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sábado, 20 de novembro de 2010

TODA UMA VIDA

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Todas as lembranças de uma vida estavam ali, guardadas naquele pequeno estojo de madeira. Ela o abriu lentamente, sentindo emoções vindas de tempos longínquos, e deixou a mente vagar, numa profusão de odores e luzes que sua mente produziu, até que seus olhos voltaram para o estojo. Retirou dele um crucifixo de madeira, grande, presenteado por seu pai. Olhou ternamente para ele e o pôs de lado. Uma foto de sua mãe, amarelada pelo tempo, mas que ainda mostrava aquele olhar forte, de mulher guerreira, de mulher amiga e de esposa companheira. Saudades afloraram e fizeram lágrimas correrem por seu rosto.


Os minutos passaram e ela, indefesa diante das lágrimas, lembrava dos pais, da velhice deles e de quanto ela os protegeu, até que a morte os levou. Todo um filme passou por seus olhos, desde menina até o derradeiro dia, naquele cemitério cinza e sem vida. Mas, como o tempo passa, e quem está vivo precisa continuar em sua jornada, remexeu mais no estojo. Fitas de seda, três delas, uma rosa e duas azuis. E aquilo era uma felicidade, pois era costume em sua família presentear os amigos com aquelas fitas sempre ao nascimento de um filho. E seus filhos eram lindos, hoje casados, e todos com filhos.


Suspirou. Que bela família ela tinha. Porém, sentia falta de alguém, do homem que escolheu para amar e dividir a vida até os últimos dias. Mas, ele fora primeiro, e sua falta ardia no peito. Ela iria logo, sabia disso, e enquanto não chegasse sua hora, lembraria dele em cada minuto. E assim, deitou-se. Esperou o sono lhe tomar, olhando para as paredes daquele asilo em que os filhos a haviam largado.