sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

BARCO A DERIVA

barco a deriva - by Google
Até este momento, creio que fiz o que pude para me manter com algum incentivo a escrever. Mas, de uns dias para cá, simplesmente desanimei de vez.

O que foi satisfatório para mim por muito tempo, hoje tem me trazido mais desgostos do que alegrias. O pouco que me restava, esvaiu. As palavras perderam seu único significado, o de transportar pensamentos meus para o papel.

Sou meu maior crítico, e nunca me vi como um escritor ou algo do gênero. Apenas escrevia para minha satisfação, e para tanto, me policiava severamente. Até isso acabou.

Estou cansado e sem a mínima vontade sequer de guardar o que já tenho escrito em arquivo.

Como respeito àqueles que me seguem ou gostam do que escrevo, vou manter o blog como está. E quem sabe mais para a frente, em algum dia de chuva, eu volte.

Abraço a todos.

Marcio JR

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

ESTRELA PEREGRINA

Céu de papelão - by Google
Quando nosso planeta ainda era muito novo e habitado por seres que nossa imaginação jamais concebeu, uma aldeia se formou, rodeada de montanhas muito belas e dragões alados. Nesta aldeia, comandada por um sábio muito dedicado ao seu povo, morava Gandul, um jovem impetuoso e sonhador.

As enormes estrelas cadentes eram muito comuns naqueles tempos, mas uma em especial, a Estrela Errante, era tida como uma espécie de amuleto sagrado. Não se tratava exatamente uma estrela, e sim algo que orbitava a terra, e descrevia diariamente o mesmo trajeto, com uma pontualidade incomum.

Gandul, sempre ávido pelo conhecimento e por saber mais, vivia sob as asas do sábio, mas se mostrava inquieto nos últimos dias. As fronteiras da aldeia tornavam-se pequenas para aquele jovem. Ele queria mais, e queria algo especial, a felicidade em seu estado puro. Pensando assim, foi até o sábio, questioná-lo e avisá-lo de sua partida.

―Sábio, vou partir em busca do meu legado de felicidade. Mas não vou sem seus conselhos. Como faço para achar o que tanto quero?

―Muito simples, meu jovem. Sua felicidade tem um nome, Estrela Peregrina. Siga com ela, e será feliz.

Algo, naquele instante, aconteceu com o sábio. Ele fechou os olhos e adormeceu para nunca mais acordar. Gandul ficou paralisado por alguns momentos. O sábio padecera, morrera diante dele, mas não sem deixar um último enigma para ser decifrado. Estrela Peregrina? O que o ancião quis dizer com aquilo? Segui-la?

Minutos depois, a Estrela Errante passou sobre a aldeia e a iluminou de forma fantástica. Diante de Gandul, bem no meio daquele súbito clarão, uma bela jovem apareceu toda vestida de branco. Ele olhou para ela e para a estrela ao mesmo tempo, e levantou-se, despedindo-se da bela jovem.

―Gandul, aonde você vai? ―ela perguntou, como se pressentisse algo.

―Atrás da Estrela Errante. Ela é minha guia. Ela é a Estrela Peregrina que o sábio falou. Ela me guiará até a felicidade.

―Gandul, espere. Por favor, não vá...

Os apelos da jovem foram em vão. Gandul correu naquele mesmo instante para as montanhas, ainda a tempo de ver a direção que a estrela tomava. Ele marcou um ponto no horizonte e começou a andar. Mas, aquilo parecia ser tão distante que ele desanimou em pouco tempo. Ao olhar para o lado, um daqueles dragões alados alimentava-se tranquilamente. Eles eram dóceis, e não foi difícil para que Gandul subisse nas costas do animal e, pouco tempo depois, partisse no rumo de sua tão sonhada felicidade.

Ao chegar até o ponto que havia marcado, procurou por todos os lugares, mas não havia nada ali. Apenas florestas fechadas, rios e animais. Então, alimentou seu novo amigo e esperou. O dia passou e, ao fim da tarde, a Estrela Errante voltou e animou novamente o rapaz. Ele subiu rapidamente em seu dragão e partiu em perseguição àquela estrela, mas ela era muito rápida, e seria impossível segui-la. Novamente ele marcou um ponto por onde ela passou, e foi para lá. O que encontrou? O mesmo de antes, muito mato, montanhas, animais, e nada além disso.

Alguns anos se passaram, e Gandul continuava em sua busca. Viu muitas coisas em sua peregrinação. Novas aldeias que surgiam, povos que brigavam entre si, tentando dominar outros povos. Conheceu o ódio entre pessoas, motivado unicamente por elas serem diferentes umas das outras. Também viu fome, miséria, doenças, e algo que o tocou profundamente. A natureza sendo destruída. Começou, então, a desanimar, pensando que a felicidade não existia. Mas como? O sábio havia dito que bastaria seguir a Estrela Peregrina para encontrar a dita felicidade. E o sábio não poderia ter se enganado, jamais. Assim, ele seguiu, sempre acreditando.

Coletando estrelas - by Google
Numa tarde, já muito cansado e a beira de desistir de sua jornada, Gandul avistou novamente a Estrela Errante. Notou algo estranho, um brilho mais intenso. Pareceu enxergar na estrela o rosto de uma linda mulher. Esfregou os olhos e, ao abri-los, sequer a estrela viu novamente. Seria sonho? Quando se voltou para o dragão, percebeu que a estrela realmente havia passado, e já se perdia pelo horizonte. Ele montou no animal e voou até a montanha mais próxima, jurando ser aquela a última vez que faria tal coisa. Lá, ele soltaria seu companheiro de jornada e sentaria em algum lugar, apenas aguardando a morte. Mas, teve um surpresa ao chegar ao topo da montanha. De lá, observou uma grande aldeia, repleta de pessoas e animais, e todos pareciam conviver pacificamente.

Ali mesmo largou seu dragão, e desceu em disparada. Não importava mais a tal felicidade. Queria, apenas, um lugar para chamar de lar, e uma companheira para passar com ele o resto de seus dias. No entanto, notou algo estranho. A medida que caminhava pela aldeia, tudo parecia familiar. As construções, aquele povo, as montanhas ao redor, até que ele parou diante de uma tenda que lhe deu uma certeza. Estava de volta ao mesmo lugar de onde partira. Sua aldeia.

―Olá, Gandul.

Uma voz soou suave aos seus ouvidos. Quando se virou, notou uma linda mulher, aquela mesma que pensou ter visto misturada à luz da Estrela Errante. Ele ficou petrificado, e olhava aquela mulher como se já a conhecesse, até que lembrou de onde a conhecia. No dia em que partiu, fora ela a se despedir dele, exatamente ali, naquele lugar.

―Encontrou a felicidade que tanto procurava?

Gandul balançou a cabeça negativamente, como se a derrota lhe caísse sobre os ombros.

―Não. O sábio se enganou. ―Gandul comentou, desanimado. ―Ele me mandou seguir a Estrela Errante, e ela me trouxe de volta ao mesmo ponto de partida. O que achei pelo caminho, foram tristeza e desolação. E até penso que o sábio tentou me dizer que, por mais que eu procurasse, minha felicidade estaria aqui.

―Só que ele não te mandou seguir a Estrela Errante, Gandul. Ele mandou você seguir com a Estrela Peregrina.

―Mas, a Estrela Peregrina e a Estrela Errante eram a mesma! Não entendo isso. E como você pode ter conhecimento que as duas não são as mesmas?

―Se você tivesse me escutado naquele dia, teria poupado um longo caminho. ―ela falava e olhava docemente para ele, diretamente nos olhos. ―Talvez você realmente precisasse sair, conhecer o mundo, para ver o quanto poderia ser feliz aqui, em sua própria aldeia. Prendê-lo só iria te trazer tristeza, e até penso que a sensação do fracasso também te tomaria, deixando-o amargurado. Sempre te faltaria algo. Agora, você sabe que é aqui o seu lugar, ao lado de sua Estrela Peregrina.

―Sim, concordo com você. Hoje, vejo o quanto o meu lar é o meu refúgio, e meu povo é minha família e fonte de alegrias. Não duvido mais disso. Mas, e onde está minha Estrela Peregrina?

Céu de estrelas - by Google
A mulher levantou a mão e segurou o ombro de Gandul. Chegou bem próxima a ele e falou em seu ouvido.

―No dia em que você partiu, o sábia havia batizado as jovens da aldeia. E deu a mim, o nome de Estrela Peregrina. Tentei te alertar, mas o sábio já havia me avisado que seria inútil. Você precisava ver para crer. Te esperei todos esses anos, pois sabia que você não desistiria, e também que a Estrela Errante te traria de volta. Agora, vamos. Você deve tomar seu lugar de direito em nossa aldeia, ao meu lado.

Gandul finalmente encontrou sua tão sonhada felicidade. E aprendeu que, por mais que ela esteja ao nosso lado, devemos batalhar por ela, pois ela pode escapar facilmente. Nem sempre a enxergaremos, e se não estivermos prontos para recebê-la naquele instante, penaremos muito para conseguir outra chance de encontrá-la. No entanto, por mais que seja difícil de encontrá-la, não se deve desistir, jamais, de buscar a felicidade.


Marcio JR


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

RECONSTRUIR

Re-edição


Image by Google



Segundo o dicionário,reconstruir indica ação, ato ou efeito de refazer.

Reconstruir, em sua acepção, pode demonstrar algo belo. A vontade e a força que vem do ser humano em montar algo novamente, a resiliência tão peculiar em alguns, a determinação para seguir adiante apesar dos percalços. Tantos são os fatores que podem influenciar no modo de agir das pessoas e fazê-las retomar algo, que muitas vezes mudamos nossos destinos até mesmo sem sentir. Em certos momentos, evoluímos, crescemos material e espiritualmente, mesmo apesar das intempéries. Já em outros, não encontramos força suficiente para tal, e permanecemos numa pasmaceira constante, ou pior, afundamos num estado de letargia crescente.

Reconstruir, no entanto, pode ascender de alguma ação desfavorável. Para reconstruir, é necessário que algo tenha ruído, sido desmontado ou destruído. Algo existia e, de repente, acabou. Em algumas situações, isso é feito de maneira planejada ou pensada, e resultará em algo melhor. Mas, e quando tudo acontece repentinamente? Catástrofes, de maior ou menor escala, acontecem todos os dias mundo afora. Furacões, terremotos e tantas outras ações da natureza interferem profundamente no mecanismo que move a existência do homem, mas não são as únicas causas que promovem “reconstruções”. A ganância, o egoísmo, a inveja, a violência, o desrespeito pelo próximo e tantas outras características negativas inerentes do caráter humano, também se delineiam nessa cadeia de ação que leva à prática de se precisar devolver a forma a algo que esfacelou.

Pessoas saem de suas casas e não voltam. São vítimas mortais de uma sociedade que se fecha em seu egoísmo. A violência corre solta, e quase nada se faz para contê-la. A palavra, arma maior da eloquência humana, virou apenas um artifício da retórica na boca daqueles que banalizam os poderes legais. E são tantas as violências!

Como se não bastasse a ânsia latente de muitos, que não se contém em seu ímpeto e saem disseminando a desordem e o escárnio, as mídias se aproveitam e pioram tudo, implantando ainda mais o conceito de anarquia na alma humana. E o que era um crime a ser julgado, condenado e castigado naturalmente pela justiça, vira um instrumento de lucro na horda comunicativa. Resumindo, para se ganhar mais, oprime-se mais. Como explicação barata, dizem que é "o povo assumindo seu direito à informação”. Pura balela. Quando a audiência cai, esse direito popular à informação é deixado de lado, quer seja pela mídia, quer seja pelo povo, que corre para saciar-se em outro entrevero, e melhor ainda se for de alguém famoso, ou de algum escândalo de grandes proporções, ou ainda de algo que se possa sair falando aos quatro ventos, onde são acrescidas palavras à esmo e sem nenhuma verdade. Tudo, então, cresce novamente, tomando dimensões gigantescas, até cair a audiência e tudo voltar lá do começo, em um “looping” eterno. Teoria do infinito, ou uma ânsia inescrupulosa de se falar e difamar o alheio?

Existe a violência do lar, silenciosa por vezes, mas nem por isso de menor impacto. Os vícios, a ira, o ciúme infundado, o descaso conjugal, a luxúria, enfim, vários são os motivos que podem destruir uma família, e que encheriam várias linhas. Não raro, fatalidades acontecem, como pais espancando ou matando filhos, ou filhos matando os pais. Mulheres ou homens que traem não apenas sexualmente, mas também àquela jura de confiança mútua que se estabeleceu naturalmente no início da união. Espancamento físico. Espancamento moral. Subserviência obrigatória ou, puramente, opressão física e moral. Escravidão. São muitas palavras duras, que chocam, mas que estão entrando na banalidade. E quer saber por que isso me assusta? Justamente por não nos “assustarmos” mais com tudo isso. Tudo já é tão “normal”, que dentro em breve sequer olharemos isso como uma situação de afronta, afinal, “é tão normal”...

Enfim, quando nos damos conta, precisamos RECONSTRUIR.

Quantas pessoas passam décadas ao lado de alguém, sendo oprimidas, massacradas em seu íntimo, e sequer se dão conta disso? São lesadas diretamente em seu caráter, ficam enfraquecidas, abstraídas da servidão mental pela qual estão passando, que qualquer reação parece incapaz de ser enxergada. Estão mergulhadas na situação, beirando o afogamento, mas não visualizam isso. Até que em algum momento, acabam por despertar para a realidade, e com isso dois problemas surgem de pronto. Enfrentar a situação (sair dela) e, consequentemente num problema atrelado ao primeiro, reconstruir a vida.

Fênix de Gelo - by Google
Dei voltas para chegar até aqui. Talvez eu próprio tenha caído na tal “retórica”, mas tentei traçar paralelos para mostrar que a violência doméstica não está assim, tão diferente de qualquer catástrofe natural que se vê no nosso dia-a-dia.

Esta crônica não termina aqui, ela está apenas começando. Novo capítulo virá, e o que terei a dizer pela frente, muitas pessoas já estão vivendo em suas próprias carnes de um jeito muito amargo. Alguns sequer conseguem se reerguer, pois não suportam enxergar a luz depois de sair da escuridão da caverna e retornam para dentro. Tal fato não é bom. Outros, em contrapartida, se refazem. Enfrentam as batalhas de peito aberto, mas as cicatrizes ficam. As cicatrizes doem e não são algo bom de se mostrar, porém, são formadas justamente para cauterizar e lembrar de algo que precisou ser refeito. Aprende-se, então, com o erro.

Fica a lição: até mesmo algo não belo como uma cicatriz é uma reconstrução.


Marcio JR