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Antigamente, o domingo era um dia especial. Hoje, sou honesto em falar, prefiro ter dois sábados na semana. Sequer sei dar uma razão para tal fato, mas uns 30 anos atrás, adorava quando o domingo chegava.
Era um dia preguiçoso o tal do domingo. Mesmo sendo um dia para descansar, logo cedo tinha missa, e mesmo que eu não fosse, precisava sair cedo da cama da mesma forma, pois alguém precisava cuidar da churrasqueira. No verão, isso não tinha importância, mas no inverno, a coisa era bem diferente. Quem mora de São Paulo para cima, e nunca veio mais ao sul no inverno, não sabe o que é levantar cedo e ver (sentir também) uma crosta de geada congelando gramados e telhados. Sair da cama com uma temperatura beirando os 2 ou 3 graus era terrível. Mais depois chegavam as visitas para o almoço, e assim, a manhã terminava.
Minha tarde de domingo era dividida em duas partes, isso quando eu tinha lá meus 15 anos de idade. A primeira parte ficava destinada à televisão e alguns outros afazeres de uma criança normal da época. Não existiam computadores ou celulares, e video-games ainda capengavam ou eram artigos de luxo da classe alta. Os divertimentos ou brinquedos eram manuais, e a tal da eletrônica (que sequer sabíamos o que era), ficava lá na TV apenas. Ainda tinha o rádio, os amigos na rua, a correria sadia e as poucas paqueras. Mais para o fim da tarde, no entanto, era a hora que eu mais gostava. Nessa parte do dia, meu pai terminava de ler o jornal e eu tinha acesso ao caderno de variedades da Gazeta do Povo, um jornal aqui de Curitiba. Sim, eu, com 15 anos de idade, lia o caderno de variedades de um jornal. Lembro bem que, aos domingos, o caderno era composto de várias crônicas, e aquilo me seduzia. Nem sempre tínhamos condições de comprar um jornal de domingo, e isso me fazia colecionar as crônicas e guardá-las, para ler posteriormente. Pois é, eu colecionava crônicas no lugar de figurinhas.
Era um exercício de prazer poder ler o Cony ou o Veríssimo. Por vezes, a Lygia Fagundes Telles ou o Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) assinavam alguma crônica, ou ainda o Rubem Braga, João Ubaldo, Otto Lara... eram tantos, que ficaria citando nomes aqui por linhas a fio. Meu Deus, que saudade de abrir aquele jornal sobre a mesa e sujar os dedos com a tinta preta das páginas. E sabe? Uma crônica tinha cheiro. Duvida? Até hoje, ao sentir cheiro de tinta de impressão, ou de jornal novo, recém comprado, algo remexe em mim e me dá uma nostalgia sem igual. É o cheiro da saudade de uma crônica entrando pelos olhos de um menino de 15 anos de idade.
Algum tempo depois, na escola, veio a lista de leitura para o trabalho de férias. Ler “Antologia Escolar de Crônicas”. Confesso que nunca fui adepto às leituras impostas pela escola, e já discuti muito sobre isso (prefiro nem tomar tempo e linhas por aqui), mas fiz festa quando comprei o livro. Lê-lo foi algo que me envolveu ao extremo. Algumas crônicas do livro já me eram velhas amigas, enquanto outras me apresentaram nomes como Euclydes Camargo Madeira, Carlos Drummond de Andrade, Lêdo Ivo, Wilson Bueno, Rachel de Queiroz, e tantos outros. Ao terminar o livro, pensei comigo: QUERO SABER ESCREVER COMO ELES. QUERO TER UM ESTILO. GOSTARIA DE SER CRONISTA.
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Desse tempo para cá, tomando por base meus 15 anos de idade, já passaram longos 29 anos. Lancei minha primeira crônica aos 17 anos de idade, ainda na escola, e aos 18, fui publicado num jornal. Era um jornal de bairro, e até creio que além de mim, poucos (ou mais ninguém) leram o que escrevi. Tudo bem, e mesmo assim, considero esse meu primeiro feito. O tempo passou, virei Ghost Writer, e saí compondo para aqueles que queriam escrever mas não tinham tempo. Muito do que escrevi está por aí, perdido e no nome de outra pessoa. Tudo bem também. Valeu como um exercício.
Hoje, com a internet e as redes sociais, publico meus escritos regularmente. São contos, fábulas, parábolas, algumas poesias (depois de publicar, re-leio e fico até com vergonha de dizer que fui eu que escrevei tal coisa), e minhas crônicas. Tem uns 27 anos que escrevo ininterruptamente, e ainda me considero um mero aprendiz, procurando por um estilo.
Não reclamarei da web, mesmo ela tendo me tirado o cheiro das crônicas e o prazer de ler aos domingos o caderno de variedades. Pelo contrário. A web me abriu um leque de novos cronistas sem precedente. Tem muita gente boa escrevendo, e que sequer teriam como fazer isso antes do advento da web. Tá certo que tem muita gente plagiando na cara dura, mas onde é que não tem pilantragem?
Conheci cronistas fantásticos nesses últimos tempos. A Celêdian Assis é uma delas. Teimosa que dói, pois acha que não é cronista. Li poucas crônicas dela, mas sei muito bem que se ela se propor a escrever mais, logo se tornará uma das melhores. Tem o Luiz Coelho, lá de Portugal, que faz relatos da vida como ninguém. A Ester Marques (Hadassa, para quem era do Recanto das Letras), com seu toque refinado. A Letícia Cunha, que está cursando Medicina em MG e que me mostrou um estilo todo próprio ao escrever. Fernanda Marinho, minha maninha e proprietária do blog Aleatoriamente, que escreve com paixão e amor no lugar da tinta. São tantos que admiro. Ah! Tem uma cronista que vai dizer que não é cronista, com certeza. A Samara Bassi. Sou literalmente apaixonado pelo estilo dela.
Só que havia um problema. Eu continuava sem um estilo definido.
Dia desses, meu amigo José Cláudio (Cacá) retornou de um pequeno período de afastamento, e me motivei novamente a escrever minhas crônicas. Não que eu tenha desistido, nada disso. Só me direcionei um pouco para os contos. Ler o Cacá é o mesmo que ser atiçado a escrever. Ele é um craque na arte. Simplesmente um horizonte para mim.
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No entanto, exatamente no dia 19 de maio de 2012, a saudade bateu forte, e consegui sentir o cheiro das crônicas novamente. Ao abrir o Blog do meu amigo/irmão André Bessa , quase caio de costas. Ele, um poeta maior e um cronista por excelência, publicou uma crônica ao estilo daquelas lá dos meus 15 anos de idade. Vi-me com um jornal aberto sobre a mesa e com os dedos sujos pela tinta do jornal. Não tenho um pingo de vergonha em admitir que chorei ao ler a crônica e, principalmente, por ela seguir com uma dedicatória a minha pessoa. Depois de vários anos, senti o cheiro de uma crônica exatamente como sentia antes.
Ainda não consegui adotar um estilo para minhas crônicas, mas falei ao André que, se eu conseguisse, gostaria de escrever em BESSA MAIOR. Um dia eu chego lá.
Marcio JR







