Mostrando postagens com marcador apenas palavras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador apenas palavras. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de abril de 2023

DOS TONS DE TUAS NOTAS

 

image by Google
Não da palavra, mas sim da letra que te compõe.
Foi escrita como uma melodia, como uma cantiga de acordar, como versos de embalar a alma
e acalentar a saudade.
É assim que Deus te compôs, rimada com o vento em uma escala sempre de um sol maior.
Os acordes da canção dançam por teu corpo, te escorrem livremente da boca para as mãos, encaixando-se não nos ouvidos de quem te escuta, mas diretamente na vereda que se abre nos olhos. O concerto é dado pela orquestra de cordas afinadas, todas raiadas por teus cabelos soltos.
O solo, sustenido pelo vocal alerta de um passarinho, faz dueto perfeito em teu colo reconfortante.
Então, um tanto adiante, que se adiante a fala, aquela minha, em uma súplica de um bis. Sonoro, retalho meu pedido, aplaudo, saúdo, e concluo entre arrebatado e encantado:
tua letra, a da tua vida, é uma trilha ainda inacabada, lançada ao tempo e sendo escrita em capela, aquela mesma que se encaixa com a nota mais bela, essa mesma que sempre me vem nas lembranças, quando da janela me invade a saudade.
Te concluir, jamais.
Teu show apenas começou, e a música mais graciosa ainda está por ser escrita.



Marcio Rutes

domingo, 28 de julho de 2013

CASA NA ÁRVORE

Casa na árvore - by Google
Um dos meus sonhos desde criança, de sonhador inveterado que sou, sempre foi ter uma casa na árvore. Parecia simples para muitos, mas nunca consegui uma. Algumas crianças iam além, e desejavam castelos. Eu não. Para que um castelo?

Bastaria um casebre bem simples, só com uma porta mesmo e uma janela, e que eu pudesse dizer que era minha. A árvore também não precisava ser nenhuma em especial. Só queria uma de folhas bem verdes e de galhos que sustentassem a mim e meus sonhos.

Lá para minha casa na árvore eu levaria meus cacos de brinquedo, dos poucos que tive, e também meus gibis. Ah! Sim, claro. Levaria minha imaginação e a colocaria na única prateleira que teria por lá. Essa jamais me abandonou, e só eu sei o quanto ela foi e ainda é extremamente fértil.

Tantas foram as noites em que me vi descendo de um segundo andar qualquer, escorregando por lençóis amarrados e que faziam uma dessas cordas de filme, para sair correndo até meu refúgio na árvore. Lá eu olhava as estrelas, contava os planetas, fazia pedidos para as cadentes mais brilhantes, falava com os animais noturnos, e até me tornava um explorador ou observador em um posto de vigia numa muralha alta, cercada de montanhas. Mas sempre acordava em minha cama, e via que era somente mais um sonho.

Certo dia, numa dessas minhas andanças, parei próximo a um bosque e aproveitei para descansar um pouco. O sol da tarde fustigava, e como o vento estava agradável e o silêncio se fez companheiro, adormeci rapidamente. Não demorou muito e acordei com algumas vozes bem próximas ao meu ouvido. Pareciam crianças, mais precisamente meninas, e brincavam num alarde sem igual. Olhei para todos os lados e não vi nada, nenhuma viva alma naqueles arredores. Até que, sem me esperar, alguém me chamou.

­―Moço! O senhor poderia dar licença? É que o senhor está tapando nossa janela, e não estamos conseguindo pegar sol por aqui.

Me virei assustado, e o que vi me deixou, literalmente, de queixo caído. Atrás de mim, na árvore em que eu me encostara para descansar, existia um castelo esculpido, com aproximadamente um metro de altura. Mas ele não estava lá quando cheguei. De onde tinha vindo então?

―Hei, moço! O que foi? Parece assustado?

Naquele instante, a única explicação que me ocorreu era a de que tudo não passava de algum sonho. Então, entrei na dança.

―Não é isso, menina. É que meus sonhos sempre me pregam peças. E onde está você, afinal?

Aproximei os olhos do que parecia ser uma das janelas do pequeno castelo e consegui ver duas meninas, de aproximadamente 5 ou 6 anos cada uma. Elas estavam rodeadas de brinquedos, e suas vestes eram belas, como se fossem princesas.

Cumprimentei polidamente, apresentei-me e perguntei se eram fadas, e a resposta me deixou com a pulga atrás da orelha.

―Sou Dorinha, e está aqui é minha irmã, Clara. E não somos fadas não. Aliás, este aqui não é um sonho. Ah! Aquele ali no canto é meu cachorro, o Jujubão. Eu e o Jujubão já nascemos, mas ainda falta a Clarinha nascer. E olha, moço! Ela está louquinha pra participar das minhas aventuras, viu!

Congelei. Dorinha e Jujubão? Eu os conhecia, é claro que sim. Afinal, eu havia criado Dorinha em um dos meus contos. Tanto ela quanto seu cachorro, o Jujubão. Então, era óbvio que aquilo era apenas um sonho. No entanto meus sonhos estavam ficando um tanto complexos, principalmente quando meus personagens resolviam aparecer e, o que era pior, afirmar que eu não estava sonhando. Mas, continuei conversando.

O que sei é que passei um tempo enorme por ali. Falamos sobre tudo, brincamos, fizemos adivinhações, participei dos sonhos de Dorinha, mas meus olhos estavam presos mesmo era na outra criança, ou seja, em Clara. Que menina linda, com um jeito arteiro sem igual. E como me lembrava alguém. Os olhos eram de alguma pessoa que eu conhecia, tinha certeza disso. Fiquei fascinado, e penso que um laço paterno ficou estabelecido entre eu e aquela criança. Mas não lembrava de tê-la feito nascer em algum de meus contos ou fábulas. Então, por que Dorinha falou dela como sendo sua irmã? Seria alguma fábula que eu ainda iria escrever?

A tarde já cedia lugar para a noite quando, sem me dar conta, levantei e me despedi. Achei que as meninas, mesmo em sonho, precisavam se recolher. Quando me despedi, Dorinha me olhou, ternamente, e disse:

­―Não desista de sua casa na árvore. E lembre que por mais simples que ela seja, para você ela será seu castelo. Sua princesa está a caminho, tá bom? Mais uma coisa... a Clarinha ta doidinha pra brincar na sua casa na árvore. Ela sabe como me chamar.

Casa na árvore - by Google
Escutei aquilo e fui andando. Que sonho estranho.

Um pouco mais adiante, numa reta da estrada, parei num posto de gasolina. Talvez nem fosse preciso, pois afinal era um sonho, mas acho que até quando durmo sou um tanto metódico. Deixei o veículo abastecendo e fui tomar um café. Foi quando percebi que não era um sonho. O café estava quente demais, e a dor proporcionada pela queimadura em minha língua foi horrível.

Com quinze minutos, eu estava novamente naquele bosque. Nada de castelo esculpido em qualquer tronco, e muito menos sinal da árvore. No lugar em que ela deveria estar, encontrei apenas um tipo de pó brilhante, que parecia fazer um rastro para o alto. Mas logo desapareceu também. Quando olhei para cima, pensei ver alguns vultos de luz que entravam para dentro da noite. Forcei os ouvidos e escutei risos de criança, mas muito longe, quase sumindo no silêncio do bosque.

Naquela noite, no hotel, sonhei novamente com minha casa na árvore. Mas agora, não era uma casa tão simples. Não era um castelo, é claro, mas era vasta, e se estendia pelos grossos galhos. Lá dentro, Dorinha, Jujubão e Clara brincavam comigo, fazendo a maior algazarra. Um cheiro de pizza (sim, meus sonhos têm cheiro) tomou todo o lugar, e quando me virei para a porta, alguém chamava para o jantar. Era uma linda mulher. Meiga, com jeito de quem adora ganhar carinho e colo, e tinha os olhos exatamente iguais aos de Clara. Ela se aproximou e me pegou pela mão, me abraçando.

Um sonho? Era sim. Mas não duvido de mais nada.
Se eu conheço essa linda mulher na vida real? É claro. Conheço muito. E posso dizer que estamos, eu e ela, sonhando nossa mais bela fábula.
Mas isso é para outro conto.



Marcio Rutes


quinta-feira, 18 de julho de 2013

LANTERNA CHINESA

lanternas chinesas - by Google
Àquela hora tudo estava calmo. Até o vermelho das lanternas chinesas pareciam descansar. E nenhum barulho se atrevia a ferir o silêncio da madrugada. Não existia viva alma em lugar algum.

Tudo tão diferente da confusão de pessoas de horas antes. Aquele disparate que mais parecia uma praça de guerra do que, propriamente, uma festa. Mas fora lá que ele a viu. E a notou bela, sorridente, um verdadeiro sol em um mar de estrelas menores. As mãos delicadas carregavam alguns adereços, que eram jogados para cima e recebidos novamente, com muita habilidade. Não, ela não era nenhuma esportista, muito menos bailarina. Era apenas alguém que se divertia, que aproveitava o desfile chinês para diminuir a ansiedade que carregava no peito. E como seu rosto era formoso e delicado.

Foi então que, por instantes, os olhos da moça cruzaram com os olhos do rapaz. Encantaram-se. Proibiram-se. Afastaram-se.

Ele era um mero alguém que passeava por aquele lugar, sem ao menos falar a língua local, e ela, uma donzela de família tradicional, possivelmente reservada para o filho de alguma outra família da região. Seria impossível uma aproximação.

E então, tudo passou. Ele ficou ali sentado, esperando o dia amanhecer. A festa perdera o brilho, e as lanternas sequer faziam a luz chegar até ele. Se existia luz naquelas lanternas, ele sequer percebia. Não fazia mais diferença. Também pouco adiantaria sonhar com algo impossível.

Mas a rua estava tão linda. Não poderia partir sem levar algo daquele lugar.

Aproximou-se de uma casa e reparou algumas flores esquisitas, muito semelhantes às lanternas que ornamentavam a rua. Colheu algumas e fez uma espécie de buquê, como se recobrisse a própria mão com aquelas flores. Ao se voltar para a rua, um susto acometeu seu peito. Era ela, e estava bem diante dele, olhando para seus olhos.

flor lanterna chinesa - by Google
―Me leva com você? ―ela perguntou, calmamente.

―É um sonho?

―Não sei! Mas se for, que tal sonhá-lo por inteiro?

―É impossível... ―ele retrucou, deixando algumas lágrimas aflorarem.

―Impossível é eu fingir que nada aconteceu quando te olhei nos olhos. E só será impossível algo existir entre nós se aceitarmos o que querem nos impor. Um sonho só é impossível de ser realizado se ele não for sonhado.

Pequenas flores, com formato de lanterna, hoje crescem abundantemente num certo jardim, bem longe de onde eles se conheceram. E o impossível é passar por lá, por aquela rua onde eles cruzaram os olhares, e não sentir a vibração de um olhar que, ao cruzar com outro, ultrapassou barreiras e limites.

Marcio Rutes

sábado, 25 de maio de 2013

UM AFAGO E UM SORRISO, NUM SÁBADO QUALQUER.


image by Google
**Para alguém muito especial, que se doou além daquele normal a que estamos acostumados, e fez jardins onde existiam pedras.**


Existem momentos em que se busca, unicamente, um encontro interior. São aqueles instantes em que tudo parece confuso, com o passado atropelando o futuro, ou o peito querendo expulsar a razão imposta pela consciência. Tudo fica tão bagunçado, não é?

É bem neste momento, esse de se achar que tudo conspira contra, que as horas utilizam um artifício nefasto: a lentidão. E o mundo vira de cabeça para baixo.

Mão. Uma parte tão comum do corpo, tão vista e exposta, tão relegada a um segundo plano. A mão pouco se nota, pouco conquista, pouco atrai. O que se olha são as pernas, o rosto, os seios ou a bunda. Estas sim são partes que atraem, enchem os olhos e provocam erupções de sentimentos ou da libido em tantos... mas as mãos, coitadas delas. Ficam esquecidas.

O que muitos esquecem, porém, é que a mão é a primeira a tocar o corpo num abraço. A mão, é ela que afaga o rosto num chamego, que recolhe o aperto de outra mão. É a mão, juntamente com o braço, que se estica para tirar alguém “do buraco”. Numa queda, sempre que alguém tentar ajudá-lo, é a mão disposta que você verá para puxá-lo. E é a mão, justamente ela, que tocará seu peito naquele instante em que alguém especial sentar ao seu lado para compartilhar dos seus sentimentos.

Um encontro interior. Encontre-se, busque-se, e depois, compartilhe essa vivência que você teve consigo mesmo. Olhe ao redor e veja se mais alguém precisa "se achar", e estenda-lhe a mão. Por mais profundo que seja o buraco, a mão é mágica. Ela alcançará quem estiver lá embaixo. Então, se esse alguém aceitar, ele dará um jeito de segurar e se apoiar em sua mão.

No entanto, faça isso sem pretensões. Não tente ajudar agora para lucrar depois, pois somente um ato desprovido de ganância ou egoísmo é que será, efetivamente, bem visto. E não se preocupe, pois a recompensa vem justamente dessa ausência de pretensões. Você não ficará mais pobre por ajudar, ou por ouvir alguém. Você não perderá sua inteligência ao compartilhar um pouco de sabedoria. Você não perderá “status” algum por praticar um ato anônimo. Você ganhará, e muito. Ganhará gratidão. E se isso não te bastar, então lamento. Quem precisa de um encontro interior é você.

Eu me busco faz muito tempo. Ainda não me encontrei por completo, mas um par de mãos tem me ajudado muito. São mãos pequenas, mesmo ela sendo adulta, e extremamente macias e delicadas. Ela até reclama, me dizendo por vezes que suas mãos demoram para aquecer. Mas mal sabe ela o quanto as “mãozinhas” dela são quentes e aquecem meu coração.

Nomes não são necessários, pois o ato é quase anônimo. Ela jamais faria qualquer coisa na intenção de se prevalecer, de se mostrar capaz, ou ainda de querer ser melhor que outros. Ela só quis ganhar o mesmo que me dá. Carinho, companheirismo, colo, alguns sorrisos, afago... ganho tanto e nem sei se retribuo à altura.

image by Google
Hoje é sábado, meu dia preferido na semana. Não é feriado, é um dia comum quase no meio do ano, e o tempo não está nem quente nem frio. Mas é justamente num dia assim, comum, que gosto de mudar as regras e comemorar. Já passa de dois anos e meio que te conheço, menina. Nesse tempo nós sorrimos um tanto, choramos outro tanto, passeamos, demos as mãos, brincamos, brigamos, nos levantamos um ao outro em situações até certo ponto críticas, mas nunca deixamos de fazer crescer essa coisa gostosa que brota de nossa amizade. Existe em mim um orgulho enorme em ter você ao meu lado, e principalmente de poder te chamar de “meu dengo”, de “minha pentelha” e de “minha traquina”.

Sou um fã de tuas letras, de tuas palavras e atos. Te admiro pelo que você é, mas sei que você será ainda mais, pois sei de tua capacidade e de tua competência. Só não descobri ainda o tamanho desse teu coração, pois o carinho que vem dele não tem limites. Essa tua aura tem o poder de me acalmar, de me fazer sentir paz.


E assim, me procurei em mim mesmo. Quando me achei, dentro do meu próprio coração, encontrei você por lá, sentadinha e me esperando para dois dedos de prosa. Que bom que você estava lá.


Marcio JR
(Marcio Rutes)


sexta-feira, 17 de maio de 2013

NAS MÃOS, ALGUMAS FOLHAS E FLORES DE LAVANDA

Image by Google
Longo foi o caminho até aquele gramado. Talvez uma vida inteira. Mas ainda mais logo foi o percurso para que ele soubesse dele próprio o que esperava encontrar ali naquele jardim.

A primeira constatação era a de que não se tratava de um jardim, mas sim um misto entre árvores, flores, ervas aromáticas, plantas medicinais e comestíveis. Um quintal? No entanto, isso pouco importava. O que valia aos olhos era o gramado e quem estava ali repousando.

Os olhos, deitados para o infinito, eram calmos e acalentavam os versos de uma música ainda sem tons ou notas. As mãos, que ao contrário dos olhos se mostravam um tanto impacientes, buscavam proteção junto ao corpo e rebatiam o ar gelado da tarde. O sol pálido não era o suficiente para aquentar-lhe os dedos, mas ela gostava de ficar ali. A pele alva, avermelhada pelo gris que se instalava lentamente, dava um tom pueril àquela moça, como se fosse uma colegial que voltava correndo para casa, unicamente para se dedicar aos seus gibis ou algo assim, e com isso arfava e enrubescia a pele. E quer saber? Vê-la ali, para ele, era como materializar os sonhos de toda uma existência.

A tarde cedeu lugar à boca da noite, e com isso ela se recolheu para o quarto. Lá de baixo ele observava a janela, ou a réstia de luz que escapava por ela, e assim via sombras da moça se deslocando pelo cômodo. Por instantes ela veio até a sacada, e ficou ali por alguns segundos. Ele reparou o pijama que ela trajava, algo simples e num tom arroxeado, mas que lhe caia muito bem. A face, um tanto tristonha, ancorava uma beleza que só era roubada pelo detalhe dos cabelos repuxados para trás da orelha. E ele se deixou levitar pelo brilho que irradiava daquela sacada.

Ao se dar conta, ele estava diante dela, sendo arrastado por uma força desmedida e que o arrebatava. Não entendia como ela poderia estar nele, completa, sem ao menos conhecê-la de outros tempos. E assim, ele subiu para o segundo andar daquele olhar, e lá ficou.

Ela fechou a janela, deixando-o sem ao menos vê-lo. Mas sequer conseguiria, pois era o sonho dele, e não o dela. Alguns minutos depois, ela adormecia tranquila e com um leve e tímido sorriso, despontado no canto de sua boca. E sonhou também, transportando-se para o mesmo gramado em que ela passara a tarde. Lá no gramado, daquilo que não era quintal ou jardim, ela viu um rapaz olhando uma moça, ou melhor, ela viu um rapaz olhando para ela mesma, sentada serenamente na grama, sob o sol da tarde.

flor de lavanda - image by Google
Na manhã seguinte, logo ao fim da madrugada, o telefone toca e ele atende, já sabendo quem estava do outro lado da linha mesmo sem verificar o número. Era ela, ávida para contar do sonho que tivera. Ele apenas sorriu, e também relatou seu sonho, onde pode vê-la naquele gramado.

Sonho? Quem sabe algum dia alguém explique de onde ele buscava aquele perfume de lavanda que sempre amanhecia em suas mãos, logo após acordar de seus sonhos. Ela? Sempre antes de adormecer, ela segurava nas mãos algumas folhas e flores de lavanda.

Para alguns, possivelmente uma mera coincidência. Para outros, talvez um encontro de almas. Para eles, era uma junção de vidas e auras, num re-encontro de uma amizade selada pelo tempo e pelo vento. Um re-encontro de um sentimento que jamais será separado, seja por forças naturais ou não. Amizade eterna não se rende ao destino, jamais.


Marcio JR
(Marcio Rutes)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

DOS TONS DE TUAS NOTAS

image by Google


Não da palavra,
mas sim da letra que te compõe.
Foi escrita como uma melodia,
como uma cantiga de acordar,
como versos de embalar a alma
e acalentar a saudade.
É assim que Deus te compôs,
rimada com o vento
numa escala sempre de um sol maior.
Os acordes da canção dançam por teu corpo,
te escorrem livremente da boca para as mãos,
encaixando-se não nos ouvidos de quem te escuta,
mas diretamente na vereda que se abre nos olhos.
image by Google
O concerto é dado pela orquestra de cordas afinadas
todas raiadas por teus cabelos soltos.
O solo, sustenido pelo vocal alerta de um passarinho,
faz dueto perfeito em teu colo reconfortante.
Então, um tanto adiante, que se adiante a fala,
aquela minha, numa súplica de um bis.
Sonoro, retalho meu pedido, aplaudo, saúdo,
e concluo entre arrebatado e encantado:
tua letra, a da tua vida, é uma trilha ainda inacabada,
lançada ao tempo e sendo escrita em capela,
aquela mesma que se encaixa com a nota mais bela,
essa mesma que sempre me vem nas lembranças,
quando da janela me invade a saudade.
Te concluir, jamais.
Teu show apenas começou,
e a música mais bela ainda está por ser escrita.



Marcio JR
(Marcio Rutes)



sexta-feira, 8 de março de 2013

ENTRE ODORES

image by Google


Foi um mero instante,
devaneio de um querer, 
de um saber morno e irrequieto, 
no colo de mulher. 

Dos olhos aos pés, 
na pele alva e macia, reluzente, 
quente, tanto que fustiga a razão. 

E na emoção, pra que razão? 
O desejo está vencido, 
vendido aos joelhos dobrados, 
que diante de suas pernas instigantes, 
só o que faz é extravasar. 

Mãos correm em sentidos opostos, 
contrapostos a todo o normal. 
Mãos que se aliam, 
mesmo diante de todas as incertezas. 
Mãos que se completam, 
que brigam e reconciliam. 
Mãos que andam juntas. 

Corpos que se fundem, 
que gozam profundamente 
as razões para viver. 

Um sem o outro? 
--seria pimenta sem ardido, 
--ou amor sem gemido, 
--ou ainda um corpo sem vida. 

Mas que se diga, 
e que se aceite de uma vez, 
é bela, é única, paralela que anda sempre adiante, 
radiante, estonteante, insinuante, carente, latente... 
...sempre presente. 

Ela, sempre mulher.


Marcio JR
(Marcio Rutes)


domingo, 10 de fevereiro de 2013

QUANDO O FRIO CHEGAR



Quando o frio e a neve congelaram as águas,
me senti só, desolado.
A cascata virou pedra,
tornando tudo um deserto gelado.
Teu rosto alvo e lindo veio a mim, 
e com um cinzel te deixei ali,
esculpida na rigidez daquela água endurecida.
Por alguns dias, lá estava você,
não com a delicadeza e beleza que possui, 
mas perto, mesmo que imóvel, 
naquele alpendre. 

A varanda te protegia da chuva, 
e eu te olhava, também imóvel. 
O tempo,
contraditório ao que queremos, 
trouxe o sol, e com ele, você derreteu. 
As gotas escorriam cada vez mais rápidas, 
até que restou pouco de você. 
As mãos, braços, o rosto liso e sereno, 
tudo virava água novamente. 
Pareciam lágrimas de quem não quer ir. 
E não se foi. 
Quando as últimas gotas,
justamente as dos lábios e olhos, 
terminaram de pingar, 
notei o chão umedecido e vertendo brotos. 

Você não estava indo, 
mas sim se plantando de vez. 
Hoje, onde um dia existiu uma escultura gelada, 
brota um belo jardim,
tanto regado por tua essência cristalina, 
quanto semeado pela pureza de tua alma.




Marcio JR


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sem DÓ e sem SOL em SI




Sequer aquela música velha fez sentido.

As notas, de um dó só
arderam aos ouvidos.
As cordas do violão estavam podres,
impróprias para aguentar o peso de um adulto.
A melodia, num dia carinhosa,
no outro era pura distorção.

Assim, quebrou-se o violão,
a música perdeu o tom,
e o que foi composto para uma sinfonia,
esvaziou, secou,
entonando uma nota de agonia.

Marcio JR

sábado, 11 de junho de 2011

ENAMORADOS

image by Google
Eu estava ali, naquele corredor. Engraçado que ainda sentia o perfume dela, que há tanto tempo ela usa, mas que eu nunca quis que fosse outro. O toque de suas mãos ainda se fazia presente em minha pele quando, em minhas lembranças, ela passou por mim e me pediu, com aquele sorriso lindo, que a ajudasse com alguma coisa. Só não pergunte o que ela pediu, pois aquela voz me inebriou e hipnotizou. Eu sorri e disse que sim, ou nem sei, mas respondi e me perdi, pois o que eu mais queria naquele instante, era só um beijo.

Musica: Do That To Me One More Time - Captain & Tenille  //  by YouTube

Andei um pouco mais e olhei as paredes. Cada pedacinho daquela casa tinha algo dela, uma arrumação, um detalhe que foi trocado, modificado, que foi construído pela genialidade sempre guardiã que ela carrega. Na mesa, alguns restos da decoração do Natal, que possivelmente iria para alguma caixa no guarda-roupa, mas que ficou ali, talvez para me lembrar daquela comemoração que até pouco tempo, eu não soubera dar valor. As cadeiras, o tapete, os copos todos alinhados na bandeja, tudo ali era ela. Deus, como viver sem ela?

A escada que levava para o segundo andar estava diante de meus olhos. Tantas vezes ela pulou do segundo degrau diretamente para os meus braços, e isso em tão pouco tempo que convivemos. Sentia aquele cabelo negro e macio passar pelo meu rosto, enquanto ela encostava o peito dela ao meu, e esfregava em mim o pequeno nariz, como quem pedia carinho, mas não um carinho qualquer. Ela queria estripulias, e eu adorava. Saíamos girando, rodando, e se quebrássemos copos ou cristais, não havia nada demais. O que importava, era estarmos ali, naquela cumplicidade maravilhosa, naquele encontro promovido pelo destino e abençoado pelos anjos que passaram por nós no momento de nossa junção astral.

Olhei para trás e apaguei a luz. Viver do passado era bom, pois nele eu tive momentos únicos. Subi cada degrau acarpetado, procurando pisar exatamente onde ela pisava. Sim, eu sei até onde aqueles pequenos pés pisavam a escada. Ela deixava um pedaço do calcanhar para fora, e tantas vezes eu a corrigi, temendo por uma queda. E hoje, eu faço a mesma coisa. No andar de cima, mais lembranças, e em cada cômodo, uma peça de roupa dela para me lembrar da magia dos detalhes. O roupão de banho, o pijama, o gorro para o frio, as pantufas do Frajola. Olhei um por um, e senti o perfume deixado por ela naquelas roupas.

Enfim, o caminho do quarto. Abri lentamente a porta e sentei na cama. Durante anos, muitos, procurei por alguém como ela, que me completou em minha própria essência. E ela estava ali, dormindo serenamente em minha cama, minha esposa, alguém que sofreu muito durante vários anos, mas que estava ali, coberta pelos mesmos cobertores que eu. Sua face mostrava um leve sorriso, e de seu semblante, brotava uma paz profunda. Num leve suspiro, ela se virou para mim e resmungou algo, talvez motivada por algum sonho.

image by Google
Passei a mão em seu rosto e senti seu calor. Tão pura, e quem sabe fosse agora que eu devesse dizer “tão minha”, mas não direi isso, pois o que mais tentei ensinar para ela, é que ela pertence a ela própria, somente a ela e a mais ninguém. Ela anda ao meu lado. Nem atrás e nem adiante, sempre ao meu lado. Deitei ali e puxei o cobertor até nos cobrir quase por inteiro, pois sabia que outra manhã logo nasceria, e começaríamos mais um dia de felicidades. Ela logo se aninhou em meus braços, e meu corpo a acolheu exatamente como meu coração faz a cada momento, ela estando perto ou não.

Adormeci certo de que sonharia com ela, mas seria difícil ter um sonho mais belo do que essa realidade em que estou vivendo. A felicidade pode, claro, ser feita de momentos, mas nada melhor do que viver cada um deles de uma forma intensa e única, fazendo com que cada dia seja um eterno “dia dos namorados”.

Marcio JR