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Conto de domínio público, com algumas adaptações.
Num passado não muito distante, havia uma senhora muito religiosa nos arredores de uma grande cidade qualquer. Suas idas à igreja eram constantes, fosse o dia que fosse. Mas os domingos eram especiais, e lá estava ela, para cumprir suas obrigações para com Deus.
O rito religioso entrava pelo corpo dessa senhora e a levava quase ao estado de êxtase. Ela se completava naqueles momentos. E quando terminados os ritos, vinha a melhor parte, as conversas variadas e os encontros com os amigos. Falavam de tudo. Falavam dos vizinhos, dos parentes, falavam até de quem não conheciam. E futricavam, nem sempre falando bem. Falavam até do coitado do Padre.
Esta senhora se importava muito com sua vida religiosa, e a cada vez que voltava da igreja, trazia uma pequena pedra e a colocava em um enorme tanque embutido ao chão, nos fundos de sua casa. Ela queria saber, ao fim de sua vida, quantas vezes havia estado na igreja e quantas missões de fé havia cumprido. E, para isto, bastaria contar as pedras que estavam naquele tanque.
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Num determinado domingo, chovera torrencialmente, e a senhora acabou por não conseguir suplantar um rio que separava a sua propriedade do vilarejo onde estava a igreja. Então, sem ter muito que fazer, ajoelhou-se e rezou, ali mesmo, ante aos pingos de chuva que ainda caiam. Ao voltar para a sua propriedade, pegou uma pedra do chão e a partiu ao meio, jogando somente a metade da pedra naquele tanque. Considerou aquilo como apenas metade de sua obrigação no cumprimento de demonstrar sua fé, pois não havia conseguido ir até a igreja.
Os anos passaram e, num determinado dia, a senhora se sentiu muito doente, notando então que sua morte era iminente. Ela, ciente de sua condição, pediu aos filhos que fossem até o tanque que continha as pedras e as contassem. Seria aquele o momento que tanto esperara. Saberia, por fim, o tamanho de sua fé.
Ao voltar, os filhos carregavam um ar estarrecido na face. E nas mãos, traziam apenas a metade de uma pedra, a única que encontraram no tanque.

