seu mauricinho de quinta categoria?

Dona Caméliaaaa! Foi o meu marido que a senhora estrebuchou! Ele enfarlicou, e nem um suspiro o tadinho soltou! A senhora matou ele! Jandira reclamou, meio soluçante.

Errei? Não tem problema. Tem mais um pouco de carga. Vem cá, seu traste, que vou te mostrar a não abusar mais de velhinhas indefesas! Cadê você?

O ambiente iluminou-se novamente em um tom azulado, mas desta vez, ninguém gritou.

Errou novamente, sua maluca! o janota respondeu, em tom zombeteiro.

Mas acertei alguém! Quem foi? Dona Camélia mostrou-se reticente.

Ah! Não! Quem soltou esse pum agora? Jandira perguntou, recuperando-se do susto anterior.

Acertei a Emma! E meu Deus! Que cheiro de peixe podre é esse? Ela peidou de novo! Tudo culpa sua, seu tarado. Vem cá, que tenho mais um presentinho pra você!

O que a senhora vai fazer agora? Tá maluca?

Diante da dúvida sobre o que Dona Camélia faria, o janota tentou sair para o lado e tropeçou, caindo e enroscando-se ao vestido de Jandira, que por ser pequeno e preso apenas na altura dos seios, foi basicamente arrancado do corpo da moça. Ela, agora nua e tentando se abaixar para socorrer o marido, desesperou-se ao perceber que alguém arrancara sua única peça de roupa. Sem saber o que fazer, apalpou o chão e agarrou-se à roupa de Dona Camélia, puxando com toda a força, mas voltou ao chão.

Você está aí, seu tarado? Quer arrancar minha saia, é? Vou te mostrar a não abusar de uma donzela meio virgem! Toma! Dona Camélia também se desesperou, sem saber ao certo o que acontecia.

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Novo barulho, agora parecendo um spray ou algo do gênero. Em instantes, o ambiente foi tomado por uma nuvem extremamente ardida aos olhos, o que fez Jandira puxar ainda mais a saia de dona Camélia para baixo, até quase tirá-la. Dona Camélia não entendeu o que estava acontecendo e desequilibrou-se, sentando-se e espirrando novamente aquele líquido. Jandira levantou e levou com ela a saia da senhora idosa, enquanto o janota protegia o rosto com o vestido da moça.

Que inferno foi esse que você espirrou, sua velha doida? o janota perguntou, arfante e tentando limpar o rosto.

Spray de pimenta. E devolve minha saia, seu tarado, que eu saí desprevenida da cintura pra baixo!

Não peguei sua saia. Tá maluca? To com um pano na mão, que nem sei o que é!

É meu vestido, seu tarado! E me devolve, que também to sem nada por baixo. To peladinha aqui! Jandira suplicou, tateando as pernas de dona Camélia.

O reboliço foi geral e ninguém se entendia. E também pouco notaram que, lentamente, o elevador descia até o térreo.

Lá embaixo, Emanuel, o porteiro, já esperava o elevador com as portas externas abertas, e quando ele chegou, o que se viu foi algo inusitado.

Pela madrugada! Minha Santa Clara do Elevador Quebrado! O que é isso? questionou o porteiro, que, de posse de seu telefone celular de última geração, filmava a tudo o que via.

No hall de entrada, várias pessoas também estavam boquiabertas. Dentro do elevador, o gás de pimenta ainda forçava seus ocupantes a manter os olhos fechados pela ardência.

Jandira estava completamente nua. O janota, com o vestido de Jandira aos olhos, dava a impressão de que cheirava o vestido da moça, e ela, com os olhos e a boca ardendo, passava a saia de dona Camélia pela boca, tentando eliminar o gás de pimenta que a incomodava. A moça, querendo se por em pé, segurava agora as pernas do janota.

Ao chão, o marido de Jandira, ainda desmaiado e estatelado, estava  com a boca bem próxima à boca de dona Emma, que se mantinha deitada de barriga para baixo. O detalhe que mais chamou a atenção de todos, no entanto, foi justamente a situação de dona Camélia, que além de se encontrar nua da cintura para baixo, ainda esfregava o rosto em algum tecido para tentar, assim, limpar o gás de pimenta dos olhos. E o primeiro lugar que ela encontrou, diante de seu desespero, foi o tecido da saia que cobria as nádegas de dona Emma.

O murmúrio contagiou a todos, mas foi imediatamente contido por um barulho estranho, como um silvo que se repetia de forma entrecortada (outro pum de dona Emma). E logo, alguém professou em alto e bom tom.

Camélia, minha véia. Não bastasse a pouca vergonha de eu descobrir que você é sapatão, vocês ainda poluem o ambiente com esse cheiro de gambá bêbado! Ecaaaaa. Quem comeu batata-doce?

No dia seguinte, uma nota enorme no jornal chamou a atenção do porteiro do prédio.

SIM, HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DA DINAMARCA*.




*Príncipe Hamlet, em Hamlet, de William Shakespeare.


Marcio Rutes



não copie sem autorização, mesmo dando os devidos créditos.
SEJA EDUCADO (A). SOLICITE AUTORIZAÇÃO.

domingo, 18 de agosto de 2013

TUDO CULPA DO SALAME

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―Cadê a mala, amor?

―Ali no canto. Mas, pra que essa pressa?

―Taylane, minha amadinha. É nossa filha que vem nascendo! Qualquer erro nosso, qualquer descuido, e pode ser fatal pra ela! ―o marido se agitava, enquanto corria de um lado para o outro, completamente desesperado. ―E fica sentada aí na cama, senão vai molhar tudo. E a bolsa?

―No guarda-roupas, amore!

―Não essa! A bolsa da tua barriga. Gravidez. Lembra?

―Ah! Essa? É! Ela tá aqui ainda.

―Bom! Já liguei pro seu pai, e ele já deve ter saído de casa. Tá vindo pra cá. Já liguei para a sua médica, e também para o hospital. Tudo certo. Vamos embora?

E lá foram os dois, porta afora. Quando entraram no elevador, o marido tirou uma lista do bolso e começou uma checagem de cada item.

―Pelo visto, não esquecemos nada. A Taylândia vem ao mundo cercada de todos os cuidados.

―Washington Wesley Wanderson da Silva! Dá pro senhor se acalmar?

―Mas, meu amor! É o dia mais importante de nossas vidas.

―Eu sei. Mas você precisava me depilar também? ―ela questionou, fazendo cara de tristeza.

―Não reclame. Sei lá quem iria fazer isso lá no hospital. E nem pensar em saber que qualquer homem olhou as coisas da minha mulherzinha.

―Deus do céu! Você é um poço de ignorância, Washington Wesley Wanderson da Silva!

O pai de Taylane, quando viu os dois aparecerem na porta do elevador, já correu para encontrá-los. Todo afoito, mal cumprimentou e já saiu carregando a filha para o carro.

―Pai, por que essa pressa?

―O WWW (o marido) está com a razão, minha filha. É a Taylândia que precisa desse cuidado todo. Você é minha única filha, e ela é minha primeira neta. Então, sossega aí que vou colocar a sirene no carro pra abrir caminho.

­―Por favor, papai! Sirene não, eu imploro! Vou morrer de vergonha. Tudo bem que o senhor é delegado, mas pra quê isso?

A pobre coitada mal foi escutada. E assim, os três chegaram ao hospital. O marido e o sogro literalmente pularam do carro e correram para a rampa, mas pararam assim que notaram a falta de Taylane. Quando olharam para trás, repararam a moça já saindo do veículo, toda torta e segurando as costas. Voltaram e cada um pegou num braço, carregando-a sem deixá-la encostar os pés no chão.

Dentro do hospital, tudo encaminhado. Era só esperar pela médica, que não demorou para chegar.

―Demorou, doutora! ―o marido, batendo o pé, reclamou.

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―São 4 horas da madrugada. Até os médicos dormem, vez ou outra. E um nascimento não é assim, como quem tira uma rolha de uma garrafa, sr. Washington. Bom, vamos lá! Cadê minha paciente?

O marido olhou para o relógio e apertou um botão qualquer. A médica, ao vê-lo fazer isso, baixou os ombros e desanimou, mirando-o diretamente nos olhos.

―Você não fez isso de novo, não é? Era só mais um treinamento?

―Duas horas e três minutos. Precisamos melhorar esse tempo! Não acha, meu sogro?

―Concordo, WWW! Acho que mais uns três treinamentos e baixamos uns 45 minutos.

―Eu não acredito! ―a médica bufou, saindo para o lado. ―Isso é uma gravidez que está no oitavo mês, e não um jogo de futebol. Vocês são loucos?

A médica sentou ao lado de Taylane e colocou a mão na barriga da moça.

―Coitada dessa criança! O pai é um doido, e o avô apóia e colabora. O que eu fiz pra merecer um cliente assim?

―Você, doutora? E eu? Convivo com esses dois malucos o tempo inteiro!

Um mês depois, uma mensagem fez o telefone de Washington vibrar. Era Taylane, dizendo que estava com vontade de comer salaminho. O marido, exagerado em seus atos, passou no açougue e comprou logo dez unidades.

“Vai saber qual é o que ela tá com vontade de comer!”. ―ele pensou, indo para o carro.

Ajeitou tudo no banco da frente do veículo e se preparou para sair, mas um dos salames insistia em não ficar na sacola. Ele, tranquilamente, pegou o salame e enfiou no bolso da jaqueta. O que importava, naquele instante, era voltar para casa. Já era tarde e ele estava cansado, e possivelmente a esposa só esperava por aqueles ditos salames para poder se saciar e repousar.

―Vou correr, senão é capaz da minha neném nascer parecida com um salame.

Já em casa, ele colocou a jaqueta nas costas da cadeira e chamou a esposa. Ela não se fez de rogada. Comeu até se refestelar. Mas o desejo foi além. Ainda fez o marido preparar pudim, brigadeiro de panela e macarrão com molho. Para encerrar, tomou quase meio litro de Coca-Cola sem gelo. O marido só olhava, sem entender como aquilo tudo poderia se ajeitar dentro da franzina esposa.

Durante a noite, na cama, ela parecia inquieta. Virava-se constantemente, até que dormiu. Repentinamente, o marido colocou uma das mãos nas pernas da esposa e reparou algo estranho. Então, tratou de chamá-la.

―Amorzinhoooo. Acho que você tomou refrigerante demais. A cama tá toda molhada.

Ela acordou e tateou a cama, constatando que era verdade aquilo que o marido falara. Ficou parada alguns instantes e, quando o marido acendeu as luzes, os dois se olharam, assustados.

“A bolsa estourou”! ―os dois gritaram, juntos.

―WWW, calma. ―a esposa, que jamais chamara o marido pelo apelido, gritou, tentando impor alguma ordem.

Ele sequer prestou atenção no que ela falava. A primeira coisa que fez foi ligar para o sogro, que obviamente, dormia profundamente.

―Alô, meu sogro. A bolsa estourou!

―O quê? Como? Bolsa estourou? ―o sogro balbuciou, até que acordou num estalo, assustado. ―Que inferno! Como? Então perdi todo meu dinheiro que estava investido lá? Eu sabia que aquele corretor iria me passar a perna... ―um instante de silêncio. ―Mas de qual bolsa você está falando? Eu não investi nada na Bolsa de Tóquio! E nesse horário, só a bolsa japonesa deve estar aberta!

―A Taylândia, seu tonto! ―Washington irritou-se, tentando explicar que era a bolsa da barriga da esposa.

―Piorou! Se eu não investiria no Japão, vou investir na Tailândia? Tá burro, é?

―Burro tá você, seu tonto! Não é o país. É a Taylândia, a sua neta. A bolsa que rompeu é a da Taylane. Acordaaaaaaa. E vem logo pra cá, que eu to preparando tudo!

Ao desligar, o marido correu para a gaveta de sua escrivaninha, para procurar a lista de providências a serem tomadas naquele instante. Mas não achou nada. Desesperado, começou a contar nos dedos, até que parou e olhou para a esposa, que tranquila, só esperava por ele para poderem descer até a entrada do prédio.

―Como...?

―Bom, enquanto você se desespera, eu penso. E faço as coisas com calma. Vamos?

―Mas, e a...?

―Já peguei.

―E a...?

―Também!

―E... e... e...?

―Dá pra calar a boca e se vestir logo, que to começando a ter contrações? ­―Taylane não se aguentou e soltou um berro, fazendo com que o marido corresse para a cozinha e vestisse, unicamente, a jaqueta.

Ela, com contrações, mal reparou que o marido esquecera as calças. Naquele instante, ela notou que precisava pensar nela mesma, ou então, as coisas poderiam piorar um pouco. Chegara a hora de ver se aqueles treinamentos valeram para algo.

E tudo já se mostrou estranho no elevador. A demora foi tanta que o marido já pensava em descer pelas escadas mesmo. Até que, repentinamente, a porta do elevador abriu e eles puderam entrar. La dentro, um zelador já idoso descia com alguns apetrechos para limpeza. Ao ver aquele casal, arregalou os olhos, principalmente ao reparar que o marido estava apenas de cuecas. Mas calou-se. Vai que era alguma nova moda?

Lá embaixo, na entrada do prédio, o sogro já esperava, ansioso. E ao vê-los, tomou um susto.

―WWW. Pode me explicar esses trajes?

Washington sequer prestou atenção nas palavras que o sogro dissera. Passou por ele e foi até o porta-malas do veículo, jogando para dentro toda a bagagem que carregava. Deu novamente a volta e entrou, mandando o sogro acelerar.

Duas quadras mais adiante, o sogro parou o carro e ficou olhando para o genro, que estranhou o fato.

―Parou por que? Estamos com pressa, não estamos?

―Seu animal. Você me fez esquecer minha filha lá atrás.

Enquanto os dois discutiam, outro veículo dobrou a esquina e, sem esperar que o veículo daqueles dois estivesse parado bem no meio da avenida, chocou-se com o carro do sogro de Washington. O delegado desceu rapidamente e começou a xingar o outro motorista. Ou melhor, a “outra” motorista.

―Tinha que ser mulher! E, claro, só poderia dar nisso! Eu sou delegado, sabia?

―E eu sou juíza, sabia? E sabia, também, que o seu veículo estava parado de forma irregular, no meio de uma via pública?

―Calem a bocaaaaaaaaaaa!

Todos silenciaram e olharam para trás. Era Taylane, que arfante, acabara de chegar até onde eles estavam.

―As contrações estão aumentando. Vai nascer logo!

O desespero foi geral. Até a juíza, que sequer sabia o que estava acontecendo, entrou na dança. Precisavam ir rapidamente para o hospital, mas o veículo do pai de Taylane, naquele estado, sequer sairia do lugar. O carro da juíza também ficara muito avariado, e naquele horário não havia viva alma na rua. O marido tentou usar o telefone celular, mas estava sem bateria. O sogro, na pressa, esquecera o telefone em casa, e a juíza, ao procurar pelo telefone dela, descobriu que quebrara no acidente.

―E agora? O que fazemos? ―o marido suplicou, olhando para a juíza.

―Ei... eu poderia prendê-lo por atentado ao pudor, moço.

O pai de Taylane andou um pouco e reparou algo que poderia ajudar. Pediu aos outros que esperassem e, um pouco depois, voltava até eles com uma carona.

―Pai, isso é um caminhão da coleta de lixo!

―É um veículo, não é? Entra logo. Vai!

O marido ajeitou a moça na cabine do caminhão, e como não havia lugar para todos por lá, o pai e a juíza, que resolveu acompanhar para não perder o delegado de vista, precisaram ir na parte de trás do caminhão, literalmente pendurados.

Como o motorista havia recebido ordens tanto de uma juíza quanto de um delegado para “andar depressa”, abusou o quanto pode. Parecia se divertir com a situação. Mas não parava de olhar para as pernas de Washington. Não entendia por que alguém andava apenas de cuecas naquela hora da madrugada.

Na parte de trás do caminhão, cada um se agarrava como conseguia. E a pior parte ficou para o delegado. Numa das curvas, um saco de lixo se desprendeu e caiu sobre ele. No interior, algum tipo de líquido com cheiro putrefato derramou todo nas calças do pobre coitado. As blasfêmias eram ouvidas a metros de distância, mas logo foram substituídas por sonoras gargalhadas, pois ele reparou que não havia sido o único atingido por aquele líquido. A juíza também estava toda molhada, e completamente irritada. Com as calças encharcadas por aquele líquido mal cheiroso, ela não sabia se xingava ou chorava.

Quando o caminhão parou diante do hospital, o delegado pulou e tratou de tirar as calças, para se ver livre do mal cheiro. A juíza, estranhando aquilo, baixou o olhar e reparou que a situação dela também estava complicada, e piorava ainda mais com aquele cheiro insuportável. Sem escolha, e tomada pelo instinto de não perder o delegado de seu ângulo de visão, não pensou duas vezes. Também arrancou as calças e foi atrás daquele homem.

Na recepção do hospital, um alarde estava montado. Na pressa, ninguém lembrou de ligar para a médica. E quando conseguiram localizá-la, descobriram que ela não chegaria a tempo para fazer o parto. Um enfermeiro, vendo que ninguém se entendia e já conhecendo tanto Washington quanto o pai de Taylane, tratou de puxar a moça para o lado, e levou-a para outra sala, para tranquilizá-la e iniciar os procedimentos necessários. Enquanto isso, na recepção, a bagunça só criava mais tamanho, até que a atendente não aguentou e ameaçou chamar a polícia.

―Pode chamar. Eu sou delegado.

―E eu, juíza!

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―Então, vocês vão calar a boca, porque isto aqui é um hospital. Vocês estão pensando o quê, afinal? E posso saber por que os três estão quase pelados? Vocês estavam onde? Numa suruba?

―Olha o respeito, menina! ―o delegado levantou o dedo, irritado.

―Baixe o dedo, senhor! ―a enfermeira retrucou. ―É desse jeito que um delegado resolve as coisas? E mais um detalhe! Que cheiro dos infernos é esse? Ecaaaaaaa.

Os três se olharam, e só então Washington reparou que estava sem calças. O pobre coitado parecia desnorteado. Toda a sua atenção e zelo viraram naquilo. Sentia-se um fracassado. Mas balançou a cabeça, sabendo que não poderia ficar ali parado. O sogro e a juíza, engalfinhados numa briga de impropérios e palavrões, não ajudariam em nada, e a esposa sumira.

Washington aproveitou que a atendente estava distraída com a briga dos outros dois e saiu de fininho. Foi se enfiando pelos corredores, até que por uma janela de vidro ele notou a esposa deitada numa maca. Bateu no vidro e, quando estava por abrir a porta, um enfermeiro segurou-o pelo ombro.

―Posso saber o que o senhor está fazendo aqui?

―Sou o marido daquela moça ali!

―Vai assistir ao parto? Então, venha comigo! Mas antes, o senhor pode me explicar onde estão suas calças?

Washington não teve muita escolha e seguiu o enfermeiro. Aquilo não estava nos planos dele. Assistir ao parto da esposa? Ele não suportava ver sangue. Entrava em desespero a cada vez que isso acontecia.

Quando chegaram na outra sala, onde o enfermeiro iria preparar Washington para assistir ao parto, o rapaz se desesperou. Precisava fazer algo. Então, quando o enfermeiro se distraiu, ele pegou um gorro e um avental médico e saiu silenciosamente. Vestiu-se no corredor mesmo, e se esgueirou, olhando para todos os lados como se estivesse numa cena de guerra. Inesperadamente, escutou algumas vozes e entrou na primeira sala que viu. Era uma sala com uma porta enorme, dividida em duas partes, mas ao que parecia, era apenas uma ante-sala. E para o azar do rapaz, aquelas vozes estavam cada vez mais próximas. O que restou para ele foi seguir em frente, até abrir outra porta igual a primeira. Assustou-se, pois acabou dando de cara com várias pessoas rodeando uma mulher, que estava deitada em uma mesa.

―Taylane? ―Washington murmurou, reconhecendo a esposa.

―Quem é o senhor? ―a pergunta veio de um homem enorme, que estava parado do outro lado da mesa onde a esposa se encontrava deitada.

Washington foi ladeando a mesa lentamente, até parar ao lado daquele homem.

―Eu sou o marido. E o senhor, quem é?

―Eu sou o médico que irá fazer o parto, pois a doutora Luiza não chegará a tempo.

Nesse momento, Washington olhou para a mesa onde a esposa estava deitada. O que ele viu, acabou fazendo com que um nó descesse por sua garganta. Taylane estava com os joelhos dobrados e abertos, e completamente desprovida de qualquer vestimenta.

Sem saber o que fazer, o rapaz enrubesceu e olhou para o médico. Gaguejou algumas palavras, e começou a arrancar o avental que utilizava, até ficar apenas de jaqueta e cuecas. Estava irritado e com ciúmes, e só pensava em afastar o médico dali. Suas mãos, afoitas, acabaram parando dentro dos bolsos, e ele notou que havia algo num daqueles bolsos. Algo redondo e comprido, o salame. Então, pegou-o e começou a ameaçar o médico.

―Nem pense, seu doutorzinho. Nem pense que você vai ficar ai, olhando as coisas da minha mulher. ―o rapaz bufava e balançava aquele salame bem perto do nariz do médico.

Uma das enfermeiras, vendo a cena, tentou interceder, e o médico aproveitou a situação para “desarmar” o rapaz. Mas como ele não parava quieto, o médico largou o salame no primeiro lugar que viu, e que foi justamente na mesa onde Taylane estava, bem entre as pernas da moça.

Outro enfermeiro entrou com uma câmera nas mãos. Taylane havia encomendado o registro em vídeo do nascimento da filha, e ele começou a filmar. Ao lado, ninguém se entendia. Duas enfermeiras tentavam conter Washington, enquanto o médico, desesperado, fazia de tudo para voltar para seu posto. Taylane, entre soluços e gemidos, tentava chamar a atenção de alguém, até que, num resto de forças, soltou um berro.

―Socorroooooooooooooo.

Todos pararam imediatamente. O médico arregalou os olhos, mas não descuidou do rapaz, que estava, àquela altura, bem preso nas mãos das enfermeiras. Mas Washington foi o primeiro a perguntar algo.

―Nasceu?

Novo silêncio. Até que o enfermeiro, que filmava tudo, se voltou para as pernas de Taylane e caiu na gargalhada. Em seguida, desligou a câmera e olhou irônicamente para o rapaz, dizendo:

―Olha! Tem algo aqui, mas se for uma criança, acho que sua mulher deve ter ficado com muita vontade de comer alguma coisa, porque tá com uma cara danada de parecida com um salame.

Aquelas palavras, por mais que fossem apenas por brincadeira, surtiram um efeito não esperado em Washington. Ele, ainda mais irritado, livrou-se das enfermeiras, mas foi contido pelo médico. Taylane, vendo que não aguentaria mais, relaxou o corpo, e sem esperar, sentiu que Taylândia começava a dar as caras ao mundo. E como ninguém se entendia novamente, o enfermeiro que filmava largou a câmera e fez o que sabia. Amparou a criança e ajudou no parto. Minutos depois, um choro tomava o ambiente.

―Ah! Agora nasceu. E é uma menina! ―o enfermeiro comemorou, segurando a criança nas mãos. ―Mas ainda não entendi por que esse salame estava aqui! É alguma simpatia?

Um silêncio aterrador tomou conta daquela sala, quebrado unicamente pelo barulho do rapaz se estatelando ao chão.

Algumas horas mais tarde, com um número enorme de policiais e jornalistas na recepção do hospital, uma repórter gravava a matéria que iria ao ar naquele dia.

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―...ainda não sabemos se tudo isso foi algum ritual de um desses grupos de malucos que aparecem a todos os instantes, ou se foi um ato isolado de um pai desesperado, que ao se ver sem atendimento neste hospital de luxo, entrou em pânico. O que se sabe é que uma juíza e um delegado, que possivelmente fazem parte desse grupo de malucos que tentou dominar o hospital, foram flagrados a poucos instantes, trajando apenas roupas íntimas, numa das salas do hospital. Segundo testemunhas, os dois estavam lambuzados de sabão líquido da cintura para baixo, e exalavam um cheiro estranho, possivelmente "provindo" de alguma substância estranha, ou de algum ritual maluco que eles faziam. Muito estranho. Será parte do ritual de acasalamento desse grupo esquisito? Por sua vez, o pai da criança que nasceu foi autuado por invasão de área restrita do hospital, por desacato e por agressão. Ele ameaçou ao médico e a outros atendentes com um salame enorme e de origem desconhecida. Ainda será investigada a procedência do salame, mas ao que tudo indica, ele fazia parte da artimanha desse grupo para incrementar o ritual que eles iriam realizar aqui nesse hospital. E eu lhes pergunto. Será falta de fé? Será falta de segurança? De onde viemos? Para onde vamos? Isso é o cúmulo... corta e edita.


Marcio Rutes


quinta-feira, 31 de março de 2011

LOUCAS, PERIGOSAS E ARMADAS COM O CARTÃO DE CRÉDITO

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Tenho passado por cada coisa nessa vida, que por vezes nem eu acredito. Como todo ser humano, vez ou outra preciso renovar minhas roupas, mas não sou daqueles que perde horas procurando ou provando. Nesse ponto, prefiro ser prático e rápido, apenas privando pelo conforto e por aquilo que me agrade aos olhos. O fato é que sempre que vou ao shopping para comprar roupas, me vejo enroscado em alguma encrenca, e normalmente pago sem dever.

Como conheço vários comerciantes (normalmente são meus clientes), procuro sempre algum conhecido. O engraçado é que, com o tempo, reparei que as vendedoras de lojas de roupas preferem atender aos clientes masculinos, largando para os vendedores (pobres coitados) a clientela feminina, principalmente as mais afoitas. No que cheguei à loja, reparei que duas mulheres olhavam para um certo traje na vitrine, ainda pelo lado de fora. Ao entrar, uma vendedora e um vendedor, os quais eu conhecia, me viram, e notaram que logo atrás entravam aquelas duas mulheres, já quase se empurrando. A vendedora se apressou e correu para me atender.

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Com vinte minutos, eu já havia feito uma pequena compra e estava satisfeito, e foi aí que se deu o perrengue. Quando olhei para o coitado do vendedor, ele já quase mediava uma luta livre entre aquelas duas mulheres, que embestaram ambas de querer o mesmo traje. Mas, só havia um na loja, e foi o maior corre-corre. O traje era composto de duas partes, e cada uma delas pegou uma peça. Na loja, além dos dois vendedores, ainda havia um terceiro (gerente, eu acho) e eu, e foi para o meu lado que elas vieram.

--Isso não fica melhor em mim? --uma delas perguntou, colocando a calça do traje na frente do corpo.

--Fica nada! --a outra interferiu, sem me deixar responder. --Ela é gorda e nem vai entrar nessa calça apertada. “Né” que você acha ela gorda?

--Gorda? Eu? --a primeira me olhou e fuzilou, como se eu é que a tivesse ofendido. --Seu atrevido, seu canalha. Fica “se fresqueando” para essa perua!!! No mínimo, deve ser um daqueles maridos safados, que deixa a mulher limpando a casa e vem na loja de roupas só para ficar paquerando uma mulher assim como eu, bonita e fina...

--Bonita e fina? --tornou a segunda, segurando os seios por baixo e levantando-os. --Homens como ele não correm atrás de desastres ambulantes assim, como você. Aliás, esse safado deve vir para as lojas de roupa é para bisbilhotar os provadores, isso sim. Deveríamos ir até a delegacia e dar queixa de assédio. O que você acha?

Quando ela falou aquilo, não agüentei e caí na gargalhada. Não iria ficar mais ali, aturando aquilo. Então, peguei minhas coisas e fui para o caixa, rindo. As duas ficaram lá, debatendo beleza e poder aquisitivo, enquanto eu reparava as imperfeições que cada uma carregava. Corpo? Não, não me refiro ao corpo, mas à falta de humildade, falta de respeito, tanto próprio quanto pelo próximo, excesso de vaidade, inveja, e outros, que nem vale a pena citar.

Saí de lá e, alguns dias após isso tudo, voltei até a loja, mas agora para um atendimento profissional, e descobri que, ao final de tudo, nenhuma das duas ficou com o traje. No meio da briga, que continuou após eu sair, as duas se descuidaram da roupa e o vendedor, cansado daquilo, vendeu o traje para uma terceira cliente que havia entrado na loja.


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Para aqueles que riram do “barco furado” em que entrei, aconselho ler o texto EXTRAVAGÂNCIA.

É de minha autoria, e está publicado no blog ARENA DAS CRÔNICAS, onde sou colaborador.

Marcio JR

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

TEM QUE TER MUITA PACIÊNCIA PARA SER LADRÃO NO BRASIL

video by YouTube



Para quem ainda não viu, vale a pena conferir o conteúdo do vídeo acima.

Na manhã desta terça-feira, 11/01/11, em São Paulo, um ladrão de cabos de cobre executava de forma tranquila e honesta seus trabalhos de subtração de matéria-prima (fios de cobre da rede elétrica da ponte da Freguesia do Ó), quando uma equipe de jornalismo da TV Globo, inadvertidamente, começou a perturbá-lo, filmando-o.

Que absurdo é esse? A que ponto chega a petulância dos jornalistas neste país? Atrapalhar um pobre ladrão de cobre, que se obriga a sair em plena chuva para suprir sua cota diária de esforço, é revoltante.

Pense bem, esse cidadão esforçado poderia estar traficando, matando, mas não, está “apenas” roubando uns cabinhos de energia, e que só deixarão a ponte às escuras. E, além disso, o povo está aí, para pagar os baixos impostos que são aplicados neste nosso Brasil, e que servem justamente para isso, repor esses pequenos gastos causados por ladrões que suam a camisa nesses causídicos atos no melhor estilo Robin Hood às avessas (neste caso, tira do povo para dar a ele mesmo, claro). E a equipe de jornalismo ficou lá, perturbando o coitado.

Ao reparar que estava sendo filmado, o ladrão ainda deixou bem claro, para quem quisesse ouvir, que ele não rouba pai de família. E nada mais justo, exigiu 20% do valor do vídeo em razão de seus direitos de imagem.

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image by Google
Ironias e sarcasmo à parte, as cerquilhas acima representam o que estou pensando neste exato momento, e não é boa coisa. Os palavrões que me vieram à boca são os piores possíveis e impublicáveis, e sequer tenho como definir o que o vídeo mostra. Cara-de-pau? Muito mais do que isso. Eu diria que isso tudo tem um nome:
IMPUNIDADE.

E o que deveria ser feito deste salafrário em questão? Ou melhor dizendo, o que a Justiça fará, mediante tais imagens?

Encerro por aqui, ou então, perderei por completo a compostura.

Como me sinto neste momento? ENOJADO.


Saiba mais: JORNAL HOJE
MARCIO JR

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

TRAIÇÃO

image by Google

Aquela mesa estava silenciosa. Até os filhos adolescentes, sempre ativos, se mantinham calados. O marido esticou o braço para pegar a travessa de macarrão e, ao se aproximar dela, deu de encontro com a mão da esposa. Os dois se tocaram e se olharam de imediato, deixando um grande constrangimento os tomar. Os dois filhos também levantaram a cabeça e olharam para os pais, esperando que a qualquer momento uma guerra de ofensas aflorasse. Mas não aconteceu, e assim continuou o jantar, silencioso e amargo.

Após o término dos pratos principais, veio a sobremesa. Era uma noite de sexta-feira, a tradicional noite das doces e tenras tortas da esposa. Mas até a torta ficou ali, relegada ao silêncio. O marido mantinha a cabeça baixa, remoendo cada pensamento que lhe vinha a cabeça, enquanto a esposa o fitava de canto de olho, inquieta e irritada. Um dos filhos se levantou e fez menção de se retirar do local, mas foi contido pela mãe, que implorou para que ficasse, pois precisavam resolver aquela situação ali, em família. O outro filho, um pouco mais novo, soluçava solitário, prevendo o futuro que os aguardava.

image by Google
Durante vinte anos, foram uma família unida, onde o companheirismo e a dedicação imperou. Mas, e agora, o que fariam? Alguém de fora quebrara a hegemonia daquele lar, destruindo laços que se pensavam indestrutíveis, mas que se partiram ao primeiro sinal de fraqueza do corpo. E aquela aventura sexual valera a pena? Justificava a perda de confiança de alguém que caminhara junto por mais de vinte anos de alegrias e intempéries? E foi então que alguns nós apareceram nas gargantas de todos quando o marido levantou e foi para o quarto. Ao voltar, depositou ao chão duas grandes malas e foi até os filhos, beijando-os ternamente. A esposa o olhou com ar de irritação, e não se surpreendeu ao vê-lo, simplesmente, virar as costas e sair porta afora.

--Filhos, não pensem que seu pai os está abandonando. Ele apenas...

--Mãe, corta o papo! --o filho mais velho falou, em tom áspero --Nós já sabíamos que iria acabar assim. Mas está tudo bem, afinal, o mundo não é perfeito, não é assim? Só queremos um favor seu. Mantém aquele seu namorado bem longe daqui.