domingo, 13 de agosto de 2023

TEMPOS MODERNOS – CHOQUE CULTURAL

 

São Paulo/Capital - imagem coletada no Google
―Mas, pai! Eles precisam ficar, necessariamente, aqui em casa?

―E que mal há nisso, Helô? ―o pai retrucou, armando uma expressão de espanto. ―Nosso apartamento é enorme, com quartos sobrando, e eles ficarão apenas uma semana.

―Afinal, por que essa visita assim, tão repentina?

―O primo está procurando propriedades por aqui para investir o dinheiro dele, que não é pouco. É claro que eu quero faturar alguma coisa com isso, pois sou corretor, e um dinheiro a mais é sempre bom. Não custa nada mimá-los um pouco. Sem contar que eles são do interior e raramente viajam para grandes centros. Ficariam perdidos numa metrópole como São Paulo, e poderiam até cair nas tramoias dos pilantras que existem por aqui e que estão apenas esperando por vítimas fáceis.

―Eles cheiram a bosta de vaca, papai! E tem mais. Como fica nossa privacidade?

―Pode parar com essas atitudes e com esse pensamento preconceituoso, filha! Eles são do interior sim, mas não são Neandertais. A educação deles é outra, claro, com valores diferentes dos nossos. O que você julga importante, para eles pode não ter serventia alguma. A cultura deles é outra também, mas isso é bom. Vejo pelo lado positivo. Você poderá levar seus primos para passear num shopping. Tenho certeza de que eles nunca entraram em nenhum. Você poderá apresentá-los para seus amigos...

­―O queeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeê? Never, dad! Never! Como vou apresentar eles para meus amigos? Vai ser um mico só! Imagine eu falando “esses são meus primos Cajuíno, Perestróica e Solstício”. Tem dó, papai! Isso lá é nome de gente?

―Equinócio, filha! O nome do seu primo é Equinócio, e não solstício! ―o pai desanimou, baixando os ombros. ―Sei que são nomes, digamos, diferentes, mas isso não é problema nosso, não é? Cabe a nós tratá-los com respeito e educação, independente de como são seus nomes.

―Mas, pai... Perestróica? De onde seus primos acharam esses nomes? Equinócio? Cajuíno? Se esses são os nomes dos filhos, imagina o nome que eles dão para os animais de estimação!

―Isso vai ser mais difícil do que eu imaginei. Deus meu, dai-me paciência.

Repentinamente, pai e filha notaram a presença de mais alguém na sala, que passou por eles e se jogou no sofá para poder esticar as pernas. Os dois cruzaram o olhar e permaneceram algum tempo calados, até que aquele novo personagem tomou a palavra.

―O que foi, sogrão? Fiz algo errado? E você, meu amorzim? Por que levantou tão cedo hoje? Não quis ficar mais um tempinho nos braços da tua “momôzinha”? Aliás, Helô, quero que você vá comigo lá naquele tatuador da Praça da República. Ele recebeu uns piercings da hora, meu amor. To pensando num de seio pra você e num vaginal pra mim. Putz, vai ser dá hora! Que tú acha, sogrão? Fala aí, véi (velho)!

Pai e filha se olharam novamente e suspiraram. A filha arregalou os olhos e mirou o pai, como se questionasse algo, e sem ter o que fazer, o pai desanimou de vez.

―É! Acho que você tem razão, Helô! Não será uma semana fácil.

Léo, o pai de Helô, reconsiderou o convite que havia feito ao primo, e tratou de tentar remediar aquela situação desconfortável em que se metera. Telefonou para o primo no mesmo dia, mas foi em vão. Inventou uma história qualquer, porém, notou que o primo não estava compreendendo o motivo, e optou por deixar que o destino seguisse seu curso. Além do que, as perspectivas de uma boa comissão com a indicação de imóveis para o parente serviriam para consertar tudo após o vendaval que se moldava para a semana. Então, que viessem o primo e sua família.

E o dia chegou. Chegou até antes do que o previsto.

Léo abriu a porta do apartamento e viu sua filha ao celular, com aspecto de preocupação. Esperou que ela desligasse o aparelho e foi até ela, questionando-a.

―O que foi, minha filha?

―O que foi? Eu digo o que foi! Aconteceu que seus primos, por um erro de data ou sabe-se lá por que, resolveram chegar um dia antes. Ligaram pra cá, e você não estava. Os empregados tentaram te localizar, mas teu celular da Vivo tava tão morto que não deu pra dar sequer um Oi, é Claro! Eu tava na faculdade, sem poder dar atenção. Então, a momô resolveu ir buscá-los! Foi isso que aconteceu!

―O quê? ―o pai esmoreceu, deixando o corpo cair no sofá. ―A Necona foi buscar os primos? Danou-se!

―Paieeeeeeeeeeê! Quer parar de chamar minha namorada de Necona! Neca. Chama ela de Neca. Mas o pior é que o senhor tá certo! Danou-se!

Tanto Léo quanto sua filha ficaram apreensivos. Neca sequer conhecia os parentes da família que estavam chegando, e diante da criação interiorana a que eles foram submetidos por uma vida inteira, era quase óbvio que um choque cultural catastrófico estava para acontecer, principalmente pelo modo muito extrovertido com o qual Neca tratava as pessoas.

As tentativas de contato por telefone entre Helô e Neca foram muitas, mas não surtiram efeito. As horas passavam e, assim, aumentava ainda mais a tensão sentida por pai e filha. Até que, sem aguentar mais a espera, Léo tomou uma decisão.

―Não aguento mais essa demora. Vou atrás deles.

―Mas, pai! E aonde você vai procurá-los?

Helô interrompeu bruscamente o que falava e olhou para a porta. Um barulho de chaves, seguido de algumas gargalhadas do lado de fora do apartamento, fez com que pai e filha se entreolhassem. E não demorou para que Neca e os primos de Léo entrassem, com todos na maior alegria.

Sem entender o que estava acontecendo, Helô questionou ao pai apenas com um olhar, o qual foi retribuído com um questionamento de olhos ainda mais arregalados.

―Primo Oscar... que bom vê-lo! ―Léo levantou a mão para um cumprimento, meio sem saber o que dizer. ―Que bom que vocês chegaram bem... e inteiros!

―Ara, sô! ―Oscar olhou com certo espanto para Léo. ―E prú quê havéra di nóis num chegá intêro? A tar da Canecona aí é boa de boléia. Sem contá que cos desvio que ela feiz, já conhecêmo metade da cidade.

―Canecona? ―agora era a vez de Helô arregalar os olhos, assustada. ―Que Canecona?

―Ué! Essa... esse... essa... ―Oscar começou a responder, mas ficou em dúvida sobre como definir ou se dirigir a Neca. ―Cumé que te chamo, Canecona? De sinhô ou de sinhá?

―Véi, na boa? ―Neca respondeu, se jogando no sofá. ―Lá no interior vocês chamam como? Se eu não me sentir desrespeitada, pode me chamar como você quiser.

―Intão tá bão! ―Oscar retomou a palavra. ―Foi essa moça que oceis mandáro pra modo de buscar nóis no aeroporto que falô ansim. Ela se apresentô como Manuela, mas disse pra chamar de Caneca ou Canecona. Modéstia parte, gosto de coisa grande, intão, chamo de Canecona.

―Ai, Deus! Me dá uma canecona de paciência. ―Helô olhou para o alto, suplicando.

Ao olhar novamente para a namorada, Helô viu que ela se divertia com a situação, e a reprovou imediatamente, mordendo os lábios inferiores. Neca sabia que a namorada, ao fazer tal coisa, tentava demonstrar irritação, mas pouco ligou e continuou rindo com tudo aquilo que ouvia.

Alguns minutos foram necessários para que os cumprimentos e apresentações fossem feitos e, em seguida, cada um foi levado para um quarto. O apartamento era enorme, e depois de todos acomodados, Léo chamou o primo para um canto, ainda mostrando preocupação.

―Está tudo bem, Oscar? A Neca não assustou vocês?

fogão a lenha - imagem coletada no Google
―Óia, primo! Nóis é do interior, mais ao contrário do que oceis aqui da capitar pensa, nóis não é burro não. Diz pra mim! Ocê acha que lá donde nóis veio num tem gay? E tem mais. Nóis tem tevelisão. Nóis tem computador. Nóis tem tabléte. Nóis tem Iphone e aipim. Nóis já viajô pra muita cidade maior du que São Paulo. E essa tar de homossechualidade não é segredo pra nóis não. Intão, sê ocê pensa que nóis ia tratar mal só porque ela é ansim, julgou tudo errado. É mior ocê rever esses conceito teu sobre nóis lá da roça.

―É... bom... quer dizer... nem sei o que pensar!

Léo empalideceu. Jamais pensou escutar tudo aquilo do primo. Naquele instante, percebeu que, mesmo sendo alguém com excelente formação e com mente aberta para muita coisa, ainda empregava certo preconceito com relação a alguns assuntos até triviais. Desculpou-se e tentou retomar a conversa.

―Que bom que vocês se deram bem. Mas, me diga! E o que você achou do que viu nesse passeio que a Neca proporcionou?

―Ah! Mais é muito carro e ônibus pra tudo lado. Num vi um pé de gaviróva nos quintar. Num vi um passarinho que não fosse urubú avoando. É muita gente apressada. Inté tá parecendo quando eu e a Aleluia tivêmo em Nova Iorque, lá nos estêites.

―Vocês foram para Nova Iorque? Tá brincando comigo!

―Ara! Mais e não? Nóis, na verdade, só dêmo uma passadinha por lá, pois a gente tava indo pra Canecaticute. Nóis queria ver um leilão numa feira de maquinário que ia ter lá. E como tinha tempo de sobra, dêmo uma paradinha na tar Nova Iorque.

―Caneca... o quê? ―Léo esboçou um sorriso. ―Não seria Connecticut?

―E não foi o que falei? Canecaticute. Mais lá é frio por dimais da conta. Meus pé gelaram na butina. E falano nisso, primo. Num tem um móia-guela pra me oferecer?

―Móia-guela? Que diabos seria um “móia-guela”, primo?

―Uma purinha. Oceis num tóma nada pra arrefestelá antes das refeição?

―Ahhh! Uma cachacinha? É claro. Venha. Vamos lá para a sala de refeições. O jantar já deve estar quase pronto. Assim, podemos conversar melhor à mesa.

E assim, aquela primeira noite passou, sem maiores alardes. Após o jantar, todos se recolheram, e no dia seguinte, já cedo, Léo tratou de mostrar alguns imóveis para o primo.

Tudo parecia correr bem, com Oscar se mostrando muito interessado pelo potencial empresarial da cidade. Não gostava muito do movimento intenso que via pelas ruas do centro, mas seu tino comercial indicava boas possibilidades de lucro nos imóveis que Léo havia selecionado.

O dia passou rápido, até que no fim da tarde, os dois retornaram para o apartamento de Léo. Lá, uma surpresa. Aleluia, esposa de Oscar, assumira o comando da cozinha, e estava preparando o jantar.

―Ora, pai. E eu ia fazer o que? Ela insistiu, dizendo que queria ser útil. O pior é que a Neca ficou colocando pilha. Até levou a dona Aleluia ao mercado. Agora, deu nisso.

―Tenta ficar tranquila, filha. O primo ficou muito interessado em quatro imóveis. Vou tentar apressar o máximo que eu puder toda essa transação. Por isso eu te rogo. Não vai querer surtar!

―Não? E se eu te contar que a Neca tá arrastando a asa pra cima da Perestróica?

―Não entendi. Me explica isso, Helô!

―É bem isso que você escutou, papai! Eu conheço bem o olhar safado da Neca. Foi com esse mesmo olhar que ela me conquistou. Tenho certeza de que a Neca tá interessada na perestróica da Perestróica.

―O queeeeeeee? Do que você tá falando, filha? Perestróica da Perestróica? Dá pra falar a minha língua?

―Ah! Deixa pra lá. O senhor só tá interessado é no dinheiro do seu primo. No mais, quer é ver o circo pegar fogo, que eu sei!

Helô cerrou os olhos e deu as costas para o pai, saindo em seguida para o corredor. Léo, ainda sem entender, foi atrás dela, mas parou assim que passou pela sala. Lá, em uma conversa muito animada, estavam Oscar, Neca, Cajuíno, Equinócio e, claro, Perestróica.

―Se acomode cum a gente, primo. A Canecona tá fazeno nóis quase se mijar de rir.

―Claro, primo. Claro. Mas, do que vocês estão falando, afinal?

―Óia, primo! Fiquei surpreso! Num é que a Canecona também é chegada num butiá!

―Me dá água na boca só de pensar num butiá bem rechonchudo, sogrão!

―O queeeeeeeeeeee? ―Léo estava sentando quando foi surpreendido pelos comentários de Oscar e Neca. ―Como assim? Butiá de quem? E como você pode gostar do butiá de alguém, Neca, se você não tem... é... não tem pint... ―ele calou por instantes, tentando medir as palavras que estavam a beira de pular de sua boca. ―Ah! Você sabe o que eu estou tentando dizer! E essas intimidades não são assunto pra se discutir assim, diante dos filhos do primo, não é?

―Uai? Vai me dizer que ocê num é chegado em comer um butiá, primo? Eu sempre digo e arrepito. Foi o butiá da minha mulher que deu a riqueza que nóis tem. Se não fosse pelo butiá de Aleluia, nóis tava capinando roça seca inté os primórdio do dia de hoje! Aleluia!

―Aleluia! Aleluia! ―Neca e os filhos de Oscar gritaram em coro, seguindo o agradecimento de Oscar.

―Chamaram ieu? ―Aleluia veio até a porta da sala, mas logo viu que o grito de “aleluia” fora em outro sentindo. ―Oxe. Ocêis inda vão gastá meu nome. Vô vortá lá pras panela, isso sim!

―Primo, mas que falta de educação é essa? Falar desse modo grosseiro de Aleluia?

Léo parecia aturdido. Não sabia como se comportar diante daquilo que Oscar falava, ou melhor, daquilo que ele achava que tinha escutado, pois pensava, nitidamente, que o assunto havia tomado ares chulos ou obscenamente pornográficos.

―Ara, primo. Que é isso? Num to sendo grossero coisa nenhuma. Aleluia tá lá na cozinha. Falo dela sempre com respeito e admiração. Ocê é que parece num gostar muito de butiá. Se é que já comeu arguma veiz um bão dum butiá bem do maduro e vertendo caldinho. Intão, se é ansim, dâmo um jeito rapidinho. Quer comer o butiá da Aleluia?

A face de Léo enrubesceu, e ele, mesmo com a boca aberta, pouco conseguia falar. Balbuciava algo, mas seus pensamentos estavam completamente perdidos.

―Não acredito no que estou ouvindo! ―Léo finalmente comentou, tentando ordenar seu raciocínio. ― Que pouca vergonha é essa? Você sai por aí, oferecendo o butiá de sua mulher assim, sem um pingo de compostura? Que descaramento é esse?

―Não, primo! Não é “compostura” que fala. Nóis faiz em compota. Compotaaaa. E eu ofereço mesmo. Mais ela não dá pra quarquer um não. Prá maioria nóis vende. Sinão, como nóis ia ganhar dinheiro? Minha mulher vende o butiá dela, e junto, vai o leite da Perestróica.

Numa poltrona ao lado, Neca ria desmedidamente. Ela sabia que Oscar estava falando do fruto do butiazeiro, que é uma palmeira muito conhecida, e não daquele “butiá” que Léo estava imaginando.

―Cajuíno, moleque da moléstia! Vá lá com sua mãe e traga o butiá dela pro primo dar uma provada.

―Pode parar! Isso já está passando dos limites! ―Léo tentou argumentar, quase desesperado.

Cacho de Butiá - imagem coletada no Google
Cajuíno saiu da sala, mas voltou rapidamente. Trazia nas mãos alguns frutos pequenos e arredondados, completamente alaranjados. Léo, quando viu aquilo, corou de vergonha.

―Então... esse é o butiá de Aleluia?

―Ara! E quar butiá o primo tava pensando que era? ―Oscar arregalou os olhos e deu uma gargalhada. ―Nóis vive da prantação das parmera de butiá. É lógico que agora nóis tem fazenda de gado, fazenda de prantação de soja, e umas par de otras fazenda, que nem me alembro dereito quantas são. Mais nóis comecêmo ganhá dinheiro com o butiá das terra seca da herança da Aleluia, e mais adespois cás vaquinha de leite que comprêmo pra Perestróica. Pensei que o primo já era sabedor dessas coisas!

Neca continuava rindo sem parar. Léo olhava incrédulo para o primo, e com muita vergonha, colocou um daqueles frutos na boca, mordendo e chupando em seguida. Sua tensão era tanta, que sequer reparou no caroço que o fruto possuía, como se fosse um coco em miniatura, e engoliu tudo, quase se engasgando.

­―Eita, sogrão! ―Neca foi até ele, em socorro, e deu alguns tapas em suas costas, até que ele pareceu engolir aquilo. ―Entrar, o caroço entrou! Agora, quero ver sair!

Pouco depois, com os ânimos e risadas mais calmos, Aleluia chamou para o jantar. E foi nessa hora, com todos à mesa, que o assunto anterior ganhou proporções maiores. Mais precisamente no que dizia respeito ao caroço do butiá que Léo engolira.

―Parece piada, papai! ―Helô comentou, soltando um sorriso. ―Até eu sei que o tal butiá tem caroço. E agora?

―Já falei isso pra ele, momô! ―Neca esticou um olhar irônico para o lado de Léo e, sem dó, soltou um comentário sarcástico. ―Entrar, entrou. Sair é outra história. Pior é que pato não peida. Senão, até saia fácil.

―Como é? ―Léo quase se engasgou novamente com um pedaço de carne que levara à boca.

―Eu adiscordo! ―Oscar arrematou taxativo, olhando para Neca. ―Pato peida sim! Purque num havéra de peidar? Num é, Aleluia?

―Acho que não, meu véio. Num alembro de ter escuitado ninhum pato peidá inté hoje.

―Mais como é que não, Aleluia? E o Qüenca? Vivia peidando pra tudo lado! Era o Equinócio chegar perto, o Qüenca saia correno e se encostava na parede, peidando feito um louco.

―Ara, paiê! Num fica falano minhas intimidade. Mi deu inté vregonha agora! ―Equinócio, que sentara ao lado de Neca, baixou a cabeça, completamente corado.

―Gente, que é isso? ―Léo tentou retomar a palavra. ―Vocês estão malucos? Isso aqui é uma refeição! Merece respeito.

―Oxe, primo! Mais quem é que tá desrespeitano? Só constestei a Canecona. Ela é quem falô que pato não peida. Eu afirmo que o pato lá do Equinócio, o Qüenca, peida sim! Peida e depois se borra todo!

―Mas isso não é conversa que se tenha numa refeição! E além do que, não se fala que alguém “peida”! Se for necessário fazer menção a isso, então diga que alguém “flatula”.

―Óie, ocê tá doidinho, primo! Pato não flutua. No máximo, ele pode avoar, mas não flutuar. Só se for na água, daí sim. Acho que essa tar de tevelisão tá te fazendo mar pros noronho.

―É isso mesmo, sogrão! ―Neca, rindo novamente, continuou provocando. ―Tudo começou com você engolindo alguma coisa maior do que o buraco de saída que você tem. Agora, aguenta, véi!

imagem coletada no Google
―Isso tudo já tá passando dos limites do razoável! Vamos mudar de assunto? Vocês se importam?

―Arre! Intão tá! Vamos comer em silêncio. ―Oscar determinou, meio sem entender as atitudes de Léo. ―Mas intão me diga, primo! Tá boa a bóia da Aleluia?

―Ah! Sim. Quanto a isso, não há duvida! Uma delícia. Gostinho de comida do interior, com um sabor sem igual. Diferente de tudo o que temos por aqui. E por falar nisso, Aleluia, o que é essa carne ensopada que você preparou? Está sensacional!

―Óie, primo. Num achei os grediente que to acostumada, mais a Canecona me deu uma ajuda lá no açougue.

Léo abriu um sorriso mas, ao olhar para Neca, cerrou os lábios. No prato da moça não havia nada além de algumas folhas de alface e um pouco de arroz. E isso fez com que uma ponta de desconfiança brotasse instantaneamente, tanto em Léo quanto em Helô.

―É...! Do que, necessariamente, é feito esse seu ensopado, dona Aleluia? ―Helô perguntou, temendo pela resposta.

―Nada de muito especiar. Nóis dêmo foi é muita sorte de encontrar uns bago de boi da miór qualidade.  Nunca vi lá no sítio argum touro com bola tão grande ansim. E pra completar e dar sabor, um bucho de porco e bastante banha que eu merma derreti dos toicinho que troxêmo lá do sítio.

―Ai!

Esse “ai”, dito em conjunto por pai e filha, foi a única coisa ouvida por todos antes que ambos saíssem correndo para o banheiro. Oscar e Aleluia, sem entender, olharam para Neca e viram a moça balançar a cabeça e sorrir fartamente.

―Hehe! Bom, agora eu imagino que ele vai descobrir se pato peida ou não. ―Neca comentou e, em seguida, elevou o tom de voz, para ser ouvida por todos que estavam naquele apartamento. ― Força no butiááááááá, sogrão!


Marcio Rutes



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segunda-feira, 7 de agosto de 2023

DORINHA E O GATO DE BOTAS

 série RECONTANDO UM CONTO

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image by Google
Dorinha e seu cachorro, Jujubão, cresceram felizes dentro de uma família amorosa e muito gentil. Quando ela completou três anos de idade, a família mudou para uma cidade menor, com muito verde e espaço para as mais variadas brincadeiras, e por lá, os anos passaram, com os dias repletos de sorrisos e traquinagens.

No entanto, a hora do dia que Dorinha mais gostava era justamente a de dormir. Seu pai já subia para o quarto com um grosso livro de fábulas, e se colocava a ler até que a menina adormecesse. Todavia, se o pai ficasse observando alguns instantes, veria que ela estava apenas fingindo, somente esperando o pai sair do quarto para, em um passe de mágica e com aquele pó de estrelas que ela carregava em si, transportar a ela e seu cão para o mundo dos sonhos, o Mundo Mágico que somente ela tinha acesso.

Essas fábulas que o pai lia a cada noite, todas clássicas, encantavam nossa pequena protagonista, e ela conhecia a quase todas. Algumas, porém, deixavam-na com a pulga atrás da orelha, e ela, dentro de uma perspicácia fora do comum, indagava e argumentava com o pai. Eram coisas que ela não conseguia concordar, e dava um trabalho enorme ao pai, pois mesmo que ele tentasse explicar que os tempos são outros, ela teimava em não aceitar.

E assim, em uma determinada noite, começou uma discussão entre os dois, mais ou menos assim:


DORINHA E O GATO DE BOTAS


―Mas, papai! Por que ele comeu o rato? Eu gosto do Ogro, e o gato transformou ele num ratinho e comeu ele sem dó!

―Filhinha, o Gato de Botas precisava enganar o Ogro, e fez ele se transformar em rato para ajeitar tudo. Senão, o Gato de Botas não poderia ficar com o castelo do Ogro e fazer o rei pensar que o rapaz era o Marquês de Carabás.

―Mas... mas... mas... ele enganou o Ogro, papi. Por que ele fez isso? E por que ele mentiu para o rei também?

―É somente um conto de fadas, minha querida. Agora dorme, tá bom? Amanhã o papai conta outra história pra você.

Dorinha não parecia nada satisfeita com aquela história que seu pai acabara de contar. Tanto que, após ganhar seu tão esperado beijo de boa noite e ver o pai ir para outro canto da casa, ela saiu na ponta dos pés e abriu silenciosamente a porta do quarto. E como de costume, Jujubão estava lá, abanando o rabo e esperando para mergulhar no mundo dos sonhos de sua pequena dona.

―Vem, Jú! Temos que acertar contas com um gato danado!

O cachorro entrou e logo se ajeitou no tapete. Com o focinho colado ao chão, ele viu a menina pular para a cama e se cobrir toda, apressadamente. Ela ficou somente com o rosto para fora das cobertas, olhando o cachorro, mas logo adormeceu. Aquele era, literalmente, um instante mágico, pois logo em seguida algo também tomava seu mascote, e do nada, ele adormecia profundamente. E se ambos pudessem ver o que acontecia naquele instante, ficariam maravilhados. Era como se uma luz intensa se desprendesse de seus corpos, flutuando para a janela e se perdendo para o horizonte. Assim, Dorinha e Jujubão partiam a cada noite para o mundo mágico dos sonhos da menina.

Estranhamente, Dorinha não estava calma ao chegar ao mundo mágico. Ela, que sempre ia até lá para brincar e aprontar suas artes, desta vez parecia aflita. Tanto que sequer procurou pela girafa, que ao vê-la, já veio oferecendo seu pescoço para servir-lhe de escorregador.

―Depois brincamos, menina. Agora, preciso encontrar um certo gato sapeca. Vai, Jú. Fareja ele!

Com menos de cinco minutos, Jujubão havia farejado algo. Um belo e suculento pé de ração para cães, com frutos no formato de pequenos ossos.

―Não, Jú. Eu quero um gato. Eu sei que ele tá aqui. Procura, vai!

―Olá! Eu posso ajudar?

Dorinha estranhou aquela voz. Mesmo sendo um mundo mágico de sonhos, ela era a única por ali com a capacidade de falar. Então, quem havia dito aquilo? Ela procurou por todos os cantos. Olhou para cá, para lá, até que sentiu algo puxando a ponta de seu vestido. E quando voltou seu olhar para baixo, reparou um pequeno gato malhado, e calçando um par de botas nos pés.

―Ah! Então é você, gato danado. Quero saber por que você enganou o Ogro e o rei!

―Puxa vida! ­―o gato suspirou, baixando a cabeça. ­―Acho que nunca mais vou me livrar desse peso.

A menina estranhou, mas esperta que era, pensou logo que o gato estava aprontando das suas, tentando enganá-la.

―Nem vem com essa, gato. Eu me lembro da história que meu pai contou. E você só aprontou por lá. Caçou, mentiu, traiu o Ogro...!

―Essa é uma história tão antiga, de um tempo em que nós, gatos mágicos, éramos muitos. Meu tátara-tátara-tátara-tetra-avô é quem aceitou participar. ―o gato continuou suspirando, agora olhando nos olhos da menina. ―Venha comigo. Vou te mostrar uma coisa.

Dorinha, mesmo desconfiada, chamou seu cachorro e, juntos, seguiram o gato. Os três andavam e, repentinamente, desapareceram, reaparecendo em outro canto qualquer do mundo mágico. Lá, um número enorme de gatos, de todas as espécies e idades, brincavam e corriam por todos os cantos.

―Veja! ―o gato apontou para aquela imensidão de outros gatos. ­―Aqui é a Gatolândia. É aqui que nasce cada gato que aparece nos contos de fadas ou outras histórias que são contadas para as crianças. Também é aqui que são criados os gatos que apareceram nas histórias de bruxas ou de outros seres malvados.

―Que lindo! ―Dorinha não acreditava no que estava vendo, e arregalava os olhinhos a cada gato que passava por ela. ―São todos tão fofinhos e bonitos!

―Sim. Eles precisam ser assim, afinal, vão embalar tantos sonhos de criancinhas exatamente iguais a você.

―Mas, seu gato! E aqueles outros que estão mais pra lá! Eles não parecem tão fofinhos. Estão todos estropiados, machucados! O que aconteceu com eles?

­―Alguns são gatos de histórias de terror, outros são gatos que participam das músicas iguais a “atirei o pau no gato”, e alguns são filhotes que os humanos nem deram chance de nascer!

―Existe isso, seu gato? Tem toda essa maldade?

―Tem sim. Muitas pessoas acreditam que os gatos são animais de bruxas, ou que trazem azar e coisas assim. Gatos não são nem bons nem maus. Eles são animais que precisam viver de seus instintos. Se caçam ratos ou outros pequenos animais, é porque isso faz parte da natureza deles. E não trazem azar, assim como as patas de coelho não trazem sorte. Se trouxesse sorte, o coelho não perdia a patinha.

―Então, seu gato, por que na história, aquele seu vovô enganou o Ogro?

―Porque naquela época era tudo diferente. As pessoas acreditavam em outras coisas, e os gatos eram ainda mais perseguidos. Acho que quem escreveu aquela história, devia gostar muito de gatos, por isso tentou fazer dele um herói. Aproveitou que todos tinham medo dos Ogros, e fez o meu vovô enganar o coitado.

­―Mas eu to com peninha do Ogro, seu gato!

―Fica não! Olha ele ali!

Ogro - image by Google
Dorinha olhou para onde o gato apontou, e viu um ser enorme, rodeado por pequenos gatos. Era o Ogro, sorridente e fazendo festa com os gatos.

―O que ele está fazendo aqui, seu gato?

―Ele se aposentou, e como adora gatos, veio ajudar a gente a cuidar dos filhotinhos. Ele fabrica pequenas botas para eles.

A noite terminou e, como sempre acontecia, Jujubão foi o primeiro a acordar. Ao lado dele, alguns biscoitos feitos de ração para cães e em formato de pequenos ossos estavam espalhados. Ele comeu um por um e, rapidamente, saiu do quarto, pressentindo que logo alguém chegaria para acordar a menina.

Perto da hora do almoço, o pai estranhou o sumiço de Dorinha. Procurou por toda a casa e, sem encontrá-la, começou a procurá-la por todos os cantos, completamente aflito. Mas logo sossegou. Alguém disse que vira a menina na loja de artigos para crianças, lá no vilarejo.

―Sim, ela passou por aqui. Eu estranhei, pois ela levou todos os sapatinhos para bebê que eu tinha na loja. Ela falou que depois o senhor pagaria, e que ela estava com muita pressa.

­―Meu Deus! O que essa menina anda aprontando?

O pai de Dorinha mal terminara de pronunciar aquelas palavras quando um gato, todo desajeitado, passou pela porta da loja. Algo comum, claro, se o gato não estivesse usando sapatinhos infantis nas quatro patas. Os dois correram para a porta da loja, e o pai da menina logo descobriu o que estava acontecendo.

Em um canto da calçada, Dorinha estava com um gato no colo, toda afoita, tentando calçá-lo com alguns sapatinhos infantis.

―Dorinha, o que você está fazendo, minha filha?

―Ora, papai. Ajudando o tadinho do Ogro. Até parece que você não sonha!


Marcio Rutes



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Este conto é baseado na fábula O GATO DE BOTAS, de Charles Perrault. A fábula original foi lançada na coleção CONTOS DA MAMÃE GANSO, em 1697. Esta coleção reunia diversas fábulas de Perrault, e fez com que ele fosse considerado o pai da literatura infantil.

Saiba mais sobre:

O Gato de Botas                Charles Perrault

segunda-feira, 31 de julho de 2023

ESTRELA PEREGRINA

 

Céu de papelão - by Google
Quando nosso planeta ainda era muito novo e habitado por seres que nossa imaginação jamais concebeu, uma aldeia se formou, rodeada de montanhas muito belas e dragões alados. Nesta aldeia, comandada por um sábio muito dedicado ao seu povo, morava Gandul, um jovem impetuoso e sonhador.

As enormes estrelas cadentes eram muito comuns naqueles tempos, mas uma em especial, a Estrela Errante, era tida como uma espécie de amuleto sagrado. Não se tratava exatamente de uma estrela, mas sim de algo que orbitava a terra, e descrevia diariamente o mesmo trajeto com uma pontualidade incomum.

Gandul, sempre ávido pelo conhecimento e por saber mais, vivia sob as asas do sábio, mas se mostrava inquieto nos últimos dias. As fronteiras da aldeia tornavam-se pequenas para aquele jovem. Ele queria mais, e queria algo especial, a felicidade em seu estado puro. Pensando assim, foi até ao sábio para questioná-lo e avisá-lo de sua partida.

―Sábio, vou partir em busca do meu legado de felicidade. Mas não vou sem seus conselhos. Como faço para achar o que tanto quero?

―Muito simples, meu jovem. Sua felicidade tem um nome, Estrela Peregrina. Siga com ela, e será feliz.

Algo, naquele instante, aconteceu com o sábio. Ele fechou os olhos e adormeceu para nunca mais acordar. Gandul ficou paralisado por alguns momentos. O sábio padecera, morrera diante dele, mas não sem deixar um último enigma para ser decifrado. Estrela Peregrina? O que o ancião quis dizer com aquilo? Segui-la?

Minutos depois, a Estrela Errante passou sobre a aldeia e a iluminou de forma fantástica. Diante de Gandul, bem no meio daquele súbito clarão, uma bela jovem apareceu toda vestida de branco. Ele olhou para ela e para a estrela ao mesmo tempo, e levantou-se, despedindo-se da bela jovem.

―Gandul, aonde você vai? ―ela perguntou, como se pressentisse algo.

―Atrás da Estrela Errante. Ela é minha guia. Ela é a Estrela Peregrina que o sábio falou. Ela me guiará até a felicidade.

―Gandul, espere. Por favor, não vá...

Os apelos da jovem foram em vão. Gandul correu naquele mesmo instante para as montanhas, ainda a tempo de ver a direção que a estrela tomava. Ele marcou um ponto no horizonte e começou a andar. Mas, aquilo parecia ser tão distante que ele desanimou em pouco tempo. Ao olhar para o lado, um daqueles dragões alados alimentava-se tranquilamente. Eles eram dóceis, e não foi difícil para que Gandul subisse nas costas do animal e, pouco tempo depois, partisse no rumo de sua tão sonhada felicidade.

Ao chegar até ao ponto que havia marcado, procurou por todos os lugares, mas não havia nada ali. Apenas florestas fechadas, rios e animais. Então, alimentou seu novo amigo e esperou. O dia passou e, ao fim da tarde, a Estrela Errante voltou e animou novamente o rapaz. Ele subiu rapidamente em seu dragão e partiu em perseguição àquela estrela, mas ela era muito rápida, e seria impossível segui-la. Novamente ele marcou um ponto por onde ela passou e foi para lá. O que encontrou? O mesmo de antes, muito mato, montanhas, animais, e nada além disso.

Alguns anos se passaram, e Gandul continuava em sua busca. Viu muitas coisas em sua peregrinação. Novas aldeias que surgiam, povos que brigavam entre si, tentando dominar outros povos. Conheceu o ódio entre pessoas, motivado unicamente por elas serem diferentes umas das outras. Também viu fome, miséria, doenças, e algo que o tocou profundamente. A natureza sendo destruída. Começou, então, a desanimar, pensando que a felicidade não existia. Mas como? O sábio havia dito que bastaria seguir a Estrela Peregrina para encontrar a dita felicidade. E o sábio não poderia ter se enganado, jamais. Assim, ele seguiu, sempre acreditando.

Coletando estrelas - by Google
Em uma determinada tarde, já muito cansado e a beira de desistir de sua jornada, Gandul avistou novamente a Estrela Errante. Notou algo estranho, um brilho mais intenso. Pareceu enxergar na estrela o rosto de uma linda mulher. Esfregou os olhos e, ao abri-los, sequer a estrela viu novamente. Seria sonho? Quando se voltou para o dragão, percebeu que a estrela realmente havia passado, e já se perdia pelo horizonte. Ele montou no animal e voou até a montanha mais próxima, jurando ser aquela a última vez que faria tal coisa. Lá, ele soltaria seu companheiro de jornada e sentaria em algum lugar, apenas aguardando a morte. Mas, teve um surpresa ao chegar ao topo da montanha. De lá, observou uma grande aldeia, repleta de pessoas e animais, e todos pareciam conviver pacificamente.

Ali mesmo largou seu dragão, e desceu em disparada. Não importava mais a tal felicidade. Queria, apenas, um lugar para chamar de lar, e uma companheira para passar com ele o resto de seus dias. No entanto, notou algo estranho. A medida que caminhava pela aldeia, tudo parecia familiar. As construções, aquele povo, as montanhas ao redor, até que ele parou diante de uma tenda que lhe deu uma certeza. Estava de volta ao mesmo lugar de onde partira. Sua aldeia.

―Olá, Gandul.

Uma voz soou suave aos seus ouvidos. Quando se virou, notou uma linda mulher, aquela mesma que pensou ter visto misturada à luz da Estrela Errante. Ele ficou petrificado, e olhava aquela mulher como se já a tivesse visto antes, até que lembrou de onde a conhecia. No dia em que partiu, fora ela a se despedir dele, exatamente ali, naquele lugar.

―Encontrou a felicidade que tanto procurava?

Gandul balançou a cabeça negativamente, como se a derrota lhe caísse sobre os ombros.

―Não. O sábio se enganou. ―Gandul comentou, desanimado. ―Ele me mandou seguir a Estrela Errante, e ela me trouxe de volta ao mesmo ponto de partida. O que achei pelo caminho foi tristeza e desolação. E até penso que o sábio tentou me dizer que, por mais que eu procurasse, minha felicidade estaria aqui.

―Só que ele não te mandou seguir a Estrela Errante, Gandul. Ele mandou você seguir com a Estrela Peregrina.

―Mas, a Estrela Peregrina e a Estrela Errante eram a mesma! Não entendo isso. E como você pode ter conhecimento que as duas não são as mesmas?

―Se você tivesse me escutado naquele dia, teria poupado um longo caminho. ―ela falava e olhava docemente para ele, diretamente nos olhos. ―Talvez você realmente precisasse sair, conhecer o mundo, para ver o quanto poderia ser feliz aqui, em sua própria aldeia. Prendê-lo só iria te trazer tristeza, e até penso que a sensação do fracasso também te tomaria, deixando-o amargurado. Sempre te faltaria algo. Agora, você sabe que é aqui o seu lugar, ao lado de sua Estrela Peregrina.

―Sim, concordo com você. Hoje, vejo o quanto o meu lar é o meu refúgio, e meu povo é minha família e fonte de alegrias. Não duvido mais disso. Mas, e onde está minha Estrela Peregrina?

Céu de estrelas - by Google
A mulher levantou a mão e segurou o ombro de Gandul. Chegou bem próxima a ele e falou em seu ouvido.

―No dia em que você partiu, o sábia havia batizado as jovens da aldeia. E deu a mim o nome de Estrela Peregrina. Tentei te alertar, mas o sábio já havia me avisado que seria inútil. Você precisava ver para crer. Te esperei todos esses anos, pois sabia que você não desistiria, e também que a Estrela Errante te traria de volta. Agora, vamos. Você deve tomar seu lugar de direito em nossa aldeia, ao meu lado.

Gandul finalmente encontrou sua tão sonhada felicidade. E aprendeu que, por mais que ela esteja ao nosso lado, devemos batalhar por ela, pois ela pode escapar facilmente. Nem sempre a enxergaremos, e se não estivermos prontos para recebê-la naquele instante, penaremos muito para conseguir outra chance de encontrá-la. No entanto, por mais que seja uma tarefa difícil, não se deve desistir, jamais, de buscar a felicidade.


Marcio Rutes

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