domingo, 6 de abril de 2014

SÓIS & SAIS


The Four Suns of HD 98800 - Crédito: NASA/JPL-Caltech/T. Pyle (SSC)
O sol, num céu de brigadeiro, brilhava intenso, até mais do que aquele normal do começo de outono. A caixa de correio estava abarrotada, e ao abrí-la, um envelope me chamou a atenção. Ele não era maior, nem tanto era colorido ou apresentava algo que o diferenciasse dos demais. Mas ele era perfumado, e notei isso de forma instantânea. O perfume? Era um odor beirando o amadeirado, instigante e intrigante.

Abri o envelope e, antes de retirar seu conteúdo, observei o horizonte. Uma nostalgia desmedida tomou meu peito. Era como se eu estivesse prestes a renascer meus dias já consumidos, antes das tantas despedidas que me foram impostas ou que, por um descuido qualquer, proporcionei a mim mesmo. O sol brilhava ainda mais forte, mas estava frio, ventando lufadas de um espectro até fantasmagórico.

E o papel brotou do envelope, branco e cintilante ao mesmo tempo.

“Te declaro minha sina, meu tesão, meus pés fora do chão.
Tua saliva me colando o verso na ponta da língua, de mansidão... ou não.
Te recebo e te comporto, (des)comportada que sou. Te atropelo com dedos e língua, e beijos e sinas, menina que sou.
Sua.
Nosso enroscar é nosso, nosso jeito ‘fora do lugar’ e certo, como deve ser.”¹

Enlacei aquelas palavras por entre meus desejos e lembrei dela, de sua boca entreaberta esperando beijo, e de seus olhos gulosos, querendo minha boca obscena buscando sua língua. E se não fossem todas aquelas pessoas ali, naquele saguão lotado, sabe-se lá se teríamos interrompido aquela sessão de contemplação profana de nossas tão saudáveis loucuras. E ela embarcou, a contragosto, irritada pelos poucos dias que demorariam para expirar a saudade que ficaria.

Assim, ela partiu, com a promessa de jamais abdicar de seu lugar em meu peito. Eternidade seria apenas uma manhã em nosso despertar guloso, afoito em selar com o gozo abundante aqueles tão fartos desejos de reinventar a vida, e torná-la apta a entender nossa urgência de felicidade.

Mas aquela nostalgia me apertava o peito. Sim, eu sentia saudades dela, mas era algo diferente, muito maior do que qualquer sentimento que eu conhecia. Era como um imã me impelindo para trás ao invés de me puxar. Uma força que subtraia meu tão precioso otimismo.

Foi quando aquela bela manhã entardeceu, deixando as dúvidas para depois. Elas perderam a importância. Os medos não tiveram tempo de aflorar, e os deuses e demônios foram para alguma esquina qualquer, num dos muitos botecos de um céu esburacado, para aproveitar de camarote as angustias daqueles que esqueceram de acreditar na soma dos erros e acertos.

Cachaça servida, vinho entornado e comida fria. Conta fechada. Era a hora de encarar divindades mal trajadas e maldades inventadas. Era a verdade que caminhava como sóis imensos e cuspindo sais por todo o universo.

A fé falira a face, e as crenças despencaram. Inútil resistir, e tentar fugir era o mesmo que pular diretamente ao fogo. Tantos queriam saber das verdades escondidas, e outros falavam por seus demagógicos cotovelos sobre a necessidade de equilíbrio. Hipocrisias contadas para eles próprios. E a verdade doerá muito, principalmente naqueles que acham que sabem mais e demais.

Que pena. Foi tão rápido que mal pude aproveitar os fogos que alguns acharam ser apocalípticos. E que decepção. Nenhum cavaleiro estava lá, segurando sua espada justiceira. Sequer a barca e o barqueiro, ou um purgatório, um inferno, por menor que fosse, nada... nada.

Até que as nuvens dissiparam, e diante de meus sonhadores olhos, um infinito que tanto acreditei. E ela. Sim. Ela.

Ela prometera. Ela cumpriu. A eternidade estava brotando daqueles dois sóis. Nada mais era do que o amanhecer de uma nova era. E ela seria eterna, num namoro temperado com os sais desse imenso mar que esperava por nós para criar suas praias.




Marcio Rutes


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trecho em destaque:

¹ - autoria de Samara Bassi. Todos os direitos reservados para a autora.

quinta-feira, 13 de março de 2014

É AO CONTRÁRIO






Nem sempre um “É” ao contrário é somente uma letra do avesso. Por vezes, um “É” ao contrário pode ser um “NÃO”.

A antecipação inconteste veio juntamente com a subversiva voz rouca e demente do peito.

―“É”! ―disse o peito, todo esfarrapado das quedas e derrotas. ―Eu não sei o peso do chão, mas ele sabe o meu, por certo. E sabe também da cor do meu sangue. Sabe da dureza de meus gemidos sempre que esfolo junto com a boca. “É”! O chão é duro, e estou cansado dele.

O pior não é o gosto salgado do suor. O pior é sentir o suor amargar com o salgado da lágrima. Azeda-se tudo. E não, não farei salada com os pepinos da vida, pois cansei de mastigar coisas insossas. Quero é beber vinho do bom.

―“É”! ―tornou o peito. ―A verdade é que apenas querer não basta. O avesso da letra é o inverso da palavra.

Acho que estou dormindo, e sonhando. Mas nem em meus sonhos me deixam quieto? Que quer então? A decisão não basta?

―“É”! ―aquele chato do peito falou novamente. ―Não, não basta. Decisão sem ação, é como reação cheia de omissão. É preciso determinação.

Cara irritante. E justo nessa hora? No instante em que sonho com meu bem querer, e em cenas censuráveis para olhos que não acatam lá muito bem a obscenidade de meus devaneios.

―“É”! ―lá vem o peito de novo, e vou dar uma porrada nele logo, logo. ­―Torça para ter uma única letra do avesso, pois se outras vierem, sabe-se lá quanto mais de mal agouro tua vida vai abraçar.

Desaparece do meu sonho. Me deixa quieto. Amanhã eu expurgo a dor, e tomo chá de compromisso. Mas agora, da pra dormir junto com teu dono? Eu, no caso!

―“É”! ―falou, e aquietou-se.

Ei, peito! Volta aqui, pra gente conversar mais um pouco. Perdi o sono.

É! Esse chato tá certo. Mas, com tanta coisa nesse mundo pra ilustrar meu sono, por que cargas d’água eu tenho que sonhar justamente com um “É” ao contrário?


Marcio Rutes



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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

NOSSO JEITO DE ACORDAR


Em parceria com SAMARA BASSI

Image by Google
Ela:
Deitar meu rosto como face descabida,
fazer daneza nessa tara atrevida.

Ele:
E o que de melhor,
se é que tem, e é de nós,
nem teus laços,
vou é arrancar da pequena calça o cós.

Ela:
Você me embala, me enlaça pelo meio,
desassossego é sua boca no meu beijo.

Ele:
Lavanda que nasce entre os girassóis,
luas e sóis, a sós,
somos nós.

Ela:
Nos meus seios, teu desejo é rei.

Ele:
Pra beijar teu ombro naquela batida do sino,
hino ao ninho, nesse gemido contínuo.

Ela:
Sei, que esse amor é mais
que manha, mais que manhã
desenrolando o verso na ponta dos teus dedos,
só percebo quando meus pelos é arrepio.

Ele:
Pra atiçar o sol e fazer balancê na neblina,
de beijo em beijo, de besouro chateando beija-flor,
ciscar em teu suor, entre colchas e coxas,
em pé, na janela, gemer diante da cortina.

Ela:
Num suor arredio,
você me toma
e me degusta,
me busca na fonte
aquele ontem
salivado no pescoço.

Ele:
Se apela para a pele ouriçar o pelo
e desligar o pudor,
pra fazer amor a qualquer hora com meu amor.

Ela:
Te prendo em chave,
toda clave,
todo som.

Ele:
Secar a dor, se molhar de suor.

Ela:
Só sua pele tem o tom certo que me cabe.
Só teu sexo é o encaixe perto que me sabe.

Ele:
Remar um caminho entre o mar,
salgar a pele, mesmo que se adoce o café.

Ela:
Me invade sem pressa, sem mansidão
SoMos gozo escorrendo em pranto no colchão,
todo embalo sem pecado sem pudor.
O tal novelo, meu cabelo, nosso amor.

Ele:
Derramado pelo vão dos lábios, assim, ajeitar,
arrumar a face, escovar o cabelo,
corpo nú feito lã fora do novelo.

Ele:
No rastejar da serração ao mar
a gente fica aqui
sorriso tomando os lábios,
gozando a pele, as pernas,
a vida desinibida na libido.

Ele:
Enquanto o mundo faz guerra
a gente fica aqui
torcendo para que a preguiça nos tome
em pequenos goles de tesão pelo colchão.

Ele:
Em teus seios repousei meus olhos
em tua barriga depositei meus dias e noites.
Não há açoite que desmonte meu querer,
assim como não há eternidade que me afaste de você.

SoMos, SeMpre, muito mais. Juntos.

Marcio Rutes


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