quinta-feira, 24 de março de 2011

QUANDO SÓ SE VÊ O QUE SE QUER VER

Image by Google
Antes da crônica, peço desculpas aos amigos pela minha ausência. Por motivos de saúde, fui obrigado a me afastar temporariamente de minha rotina, principalmente dos computadores. Mas, mesmo contra ordens médicas, é complicado manter distância deste vício que se chama “web”.

Ainda ficarei um tempinho de molho, mas, aos poucos, vou retornar aos meus velhos hábitos.

Quero deixar um agradecimento especial para todas as pessoas que me mandaram e-mails durante esse período de afastamento. Com o tempo, responderei a todos eles.

Abraços.

*********
QUANDO SÓ SE VÊ O QUE SE QUER VER



O vídeo acima é importante para a perfeita compreensão da linha de raciocínio desta crônica. Portanto, se você ainda não assistiu, dedique 2:25 minutos. Vale a pena.

Não sou um admirador do boxe ou dos esportes de contato violentos, eu admito, mas, como meu filho é praticante de “Chute Boxe”, passei a ter certo interesse. O fato é que, num dia qualquer, ele me enviou o vídeo que ilustra o texto, e algo me despertou uma centelha de curiosidade.

A produção, muito bem feita, é assinada pela HBO, e conta a trajetória de um personagem que tenta, a todo custo, se tornar um lutador de boxe. É uma história de superação até certo ponto normal, afinal, a resiliência é um dom inerente ao ser humano. Caímos e levantamos, caímos novamente e tornamos a levantar. Várias pessoas passam por isso todos os dias.

No vídeo em questão, existe ainda a referência ao racismo e discriminação social, principalmente na cena em que o personagem está no metrô, e todos os que estão próximos se recusam a sentar ao lado dele. Um fato comum não apenas nos Estados Unidos, mas já bastante clichê nas produções televisivas norte-americanas. Nada, no entanto, que desmereça o esmero no resultado final do vídeo.

Durante o desenrolar das cenas, o personagem arrecada dinheiro de todas as formas para atingir seu objetivo principal, o de frequentar uma academia de boxe. Esmolou, aceitou subempregos, vendeu o pouco que tinha, praticou “luta de rua”, exerceu sua fé, ou seja, se deixou levar pela determinação de superação. E conseguiu.

Você deve estar se perguntando: E O QUE ISSO TEM DE TÃO IMPORTANTE, A PONTO DE VIRAR CRÔNICA?

Eu respondo. Adoro o estudo do comportamento humano, e quando recebi o vídeo, mostrei a um amigo, que adora boxe. Esperava que ele elogiasse a qualidade da produção, ou a determinação do personagem principal, mas não foi bem assim. O que esse amigo comentou me deixou com a pulga atrás da orelha. Mandei o vídeo para mais três pessoas, e ouvi deles a mesma coisa.

Diante de tudo o que eles viram nos 2:25 minutos de duração da gravação, o único fato que eles realmente prestaram atenção foi que, aos 22 segundos, numa mercearia, o personagem “rouba” um sabonete. E o restante? Não valeu de nada?

Definitivamente, o ser humano só enxerga aquilo que quer ver. E diante disso tudo, me pergunto se isso acontece apenas naquilo que é visto na TV, em tom fictício, ou se essas pessoas deixam passar, também, as coisas importantes e reais do dia-a-dia, como as falcatruas, malandragens políticas ou outras encenações ridículas que armam apenas para desviar a atenção do povo.

Por vezes, até penso que alguns, ou muitos, preferem fechar os olhos para tudo o que acontece em seu entorno. Vivem assim, sem se preocupar com nada. No entanto, vez ou outra, reclamam de tudo sem ter o mínimo cuidado se sabem do que estão falando ou não... e haja paciência para aguentá-los.

MarcioJR

sábado, 12 de fevereiro de 2011

UM E-MAIL, ALGUNS PROBLEMAS (reedição)

REEDIÇÃO
image by Google

Passeando pelo Blog XIPAN ZECA, do TATTO, me deparei com um texto que fala sobre bilhetinhos e lembretes, e os "perigos" que eles podem trazer: BILHETE É UMA ARMADILHA !!! 
Lancei, faz algum tempo, uma crônica criticando a forma abreviada e, na maioria das vezes, incorreta de se escrever e-mails. Como meu tempo anda escasso, faço abaixo a reedição desta mesma crônica. Não deixe de visitar o XIPAN. Ele só tem cara de doido, mas não morde, sem contar que as gargalhadas são garantidas.

Boa leitura.

**************************************************************

“Querido Renato chegou gostoso fazer festa amanhã
Vcs podi comer a Fátima e eu q nao pq cabow xada noite.
Bjs.”

As linhas acima representaram o quase fim de casamento de um casal de amigos. O marido, que estava bem longe de se chamar Renato, além de não entender patavina do que estava escrito, ainda tirou algumas conclusões para lá de apressadas.

Muitas pessoas perguntam o porquê de se utilizar palavras abreviadas em mensagens de e-mail. A maioria pensa ser algum modismo da juventude que acabou ficando. Na realidade, isso vem do começo da internet, quando tudo era muito lento e a comunicação via internet era feita apenas entre algumas grandes universidades. Não eram utilizadas imagens e, como quem fazia uso dessas mensagens eram estudantes e pesquisadores, tudo parecia ser cifrado e muito resumido, diminuindo, assim, o peso do arquivo para ganhar alguma velocidade de rede. Isso era uma necessidade e, mais tarde, acabou misturada ao péssimo hábito das pessoas de “enfeitarem” a língua.

Essa escassez de velocidade e espaço na internet ficou para trás, mas os hábitos de se escrever de forma abreviada e cifrada continuaram. E, para piorar, juntou-se a isso um número infindável de neologismos, gírias, erros e “burrices”. Algumas pessoas pensam que estão escrevendo telegramas. Entender um e-mail, por vezes, é um exercício de paciência, e nem sempre conseguimos. Abreviar palavras e ter como justificativa para isso o ganho de tempo e economia de espaço ao escrever, é desculpa de preguiçoso. Qual é o tempo ganho, por exemplo, ao se escrever “q” ao invés de “que”? Fica ainda pior na palavra “ateh”, onde o H faz a vez do acento agudo numa palavra oxítona. Neste caso ocorreu uma perda de tempo e espaço. No começo da internet no Brasil era até compreensível, pois não se acentuavam as palavras, e o H servia como uma alusão a esse acento, mas hoje isso é desnecessário.

Dia desses, recebi um e-mail retribuindo um comentário que fiz a um texto em outro blog. A mensagem dizia o seguinte: “Pow!!!wls!!!XD.....” Até agora estou sem entender se a pessoa gostou do comentário que fiz ao texto, ou se me xingou. Algumas pessoas podem até dizer que o texto da mensagem é de fácil compreensão e que eu, como trabalho com web, tenho por obrigação conhecer e entender esse tipo de coisa. Discordo. Não tenho a mínima obrigação de entender ou aceitar essas afrontas e achaques feitos à língua portuguesa. As pessoas inventam termos (alguns nascem de erros e se tornam comuns) que só elas sabem do que se trata, e pensam que todos têm o dever de saber interpretar esses absurdos. Isso é ridículo. E, para deleite do magistério, não raro é o fato desses termos saírem da web e se firmarem, tanto na língua falada quanto na escrita.

image by Google
Quando se escreve uma mensagem, seja ela pelo método que for, deve-se levar em conta o poder de compreensão de quem irá receber essa mensagem. Língua escrita não tem a inflexão da língua falada. Na falada, você expressa sentimentos apenas com o tom e o jeito de falar, como uma ironia ou algo carinhoso. Na escrita, isso pode se tornar dúbio e gerar contratempos, graves em alguns casos, pois haverá um erro de interpretação. Quando a mensagem é para alguém do seu grupo distinto, ou para quem está ciente do tipo de linguagem que você irá utilizar, ótimo, escreva como você está acostumado a fazer. Agora, se a mensagem for para uma pessoa estranha ao seu convívio, por favor, cuide mais da forma como você escreve, e procure utilizar termos mais formais. E, se o seu vocabulário estiver debilitado frente ao uso constante da web, existem bons dicionários on-line que poderão ajudar. Tenho certeza que você não terá a mínima dificuldade de achar algum, afinal, você fala a língua da web, não é?

Para finalizar, não poderia deixar de traduzir a mensagem do começo desta crônica, que gerou tantos problemas. Ela ficaria mais ou menos assim (corrigindo eventuais erros de grafia, logicamente):

“Querido.
(Seu primo) Renato chegou. (Seria muito) gostoso fazer (uma) festa (para ele) amanhã.
Vocês podem comer (à vontade na festa). A Fátima (esposa do Renato) e eu não (abusaremos na comida) porque acabou o chá da noite (espécie de chá emagrecedor).
Beijos.”

Marcio JR

domingo, 6 de fevereiro de 2011

NUM PASSADO NÃO MUITO DISTANTE…

Image by Google
Pico do Marumbi - Paraná

Subtítulo: AS MINA PAH!, E OS MANO PUM (?).


Por mais que o tempo passe e a memória enfraqueça, algumas coisas ficam registradas e, vez ou outra, florescem de tal forma, que é impossível não rir (ou chorar) com as lembranças.

Esta é uma história baseada em fatos ridiculamente verídicos.

O verão de 1997 corria com um sol escaldante, e um grupo de surfistas me convidou para participar de um acampamento na face oeste do pico Marumbi, na serra do mar paranaense. Era evidente o convite recheado de interesses. Eu, por mais que fosse mais velho e destoasse daqueles adolescentes, era o único que conhecia aquela trilha, assim como tinha todo o equipamento necessário, como barracas, lanternas, etc. Se não estou enganado, havia naquele grupo um sujeito bem parecido com o Xipan Zeca. Mas isso é outra história.

Convite aceito, ordens dadas e hierarquia estabelecida (por mais que seja um local bem conhecido, os perigos existem, e adolescentes sempre arranjam problemas nessas situações), e lá fomos nós. O trem demorou um pouco, e a subida do morro seria sob garoa. Quando saltamos do trem, notei que faltava uma mochila, justamente a que tinha todo o suprimento para os três dias de acampamento. E como aguentar quatro moleques esfomeados nesses dias? Por sorte, eu conhecia um velho armazém, pouco visitado e daqueles que ainda expõe carnes e salames às moscas. Fomos até lá e, enquanto eu me preocupava em comprar barras de cereal ou algo que alimentasse e não causasse volume, os quatro imbecis, digo, os meus quatro acompanhantes sumiram, e quando retornaram, traziam três enormes sacolas abarrotadas de comida enlatada. Tentei argumentar que não seria necessária toda aquela quantia, mas foi inútil. A discussão ficou acalorada, e para amenizar a questão, deixei-os ficar com a teimosia. Então, iniciamos a subida da trilha escorregadia. Eu, com minhas barras de cereais, água mineral e frutas cristalizadas, e eles, sofrendo e escorregando com aquelas sacolas inadequadas.

Já no alto, depois de muitas horas, armamos o acampamento e, do nada, apareceu um grupo de garotas. Eram seis no total. E começou o desastre. O que vi, a partir daquele ponto, foi negligência e falta de respeito com a natureza. Isso sem contar que pareciam felinos no cio, tal foi o assédio sobre as garotas. Ao fim de tudo, eu é que acabei por montar todo o acampamento para elas. Na boca da noite, já com a fogueira alta, os garotos resolveram comer algo. Naquela altura dos acontecimentos, cada um de meus acompanhantes já havia se “enroscado” com uma garota, e sobravam as outras duas, que por uma questão de opção sexual, não estavam disponíveis. E a fome apertou. Eu comia algumas frutas secas, quando um dos garotos me chamou para comer com eles. E ali, mais desrespeito aos conselhos de quem sabia um pouco mais da vida: aquela comida enlatada estava vencida. Salsichas, feijoada e repolho, tudo com um aspecto, digamos, esverdeado. E a voz da experiência precisou se calar. Mas eu já imaginava o que iria acontecer.

Lá pelas tantas da madrugada, fui olhar o perímetro do acampamento e verificar a fogueira, e quando me dei conta, os moleques não estavam em suas barracas. Mas não demorou para descobrir onde eles passaram a noite, ou, ao menos, tentaram passar.

Com o dia amanhecendo, aticei o fogo e preparei um café, e foi quando vi as maiores caras de decepção de minha vida. Uma a uma, as meninas rodearam o fogo, e me olhavam com puro ar de tristeza. Quando argumentei o que havia ocorrido, elas explicaram que, após pouco tempo de “festinha” com os garotos, eles simplesmente saíram correndo, sem explicações.

Como o tempo não estava bom, e ameaçava chuva forte, achei por bem descermos a trilha, e apurei as meninas, pois a experiência delas era menor. Ao procurar pelos garotos, encontrei-os num pequeno córrego, completamente pálidos. Naquele momento, e já imaginando o que havia ocorrido, fiquei em dúvida se aquilo era efeito da vergonha que haviam passado diante das meninas, ou era, simplesmente, efeito do alimento vencido.

Image by Google
Para encurtar a história, durante a descida, eu e as meninas vinhamos cantando e apreciando a natureza, enquanto os moleques não largavam as moitas. O que eles faziam nessas moitas? Bom, cabe dizer que, a cada vez que um deles se apropriava de uma moita, o cheiro que levantava era de espantar até urubu. E ainda havia um agravante: o papel higiênico havia ficado na mochila com os suprimentos.

Pois é, como a molecada fala por aí, neste dia AS MINA PAH!, E OS MANO PUMMMM.

Marcio JR