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terça-feira, 10 de julho de 2012

CHICO CONTENTE – PESCARIA MATUTA

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Piracicaba, início da primavera de 1931.

A pescaria de beira de rio era uma das distrações prediletas dos habitantes de Piracicaba lá do início do século passado. Alguns chegavam a viajar dias e noites no lombo de uma mula com o único intuito de chegar a algum ponto ainda inexplorado por outros pescadores ou, então, por acharem que tal lugar era “milagroso” e a pescaria seria mais farta.

Como é sabido, as pescarias sempre foram cercadas de histórias sem pé nem cabeça e, também, de alguma mística. Não existe pescador que não invente alguma “engenharia” para atrair o peixe, como novas iscas ou equipamentos que sequer ele próprio sabe manejar direito, ou ainda o aprimoramento de técnicas antigas e que, se melhoradas, podem surtir bom efeito. Existem também aqueles que são supersticiosos e levam ao extremo algumas manias. Se alguma artimanha surtiu resultado em algum momento, repetem aquilo em todas as pescarias futuras, mesmo que nunca mais consigam bons resultados. Rezas, mandingas, crença na sorte ou azar, fazes da lua, cuspir no rio, pescar com um pé calçado e outro descalço, jogar cachaça no rio, enfim, tudo faz parte da crendice popular e pode enfeitar uma pescaria.

E foi justamente a cachaça, ou o consumo excessivo dela, a preocupação daquela primeira pescaria de primavera.

Padre Mirto reparara que o abuso no consumo de pinga era sempre um problema com as pescarias que Chico Contente, Zé das Porca, Anésio, cabo Bento e, claro, ele próprio realizavam. Pensando nisso, passou o inverno inteiro tentando convencer àqueles pescadores a não beber ou, sequer, levar a dita bebida para a beira do pesqueiro. No entanto, sempre que ele vinha com um bom argumento para frear aos amigos, eles retornavam com uma dezena de outros para convencer ao padre do contrário. Ele, esperto que era, usou da melhor arma que dispunha. Jurou excomungar ao dono do armazém caso ele vendesse ou fornecesse a bebida para aquela pescaria.

—Arre, padre Mirto. Pescaria sem pinga? —Anésio, o dono do armazém, suplicava. —Inté u sinhô vai lumbrigá tudinho. Tem piedade!

—Anésio, meu filho. Já morreu gente por bebedeira nas barrancas do rio. E vocês bebem demais. Alguém tem que por um fim nesses abusos. E eu to apelando pra todos os santos, já que apelar pra consciência de vocês não tem jeito!

—Mais sem pinga anem u São Sardinha vai mi acumpanhá. U disgramado só mi atendi si eu infiá ele di cabeça na pinga cum gaviróva. —o dono do armazém insistia, choramingando.

—Ah! mas que inferno! Isso é coisa que se faça com o Santo? Vocês são uns inconsequentes. Vão arder no inferno se continuarem com essas maluquices. E que santo é esse, afinal? Não conheço nenhum São Sardinha.

—É u Santo Antonho. Mais nu meio dus pescadô, nóis chama ele pelo apilido qui u Chico Contente deu quano pegô aquela carpa di dois rabo. Diz ele qui u póprio santo soprô nas oreia dele esse apilido i dissi pra invocá quano quisesse pescá pexe grande. I tem mais, padre. Num vem di lorota, qui já vi u sinhô fazê das sua tumém. Si num tem vivente oiando, u sinhô, antis di ponhá a minhoca nu anzor, isfrega ela no...

—Ahhhhhhhhhh! Calado. Infâmia. Te excomungo agora mesmo. E essa história do Chico é lorota. Onde já se viu o Santo Antonio vir conversar justo com ele na pescaria? E peixe de dois rabos? Só podia ser coisa do Chico. Pior é que vocês acreditam nesse traste.

Enquanto o padre e o dono do armazém conversavam, os outros integrantes do grupo chegaram, faltando apenas o Chico Contente. Quinze minutos depois, algumas mulas levantaram poeira numa estradinha, e se aproximaram rapidamente. Todos olharam e notaram que era o Chico, que prometera tanto o transporte quanto os equipamentos para a pescaria.

—Árre! Já num era sem tempo! —Zé das Porca olhava e tentava contar o número de mulas que o amigo conduzia. —Mais, padre Mirto! A módiquê u Chico tá vino cum tanta mula? Pelas minha conta, tem duas a mais. Será qui u peste acunvidô mais gente?

Chico parou diante do armazém e, antes mesmo dele pisar o chão, o padre já indagava sobre as mulas a mais.

—Oh! Chico! Dá pra explicar essas mulas a mais? E por que tanto embornal nelas, vivente de Deus?

—Bãos dia pru sinhô tumém, seu padre! U sinhô passa bão?

—Não me enrola, que vindo de você, só pode estar aprontando! —o padre coçou o queixo, antevendo algo que não gostou.

—Puis óie, seu padre. Nessas di cá, as mula maior di grande, vai nóis amuntado. Nessa di cá, nus imborná, tem uns garrafão di pinga, e...

—Epa! Pode parar! —o padre cortou bruscamente o que o Chico falava, nitidamente repreendendo o matuto. —Não falei que nessa pescaria não teria pinga? Tá querendo ser excomungado?

—Óie, padre! Matute cumigo. —Chico olhou mansamente para o padre, mas daquele jeito malandro que todos conheciam bem. —Nóis vai nas barranca du Biguá, i tudo nóis sabemo qui lá tem cascaver, urutú-cruzero, corar i surucucú. Vai qui nóis dá di frente cum bicho armado?

Cobra Coral - image by Google
—Você tá de truta comigo. Que lá tem cobra, eu sei. Mas o que isso tem com relação a toda essa pinga que você tá carregando na mula?

—Mais qui tonto é um sinhô? Cum tudo u respeito, padre Mirto. Si a cobra pica, daonde qui tá um remédio pra isfregação? Nem implastro de foia gorda tem naquele rio! I adimais, si a danada pica um di nóis, tem qui cortá u efeito du veneno, i um gole di pinga pódi ajudá. I a dor da murdida? A pinga pódi amainá as dor si for tomado uns gole. I si dé febre no vivente? A pinga vai ajudá nus efeito di quentura. E além disso...

—Tá! Tá bom! Você me convenceu. —padre Mirto entregou os pontos, se dando por vencido. —Mas e a outra mula? Por que todos esses embornais pendurados nela? Não vai me dizer que é mais pinga?

—Nada, padre. —Chico olhou para os outros pescadores e cuspiu do lado, quase acertando o pé de seu Anésio, que estava próximo. —Nessis imborná tá as cobra. Vai que nóis num acha ninhuma pra módi mordê nóis.


Marcio JR


sexta-feira, 20 de abril de 2012

CHICO CONTENTE - NÓ NA CACHOLA

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Piracicaba, fins de 1930.

--Cadê esse peste do Chico, que não aparece nunca!

Seu Anésio, que varria a frente do armazém, parou o que fazia e foi até o balcão. Lá, estava o padre Mirto completamente nervoso e, como se não bastasse, com coceira pelo corpo todo.

--Ih! Seu padre! Cada veiz qui o sinhô tá cum essas cumichão, é purque a coisa num tá boa. I além du que, a módiquê vóis micê tá aí nessa gastura toda isperando o Chico?

--Eu conto, Anésio. Eu conto! --o padre se virou para o balcão e pegou um copo cheio de cachaça, tomando seu conteúdo num único gole. --Mas antes, me põe mais um trem desse.

--Ara! I num é pecado tomá pinga desse jeito?

--Anésio, deixa que me entendo com essas partes. Tenho carta branca celestial para algumas coisas. Agora, enche logo o copo. E quanto ao Chico, tão dizendo por aí que ele endoidou o Teobaldo e mandou o coitado pro hospício.

--Virge Nossa do Pão Seco! I cumé qui esse miserento feiz um trem desses?

--Não sei, Anésio. O que sei é que a Tonha tá desesperada. Mas, olha o cabra aí. Já vamos descobrir.

Chico Contente atravessou a rua com toda a calma do mundo. Quando entrou no armazém de seu Anésio e viu o padre, fez menção de voltar para a rua, mas para sua infelicidade, o padre chamou por ele, e num tom nada compreensivo.

--Vem cá, seu traste, que você tem muito pra me contar.

--Bão dia pru sinhô tumém, seu padre. --Chico olhou meio de soslaio para o padre, e já em seguida se encostou no balcão e pediu para que o dono servisse algo para beber. --U sinhô drumiu bem?

--Não se faça de desentendido. To procurando sua pessoa faz dois dias, e nada. Tava se escondendo de mim, por acaso? Não tem nada pra me contar?

Tanto Chico quanto seu Anésio se olharam e permaneceram calados. O padre, como viu que nada aconteceria ou seria dito, continuou em seu inquérito.

--Trate de me explicar, e com detalhes, o que aconteceu pro Teobaldo ir parar num hospício.

--Arre! Intônce é isso qui u sinhô tá incomodado? Só pidi pra qui ele sispricasse cumé qui ele é pai du bisneto dele.

--Minha Virge Nossa do Pão Moiado e Amanhecido! Qui é isso? --Seu Anésio soltou a garrafa de cachaça no chão e abriu a boca, sem acreditar.

--O que? De onde você tirou essa asnice, Chico? --o padre empalideceu, arregalando os olhos. --O Teobaldo é um dos homens mais honestos que conheço. Além do quê, ele tem neto, e não bisneto. Vai, explica isso logo.

--Bão... é qui mi ocorreu uma dúvida! --Chico pegou uma garrafa fechada de cachaça e abriu, carregando-a para uma mesa e sentando-se. --Tudo si deu di cumeço quando o Teobaldo enviuvou...

“...cumpadi Teobaldo num é homi di ficá suzinho im casa, i logo tratô di casá. Num é pecado qui eu sei. Arranjô uma moça nova e dereita, a cumadi Tonha. Daí, u tal du distino aprontô, i o Zeca, fio du cumpadi Teobaldo no premero casório dele, tumém arrumô uma muié, só qui bem mais véia i viúva tumém. Acho qui num é pecado dele, mais da viúva véia já nem sei...

...quando u cumpadi Teobaldo i u Zeca si déro conta, as muié deles era mãe e fia. U Cumpadi casô cá fia, qui era a Tonha, i u Zeca casô cá mãe da dita. I cumeçô u nó na minha cachola.”

--Eita! --o padre se irritou, mas sentou ao lado do Chico, prevendo que a história seria longa. --Onde você quer chegar com isso, Chico?

“Seu padre! Quando um fio casa, a muié du fio vira nora, intônce, a mãe da Tonha, qui é muié du Zeca, além di sogra do cumpadi, é nora tumém, purque é casada co fio dele. I u Zeca, quí é genro da Tonha, passa a ser irmão di criação dela. I a Tonha, qui além di fia da muié do Zeca, passa a sê fia di criação du cumpadí Teobaldo. Nesse caso, já deu pobrema, a módiquê u Zeca casô cá pópria irmã, já que a muié dele virô fia di criação du cumpadi. I tumém ele passa a sê fio di criação da fia da muié dele, intônce, o traste casô cá pópria mãe?...

...i tudu piorô. U Zeca virô sogro do póprio pai, i pai di criação da fia da muié dele, qui nu caso, é mãe di criação dele mesmo. Nesse caso, u peste é pai dele póprio? Intonce, a fia da muié du Zeca, qui já era irmã dele, nessas artura, virô irmã di criação da pópria mãe, e tia do Teobaldo, qui casô tumém cá pópria irmã...

...pá intortá tudu di veiz, as duas imbucháro junta i ganháro fio dia desses. U fio du Zeca é neto du cumpadi Teobaldo i irmão da cumadi Tonha. Si é irmão da cumadi Tonha, intônce é cunhado du póprio avô i tio du Zeca. Si o fio é tio du Zeca, intonce ele é tio da pópria mãe. Já u fio du cumpadi Teobaldo é pior...

...u fio du cumpadi Teobaldo é irmão du Zeca i subrinho ao mermo tempo, e sendo irmão do Zeca, é cunhado da mãe da cumadi Tonha. Sendo fio da cumadi Tonha, passa a sê neto da muié du Zeca, intônce, é neto du Zeca tumém. U Zeca é tio du póprio neto, intônce o Zeca é tio do pai dele, o Teobaldo. Si u fio da Tonha e du cumpadi Teobaldo é neto du Zeca, intônce é bisneto du cumpadi Teobaldo, qui nesse meio tempo, virô tio dele mesmo, cunhado da pópria Tonha e pai du avô du póprio fio.”

--Anésio! --o padre chamou pelo dono da venda, mas sem obter resposta. --Anésiooooo.

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O dono da venda apenas olhava para a mesa, pálido e sem voz. Ao se dar conta, o padre puxava a ponta de seu avental e mostrava a garrafa de cachaça vazia.

--U sinhô vai querê mais pinga, padre Mirto? --a voz do dono do armazém soou murcha e sem muita direção. --Pódi bebê qui querdito qui hoji num vai sê pecado ninhum. Inté acho qui lá inrriba, os santo tudo tão percurando arguma coisa pra módi moia a guela tumém, purque ninhum deles há di tê intendido patavina ninhuma du que esse patusquela falô.

--Quero não, meu filho. Só quero um favor. Vai lá no hospício, e vê se o tal do dotorzinho que recolheu o Teobaldo pode me atender.

--U sinhô vai pidí pra módi disinterná o cumpadi Teobaldo, padre? --Anésio argumentou com o padre, mas sem desgrudar os olhos da mesa.

--Desinternar o Teobaldo? Que nada. --o padre completou, também sem afastar os olhos da mesa. --Depois dessa, acho que quem precisa de tratamento sou eu.

Marcio JR


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CHICO CONTENTE – O CRIME NÃO COMPENSA

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A movimentação intensa de pessoas não era muito comum na Piracicaba da década de 30. Todos estavam apressados, caminhando desconfiados e cochichando pelos cantos. Algo incomum estava acontecendo na cidade. E como numa cidade pequena, qualquer coisa é motivo para boataria, todos ouriçavam cada vez mais as orelhas.

--Mais i num é, seu Anésio? Intonce, é vredade qui tinha essa dinherama toda im óbra di oro lá na ingreja do Padre Mirto? --um dos clientes da mercearia de seu Anésio especulava, sabendo que o proprietário daquele comércio conhecia mais detalhes daquilo que estava acontecendo.

--Oceis páre di ispiculá. --sem ter muito o que fazer, seu Anésio tentava se desviar da conversa, mas não tinha meios para isso. --I ocê, Zé das Pórca, sabi bem qui o Padre num qué qui ispáie pur aí essas nuticia.

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--Oxe! Inté tão dizeno qui é o Chico Contente qui foi incumbido di arrastá os dinhero di lá. --outro cliente também cutucava.

--Tá bão, tá bão! Inquanto ieu num contá, ocêis num sussega o faxo. Padre Mirto mandô adirrubá uma parede, i parece qui incontrô umas image di Santo Antonho, tudu di prata i oro. Levô pra delegacia, i di lá vão transportá tudo pra Itú, qui tem mais cumo guardá a furtuna toda. Mais essa tramóia du delegado cu Chico tá istranha. U Chico passô hoji cedo prá módi leva umas lona grossa i quatro barrica. Pelo qui sei, o delegado só incomendô o carroção dele, mais parece qui tem mais coisa nesse tro-lo-ló todo.

Enquanto os três conversavam, seu Anésio reparou a presença de algumas pessoas estranhas, do outro lado da rua. Estavam parados próximos ao carroção que Chico Contente iria ceder para o delegado, e não pareciam muito amistosos.

Seu Anésio chamou seus cliente até a porta, e apontou para os forasteiros, mas logo viu o Chico e mais alguns policiais saindo da delegacia, carregados com dois grandes fardos enlonados, que mais pareciam ser aquelas mesmas barricas que o matuto havia pegado antes na mercearia. Carregaram tudo no carroção e voltaram para o prédio, enquanto o Chico, que apenas “coordenava” a operação, foi até onde estavam seu Anésio e os outros dois.

--Tarde! --Chico cumprimentou de forma seca, acompanhando com um aceno de cabeça. --Perciso di arguma coisa prá módi moia a guela, seu Anésio.

Chico entrou e os demais foram atrás, ávidos para saber algo a mais sobre tudo o que se passava na cidade. E o matuto parecia ser a pessoa ideal para colocá-los a par de tudo. Seu Anésio foi para trás do balcão e pegou logo o garrafão de cachaça, empurrando-o para o Chico, que não se fez de rogado.

--Chico! --seu Anésio interpelou bruscamente. --Aquelas barrica qui ocê levô notra hora daqui, são as qui tão no carroção?

--Duas delas. --Chico respondeu, sem alterar o semblante.

--I essas barrica é prá módi leva os santo do Padre Mirto? --continuou o dono da mercearia, ainda mais curioso.

--Duas delas.

Chico se encostou no balcão, quando um dos clientes de seu Anésio foi até a porta e voltou correndo, assustado e gritando.

--Chico, Chico. Aqueles forastero tão robano teu carroção, hómi.

Chico, calmamente, colocou o copo sobre o balcão e se serviu de mais uma dose de cachaça. Tomou num único gole e, quando todos acharam que ele sairia correndo atrás dos forasteiros, ele tirou palha e fumo de seu embornal e começou a preparar um cigarro.

--Chico, seu molenga? Vai ficar aí feito quatí cum priguiça? --seu Anésio se irritou, tentando motivar o amigo. --Vai lá, hómi!

--Dexa eles, seu Anésio. --Chico deu uma grande lambida na palha do cigarro e o acendeu, soltando a fumaça para cima. --Adespois, o degolado mi paga os prejuízo.

--I os santo? Quem qui é qui vai pagá pra ingreja?

--Qui santo, seu Anésio? --Chico retrucou, apoiando o cotovelo no balcão.

--Ára? Como qui santo? Vosmicê num tá puxano os santo qui o Padre Mirto achô na ingreja? Num vai levá eles lá prá Itú?

Chico soltou outra baforada de seu cigarro e deu uma cuspidela para o lado, acertando em cheio o pé de um dos homens que estava ao seu lado. Olhou para ele, e como viu que ele não se afastou, fez menção de cuspir novamente, até que conseguiu o que queria.

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--Puis óie, seu Anésio! Aqueles santo já dévi di tá lá em Itú. Falei pro degolado disviá a atenção dú povo, contano um monti di loróta, puis nóis tava divinhano qui vinha gente mar intencionada prá módi tentá robá eles. I ordenei prú Bastião qui pegasse a jardinera i levassi cum ela, pelo otro lado.

Todos ficaram apalermados com aquilo tudo. E quando seu Anésio correu até a porta, ainda teve tempo de ver a poeira que a carroça levantava no horizonte. Na delegacia, alguns policiais riam descabidamente. Então, sem entender, seu Anésio voltou para o balcão e ficou bem de frente para o Chico.

--Qui tramóia foi essa, intão? U qui é qui tinha nas barrica?

--Na semana trêstrazada, deu uns intempério na degolacia, i o seu degolado mi chamo prá arresorvê. Intupiu as saída das privada dus preso, i u qui aqueles ladrãozinho di araque carregaro cum eles, é só duas barrica di pura bosta dos preso.

Marcio JR
ILY

sábado, 14 de maio de 2011

CHICO CONTENTE – MATUTO SIM, BURRO JAMAIS.

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Aquele final de manhã de sábado teria tudo para ser normal. Pleno outono, de um mês de abril lá na década de 30. O lugar? Piracicaba.

Algumas pessoas caminhavam tranquilas pela rua, e se cumprimentavam naquela prática muito mais gentil do que obrigatória, originária de uma educação que já não existe mais. Os homens tiravam seus chapéus em reverência, e as mulheres curvavam a cabeça, em agradecimento. Mais adiante, no armazém de seu Anésio, alguns fregueses faziam suas compras e aproveitavam para por as conversas em dia, mas não desgrudavam a atenção da estrada.

--Ixe! Lá vem o Chico Contente di novo, cum mais uma carroçada di galinha. Oh! Anésio, qui é qui esse porquêra tá puxano esses frangote a manhã toda, sô?

--Puis óie! Tumem tô c’os bicho carpintero atentado, homi! Vô dá um brado pr’ele vir ter uns dedo di prosa aqui.

E lá foi seu Anésio, cercar o Chico. O matuto, assim que viu o dono do armazém chamando-o, ordenou ao rapaz que o acompanhava a seguir na jornada, e desceu da carroça, ganhando o rumo do armazém. Ao entrar, foi para o balcão e cumprimentou a todos apenas com um gesto de cabeça.

--Chico, tudas as pessoa tão matutano aqui. --comentou o dono do armazém, enquanto servia uma dose de cachaça ao recém chegado. --U qui é tuda essa galinhada qui ocê tá puxano a manhã interinha, hómi?

O Chico virou o rosto de lado e deu uma cuspidela no chão, quase acertando o pé de outra pessoa que estava ao seu lado. A pessoa, por sua vez, deu um pequeno salto, chegando mais para o lado. E o Chico, ao se voltar para o outro lado, apenas mirou o chão e fez menção de repetir o gesto, mas não foi necessário terminá-lo, pois aquele que estava ali tratou de se afastar imediatamente.

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--Puis, óie. Pareceu lá nu sítio, um ingomadinho lá das banda de Itú, cuma proposta vantajosa pur dí mais. Metade da minha tropa di mula por uma baita popriedade di terra, coisa di virá a cabeça di quarqué um.

--Eita! --seu Anésio se interessou no assunto, mas se mostrou preocupado. --Conta miór isso daí, qui to achano qui tem arapuca nissu tudo. Ondi qui é essa tar popriedade, sô? É nos arredor nosso daqui di Piracicaba?

--Mais, seu Anésio, num é qui num é? É um lote prás banda do céu! --Chico arrematou de forma tranquila. --Um baita terrenão, cum iscritura i tudo. I o abestado do moço inda levô minhas pior mula.

Todos os que estavam no armazém ficaram estarrecidos. Mas, foi seu Anésio quem ficou mais irritado com o que ouviu.

--Chico, seu burro! Cumé qui vóis micê mi entra numa lorota dessas, hómi? Num tá vêno qui isso é tramóia? Esses larápio vêm aqui i passa a perna ni nóis, i adespois sai pur aí ispaiano qui nóis é tapado i burro, i tudo acurpado são ocêis, qui si apinxam no conto do vigário. Será qui só eu qui tenho miolo nesses arredor? Pur pura sorte, meu pai mi insino a se isperto i eu passo isso pru meu fio, que virô sitiante dos bão.

--Carma, seu Anésio. --um dos clientes falou ao comerciante, como se desconfiasse que ainda havia mais coisa a ser contada. --Dexa o Chico caba a história, ara!

--Dexo, nada! --seu Anésio continuou em sua irritação. --Esse daí é pur dimais gaiato, mais é burro inguar as mula dele. Mais vá, trimina logo essa história, qui adespois, vô lá contá pru meu pai a ingomada qui ti déro. I tem mais. Quí é qui essas galinha tem cum tudo isso?

--Bão. --Chico coçou o queixo e tomou um gole de sua cachaça, estendendo o copo como se pedisse mais uma dose. --Matutei qui matutei, i achei qui aquilo tudo era muita terra pra ieu suzinho, i vindi a metade. Cumo pagamento, aceitei essas quinhentas galinha, qui vale muito mais du qui aquelas déiz mula véia que gastei no negócio.

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--Mais ieu to falano! --seu Anésio bufava, ainda mais irritado. --Ocêis num vale o ar qui arrespira. Seus asno. Será qui só vai restá ieu i minha famía cum miolo pur aqui? Quem foi o miolo móle qui vóis micê inrolo nessa presepada?

--Óia. --completamente calmo, Chico se despediu de todos com um aceno de cabeça e foi na direção da porta. De lá, olhou para trás e encarou seu Anésio diretamente nos olhos. --A metadi ieu vendi pro Quinzinho, vosso fio, na troca das galinha. Mais dona Matirde, vossa mãe, já mando mi avisá qui o cumpadi Heitor, vosso pai, tá mi percurano prá módi nóis negociá o restante. Mi parece qui ele qué investi num miarar celeste, i já qué mi incomenda inté as semente. Quem sabi, nóis num negoceia as mula qui mi restô prá puxá a safra celeste tumem?



Marcio JR

sexta-feira, 22 de abril de 2011

CHICO CONTENTE - NÃO ERA O DIA DA ONÇA

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Chico Contente era um caboclinho que vivia pros lados de Piracicaba, isso lá nos idos da década de 30. Ligeiro na lábia, ganhava a vida com sua pequena tropa de mulas, mas a estrada de ferro teimava em tirar seus negócios. Contador de histórias e causos, era adorado por todos, e mesmo que ninguém acreditasse em uma palavra sequer que viesse de sua boca, bastava chegar em algum lugar, para que se formasse uma concorrida roda de prosa em torno dele.

--Oh! Chico. --alguém chamava, já puxando uma garrafa de pinga. --I aquela veiz qui a onça te incurralô, hómi? Conta pra nóis!

--Pois, óie! --Chico só olhava e mastigava os próprios lábios, enquanto media seu público. --Daquela veiz, mi deu inté um revertério:

“Tava eu cum minha Zarôia, aquela mula qui tenho i qui coxeia pru lado isquerdo, lá prás banda di Sorocaba. A noite tava arta i eu acindi a foguêra, mais a Zarôia tava por dimais inquieta. Fui ispreitá um poco mais adiante, i quano mi dô conta, a Zarôia passô qui nem corisco, i fiquei a pé. Prá piorá as coisa, inté a mardita da foguêra saiu no pinote. I foi intão que começô a miadera. Aquilo era qui nem qui casal di jumento zurrando, hómi! I o pior é qui vinha prás minha banda.”

--I ocê, hómi? --algum dos ouvintes se assustava, mesmo sem acreditar muito. --O qui ocê feiz?

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“Inveredei pros mato. Se ia fugir, tinha que achar argum canto miór prá módi camuflá, ou inté um rio prá podê atravessá no nado. I corri, corri qui corri, mais já tava cansado, c'as perna trançano iguar pato bêbado. Os miado ficô perto, e quano oiei pro lado, tava lá as bicha, uma parda e uma branquinha, branquinha”.

--Pára, Chico! Onça branca nos arredor di cá?

“Num ti méte, qui acho qui ela tava trocano as pena. Mais num pudia ficá alí, i corri di novo, inté qui cheguei num paredão di preda. Num sô di réza, mais naquela hora, caí de jueio no chão e juntei as mão, pedino pro Pai um cadinho de perdão pur tudas tramóia qui armei aqui. I fiquei alí, cos zóio fechado só isperano o bote das onça, i nada. Tudo ficô quétinho, quétinho”.

--Fala, hómi! --já berrava alguém, nervoso com a interrupção da história. --O qui as onça fizéro?

O Chico era mestre em preparar um cenário de suspense. Arregalava bem os olhos e mirava um por um de seus espectadores, até que arrematava:

“Ieu tava alí, rezano, i quano oiei pro lado, tava as duas onça, tumem di jueio no chão, cas pata de riba juntinha e dizeno ‘obrigado, Pai, pela refeição que nos concede...’ ”.

A gargalhada estourava por todos os lados, e quando todos achavam que o causo havia acabado, o Chico surpreendia e já falava:

“Mais cêis acham qui cabô? Cabô nada! Porveitei qui elas sí perdêro nos gardecimento, e piquei a mula, qui di burro, só meu pai quano foi prá capitar pra módi cumprá máquina di fazê chovê. Corri o qui pude, e as peste das onça atráis. Corri tanto, qui umas légua adespois, passei inté pela mula Zarôia, qui di tão cansada, tava inté coxando do otro lado, prá inconomizá perna. I as onça quasi no meu lombo. Inté qui Jisus arresorveu mi acudí”.

--Lá vem lorota di novo. --o padre, que estava sentado logo atrás do Chico, bronqueou e só coçou o queixo, esperando ansioso pelo final da narrativa.

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“Pois óie, seu padre, ti juro qui é vredade. Num tinha nadica naquela campina, i quano oiei di novo, tinha lá uma ingrejinha. Apressei a passada, mais já tava sentino o bafo quente delas no meu cangote. Tava veno qui num ia consegui chegá, i quano elas tava pra mi dá o bote, elas patináro i iscorregáro, i eu entrei na ingrejinha”.

Todos ficaram calados, apenas se olhando mutuamente. Aquela história ninguém conhecia ainda, e vinda do Chico, tudo era possível. O fato é que ele conseguiu seu propósito, e a dúvida remoia a cabeça de cada um, até que, sem aguentar, o padre levantou e encarou o Chico bem nos olhos, arrematando assustado.

--Mais, Chico, seu porquêra. Si tô no teu lugar, tinha me cagado intero, hómi!!

--Seu padre, cum todo respeito. Ondi u sinhô acha que as onça patináro i iscorregáro?


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Ana Marly de O. Jacobinio
Este "causo" é uma junção e adaptação de dois contos de domínio público, que deixo aqui em homenagem a minha querida amiga e "madrinha" literária, a piracicabana Ana Marly de Oliveira Jacobino.

Algumas pessoas, como a Ana, são donas de uma generosidade fora do comum, e não medem esforços para ajudar àqueles que estão começando algo em suas vidas. E esta caipiracicabana, como ela mesma se denomina, tem sido uma grande incentivadora e colaboradora em meu caminho literário, além de mestra e amiga.

Humilde, extremamente talentosa e dona de um dos sorrisos mais cativantes que conheço, mantém um blog onde canta uma de suas grandes paixões, ou seja, a cidade de Piracicaba (Agenda Cultural Piracicabana).

Então, a ti Ana, minha querida amiga e madrinha, assim como a todos aqueles que frequentam o ABISMO DAS VAIDADES e o ARENA DAS CRÔNICAS, uma PÁSCOA recheada de paz, amor e felicidades.

FELIZ PÁSCOA.
Marcio JR


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